Redação Pragmatismo
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Copa do Mundo 14/Jun/2014 às 18:50
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Europeu beija repórter ao vivo. E se fosse um pedreiro?

Europeu branco beija repórter ao vivo; ato é visto como pitoresco. Mais um elemento para debater relações entre opressão de gênero e classe

reporter globo beijo ao vivo croata

Marília Moschkovich, Outras Palavras

Vamos supor que você está fazendo seu trabalho, tranquila, como todos os dias. De repente um desconhecido se aproxima e te dá um beijo. Você nunca viu mais gordo. Mas você está exposta e tem que entregar o trabalho naquele minuto, sendo observada por seus chefes e pela sua equipe. Seria possível uma reação agressiva? E se aquilo se voltasse contra você? Talvez denunciar em seguida? Mas como saber quem era aquele homem?

Essa situação lamentável já consta entre a nada modesta lista de pérolas machistas que vimos e veremos nos próximos 30 dias, ao longo da realização da Copa do Mundo aqui no Brasil (em tempo: não que ela não aconteça da mesmíssima forma em outros países). Enquanto estava realizando seu trabalho, em transmissão ao vivo, a repórter Sabina Simonato foi beijada por um torcedor croata anônimo, na calçada da Avenida Paulista (veja aqui o vídeo).

A abordagem dada pela maioria dos veículos que noticiou é a mesma de sempre, sobretudo porque se trata de um europeu branco com alguma grana pra frequentar copas do mundo, de não de um “pedreiro” (pra voltarmos à velha discussão sobre intersecionalidade e preconceito de classe que rola quando falamos sobre assédio nas ruas): risadinhas, todo mundo achando graça. A própria repórter, inclusive, reage com estranhamento mas tenta se manter descontraída.

Algo me diz, porém, que ela não poderia ter tido qualquer reação ali, ao vivo, no ar, sem que aquilo se voltasse contra ela de alguma maneira. Talvez impondo limites ela passasse por “grossa”, “antipática”, “péssima profissional”, entre outros adjetivos frequentemente direcionados às mulheres que resistem o assédio. Talvez sofresse pesada retaliação de seus colegas, da sociedade como um todo, do veículo para o qual trabalha.

O episódio reacende uma questão que tem estado na boca da internet nos últimos meses, e que infelizmente não depende da Copa: até quando seremos desrespeitadas nas ruas por sermos mulheres?

Reparem que a questão aqui não é um beijo de um desconhecido. É um beijo de um desconhecido num contexto específico. Claramente não solicitado, claramente não consensual. O torcedor croata, ao tascar o beijo na repórter, coloca-a em sua posição de mulher – um corpo disponível. É assim que nos sentimos nas ruas, pontos de ônibus, estações de metrô, e até mesmo em festas e bares quando homens aleatórios se acham no direito de interferirem em nosso espaço físico e psicológico. Sabina Simonato não pediu nem concordou com esse beijo, não importa o quão leve tenha nos parecido sua reação.

Quando dizemos que o feminismo ainda é necessário, é por causa de atitudes desse tipo. Alguém já viu algum jornalista homem sofrer assédio sexual assim, ao vivo? Na frequência com que isso acontece com as jornalistas mulheres (só no último ano me lembro de pelo menos dois ou três casos de grande repercussão aqui no Brasil)? O assédio é uma questão de poder, de lembrar às mulheres que somos “apenas” mulheres. Por isso ele é humilhante, indigno, violento – ainda que venha na forma de um beijo com risadinhas.

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 14/Jun/2014 às 19:41

    (Outro Rodrigo) Não sou a favor de grosserias, de agressões, mas, frente à dimensão do ato no caso concreto (destaco) e ao uso da "conjunção atrapalhativa" "se", questiono mais: e se fosse uma mulher homossexual branca de olhos azuis? Ou indígena, ou negra, ou oriental? E se fosse um repórter e o beijo fosse dado por um homossexual branco de olhos azuis? Ou indígena, ou oriental ou negro? Fiquei curioso quanto a influência do gênero, cor e opção sexual na conclusão do caso.

    • Felype Postado em 15/Jun/2014 às 12:40

      Muito bem colocado Rodrigo!

  2. Thiago Teixeira Postado em 15/Jun/2014 às 09:04

    Se fosse um pedreiro seria assédio.

