Redação Pragmatismo
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Índios 06/Jun/2014 às 19:03
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Índio supera preconceitos e conclui mestrado na UnB

Índio supera adversidades e preconceitos e conclui mestrado na UnB. Makaulaka Mehináku Awetí tem 34 anos e seu povo vive no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso

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Professor na aldeia onde vive, no Parque Indígena Nacional do Xingu, Makaulaka diz que a sua conquista é histórica: protagonismo (UnB)

A entrada de alunos indígenas nas universidades brasileiras, apoiada pelo sistema de cotas sociais, tem permitido avanços importantes que vão além da promoção da diversidade no curso superior. A história de Makaulaka Mehináku Awetí, 34 anos, é exemplo disso. Na última semana, ele concluiu o curso de pós-graduação na Universidade de Brasília, com um trabalho sobre a estrutura linguística do idioma homônimo de seu povo, os Mehináku, que vive no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso.

Para o agora mestre, a conquista é um avanço histórico. “As línguas indígenas, de modo geral, estão sob análise dos linguistas não indígenas. Ser pesquisador da minha língua coloca o índio como protagonista de sua história”, define.

Especialistas no tema concordam com Makaulaka e acreditam que a presença cada vez mais frequente de índios na academia, não apenas como fontes de trabalhos, é sintomática.

Na opinião da orientadora do projeto de Makaulaka e representante do Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas (Lali/IL) da UnB, Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, a importância de aproximar os indígenas da universidade supera o rico intercâmbio de culturas e de pontos de vista. “Eles se encantam ao entender com o olhar de linguista, as estruturas de sua língua e as funções que cada elemento que a constitui tem ao expressar sentimentos, emoções, pensamento e cultura de um modo em geral”, explica.

Fundado em 1999, o Lali esperou 10 anos até a primeira defesa de dissertação de mestrado de um indígena. Em 2009, Edílson Baniwa defendeu projeto sobre o idioma nhegatu, do povo baniwa, que vive no Alto Solimões, no Amazonas. Desde então, há uma seleção especial, na qual os índios não precisam fazer provas de inglês, pois o português já é a segunda língua deles.

O trabalho de Makaulaka — que ingressou na UnB após concluir a graduação em Mato Grosso —, é um dos seis mestrados do Lali feitos por indígenas já concluídos. “É importante para nós sabermos como a ciência acadêmica estuda e analisa a nossa língua. Digo, ainda, que a universidade tem muito a avançar nisso, para não ter apenas o ponto de vista do branco”, afirma o pesquisador.

A orientadora de Makaulaka confirma a riqueza da experiência e destaca que o contato com esse alunos vai além da relação profissional. “Para mim, é uma satisfação indescritível. Aprendo e cresço com eles. Sinto como realização da minha missão, razão das mais importantes”, emociona-se Ana Suelly.

De volta para casa

Logo após defender a dissertação, Makaulaka voltou para o Xingu, onde retomou as atividades de professor — tanto em mehináku quanto em português. “Como eu já dava aulas antes, já pensava em voltar a lecionar para o meu povo”, conta o rapaz. “Mas eu precisava me aprofundar nos estudos para ser um profissional melhor”, confessa.

A pós-graduação de Makaulaka não será a única boa notícia no Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas em 2014. Este ano, haverá a formatura dos dois primeiros doutores indígenas da UnB. Um deles é Joaquim Paulo de Lima Kaxinawá, 51 anos, que defenderá tese em outubro. A ideia do trabalho, intitulado Gramática Hunikuin, é ser a primeira obra escrita na língua hunikuin, falada no Acre, na fronteira com o Peru, às margens do Rio Purus.

“Quero que ele seja utilizado em escolas do meu povo. A língua só vive quando é estudada por alguém que a fale no dia a dia”, afirma Joaquim. “A palavra kaxinawá, por exemplo, já foi grafada com a letra c no lugar de k, com ch no lugar de x, com u no lugar de w. Daí, não temos uma linguística unificada, o que só incentiva os jovens a migrarem para o português e deixar a língua mais perto da extinção”, continua.

Correio Braziliense

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Comentários

  1. Carlos Prado Postado em 08/Jun/2014 às 18:26

    Bela história. Mostra que a oportunidade está aí para todos. Que os índios possam se integrar cada vez mais ao resto da sociedade quando queiram e não sejam apenas usados para jogos políticos.

    • Carlos Prado Postado em 08/Jun/2014 às 21:35

      E ainda no facebook aparece um belo preconceituoso achando que os índios, por terem nascidos índios, não são seres humanos iguais aos outros seres humanos para poderem escolher viver do jeito que querem. Para ele índio que é índio tem que viver no mato e não deveria usufruir das conquistas da humanidade que não são exclusivas dos "homens brancos" - não é "coisa de europeu", não foi descoberto pelos europeus apesar de muita coisa ter sido desenvolvida por homens que eram dentre tantas coisas europeus pois tiveram em seu meio oportunidades que querem negar aos índios por não ser "coisa de índio".