Redação Pragmatismo
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Direitos Humanos 13/May/2014 às 12:29
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Você é nazista? Porque racista você certamente é!

– Você também é nazista? Porque racista você certamente é!

Levei um baita susto quando vi que a pergunta era dirigida a mim. Na época – 2002 ou 2003 – eu era executivo de uma grande montadora de automóveis, com mais de vinte mil empregados. Tinha, entre as minhas atribuições, a elaboração do jornal interno da empresa, dirigido aos empregados. No jargão das multinacionais, esse tipo de jornal chama-se “house organ”.

Quem me interpelava era um cidadão negro como carvão, enorme, forte… uma porta, como se diz. Ele havia simplesmente invadido minha sala de trabalho apesar dos protestos da minha secretária. Vi, pelo uniforme, que era um operário da área de Fundição e pelo seu tamanho, pelo seu tom de voz e pela sua cara, por um momento tive certeza de que ia levar uma surra. Troquei um olhar com a olhar com a minha secretária e ela entendeu que deveria chamar a segurança.

Enquanto isso, eu ia tentar de acalmar o cidadão. Pedi calma, convidei-o para sentar e pedi-lhe que me explicasse o que estava acontecendo, que eu não estava entendendo nada. Ele se identificou como Diretor de Igualdade de Oportunidades do sindicato dos empregados. Então tirou do bolso um exemplar da última edição do jornal que eu editava. “Essa edição – disse ele – tem 43 fotografias. Nenhum negro. E 54% dos operários desta fábrica são negros. Só posso deduzir que você é racista” concluiu ele. Repassamos juntos o jornal e vimos que ele estava errado: havia a foto de um único negro. Mas ele não admitiu o erro, disse que o fulano era só “moreninho” não era negro de fato.

Concordei com os argumentos dele. Não fazia sentido ter a foto de um único negro – ou de nenhum, segundo ele – entre as 43 fotos da edição. Justifiquei-me explicando como era o processo de elaboração do jornal. Tínhamos dois jornalistas na equipe. A reunião de pauta era na segunda-feira e o jornal circulava na sexta. Os dois jornalistas faziam as matérias, tiravam as fotos e traziam para minha aprovação uma a uma. Eu aprovava as matéria individualmente mas raramente tinha oportunidade de ver o jornal fechado, todas as matérias e fotografias juntas. Mesmo num jornal semanal, o ritmo é de correria.

E confesso: mesmo nas oportunidades que via o jornal pronto, jamais me atentei para o fato de haver ou não haver fotos de negros nas matérias. Eu não era racista e, portanto, não tinha nenhuma preocupação com isso.

O diretor do sindicato acreditou na minha sinceridade e absolveu-me do crime de racismo. Não sem antes combinarmos duas mudanças importantes nos procedimentos de edição do jornal. Primeiro, teríamos que garantir que tivéssemos pelo menos 50% de negros nas fotos publicadas. Não era um número rígido, algumas variações eram aceitáveis em função das matérias. Em segundo lugar, ele passaria a fazer parte das reuniões de pauta do jornal, na segunda-feira. Ressalve-se que ele nunca apareceu nas reuniões. Quando eu o encontrava pela fábrica e cobrava a sua presença, ele alegava estar muito atarefado. Mas nós garantimos, de nossa parte, que nunca circulasse uma edição com uma boa quantidade de empregados negros. E alguns orientais de quebra.

No final das contas, nós acabamos nos tornando amigos e ele garante que na verdade só queria me dar um susto. Conseguiu. Nem ele nem eu trabalhamos mais na empresa mas às vezes nos encontramos para uma cerveja. E todas as vezes, nessas ocasiões, ele faz questão de contar essa história para o resto da mesa, com seu vozeirão proporcional ao tamanho. Segundo ele, minhas mãos tremiam de medo… Puro exagero!

Um fato pitoresco é que, alguns dias depois desse evento, descobri que, na fábrica, ele tinha o apelido de “alemão”. A lição que tirei dessa história é que o racismo está tão impregnado na nossa sociedade que temos que estar atentos para não parecer racistas, mesmo que não o sejamos.

Caiubi Miranda, Direitos Humanos no Trabalho

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Comentários

  1. Tammy Postado em 13/May/2014 às 13:06

    Enquanto cor for critério jamais não o seremos.

    • Lorca Postado em 13/May/2014 às 18:39

      Cor de pele, etnia, origem é característica! Não temos mais que nos envergonhar de ser negros. No entanto, como incomoda um negro que se afirme, né? Fico aqui imaginando por que será....

    • Tarsis Azevedo Postado em 13/May/2014 às 18:39

      126 anos atras, no brasil, cor era o unico criterio para escravizar uma pessoa.

      • eu daqui Postado em 26/Aug/2014 às 12:20

        O criterio pra escravizar por aqui era ter ascendencia escrava.

