Redação Pragmatismo
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Racismo não 09/Jun/2014 às 12:41
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Morgan Freeman e a arte de dizer besteiras

Ao negar o racismo, Morgan Freeman se transforma num inocente útil. No Brasil, esse mesmo discurso já foi apropriado por conservadores empenhados em minorar os preconceitos raciais

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O ator Morgan Freeman (Reprodução)

O ator Morgan Freeman tem algo a dizer sobre o racismo e não são palavras sábias. Em entrevista ao canal CNN, Freeman afirmou que os problemas atuais de desigualdade social nos Estados Unidos não têm nada a ver com discriminação racial.

Veja também: “O Brasil é um dos países mais racistas do mundo, mas o racismo é velado”

Durante a entrevista, o apresentador do CNN Newsroom Don Lemon, também negro, pergunta ao ator sua opinião sobre a preocupação do presidente Obama e dos democratas com o avanço das disparidades sociais.

Freeman respondeu que acha válida esta preocupação. “Nós temos uma sociedade bem mais vibrante quando não existe um abismo entre os que têm e os que não têm”, disse ele, para em seguida falar da importância da uma classe média ampla para movimentar o mercado consumidor.

Na sequência, Lemon pergunta se as questões de cor têm alguma relação com o assunto. O ator de “Conduzindo Miss Daisy” foi enfático na resposta: “Hoje? Não! Eu e você, nós somos a prova. Por que raça teria alguma coisa a ver com isso? Concentre-se no que você quer fazer e vá em frente”.

Ele finaliza afirmando que o racismo existe, mas é um problema fazer dele uma preocupação maior do que realmente é. Proferidas por um ator negro de voz grave e imponente que emprestou a face para interpretar o próprio Deus, tais afirmações já estão abastecendo a artilharia de todos os que vêem uma chance de repetir o mantra da “meritocracia”contra tudo.

Para citar apenas um dado: segundo o Centro de Soluções de Política Global, nos Estados Unidos, os brancos têm um patrimônio líquido médio mais de 15 vezes maior do que os negros (US$ 111,740 contra US$ 7,113), e mais de 13 vezes maior do que os latinos (US$ 111,740 contra US$ 8,113 dólares).

Antes, Freeman já havia dado uma entrevista ao “60 minutes”, em 2005, que virou baluarte da negação ao racismo.

Morgan Freeman é um grande ator e sua visão a respeito das tensões raciais na realidade norte-americana não desabona sua carreira, é claro. Mas ao negar o racismo, além de cego, ele se transforma num inocente útil. No Brasil, o discurso já foi apropriado por brancos empenhados em minorar os preconceitos raciais, sob a argumentação de que vivemos em uma sociedade mestiça e há chances iguais para todo o mundo.

Analisando bem, dá para ver que a ideia mostrada nos fragmentos de entrevistas de Freeman já vem sendo usada há décadas. Os resultados estão aí, nas estatísticas nem um pouco gentis com os negros e índios.

A resposta ao argumento de Freeman vem de uma conterrânea dele. Mellody Hobson é presidente de um grupo de investimentos e esposa de George Lucas. Anos atrás, ela e o amigo Harold Ford, então candidato ao senado, estavam em uma empresa de Nova York onde fariam um almoço de negócios. Abordados pela recepcionista, foram orientados a se dirigir para a cozinha e vestir os uniformes. Ela os confundiu com copeiros ou profissionais de limpeza.

Hobson contou esta história em uma palestra no TED, na qual ela defende a necessidade de discutir o racismo e colocar o assunto em evidência, por mais desconfortável que seja. São argumentos irrefutáveis, pois vêm de uma mulher que faz parte do 1% da sociedade americana e poderia invocar a falácia da meritocracia para contestar a existência de discriminação racial.

Comparado a ela, Morgan Freeman é um canastrão.

Saiba mais: O racismo como ‘faz de conta’

Marcos Sacramento, DCM

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Comentários

  1. ingrid Postado em 09/Jun/2014 às 13:25

    Concordo com o pensamento dele e acho alguns exageros que leio aqui muito mais perigosos, para a causa.

    • Yohan Postado em 09/Jun/2014 às 14:05

      Não concordo com tudo o que ele disse, mas quanto a segunda parte do seu comentário eu concordo 100%, Ingrid.

    • Aleluia Postado em 09/Jun/2014 às 20:14

      Também concordo com ele! Estamos evoluindo, globalizando e nos miscigenando. Quanto antes pararmos de nos identificarmos com cores de peles ou nacionalidades, para focar no fato de que somos todos seres humanos mais integrados seremos.

  2. Eduardo Postado em 09/Jun/2014 às 13:34

    Morgan Freeman está de parabéns por sua coragem e independência de pensamento.