  3. André Postado em 15/Jun/2014 às 11:35

    Comparar origem com profissão? Nada a ver. E se ele for pedreiro lá na Croácia?

    • Thiago Lopes Postado em 15/Jun/2014 às 14:44

      Eis alguém aqui que não entendeu nada. Nada.

      • André Postado em 15/Jun/2014 às 16:21

        VOCÊ não entendeu o q eu disse. Ele pode ser europeu e pedreiro ao mesmo tempo. Como poderia ter sido um africano ou asiático e empresário ao mesmo tempo. Entendeu, sabichão??? Ou quer que eu desenhe???

  4. Thiago Lopes Postado em 15/Jun/2014 às 14:45

    Alguém pode desenhar pro André, coitado? Eu não tenho paciência

    • André Postado em 15/Jun/2014 às 18:47

      VOCÊ não entendeu o q eu disse. Comparar continente e profissão não faz sentido, é sensacionalismo da manchete. Ele pode ser europeu e pedreiro ao mesmo tempo. Como poderia ter sido um africano ou asiático e empresário ao mesmo tempo. Entendeu, sabichão??? Ou quer que eu desenhe???

  5. José Ferreira Postado em 15/Jun/2014 às 15:23

    O pessoal da esquerda é chato mesmo, e procura implicar até mesmo em um momento de descontração. O rapaz só foi engraçado e não iria estuprar a repórter, e nem daria pelo local em que os dois estavam somado às câmeras. Relaxa pessoal!!!

    • Xablau Postado em 15/Jun/2014 às 18:31

      Então, supondo que um homem te beijasse no rosto enquanto você faz seu trajeto até em casa, um homem que você não conhece e para o qual não deu liberdade de tocar o seu corpo, esse seria apenas um momento tranquilo de descontração no qual você deveria relaxar? Hm...

      • José Ferreira Postado em 15/Jun/2014 às 23:58

        A situação difere do exemplo que você usou. Nesse caso era um torcedor croata (e isso pode ser notado sem muito esforço) que deu um beijo no rosto (e isso é comum aqui na América Latina) e ela não estava sob ameaça, pois ele sabe bem que tem seguranças atrás da câmera e ele é grande mais é só um.

  6. Denisbaldo Postado em 15/Jun/2014 às 15:35

    E se fosse um macaco?

  7. Line Postado em 15/Jun/2014 às 19:44

    Esse post idiota vai ser um prato cheio para os "Mascus" que as blogueiras feministas/petistas/comunistas tanto detestam. Tem esse tipo entre os comunistas também. A repórter aceita o beijo de quem ela quiser.

  8. Isaac Postado em 15/Jun/2014 às 23:36

    Nem precisava ser um pedreiro, bastava não atender o padrão estético eurocêntrico pregado e vendido pela mídia, para ser considerado assédio, ataque, tentativa de estupro, etc, o indivíduo estaria preso até hoje, isso se não tivesse sido linchado até a morte ali mesmo.

  9. Camila Postado em 16/Jun/2014 às 08:22

    A maior besteira do mundo todo essa materia!

  10. felipe p Postado em 16/Jun/2014 às 09:00

    E se fosse o pereira?

    • Thiago Teixeira Postado em 16/Jun/2014 às 12:12

      Bomba: Achei um vídeo do Pereira discutindo com o pai dele: https://www.youtube.com/watch?v=Jz7JoaV1b1E

  11. Jão Da Silva Postado em 17/Jun/2014 às 00:19

    Se fosse um nóia aí sim dava treta. E se fosse negão(não o estereótipo negão da globo, quero dizer negão tipo Diadema) também, mas como pensa a nossa classe média, tudo que é de fora(ou seja, "gringo") é bom.