      • Luiz Postado em 26/Aug/2014 às 15:36

        André Fontes, chega de falar barbaridade. Escravidão existiu em diversas sociedades, inclusive europeias e orientais, mas aqui no Brasil se optou pela escravidão africana, a própria noção de negro (já que na África existiam diversas etnias, é como comparar um alemão com um judeu) foi construída no ocidente. Já passou da hora dos que se julgam "brancos" (vai lá nos EUA pra ser chamado de "chicano", lá tu não é branco não) paguem a conta sim pela cultura escravista do BRASIL. Mas é tanta cara-de-pau nesse país!! Foi uma questão de cor sim! E até hoje sentimos as consequências dessa política escravista racial no Brasil.

  2. eu daqui Postado em 13/May/2014 às 13:15

    Então os mais nazistas são os negros porque cor para eles é critério prioritario e imprescindivel para absolutamente tudo !!!!!!!!!!!!!!!!!!

    • Thiago Teixeira Postado em 13/May/2014 às 14:52

      Certíssimo, somos nazistas. Discriminamos brancos diariamente, meus antepassados mataram e escravizaram muitos brancos. Meus conterrâneos de Cabo Verde são grandes empresários e só contratam negros para cargos executivos e somos contra esse mimimi de cotas, vão estudar brancos preguiçosos.

      • Joao Laion Postado em 13/May/2014 às 15:30

        Perfeito, Thiago.

      • Francis Postado em 13/May/2014 às 15:42

        Boa !!!

      • Sérgio Postado em 13/May/2014 às 18:39

        Kkkkkkkkkkkkk

      • Luan Nascimento Postado em 13/May/2014 às 18:51

        Isso ai, o racismo começa pela ignorância!

      • Juliette Postado em 13/May/2014 às 18:56

        boa resposta

      • Juliana Pereira Postado em 13/May/2014 às 19:01

        rsrsrs adorei

      • Ana Pasqua Postado em 13/May/2014 às 20:10

        Ótimo!!!!

      • Ana Postado em 13/May/2014 às 20:49

        Muito boaThiago! Complementando, esse tipo de pensamento é típico de um país que não reconhece e valoriza suas próprias raízes. Até parece que negros e alguns orientais são vistos a esmo caminhando pelas ruas do Brazil. Está na hora de pararmos de nos desculparmos por não enxergarmos quem somos.

      • Razeviche Postado em 13/May/2014 às 21:38

        Nota DEZ...melhor MIL....

      • Rogerio Munhoz Postado em 13/May/2014 às 22:10

        Muito boa, Thiago!

      • Mayra Postado em 13/May/2014 às 22:20

        Excelente,Thiago!

      • Edson Postado em 14/May/2014 às 00:05

        Touché

      • Joaquim Postado em 14/May/2014 às 00:20

        Resposta em altíssimo nível.

      • Luiz Chaimsohn Postado em 14/May/2014 às 10:04

        O discurso do tal do "eu daqui' para um ignorante, analfabeto politico, certamente é muito correto. E infelizmente essa ideia grotesca de que o Negros são racistas, tem sido muito disseminada pela grande mídia , prova disso é que se não fosse , o faustão teria vindo em publico pedir desculpas e reconhecer que FOI SIM RACISTA e não vir com um discurso ridículo de que "o Brasil perdeu a graça, não se pode fazer mais piada' e a rede esgoto onde ele trabalha teria no minimo punido ele com uma pesada multa e advertência, mas na verdade a rede esgoto incentiva isso .Parabéns Thiago , tem que apontar todo o erro que foi cometido e cobrar uma postura correta e decente sem ter medo de parecer chato.

      • Elias Postado em 14/May/2014 às 10:51

        Quem escravizou os negros para vender para os escravocratas europeus foram negros da África, por sinal hoje a África é o continente mais sanguinário e miserável do planeta terra, e a culpa são deles e não do capitalismo malvado, o Japão foi destruído dezenas de vezes e está de pé, cada nação é responsável por sua história, essa história de homem branco malvado é conversa fiada, todas as etnias do planeta foram escravizadas e maltratadas durante a história. Hoje temos dia no negro, dia da cultura negra, programas para negros, ora se isso não é racismo eu não sei o que é. Camiseta 100% negro pode agora sai na rua com uma 100% branco para ver o que ocorre. O racismo negro existe mas é tratado como defesa de uma "minoria oprimida", assim como defender os valores ocidentais é algo "fascista" e defender a cultura cigana por exemplo é uma defesa de "minoria oprimida", essa conversa fiada existe justamente para subjugar uma cultura em detrimento de outras.