    • Eduardo Postado em 09/Jun/2014 às 20:09

      Ele, até pela idade que tem, com a fama que ele construiu, com a grana que ele deve ter, deve estar como cavalo em parada de 7 de setembro, no Brasil..... cagando e andando enquanto nós ficamos debatendo as falas dele.... ele fala o que quer, e pode fazê-lo afinal de contas ele mora no país que ostenta a maior democracia do mundo... e o princípio dela é este. Até besteiras se ele quiser.

  3. Peterson Silva Postado em 09/Jun/2014 às 14:52

    "Mas ao negar o racismo, além de cego, ele se transforma num inocente útil." ==> SABE DE NAAADA, INOCEEENTE!

  4. Eduardo Benatti Postado em 09/Jun/2014 às 14:56

    Pelo menos em parte ele está certo. O problema do acesso dos negros a bens e serviços de qualidade no Brasil é mais uma questão de serviços públicos falhos do que racismo. Há racistas? Há. Mas se a educação pública fosse de qualidade, por exemplo, os negros e todos os alunos de escolas públicas teriam mais facilidade ao acessar o ensino superior público, cargos públicos e etc. E outra, essas ONGs que ficam fazendo auê por qualquer coisinha (vide o tal panfleto do ladrão na sombra) no final tendem a piorar a visão dos brancos em relação aos negros; ninguém gosta de coitadismo.

  5. José Ferreira Postado em 09/Jun/2014 às 15:27

    Só porque o Morgan Freeman não é coitadista a esquerda o ataca. Eu votaria nele para presidente, mesmo sendo estrangeiro (existem tradutores).

    • Eduardo Postado em 09/Jun/2014 às 20:10

      presidente do Gremio Recrativo Tucanos em Extinção..... acho que também votaria.

      • José Ferreira Postado em 09/Jun/2014 às 23:14

        A esquerda só vai sossegar quando os negros escravizarem os brancos. Até lá eles vão dizer que nunca está bom, até mesmo quando entram na universidade.

  6. Thiago Teixeira Postado em 09/Jun/2014 às 16:05

    "Coitadismo" ... "Os negros foram escravizados pelos próprios negros" ... "Complexo de inferioridade" ... esse discurso clichê dos coxinhas é muito bem satirizado neste quadrinho: https://salafuturamare.files.wordpress.com/2013/08/cotas-didaticamente-melhor.jpg

    • Eduardo Postado em 09/Jun/2014 às 20:12

      Thiago basta assistir "JANGO LIVRE", um filme de faroeste recente, e o que vc fala é comprovado.

    • Carlos Prado Postado em 09/Jun/2014 às 23:28

      Só que há um problema nesse quadrinho. Na vida real os personagens do primeiro quadrinha não são os mesmo do segundo. Uma coisa é os escravistas indenizarem os escravos. Este seria o correto e o plano inicial, antes da proclamação da república. Uma pena que os republicanos não mantiveram o plano inicial. Porém não podemos ensacar todos os negros num grupo e todos os brancos em outros e dizer que o mesmo negro que foi escravizado é o negro de hoje. São homens diferentes, que tem em comum apenas a tonalidade da pele.

    • Rodrigo Postado em 10/Jun/2014 às 00:01

      (Outro Rodrigo) Thiago, não se trata de estabelecer discursos estanques e indivíduos incomunicáveis, como que em busca de uma verdade universal e imutável, estabelecendo eternos inocentes e eternos e odiosos culpados; lembrar que os negros eram aprisionados e vendidos como escravos por outros, negros para alguns realmente pode ser veículo para negar a existência do racismo, ao que outros (como o meu caso) atentam para isso a fim de negar um maniqueísmo necessário (lembrando-se que a origem da palavra escravo remete a eslavo, povo branco escravizado por brancos) - que cada um responda por sua parte da culpa, ou melhor, que todos tenham consciência de suas responsabilidades, a perfeição não sendo atributo do ser humano (caso contrário, eu, descendente de negros, brancos e índios, entraria em conflito para descobrir o quanto sou credor e devedor de mim mesmo). Evitemos, pois, o '"nós" e "eles"', a fim de que não esqueçamos a condição comum de humanos e cidadãos, incorrendo em círculo vicioso no qual apenas é alternado quem tem o poder de decidir quem é "melhor" que quem, ao revés devendo ser visado o exemplo e evitada reação de mesma intensidade, em sentido contrário. Isso ou o ser humano seguirá se setorizando na busca de uma etiqueta, uma definição (não bastando a condição humana), unicamente a fim de contrapor-se e, neste "grupo", buscar a hegemonia e liderança (na política, na religião, em qualquer grupamento humano), como um fim em si mesmo. Partamos, pois, de um pensamento inicial no sentido da disposição comum aos mesmos vícios e virtudes, à capacidade comum (hoje lia notícia de uma catadora de latinhas e um morador de rua que deram-se ao esforço e foram aprovados em concurso público, ao que vejo a história de tantos que hoje têm mais que outros, sendo que, no passado, tinham muito menos que tantos mais - excluídos, claro, todos os que melhoraram de vida desonestamente) que, claro, comporta fomento, em seguida passando todos a atentar para a necessidade de melhoria na base, especialmente na educação (seguidamente temos resultados sofríveis nas avaliações de nosso ensino público), verdadeiramente conferindo igualdade de condições a todos quanto ao futuro - não é por a criança não votar, que seu direito a ensino de qualidade deve seguir, desde sempre, sendo esquecido, seja pelo governante que for, sem solução de melhoria ou exercício do dever de cobrança pelo cidadão (não discuto cotas, mesmo porque já afirmadas constitucionais pelo STF, apenas lembrando que as crianças, negras, brancas, pardas, todas de baixa renda, todas igualadas pelo ensino deficiente, seguem esquecidas).

