Redação Pragmatismo
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Homofobia 04/Jun/2014 às 17:12
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Revista Veja diz que homossexualidade não existe

Texto publicado em Veja defende a tese eugenista de que a homossexualidade não existe e que há uma ‘perigosa propaganda’ pró-LGBT. Argumentos poderiam muito bem estar na boca do pastor Silas Malafaia

Revista Veja homofobia homossexualidade preconceito

Marcelo Hailer, Fórum

Diariamente quando abrimos o jornal, acessamos a rede, ligamos a televisão somos inundados por uma propaganda opressora do estilo de vida heterossexual; somos levados a crer que viemos a este mundo para reproduzir, ter filhos, comprar casa e ir à missa. Pior, querem nos fazer descer goela abaixo que as pessoas nascem com tal orientação sexual e, mais obsceno ainda, denúncias dão conta de que grupos políticos ligados à educação estão aplicando pedagogias do heterossexualismo, querem doutrinar as crianças e jovens para tal estilo de vida nefanda. Ou seja, vivemos um verdadeiro heteroterrorismo…

Esta introdução serve apenas para ilustrar o quão pífias são as “críticas” que seguem o mesmo roteiro utilizado acima, só que para atacar as pessoas LGBT e os grupos políticos e midiáticos que têm se posicionado favoravelmente aos direitos civis dos grupos que não seguem a orientação hegemônica. E não surpreende que o último texto a se utilizar de tal retórica de cunho higienista tenha vindo da revista semanal ‘Veja’, por meio de seu colunista Felipe Moura, sob o título “Ninguém nasce gay, nem sai do armário; Os perigos da propaganda homossexual na mídia conservadora”, que na verdade trata-se de uma tradução de um texto escrito por Stephen Baldwin, que desfere ataques, principalmente, contra o canal Fox.

Mapear o gene gay?

O texto que o articulista da “Veja” utiliza para atacar os parcos direitos civis e espaço midiático conquistados pela comunidade é todo construído em argumentos que poderiam muito bem estar na boca do pastor Silas Malafaia: há uma revolução gay em curso que visa corromper a sociedade para os seus valores subversivos. Chega a ser patético, quando o autor comenta uma pesquisa feita por Dr. Francis Collins, chefe do Projeto Genona Humano, que reuniu mais de 150 “dos maiores” geneticistas para encontrar – pasmem – o gene gay.

Esta teoria foi derrubada há mais de 50 anos por Simone de Beauvoir, em seu monumental “O segundo sexo”, mas há outros autores, contemporâneos, que também já desconstruíram a tese do “gene gay”, por exemplo, a filósofa Beatriz Preciado, que é categórica ao afirmar que as intenções de se localizar um gene gay não são mais do que instrumentos de poder para patologizar os corpos dissidentes. Ou, ainda, podemos retomar Michel Foucault, de quem Preciado é continuadora, ao estabelecer uma bio-história dos corpos, ou seja, a medicina e ciência da genética enquanto mecanismos normatizadores dos corpos. Ou seja, a carta genética mapeada em busca de uma “origem” dessa ou daquela orientação sexual nada mais é do que a busca pela legitimação do sexismo e da homofobia.

Ninguém sai do armário?

Em momento de precariedade argumentativa, o autor afirma que “ninguém sai do armário”, mas que apenas assume práticas momentâneas de homossexualidade e que (sem citar fonte alguma) mais da metade dessas pessoas volta pra heterossexualidade. Neste momento o autor comete um erro crasso ao definir o ato político de “sair do armário” com um ato exclusivo dos LGBT. Mais uma vez, Stephen Baldwin se revela altamente desatualizado no que diz respeito a conceito teóricos.

Em 1993, a pesquisadora norte-americana Eve Kosofsky Sedgwick ampliou o conceito de “saída do armário”, a saber: Sedgwick amplia o conceito e o aplica não apenas à assunção de identidades sexuais, mas também a outros sujeitos marginalizados social e politicamente: judeus, ciganos, usuários de drogas, imigrantes. Pois, tais sujeitos carregam em seus corpos marcas historicamente marginalizadas e alijadas da sociedade. Portanto, o ato de sair do armário não consiste apenas em dizer “eu sou”, mas sim uma ação política e cotidiana de assumir uma identidade fora da economia hegemônica.

Baldwin argue ainda que o estilo de vida das LGBT é “artificial” e que é causado pelo “ambiente”. E a heterossexualidade é um programa pronto que nasce encaixado em nossa subjetividade? Mas não interessa aqui fazer um debate dicotômico, até porque as sexualidades não o são. Limitá-las ao fator natural ou social é pobreza dialética e nisso o texto traduzido pelo articulista da revista em questão é rico.

