Redação Pragmatismo
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Eleições 2014 30/Jul/2014 às 17:23
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Aloysio Nunes e a vergonha do passado esquerdista

Aloysio Nunes, vice de Aécio Neves, participou da oposição armada pela ALN e do assalto ao trem pagador. Hoje, considera tudo um erro

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Senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um ex-esquerdista (divulgação)

Em seu site pessoal, o candidato a vice na chapa de Aécio Neves, senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), resume em pouco mais de dez palavras o que foi boa parte da sua militância e principalmente os cinco anos de luta armada contra a ditadura militar pela Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das organizações de guerrilha mais estruturadas na época do regime: “Por conta de ações contra a ditadura militar, precisou sair do Brasil”, diz o texto na seção “biografia” do tucano sobre o período de 1963 a 1968, antes do exílio na França. A razão pelo pouco destaque à própria história não é segredo. O tucano acha que sua postura naquele período foi um erro.

VEJA TAMBÉM: O esquerdista fanático e o direitista visceral, dois perfeitos idiotas

Quase 30 anos depois do fim da ditadura militar, Aloysio Nunes vai disputar uma eleição presidencial justamente contra uma ex-companheira de luta. Assim como o senador tucano, a presidenta Dilma Rousseff participou da resistência à ditadura, mas por uma organização chamada Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Os pontos em comum entre os dois param por aí. Apesar de terem lutado pelo mesmo objetivo, Aloysio e Dilma trilharam caminhos diferentes.

O senador conheceu os seus primeiros companheiros de luta quando foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). Durante esse período, ele era filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Mas foi na ALN, liderada por Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, que ele ganhou importância na luta armada.

A militante Iara Xavier Pereira foi uma das pessoas que militou ao lado de Marighella na ALN. Irmã de Iuri Xavier – um dos líderes da organização que foi assassinado em 1972, Iara relembra o “apreço” com que Marighella falava de Aloysio Nunes. “Ele [Marighella] tinha uma confiança muito grande no Aloysio. Era muito bem quisto por ele. Falava muito bem do senador, que já era muito culto”, relembra ela.

Marighella e Aloysio atuavam muito próximos, entre outras coisas, porque o comunista não sabia dirigir e o senador ficava responsável pelo transporte do líder. De acordo com o biógrafo de Marighella, o jornalista Mário Magalhães, era com Aloysio que Marighella viajava, por exemplo, “quando soube que o congresso da União Nacional dos Estudantes havia sido descoberto em Ibiúna (SP), resultando em centenas de presos”, diz Magalhães em texto publicado no seu blog. Ainda segundo o autor da biografia Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo, por causa dessa função “até hoje os detratores [de Aloysio Nunes] pensam desqualificá-lo apresentando-o como ‘o motorista de Marighella’”.

Nessa época, o senador atendia, na maioria das vezes, por outro nome. Na clandestinidade, ele era chamado principalmente de “Mateus”. Foi com essa alcunha que o tucano participou de uma das ações mais ousadas da guerrilha durante a ditadura militar. Aloysio Nunes foi um dos protagonistas do assalto ao trem pagador Santos-Jundiaí, em 1968. Quem coordenou aquele ato, com o objetivo de conseguir dinheiro para sustentar a resistência armada, foi o ferroviário Raphael Martinelli.

Hoje, aos 89 anos, ele lembra que o senador era o motorista de um dos carros que recepcionou parte dos militantes com o dinheiro levado do trem. Armado com uma carabina, o então militante ajudou a colocar a carga no veículo e levou o dinheiro arrecado. “Tinha o grupo que fazia o serviço e o grupo que aguardava a descarga, né. Ele tinha que esperar onde o trem parasse, ali em Pirituba, para recepcionar os companheiros que iam descer com a carga. O Aloysio, além de fazer a segurança, estava para receber a carga do trem, o dinheiro. Todo mundo estava armado. Num ato desse a gente não ia com intenção de matar ninguém, mas tínhamos que estar preparados”, explica Martinelli.

