Redação Pragmatismo
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Mobilidade Urbana 02/Jul/2014 às 15:39
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40 mil estacionamentos são eliminados para a ocupação de ciclovias em SP

Prefeitura de São Paulo elimina cerca de quarenta mil estacionamentos de automóveis nas vias para garantir abertura de ciclovias. Espaços urbanos são para atender o interesse coletivo, não o particular

ciclovias são paulo
Em São Paulo, 40 mil estacionamentos de automóveis darão espaço para a implantação de ciclovias (Reprodução)

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, toma a segunda medida importante para garantir a melhoria do trânsito – e da vida – na cidade. A primeira foi ampliar e fiscalizar o uso de corredores exclusivos de ônibus, medida iniciada por Marta Suplicy e descontinuada por Serra e Kassab. A segunda, eliminar cerca de quarenta mil estacionamentos de automóveis nas vias, para garantir espaço para ciclovias.

Veja também: Atriz Lucélia Santos desabafa após ser flagrada em ônibus lotado

Sem precisar entrar em detalhes em relação ao problema, que é do conhecimento de todos, temos convicção em afirmar que a política a ser adotada, para melhorar o trânsito e a vida das pessoas em São Paulo, é a de restringir a circulação de automóveis particulares e – no curto, médio e longo prazo – investir em infraestrutura e legislação que priorize o transporte público. Essa restrição não é temporária, mas um caminho sem volta, em cidades como São Paulo. Fugir disso é querer aumentar o problema.

Os milhões de carros particulares que circulam diariamente em São Paulo se apropriam de grande parte dos espaços viários e urbanos, muitas vezes com apenas uma pessoa no seu interior. Enquanto isso, milhões de pessoas, nos transportes coletivos, são espremidas nos reduzidos espaços deixados por aqueles.

As tentativas de soluções, implantadas nos últimos quarenta anos, como viadutos, mergulhões, elevados e estacionamentos subterrâneos só fazem sentido se dentro de uma política de restrição ao automóvel e favorecimento dos ônibus, táxis, caminhões, motos, bicicletas e pedestres. Fora dessa política, é dinheiro jogado fora, já que a principal causa do problema não é atacada de frente. Quanto mais automóvel em circulação, mais congestionamento, mais obras para permitir a maior circulação de automóveis, mais automóveis em circulação. Esse é o ciclo vicioso que precisa ser quebrado, já que é finita e bastante limitada a capacidade de alocação de recursos pelo poder público.

Quais as principais ações, em nossa opinião e de muitos especialistas, a serem desenvolvidas pela Prefeitura e pelo Governo do Estado de São Paulo, tendo como referência o que foi realizado em grandes cidades, como Londres e Paris?

– Implantação do pedágio urbano, com a aplicação dessa receita na conclusão dos corredores de ônibus, ciclovias e melhoria das condições para o pedestre

– Completar a implantação de corredores exclusivos de ônibus

– Elevar as tarifas de estacionamento nas áreas centrais e redução das áreas disponíveis

– Ampliar a capacidade da malha física e as operações ferroviárias (trens e metrô)

– Implantar malhas de ciclovias e projetos semelhantes ao que existe no Rio e no DF, com a disponibilização de milhares de bicicletas para circulação nas áreas centrais

– Ampliar as restrições via rodízio, até a completa implantação do pedágio urbano

– Aumentar o rigor na fiscalização e retirar veículos irregulares de circulação

– Racionalizar a circulação e os horários de carga e descarga dos caminhões, lembrando sempre que eles são vitais para o funcionamento da cidade

– Concluir todo o anel rodoviário de São Paulo, já que uma grande quantidade de veículos tem origem e destino fora da cidade e que não há motivo para circular pelas suas ruas e avenidas

As medidas restritivas causarão algum incômodo inicial, especialmente naqueles que acabaram de ascender ao privilegiado círculo dos proprietários de automóveis. No entanto, como elas serão eficazes, não só melhorará muito o transporte público como essas pessoas poderão utilizar seu carro em inúmeras situações, regiões, dias e horários não atingidos pelas restrições e ter a sua mobilidade e conforto em grande parte atendida.

O principal: a vida melhorará para todos e a indústria automobilística poderá continuar seu atual nível de produção, sem levar a parcela de culpa que tentam, erroneamente, lhe imputar.

Há um entendimento – equivocado – de que primeiro os governos têm que providenciar transporte de massa para, só então, restringir a circulação de veículos particulares. É uma proposta bonita, mas inviável no médio prazo, por ser muito caro e demorado para viabilizar.

Em cidades como Londres, que têm extensa malha metroferroviária, muito pouca gente deixava o automóvel em casa para usar o transporte coletivo. Somente a restrição aos carros particulares poderia garantir mais espaço para o coletivo. O pedágio urbano e a restrição de estacionamento, em áreas de muito trânsito, foi o que resolveu.

José Augusto Valente, Carta Maior

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Comentários

  1. André Postado em 02/Jul/2014 às 19:11

    Enquanto prefeituras e governos estaduais se esforçam para fomentar o transporte público, o governo federal, na contramão, fomenta a compra de carros...

    • silvio Postado em 03/Jul/2014 às 10:34

      Onde as prefeituras se empenham nisso??? em Belém isso é uma utopia, o único projeto que tivemos foi um BRT financiado pelo governo Federal que os prefeitos não conseguiram ainda implantar e estao ainda a sugar dinheiro. Em Natal o sistema de transporte é uma lástima. Manaus não quis implantar o VLT. São Paulo esta de parabens. Em todo caso, todo mundo tem o direito de ter um carro, isso deve ser uma opção. É muito facil para quem tem continuar a usar o seu carro e reclamar que o transporte público nao é incentivado. Espero que no futuro ter carro seja uma opção, para lazeres e visitas noturnas, passeios e viagens aos finais de semana e emergências.