Além de toda essa argumentação essencialista utilizada pelo autor norte-americano, espanta que o colunista do semanário liberal tenha ido buscar um texto estrangeiro para ratificar a sua opinião pessoal a respeito dos avanços políticos da comunidade LGBT. Devemos entender, então, que o colunista, ao replicar o referido artigo, acha ruim que políticas públicas às LGBTs sejam aplicadas? Compartilha do sentimento de que, fora da esfera da heterossexualidade, são todos doentes? E considera uma ameaça que as telenovelas tenham, sucessivamente, abordado a questão das sexualidades dissidentes?

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Comentários

  1. ROSELI SARILHO Postado em 04/Jun/2014 às 17:36

    A PIOR POBREZA E MISERABILIDADE, É A DA CABEÇA.DA MENTE FECHADA, OBSTRUÍDA ONDE NÃO PASSA SEQUER UMA AGULHA, PENA QUE SEJA ASSIM.EM PLENO SÉCULO XXl, SER MOBILIZADO POR`ESSE TIPO DE PENSAMENTO, É COMO ESTAR RETROAGINDO NO ESPAÇO COMO ESTAR SE DILUINDO AS ESPERANÇAS DA EVOLUÇÃO HUMANA.QUÃO TRISTE A CONSTATAÇÃO QUE PESSOAS QUE ESTUDARAM E SE FORMARAM, MESMO QUE TENHA SISO AQUÉM ESSES ESTUDOS, CONTINUEM COM A RETÓRICA OBSOLETA E TENEBROSA COMO SE FOSSEM GENERAIS FALANDO.

  2. Lucas Postado em 04/Jun/2014 às 17:48

    quem disse que os homossexuais querem MAIS DIREITOS QUE OS OUTROS?? queremos os MESMOS direitos. ninguem ta querendo empurrar nada goela abaixo de ninguem, nem vencer pelo cansaço. querer direitos IGUAIS nao os torna privilégios.

    • Renato Bez Postado em 04/Jun/2014 às 19:02

      Isto mesmo Lucas, disse tudo!

    • Thiago Teixeira Postado em 04/Jun/2014 às 19:31

      Para o conservador da direita sim, ter direitos iguais aos HOMENS DE BEM é privilégio. Ser diferente deve ser encarado com total desprezo, o certo é ser Hetero, homem, branco, sobrenome europeu, católico, tucano, morar na capital, torcer para um dos times do clube dos 13, odiar o Lula e ter ido para Europa ou Estados Unidos. Você não se encaixa? Então será massacrado pelos HOMENS DO BEM.

      • eu daqui Postado em 05/Jun/2014 às 09:03

        Por isso sou uma mulher do mal: aquela que ninguém domina. hahahahaha

    • eu daqui Postado em 05/Jun/2014 às 09:02

      Sou hetero e enquanto vcs forem um autentico movimento social lutando por justiça digna permeada por moralidade, seriedade e sem previlegios oportunistas, estou à disposição de vcs ! Usem e abusem. E não mudem.

      • Valter Augusto Postado em 12/Aug/2014 às 21:10

        Eu daqui,eu acho que ninguém aqui precisa de você e de seus "PREVILEGIOS".

  3. Leandro Dubost Postado em 04/Jun/2014 às 18:03

    Alguns diziam os mesmos quando as mulheres ou os negros começaram a lutar pelos seus direitos - e não MAIS direitos, apenas os MESMOS. E veja o que eles conquistaram (ainda não foi tudo) e me diga se isso trouxe algum prejuízo para alguém? Portanto podemos dizer que os que eram contra estavam errados e apenas não percebiam isso? E por que o mesmo não pode ser dito sobre direitos aos homossexuais hoje em dia? Eles tem o direito de lutar sim e não "aceitar a realidade" imposta. A humanidade não caminha para frente se todos simplesmente aceitarem o status quo. Mulheres não votariam, negros seriam escravos, a Terra seria o centro do universo...

  4. Victor Postado em 04/Jun/2014 às 18:09

    Ninguém aqui tá querendo mais direitos que outros. Poder casar e adotar é um direito que os casais héteros já têm. Além disso, nenhum hétero sofre preconceito por ser hétero. Logo, é mais que necessária a repressão contra esse preconceito que os gays sofrem o tempo todo.

  5. Vitor Postado em 04/Jun/2014 às 18:24

    Falta de conhecimento. Vide comentário do Leandro Dubost

  6. Fabiane Postado em 04/Jun/2014 às 19:30

    Concordo com Leandro, só considera "lenga-lenga chata" quem não viu um amigo levar um soco na boca e perder os dentes da frente pra deixar de ser "viadinho", como eu vi. Sempre parece besteira pra quem não sofre. E nunca vi isso de direitos a mais, seu argumento levemente agressivo e bem superficial parece homofobia enrustida.