  7. felipe p Postado em 09/Jun/2014 às 16:56

    Aulasdeportuguesepoliticaparacoxinhas.net

  8. felipe p Postado em 09/Jun/2014 às 17:00

    Vou repetir uma frase que postei em um canal do youtube há um bom tempo: "Nossa saúde e educação encontram-se no mesmo nível de atraso e superficialidade do que o racismo (em seus devidos lugares e contextos). Pois bem: já que o nosso amigo "homem livre" disse que resolveremos o racismo descarado parando de falar sobre o mesmo, que o façamos com a saúde e a educação. Paremos de falar como a nossa saúde e, pior, nossa educação está, para ver se resolveremos". Exercício proposto. Mãos à obra.

    • Pereira Postado em 09/Jun/2014 às 17:04

      Tu é esquerdista igual ao guilherme boulos ? esquerdista burguês com dor de conciência ? Faz um movimento de "luta de classe" e manobra os idiotas úteis de Lênin e ganha uma grana como ele faz. Mas eu acho que nem pra manobra meia dúzia de pobres coitados tu consegue.

    • Pereira Postado em 09/Jun/2014 às 17:08

      Deixa eu dar uma sugestão : Diz que todo o mundo que gosta de fazer sexo com animais tem seus direitos. diz que eles têm o direito de casar e montar "famílias" inter espécies. Da quase na mesma que o movimento gay.

      • Alice Postado em 09/Jun/2014 às 23:30

        o que diabos o movimento gay tem a ver com isso? e na boa, me da nojo de quem faz esse tipo de comparação

    • Felipe P Postado em 09/Jun/2014 às 21:11

      Existem dois tipos de monólogos: aqueles ensaiados e apresentados como arte, nos teatros e cinemas, e outros que uma pessoa faz quando não tem amigos, nem argumentos suficientemente dignos de uma reposta. Escolhe o teu e sê feliz. Abração, Pereira burrão.

    • Carlos Prado Postado em 09/Jun/2014 às 23:31

      O melhor era que os governantes realmente não fizessem nada pela saúde e pela educação e deixasse quem entende do assunto e tem vontade de resolver fazer alguma coisa. Aí poderíamos ver surgir diversas escolas, de diversos preços e diversos métodos pedagógicos. As melhores se destacariam e seus métodos de certo que seriam copiados por muitas outras, teríamos grande oferta de de cagas em escolas, ensinos direcionados às dificuldades e níveis de cada um e professores autônomos ora dando aulas para pequenos grupos de alunos que os contratassem ora dando aulas voluntárias para quem não pudesse pagá-los. O mesmo à saúde, onde temos um exemplo real em El Salvador de saúde desregulada e livre de burocratas parasitas.c

      • lucas Postado em 10/Jun/2014 às 00:15

        Cara vc sonha demais a educaçao no Brasil e livre e e praticamente livre de burocracia...mesmo com o MeC existe a infinidade de metodos pedagogicos...os melhores sao mais caros e acessados exclusivamente pelos ricos simples assim...isso se chama maximizaçao do lucro pressuposto basico do capitalismo...

  9. Marcelo Postado em 09/Jun/2014 às 23:28

    Recomendo que, quem concorda que a questão racial não é um problema, que faça o teste do pescoço. Onde estão os negros do Brasil?

  10. leonardo Postado em 09/Jun/2014 às 23:35

    A maioria da população brasileira é parda, aqui é uma sociedade de castas não se pode dividir tão bem em negros e brancos.

  11. Ana Eufrázio Postado em 10/Jun/2014 às 13:54

    Sinto muito por ele.

  12. Gabriel Postado em 15/Jun/2014 às 13:48

    Comentários coxinhas dignos do globo.com

  13. Maurício Palhano Postado em 20/Jun/2014 às 05:39

    Exageradamente esquerdista. É inegável que a desigualdade social ainda exista, mas o que me vem em mente aqui é que o esquerdismo quer nos puxar para trás, como se ainda vivessemos nos tempos da escravidão. O abismo ainda existe, porém muito foi conquistado, e Obama está ai como maior prova, e ampliando o leque vemos Dilma na presidência e tantos outros ganhos. Não atribuo o coitadismo a direita, e sim a esquerda...