Redação Pragmatismo
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Palestina 25/Jul/2014 às 11:04
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A filósofa judia que se tornou inimiga nº 1 de Israel

Judith Butler: inimiga pública da direita israelense, ela já foi chamada de idiota útil, apoiadora do terrorismo e vítima de agressões homofóbicas. Suas palestras nos EUA costumam acabar em confusão por causa de protestos

Judith Butler israel palestina gaza
Judith Butler (reprodução)

Judith Butler já foi chamada de praticamente tudo — idiota útil, sapatona desesperada por atenção, apoiadora do terrorismo. Mas a ofensa clássica é “self hating jew” (judia que se odeia).

Americana de origem judaica, ex-professora de Retórica e Literatura Comparada na Universidade de Berkeley, na Califórnia, autora de vários livros, feminista, antisionista, ela é inimiga pública da direita israelense por sua crítica da política de Israel no Oriente Médio e por ser vista como uma traidora.

Judith é integrante do movimento Boycott, Divestment and Sanctions (Boicote, Desinvestimento e Sanções). Há dois anos, ganhou o prestigiado prêmio Theodor W. Adorno e apanhou pesado. O jornal “Jerusalem Post” — o mesmo que publicou a entrevista com o ministro das relações exteriores de Israel classificando o Brasil de anão diplomático — deu um artigo assinado por intelectuais e políticos chamando-a, entre outras gentilezas, de antissemita.

Foi acusada também de defender o Hamas e o Hezbollah numa palestra — o que ela nega. Suas palestras nos EUA costumam acabar em confusão por causa de protestos.

VEJA TAMBÉM:
Gaza, por Robert Fisk, um dos maiores especialistas em Oriente Médio
Eduardo Galeano: Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?

Butler, cuja família do lado materno morreu num campo de concentração na Hungria, responde que é “doloroso alguém argumentar que quem formula críticas ao Estado de Israel seja antissemita ou, se judeu, autodesprezado.”

Em 2012, ela lançou “Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism” (“Caminhos Partidos: Judaísmo e Crítica do Sionismo”), em que defendeu o binacionalismo em Israel. Para ela, a relação com o outro está no coração do que significa ser judeu: “Qualquer coabitação genuína necessita de uma mudança pessoal e social no tratamento de populações marginalizadas”, diz.

Sem romantismo, porém. “As pessoas que esperam que inimizade se transforme em amor de repente estão, provavelmente, usando o modelo errado. Vivermos uns com os outros pode ser infeliz, miserável, ambivalente, cheio até de antagonismo, mas não se pode recorrer à expulsão ou ao genocídio. Essa é a nossa obrigação.”

Em suas palestras, ela enfatiza o desconforto de ser uma judia que não se sente representada pelo estado de Israel. “Alguns políticos israelenses têm proposto a transferência de palestinos para fora do que é atualmente chamado Israel, para a Jordânia ou outros países árabes, segundo a idéia de que não haveria miscigenação de palestinos e judeus israelenses ou palestinos e comunidades judaicas”, afirma.

“Mas a segregação absoluta eu acho lamentável. Da mesma forma, há aquele famoso apelo do Hamas para empurrar os israelenses no mar. Agora, eu diria que a maioria dos políticos palestinos acreditam que não é isso que eles querem, e mesmo dentro do Hamas há alguma discussão sobre essa afirmação. Até que ela seja removida isso ainda será nocivo”.

“Acho que o que Hannah Arendt quis dizer quando falou que ‘não podemos escolher com quem convivemos no mundo’ é que todos aqueles que habitam o mundo têm o direito de estar aqui, em virtude de já estarem aqui. O ponto dela é que o genocídio não é uma opção legítima. Não é ok decidir que uma população inteira não tem o direito de viver no mundo. Não importa se essas relações são muito próximas ou muito distantes, não há direito de expurgar uma população ou rebaixar sua humanidade básica.”

Em sua opinião, existe uma saída em Israel. “Primeiro, é preciso estabelecer uma base constitucional sólida para a igualdade de todos os cidadãos, independentemente de qual possa ser que a sua religião, sua etnia ou raça”.

Depois, “é preciso acabar com a ocupação, que é ilegal e uma extensão de um projeto colonial”. Finalmente, ela propõe o direito de retorno, segundo o qual os palestinos sejam indenizados ou retornem, não necessariamente para as casas em que moravam”.