  7. Tiago Postado em 04/Jun/2014 às 21:48

    Ah, ótimo! A sociedade sempre aceitou coisas de tão alto valor moral, que, de fato, não compreendo a necessidade de questioná-la. Agora diga-me, já comprou seus escravos para queimar sua vizinha que pratica bruxaria?

  8. su zana Postado em 04/Jun/2014 às 22:56

    Nao sabe nem o que está falando. "uma discussao ampla, democrática blablabla" Você diz uma discussao assim como estas que sao feitas toda vez que alguma lei é aprovada no congresso? hahahah Você já recebeu um convite? Você está querendo dizer que é necessário pedir permissao a uma sociedade pós-escravocrata, de mentalidade colonialista, patriarcal, racista, bitolada pelo catolicismo, homofóbica quando se quiser aprovar uma lei miserável na qual esteja dito que as pessoas que nao sejam brancas, nao tenham um pênis e nao transem com o sexo oposto sao cidadaes e possuem os mesmo direitos destinados aos outros? Vai fazer exercício pra fazer crescer a massa encefálica!

  9. Bruno Sette Postado em 05/Jun/2014 às 00:43

    Você poderia citar que "leis polêmicas e obscuras" são essas?

  10. luana Postado em 05/Jun/2014 às 15:05

    Você está falando sério? Você entende o que é democracia? Entende o que é estado de direitos? É isso que a comunidade LGBT reivindica, poder exercer os direitos que já é dela. Dessa forma, não existe motivos para um absurdo debate com a sociedade. Quando você vai exercer um direito, não precisa do aval de ninguém.

  11. Leandro Dias Postado em 05/Jun/2014 às 15:06

    Se você acha a "lenga-lenga" dos homossexuais chata, Naro Solbo, muito obrigado pelo seu feedback. Nosso discurso é pensado especificamente pra irritar você. Feministas, militantes homossexuais, movimentos negros, todos nós pensamos o nosso discurso de maneira a incomodar, chatear, encher o saco. Querem que a gente pare? Simples, reconheçam os direitos que temos como seres humanos iguais a vocês. Não há o que discutir com a sociedade, porque ninguém está aqui inventando a roda. Heterossexuais podem adotar, casar, sair na rua sem levar um golpe de lâmpada na cabeça só pela sua orientação sexual... Esses são direitos básicos dos quais os homossexuais são privados. Todos os dias. Eu não vou pedir permissão para ninguém para ter um direito que todos os outros tem. Vou encher o saco, irritar, exigir até que me deem o que nunca poderiam ter me negado. Conviva com isso.

  12. Fabiane Postado em 04/Jun/2014 às 19:33

    Tem razão, concordo com vc, só que ao contrário, acho que depois de décadas de BEIJOS HÉTEROS E SEXO HÉTERO EM HORÁRIO NOBRE, posso chegar a conclusão de que a mídia tenta nos convencer de que homossexualismo não existe. Agora tenho certeza de que vc é homofóbico.

  13. Yasmin Postado em 04/Jun/2014 às 19:35

    Existem muito mais casais e beijos héteros nas novelas, afinal, demonstrações de amor não deveriam incomodar ninguém. Você deveria criticar os exemplos de corrupção nas histórias das mesmas novelas, comportamentos agressivos aos outros, físicos ou psicológicos, alguns comportamentos promíscuos que por sinal sempre são de heterossexuais, entre muitas e muitas outras coisas que de bom não tem nada e adultos, jovens E crianças são expostos. Um beijinho não passa nada além de carinho e amor.

  14. Diana Postado em 04/Jun/2014 às 19:38

    Deixa eu te perguntar: há quantos beijos gays em novelas brasileiras até hoje? Pelo que eu saiba, só dois! E quantos casais homossexuais existem nas novelas? Veja bem, não estão tentando impor uma ditadura gay, estão tentando fazer com que os homossexuais sejam reconhecidos como cidadãos dignos como qualquer outro.