Pouco tempo depois desse assalto, em 1969, o senador se exilou em Paris, onde passou a ter a função de dar suporte ao grupo. Além de dar abrigo a companheiros que também se exilavam no país, Aloysio buscou apoio de outros movimentos ou partidos de esquerda na Europa. Não por coincidência, se filiou ao Partido Comunista Francês. A própria Iara, por exemplo, chegou a morar “por um ou dois meses” com Aloysio Nunes e a esposa depois da morte de Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, na tortura, em 1970. “Ele [Aloysio] sai do Brasil por uma série de circunstâncias e fica montando uma estrutura de apoio em Paris até 1972 ou 1973”, conta.

Os companheiros de guerrilha não sabem dizer ao certo por que, mas é nesta época que o senador dá sinais de que teria mudado de opinião a respeito da guerra contra os militares. Com a morte de vários militantes e, principalmente, dos principais líderes da ALN, Aloysio Nunes deixa a organização e volta a se filiar ao PCB. O senador não respondeu às tentativas da reportagem de entrevistá-lo, mas disse recentemente à revista Época que esse período foi “superestimado” e que não diria ter “orgulho”.

“Esse período tem sido superestimado, ele não foi decisivo para a derrota do regime militar. Longe disso, até forneceu o pretexto para o recrudescimento da repressão. Eu não diria que tenho orgulho, mas sempre agi conforme as coisas que considero corretas. Foi o que fiz naquela época. A experiência mostrou que eu estava errado, não só pelo fracasso daquela forma de luta, como também porque ela não foi travada a partir de uma perspectiva democrática”, disse à publicação.

Os companheiros desse período explicam que a mudança de linha de pensamento, já que ele saiu de partidos comunistas para fundar o PMDB e se encontrar no PSDB, não é uma grande surpresa. Assim como ele, vários outros militantes da ALN entraram política sem necessariamente se alojar em partidos de esquerda. “Eu não sei dizer se [a mudança de opinião de Aloysio Nunes] surpreendeu. Não foi o único. Aliás foram muitos que seguiram um caminho parecido com ele”, diz o advogado Aton Fon Filho, que também integrou a ALN e chegou a participar de reuniões com Aloysio.

Mas alguns dizem que Aloysio Nunes nunca teve uma orientação marxista. “É próprio da juventude ser revolucionária. Então essa juventude era revoltada com a ditadura. A maioria era revoltado com as proibições, os sumiços de médicos, vereadores, mas muitos não se enxergavam ideologicamente como comunistas, ao contrário de mim, do Marighella”, resume Martinelli.

VEJA MAIS: Maioridade penal: professora desconstrói Aloysio Nunes em rede nacional

Renan Truffi, CartaCapital

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 30/Jul/2014 às 18:31

    Hoje é o senador pqp.

  2. Matheus B. Postado em 30/Jul/2014 às 19:30

    Enquanto alguns guerrilheiros esquerdistas reconhecem que estavam errados e que não eram movidos por um sentimento democrático, mas sim que apenas queriam trocar uma ditadura por outra, outros até hoje se sentem heróis libertadores. A diferença de mentalidade é clara, e cabe a cada um de nós optar entre os primeiros - sociais-democratas e marxistas. Fica evidente também que todos são de esquerda, apenas uns mais do que os outros.

    • Eduardo Abreu Postado em 31/Jul/2014 às 00:30

      Se tucano for social democrata eu sou presidente dos EUA, essa turma não sabe o que é povo, como podem se arvorar a se dizer socialistas.

    • John Postado em 31/Jul/2014 às 01:02

      Onde está escrito que ele reconhece que lutava por outra ditadura? O que ele disse foi que discordava dos métodos e também que acha que esses atos geraram mais repressão, não coloque palavras na boca dos outros. E o PSDB já não tem nada de social democrata faz muito tempo.

      • Matheus B. Postado em 31/Jul/2014 às 08:40

        Está escrito no estatuto de praticamente todas as guerrilhas que existiam na época.

    • Thiago Teixeira Postado em 31/Jul/2014 às 09:24

      Da onde veio esse absurdo que PSDB é esquerda? Quem disse isso sabe o que significa realmente esquerda? Há apenas dois partidos de verdadeira esquerda no Brasil, o PSTU e PCO. PSOL, PCdo B e PT, hoje, se enquadram mais na centro-esquerda. PSDB pode-se dizer que é centro.