    • Felipe Postado em 03/Jul/2014 às 11:01

      Tem que comprar mesmo! Carro é um bom enfeite na frente de casa, pra dar uma lavadinha e encerada, pra depois dar uma caminhada. hahaha. As pessoas ainda precisam de carros, André, pra coisas que só dá pra fazer com eles, como as compras do mês e aquela viagenzinha pro interior (por enquanto, enquanto não houver trens o suficiente). O que mudou é que hoje quem não tinha dinheiro pra comprar carros, têm. Só isso.

      • André Postado em 03/Jul/2014 às 11:49

        Tu tem toda razão. Carro é importante sim, mas tem que haver um consenso. Se tu ver legal, grande parte desse pessial que compra carro zero, compra em prestações a perder de vista, tipo 60, 72 vezes. Então o que aumentou foi o crédito.

      • Pena Postado em 03/Jul/2014 às 14:12

        Acho que esse é uma das maiores lendas que existem. Pessoas precisam de carros e o carro brasileiro é um dos mais caros do mundo. O que acontece, então? Pessoas se endividam para pagar um absurdo por um triturador de carne (desculpem a imagem). Se carros melhores fossem mais baratos, com certeza menos pessoas morreriam nos acidentes (que são tratados sempre como apenas imprudência e nunca dão o devido "crédito" para as carroças e estradas ruins). Aumentar o valor do carro não vai diminuir o trânsito. Vai é aumentar o número de endividados e o número de acidentes fatais ou com grandes sequelas. Diminuir o trânsito precisa de outras medidas, como os pedágios urbanos, aumento de valor de estacionamento, melhoras no transporte público, etc.

  2. Noísa Postado em 03/Jul/2014 às 10:57

    Implantação de pedágio, aumento de tarifas... discordo completamente desses tipos de ações de segregação. Não são soluções, só se afasta o pobre do espaço público da cidade. Aquele que tem dinheiro continuará circulando. Tá com cara de opinião de especialista criado em berço de ouro.

  3. Eduardo Stelmack Postado em 03/Jul/2014 às 11:11

    Enquanto isso o governo prorroga a redução do IPI para alavancar as vendas de carros.

  4. João Rodrigues Postado em 03/Jul/2014 às 11:13

    Fico muito feliz com a volta de uma prefeitura que esteja priorizando a solução definitiva do problema, pois isso exige uma coragem imensa, quando quase a maioria da população não deseja abrir mão do conforto do seu carro. Continuo, no entanto, achando que seria muito injusto implementar o pedágio urbano antes de uma melhora profunda nos transportes públicos, porque quem usa todo dia sabe que simplesmente não tem como ele absorver mais pessoas neste momento. É importante que mais gente use o transporte público, mas se sua capacidade não for fortemente expandida, e rápido, só continuaremos a ver gente querendo fugir dele! Aí sim, com uma malha minimamente decente, são eficazes as políticas de desestímulo ao uso do carro.

  5. Paulo Postado em 03/Jul/2014 às 14:43

    Se andar de buzão em São Paulo, vc vai ver que os corredores não são contínuos. Ou seja, o ônibus está num corredor, precisa sair dele e pegar o trânsito pra depois voltar no corredor mais pra frente. O segundo corredor trava o trânsito de carro, que chega na parte sem corredor e deixa o ônibus empacado. Além disso, não tem ônibus pra todo mundo, então quem quiser se "livrar do trânsito", pegar ônibus e usar os corredores enfrenta o gargalo desses corredores e ônibus lotados. Outra coisa é que tirar estacionamentos não vai diminuir o fluxo de carros visto o problema do transporte público. Por outro lado, só vai beneficiar donos de estacionamento e vai deixar o trânsito mais caótico em regiões que ainda são menos preocupantes. Essa reportagem tentou tornar uma política falha (apesar de a iniciativa ser muito legal) em algo "belo de se ver". Teria que agir em mais frentes: melhoria da qualidade e quantidade de ônibus; melhor integração dos corredores, bem como com metrô e cptm; e, por fim, a implementação de ciclovias TAMBÉM com faixas integradas tanto entre si quanto com outros meios de transporte. É preciso integrar todas as possibilidades e meios de transporte. Sem essa integração, andar de bicicleta ou usar outras formas de transporte é viável apenas pra curtas distâncias. Apenas meu ponto de vista...

  6. Alex Postado em 03/Jul/2014 às 15:49

    Ótima iniciativa! Espero só que a CPTM se inspire e aproveite para criar novos acessos à ciclovia da Marginal Pinehiros, que hoje tem míseros 5 acessos, permitindo a integração desses corredores de bicicleta

  7. Rafael Martini Postado em 04/Jul/2014 às 03:37

    O prefeito Haddad vem botando a mão na massa e implantando medidas que priorizam de fato o transporte coletivo. E a coxinhada paulistana - que vê um acinte em ter de abrir mão de quaisquer de seus privilégios - se sente, claro, ultrajada ao perder uma faixa de rolamento nas vias e um ou outro bolsão de estacionamento. Se você acha que é impossível algum político "apanhar" da mídia mais do que a Dilma, devia conhecer a malhação do prefeito feita aqui em São Paulo.

  8. Rafael Martini Postado em 04/Jul/2014 às 03:42

    Ah, e sobre a oferta (ou falta) do transporte coletivo, sobretudo em horários de pico, creio que muitas atividades poderiam ser realizadas de modo a evitar os grandes fluxos do horário comercial. As pessoas parecem condicionadas ao "das nove às seis" para qualquer coisa. Isso não precisa ser assim.