  15. Carlos Postado em 04/Jun/2014 às 19:55

    Pobre e triste seus comentários Naro Solbo. Reflete incompreensão e ignorância de uma realidade que pode não ser a sua, mas que não quer dizer que não exista só porque você desconhece ou ignora. Primeiro erro foi dizer que há exigências e luta pra empurrar "goela a baixo" algo, por MAIS direitos enquanto que a realidade é a luta por direito mínimos e IGUAIS que são NEGADOS hoje. Se vai ser contra algo, ao menos se informe desprovido de preconceitos ou não fale nada. É um atentado contra sua própria inteligência ou a revelação de gigante ignorância e preconceito. O reflexo que você comenta sobre beijo gay em novelas e etc. É reflexo sim de uma realidade há muito ignorada e que muito contrário ao que dizem sobre, não é que virou moda, mas as pessoas estão com menos medo de serem julgadas e apontadas por pessoas como você, Naro Solbo, por serem de "nichos" como você mesmo disse, ou diferentes. Lutar por ser igual acaba revelando a diferença que sempre existiu e que sempre é negada. Não acha demais as pessoas terem que lutar pelo direito de serem o que sua natureza revela? Não acha um absurdo o fato de duas pessoas querem ter uma vida de casal e isso ser negado, julgado ou repudiado por parte dessa sociedade modelo da qual você faz parte? Não acha que essas pessoas poderiam exercer a liberdade de de viver sua própria natureza tendo OS MESMOS direitos que qualquer ser humano sem que isso seja condenado por PRECONCEITUOSOS, "RELIGIOSOS", etc??? Enfim....é tanta idiotice. É tanta ignorância. É tanto preconceito camuflado.

  16. Carlos Wolf Postado em 04/Jun/2014 às 20:33

    (Modo irônico ligado) É verdade, bons tempos aqueles que na TV só aparecia gente branca e beijos héteros. Devíamos ter discutido amplamente e democraticamente se os negros e as mulheres realmente deveriam ter os mesmos direitos que os cidadãos (no caso, até então, homens brancos).

  17. Lila Postado em 04/Jun/2014 às 21:31

    Beijar é ter mais direitos que os outros?

  18. Carlos Wolf Postado em 04/Jun/2014 às 21:36

    Naro Solbo, eu ia responder com seriedade seus comentários desprovidos de qualquer inteligência mas meus colegas já fizeram isso muito bem. Eu apenas torço para que pessoas como você ainda tenham capacidade de aprender e que um dia sejam capazes de enxergar os direitos básicos que ainda são negados a muitos para que, se não ajudar, pelo menos não atrapalhe.

  19. eu daqui Postado em 05/Jun/2014 às 08:56

    No BRASIL AS MULHERES E NEGROS LUTAM POR MAIS DIREITOS SIM. Aposentadoria feminina em menor tempo que os homens é o que? É previlegio sim. Cotas são o que? Previlegio sim ! Direito é outra coisa: é aquilo que é conquistado mediante o cumprimento de um ou mais deveres. Democratizar oportunidades e condições para a conquista de direitos é muito diferente de distribuir previlegios paliativos e eleitoreiros. Por essas e outras sempre preferi lutar sozinha somente acompanhada por meus valores e longe de qualquer pseudo movimento social. Quando ao movimento gay especificamente, nunca percebi, até agora, nenhum sinal de oportunismo. Tomara que não mude.

  20. Thiago Postado em 05/Jun/2014 às 12:16

    Se o tal do "eu daqui" acredita que cotas são um privilégio (e não "previlégio") ele é um caso perdido. Aposentadoria antes para mulheres se baseia em argumentos biológicos e sociais (sendo que este é ligeiramente atrasado, uma vez que tem origem na ideia da mulher que trabalha fora e também é "dona de casa"). Quanto ao LGBT... não, eles não lutam por mais direitos. Eles só querem ser aceitos como são (assim como os héteros são), eles querem poder adotar filhos (assim como os héteros podem), eles querem poder se casar (assim como os héteros podem). A única coisa que eles querem que não se aplica à essa regra é a proteção na lei contra ataques homofóbicos. Mas, veja só, a constituição pune qualquer crime cuja fonte seja o preconceito (religioso, racial, origem social...). O que torna o preconceito de orientação sexual diferente, imune? Não existe, como muitos argumentam, uma perseguição religiosa dos gays contra os cristãos (especialmente os evangélicos). Nem existe uma ditadura gay (essa sempre me faz rir, especialmente quando usada seriamente). Só existe uma busca pelos mesmos direitos básicos que todo heterossexual goza na sociedade.

  21. eu daqui Postado em 05/Aug/2014 às 13:04

    Antes de tentar corrigir minha ortografia, vá aprender a ler pois está bem claro em meu texto que sou mulher, além de outras distorções analfabéticas que vc fez dele. E vou continuar a ser caso perdido sim: cota é privilégio coitadista bem merecido pra quem precisa.

  22. eu daqui Postado em 05/Jun/2014 às 08:59

    Tomara então que o movimento gay não mude e resvale para o oportunismo previlegista, Victor. Coisa que os pseudo movimentos sociais feministas e negros já fizeram há muito, em atendimento aos interesses politicos de suas lideranças.