Judith Butler admite que talvez proponha uma utopia. Mas essa á função da filosofia: “Elevar os princípios que parecem impossíveis, ou que têm o status de impossíveis, insistir neles e reforçá-los, mesmo quando parece altamente improváveis. O que aconteceria se vivêssemos num mundo em que ninguém fizesse isso? Seria um mundo mais pobre”.

LEIA TAMBÉM: A entrevista exclusiva do líder do Hamas à BBC

Kiko Nogueira, DCM

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Comentários

  1. Pereira Postado em 25/Jul/2014 às 12:21

    "Mas a segregação absoluta eu acho lamentável". Há uma grande segregação em israel, 20 % da população de israel é de origem árabe, tem partido árabe e amplo acesso a corte suprema. Israel é a única democracia da região. É muita cara de pau.

    • Rogerio Postado em 25/Jul/2014 às 13:10

      Democracia que censura jornalistas? Vc faz show humorístico?

      • Rafael Postado em 25/Jul/2014 às 15:34

        Você está falando do Brasil ou de todos os governos de esquerda?

    • Aldair Postado em 26/Jul/2014 às 19:47

      Cara de pau é vc! Vc entendeu muito bem que ela se referiu à população que não está na área israelense. Aliás não é 20%, mas 25%, get your facts right! Democracia? Quem viver verá daqui uns 20 anos, quando os árabes israelenses superarem os judeus, já que eles têm muito, muito mais filhos. Em breve serão maioria do eleitorado. Desespero bate à porta.

    • Aldair Postado em 26/Jul/2014 às 19:51

      P/ Rafael: Quem censura jornalistas é o senhor Aécio Neves. Todo mundo Sabe. Falar que governo brasileiro censura jornalistas é fazer piada consigo mesmo! Olha estas criaturas criadoras de zumbis por aí Azevedo, Mainardi, Josias, etc. etc. Pelamordedeus!!!

      • EDUARDO COTLIARENCO Postado em 28/Jul/2014 às 10:55

        ACERTOU EM CHEIO ALDAIR NAS DUAS RESPOSTAS! PARABÉNS!

    • Gabriel Postado em 26/Jul/2014 às 23:40

      Como se chama um país que promove uma diapora através de ataques a população civil, proibe ajuda humanitária como remédios e alimentos até mesmo pelas Nações Unidas, constrói assentamentos nas áreas submetidas, nega cidadania ao palestino que imigra e de bom grado dá cidadania a qualquer judeu do mundo? Genocida? Racista? Terrorista? Não, chamamos de única democracia liberal do oriente! Tá "serto"!

      • Caio Postado em 27/Jul/2014 às 02:08

        Tem o muro, também, que não só separa, mas come o território de Gaza e faz uma reserva para novos assentamentos israelenses e espreme ainda mais a população território minguado.

      • PITA BRAGA CÔRTES Postado em 30/Jul/2014 às 22:18

        Os Palestinos tem que Estudar, trabalhar muito, e aprender em viver numa Democracia Liberal Sim, onde haja convivência, como no passado já teve. Teve convivência mas não houve a organização de um Estado Democrático Desenvolvimentista. ISRAEL Correu e fez o seu Estado....Mas Peca pela MAXIMOCRACIA.

    • Bruno Postado em 27/Jul/2014 às 00:08

      Isso é uma piada?? 20% da população de Israel são árabes, cidadãos de segunda classe, que não possuem os mesmos direitos da população que se declara judia!! Em relação aos palestinos dos territórios ocupados o desastre é ainda maior. Zero de direitos, restrições ao acesso a água, a produtos básicos e de primeira necessidade! Essa conversa de que Israel é a única democracia da região é uma bobagem!! Democracia para quem??? Talvez para os judeus é, mas para os palestinos não passa de um Estado totalitário! Israel é um Estado étnico/religioso que concede direitos e proteção as pessoas dependendo de sua origem e religião, logo o critério para a definição daquele que terá direito a cidadania plena é baseado em etnia e religião, portanto se você não se inclui nesse parâmetro de referência (judeu seja o religioso ou seja o recentemente inventado judeu-étnico) você não tem pleno acesso a direitos e a cidadania, simples assim!!!

    • Rodrigo Postado em 27/Jul/2014 às 12:31

      EM Israel, judeus de origem iemenita e iranianos são marginalizados e párias, e os de origem etíope, esterilizados. Todos vivem em campos à margem.