    • Rodrigo Postado em 17/Jun/2014 às 11:21

      (Outro Rodrigo) "Se" "se" "se" e nada de concreto. É pior ainda que o mundo de "Minority Report", vez que sequer sabe-se qual seria a atitude da mulher, sendo livre o julgamento, sustentado em conceitos prévios, empíricos, mas não pragmáticos, ao final a "ré" sendo aprejada. Claramente o rapaz se aproximou e, sorrindo, beijou a face da repórter (bem diferente de ele tentar agarrá-la, de apalpá-la). Ela consentiu com o beijo e deve ser apedrejada? Queimada na fogueira? Eu, nordestino, descendente de negros, brancos e índios, passo a me questionar se, em verdade, o crime dos dois não é apenas ser branco. . P.S.: por isso questionei, a fim de investigar se tratamos de um pensamento uno ou apenas conveniente, qual seria a conclusão na hipótese de, nas mesmas exatas condições (pessoa que se aproxima calmamente e dá um beijo na face), a repórter, ao contrário, negar o beijo de uma mulher homossexual, de pessoa negra, indígena, oriental, acima do peso: ela correria o risco de ser vista como pessoa que discrimina o outro? P.S.2: quanto a se assustar com a aproximação de um "nóia", se a sua expressão se refere a pessoa em pleno momento de entorpecimento pelo uso de crack, em momento no qual não consegue raciocinar com clareza e fazer os melhores julgamentos, creio que todos aqui buscariam se afastar, temendo, com razão, um ato de violência. Após tal momento de "transe" passar, alguém, que não seja leigo em assuntos de saúde, poderia, com certeza, tentar aproximação e buscar instar o adicto à reinserção familiar e social.

      • felipe p Postado em 24/Jun/2014 às 16:58

        "sustentado em conceitos prévios, empíricos, mas não pragmáticos, ao final a "ré" sendo aprejada.". Bom, segundo o pouco que sei, empírico é aquilo adquirido após a observação ou a experiência sensorial, ou de certa forma no mesmo momento. "Conceito prévio" do que tu falas, seria uma escola (vertente) oposta ao Empirismo que é o racionalismo, com o nome de Descartes. Não mistura as coisas, meu velho. Hume te manda um abraço e quer que o estude.

      • Rodrigo Postado em 25/Jun/2014 às 10:33

        (Outro Rodrigo) Obrigado pela correção, Felipe. Agradeço pelo abraço, o qual retorno. Então te peço para esclarecer o mote da escola filosófica pragmática, contrapondo-se à empírica - a observância localizada, quanto ao preconceito, violência, de alguns, na prática revela que um pensamento tal deve ser aderido a todos que discordem de alguma posição posta? O fato de alguém criticar um aspecto de um governo que se diz de esquerda, necessariamente o revela como alguém que odeia o partido em questão, que quer vê-lo destruído, sendo, então, um inimigo da nação (estou me estendendo para além do ponto específico da notícia, em função de sua abordagem, a fim de questionar o enquadramento do pensamento aqui em voga - se me criticou, é "tudo de ruim, o mal da nação") Questionar "se" "se" "se", "eu acho, então deve ser", é pragmático, vez que já concordamos não ser empírico? Eu te mando um abraço.

  12. Diogo Postado em 17/Jun/2014 às 11:37

    Po! na aprovaram meu comentario?! por que?

  13. Danilo Henrique Postado em 18/Jun/2014 às 10:48

    Poderíamos ficar aqui conjecturando durante horas e horas e horas e horas e horas e horas.... ..e horas... e horas. Mas a questão definitiva é que se um homem se aproxima de uma mulher com a intenção de estuprá-la ou com a intenção de um "namoro cristão ocidental respeitável" a abordagem geralmente não será diferente. O gracejo, a piada, o riso, o atrevimento, uma roubada de beijo faz parte do jogo da conquista O gracejo, a piada, o riso, o atrevimento, uma roubada de beijo faz parte da violência E aí? Como separar um do outro? Vamos criar protocolos formais de conquista e de assédio? kkkkkkkkkkkkkkk A questão é que coisas subjetivas não se objetificam. Então o melhor que podemos fazer é rir do que for engraçado e punir severamente (SE-VE-RA-MEN-TE) o que for violento... O resto é especulação barata

    • felipe Postado em 24/Jun/2014 às 17:00

      Curti.

  14. Rodrigo Postado em 18/Jun/2014 às 16:28

    E se parar de tentar achar problema em tudo? A moça se manifestou? publicou alguma coisa em algum lugar? Parece que vocês se ofende mais que a garota. O vitimismo atinge as vezes até quem não faz parte do grupo. Entendam de uma vez, apenas pessoas vazias e insegura se apoia no SE. Não conseguem criar um problema real e usam o SE.

  15. testemunha binocular Postado em 19/Jun/2014 às 12:31

    Fosse preto, pobre e/ou petista... Se bem que beijar repórter da Globo... Argh... A beleza não é tudo na vida... Pelo menos pra mim...