      • Matheus B. Postado em 31/Jul/2014 às 10:20

        Não concordo, Thiago, mas acho que dá pra considerar como centro sim, mais pela prática do que pelo que defendem. O que tu chama de verdadeira esquerda eu chamaria de extrema esquerda. Com isso, cabe destacar que não temos nenhum partido majoritário verdadeiramente de direita, o que é muito ruim para a democracia. Entre os candidatos à presidente, o único que defende abertamente privatizações é o nanico PSC.

      • Thiago Teixeira Postado em 31/Jul/2014 às 12:55

        A extrema esquerda é a esquerda de fato. Nos moldes de nosso estado democrático, é impossível seguir a esquerda a risca.

  3. Matheus B. Postado em 30/Jul/2014 às 19:33

    ... entre os primeiros - sociais-democratas - e os segundos - marxistas.

  4. Eduardo Abreu Postado em 31/Jul/2014 às 00:28

    imaginem ele governando o Brasil, se houver um problema diplomático, ele manda todos "tomar no c." e para PQP", e vai levando nosso Brasil pro buraco.

  5. Jane Postado em 31/Jul/2014 às 01:03

    Pelo visto pra ser do PSDB você até já pode ter feito algo pelo povo um dia, mas precisa ter vergonha disso.

  6. Luiz Postado em 31/Jul/2014 às 06:08

    Sempre existiram oportunistas... os de ontem continuam hoje, sejam senadores ou não. Naquele tempo, esse mequetrefe já era movido apenas pelos interesses pessoais (sejam lá quais eram). Os relatos são fartos de apoiadores dos assassinos oficiais que tomaram a nação de assalto, e que por conta de desentendementos acerca da repartição da pilhagem (cargos, contratos públicos, subornos e execução de desafetos); foram considerados "inimigos" ou "subversivos".

  7. Dinio Postado em 31/Jul/2014 às 08:17

    Um pequeno detalhe para o psdb mas uma tragédia para o povo Paulista: "- ELE JÁ ERA ESPECIALISTA EM ASSALTO A TREM...DESDE A JUVENTUDE!" Agora ficou mais fácil entender o TRENSALÃO...eles são experts em tirar o "dinheiro" dos trilhos!!!

  8. Renato Postado em 31/Jul/2014 às 09:51

    Sou doutorando em História Social na USP e pesquiso o integralismo. Já vi mais de uma vez na documentação, citado como integralista, um certo Aloysio Nunes Ferreira. Considerando que o senador é Aloysio Nunes Ferreira FILHO, existe grande possibilidade de ser o pai do senador. Só que nunca vi ninguém dizer isso, muito menos o senador, o que é muito compreensível (nenhum político que se julga "democrático" gostaria de lembrar algo assim). Alguém sabe algo sobre isso?

  9. dilma neles!!!! Postado em 31/Jul/2014 às 11:25

    Hahaha..os tucanos adoram dizer q o psdb é de esquerda ne?? Acho q é pra tentar conseguir uns votos dos eleitores do pt. É muito cinismo..os 8 anos de gov fhc foram totalmente voltados para as privatizações do patrimonio publico. A visão politica do psdb é toda neo liberal,e vcs ainda tem a petulancia de dizer q o psdb é de esquerda!!!! Só rindo mesmo!

  10. Eliana Postado em 31/Jul/2014 às 13:15

    Essa matéria é mal intencionada e capciosa.

  11. Mateus Postado em 31/Jul/2014 às 21:14

    Pelo menos um que amadureceu, nunca lutaram por democracia alguma, basta ver Cuba hoje e ontem.

  12. André Postado em 01/Aug/2014 às 05:06

    Esses bandidos não eram nem um pouco bestas hein! Pq só ficaram exilados em países capitalistas? Nunca ouvi nenhum deles dizer q ficou exilado em Cuba, China ou URSS. Caras de pau!

  13. Lóide Postado em 01/Aug/2014 às 23:29

    André, também acho isso muito intrigante!