  2. Paulo Afonso Postado em 25/Jul/2014 às 16:05

    ".. apelo do Hamas para empurrar os israelenses no mar... mesmo dentro do Hamas há alguma discussão sobre essa afirmação. Até que ela seja removida isso ainda será nocivo”. É este o real problema...os outros? Mera consequência. Filosofar sem ir na gênese é sonho de Alice.

  3. Leandro Postado em 25/Jul/2014 às 18:16

    Israel é o exemplo da região esquerdinhas, não tem como mudar o mundo com textos, deveriam aprender isso.

    • Nena Postado em 26/Jul/2014 às 11:21

      Rapaz, vai estudar, vai....Israel de esquerda você é burrinho ou só ignorante?

    • Giovana Postado em 26/Jul/2014 às 21:03

      Vai ver novela...não tens alcance nem moral pra discutir qq coisa mais séria do que ficção.

  4. Eduardo Abreu Postado em 25/Jul/2014 às 22:16

    se este estado é de esquerda, eu sou canhoto que escreve com a mão direita..... a esquerda normalmente pensa povo, no social, e esse Estado só pensa no Estado como a terra prometida por Deus, só que acho eu que tirar terra de outro povo não tem nada de divino. E ouvido a história do estado da Palestina, o que existia no mapa biblico, tudo começa com a mãe de Ismael filho bastardo de Jacó urdindo a morte de Israel filho legitimo da a Sara mulher de Jacó que não tinha mais condições de engravidar mas como premio a ele Jacó por sua obediência Deus concedeu essa graça...... que de graça nos dias de hoje não tem nada..

    • Alexandre de Jesus Postado em 29/Jul/2014 às 16:08

      ¹Onde está Jacó leia-se Abrão, posteriormente chamado de Abraão

  5. Jorge Postado em 26/Jul/2014 às 19:56

    Esse Pereira é subsidiado pela Veja. Abostado.

  6. Cassiano Postado em 26/Jul/2014 às 20:07

    Vejam como eles são: atacam ,discriminam, rechaçam e acusam implacavelmente quem pensa diferente deles, mesmo que seja alguém do mesmo povo. Isso é democracia?

    • yule Cristina Postado em 30/Jul/2014 às 10:48

      Não, isso não é democracia, é só o demo mesmo. Pais demoníaco foi no que se tornou o estado de Israel.

  7. Agnóstico Postado em 26/Jul/2014 às 23:35

    Quantos comentários desfocado do texto ! Aos que pregam as leis religiosas, lembram da parte que está escrito no cristianismo sobre livre arbítrio ? As nossas escolhas é legitima quando se foi colocado a liberdade de pensamento não me foi negado o direito de divergir pois não há absolutismo, não conheço nada mais social do que dialética ! Aqueles que usam suas doutrinas para explicar suas organizações é inteligente em observar as diferenças de sociedade elas tem identidade ! Gostaria de lembrar o mito da caverna de Platão, e aquele que não estiver fora dela fatalmente continuará prisioneiro dos dogmas.

  8. Beth Campos Hajjar Postado em 27/Jul/2014 às 12:56

    Eu acho o seguinte: primeiro sou brasileira, casada com filho de Sirios cristãos. Então, como brasileira acho q não existe acordo nenhum para ambas as partes.Ambas as partes se odeiam por trocentas razões. .Então, acho q deveria ter um acordo para q a população de ambos q não querem saber de guerra caírem fora de lá para outros paises q tenham seus familiares e quem quisesse q continue lá se matandovpq ambos nao tem jeito...quem quiser ficar lá para lutar até a morte fiquem a vontade...

  9. Fátima Postado em 28/Jul/2014 às 17:51

    Gente, o Pereira adora uma polêmica. Em toda matéria ele faz um dos seus "comentários geniais". eu acho que ele ganha alguma coisa pra isso, porque...

  10. Moreira Postado em 28/Jul/2014 às 21:16

    Temos que refletir. O que Israel está fazendo hoje não se assemelha ao que repugnamos não a muito tempo contra o povo judeu?

  11. Mira Postado em 28/Jul/2014 às 21:45

    Butler me tira o sono

  12. pyna ceballos Postado em 12/Aug/2014 às 06:36

    Já imaginaba que os verdadeiros Judeus não ia compactuar com o assassinato em massa de bebes