      • Rodrigo Postado em 14/May/2014 às 11:05

        Só um adendo: parte de minha ascendência (negra), venceu em guerras seus iguais, aprisionando-os e vendendo-os como escravos a outra parte de minha ascendência (brancos). Esta segunda parte de minha ascendência tentou escravizar a terceira parte de minha ascendência (índios), mas não teve sucesso. Escravo vem de eslavo, povo "branco" escravizado. O Boko Haram, formado por negros, assassinou muitos negros e sequestrou várias meninas, para serem vendidas como escravas sexuais (agora quer trocar a metade, que ainda não foi vendida, por prisioneiros). Enquanto não enxergarmos que o racismo tem de ser combatido em todos (que todos se dispõem à luta pela supremacia de seu "grupo" étnico, religioso, "racial", político etc.), sempre duramente, estaremos apenas justificando "nossos iguais", quanto à reiteração dos "iguais dos outros". P.S.: quanto a mim, em quanto seria credor e devedor de mim mesmo? E quanto às gêmeas Candice e Aleisha, bem como Tyrelle e Tyreece Charles, uma branca e outra negra, quem nasceu credora e quem nasceu devedora? A tal o critério único da quantidade de melanina nos leva, sem considerações outras.

      • Hudson Postado em 14/May/2014 às 11:28

        Boa, Thiagão. Deu no oco.

      • Nicole Postado em 14/May/2014 às 12:57

        Palmas! :)

      • André Vieira Postado em 14/May/2014 às 13:41

        Excelente!

      • eu daqui Postado em 26/Aug/2014 às 12:22

        Reafirmo e insisto: se a cor ser critério é sinonimo de nazismo, os negros são os mais mais, sim: até praescolher parceiro/conjuge eles priorizam esse critério. Ainda bem que sou ignorante e priorizo o critério moral.

      • Jaqueline Postado em 27/Aug/2014 às 19:37

        É assim que se joga a verdade na cara dessa gente, Thiago. Mandou muito bem!

    • Renato Postado em 13/May/2014 às 19:05

      Podia dormir sem essa, hein

      • Leonardo Postado em 13/May/2014 às 20:17

        "pois quando o negro fala o branco cala e deixa a sala com veludo nos tamancos.", receba, sacaninha!

      • Cláudia Postado em 13/May/2014 às 20:18

        Putz, detonou!!

    • Luiz Chaimsohn Postado em 14/May/2014 às 10:05

      tipico discurso de coxinha reaça e alienado

    • Luiz Postado em 26/Aug/2014 às 15:42

      Os nazistas não tinham critérios apenas pela cor, eram critérios étnicos e preconceituosos, inclusive tu, latino, sofreria com o nazismo alemão assim como os homossexuais e judeus sofreram. Aqui no Brasil existem negros originários de diversas etnias africanas, que foram sendo apagadas com a escravidão até chegar ao generalismo de negro. Vai estudar um pouco antes de falar besteira. Resumir o nazismo como "critérios de cor" é de uma ignorância assustadora

  3. Raíssa Postado em 13/May/2014 às 16:00

    Nada a ver com o assunto, mas é de suma importância para o Brasil: "Ruralistas entram na Justiça contra ‘lista suja’ Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária tenta acabar com cadastro de empregadores flagrados com trabalho escravo" http://www.brasildefato.com.br/node/28486

  4. Leandro Postado em 13/May/2014 às 17:18

    Na verdade as vezes somos racistas mesmo achando que não somos. Isso é natural pra o brasileiro, é como respirar. Você reclama do governo que não te dá aumento de salário, exige seus direitos e blah blah blah, mas quando é sua empregada doméstica (aquela que você tanto ama e trata com respeito) quem pede o aumento, aí você pensa: - "Esses nêgos já tão querendo demais, é muita ousadia."

  5. Pereira Postado em 13/May/2014 às 17:33

    Parece uma tática de esquerda mesmo: ou tu faz e fala o que a gente manda ou tu é reacionário, racista, coxinha e vamos te preocessar e etc. Quem disse que a intimidação não dá certo ?

    • B. Ferreira Postado em 19/Jun/2015 às 12:51

      Você sempre defecando pelos dedos, minha nossa.

  6. Lorca Postado em 13/May/2014 às 18:37

    Critério pra que? Ser negro é uma característica e não temos mais que nos envergonhar dela. Por que será que incomoda tanto um negro que é orgulhoso de ser negro?

  7. medeiros Postado em 13/May/2014 às 19:19

    Já observei isso em revistas de publicação nacional, como Veja e Isto é e constatei exatamente isso. Praticamente, em todas as reportagens e propagandas, o numero de negros era quase sempre zero. As exceções ficavam para os casos em que a pessoa de quem se falava na matéria era negra, tipo esportistas. Podem abrir a uma revista dessas e todos poderão observar isso.

    • Guilherme Postado em 14/May/2014 às 02:29

      Nestas revistas, negros só aparecem na sessão de esportes e na sessão policial...

  8. Cidadão Postado em 13/May/2014 às 19:50

    "temos que estar atentos para não parecer racistas, mesmo que não o sejamos" É mais fácil ser e não parecer do que parecer e não ser. Tu também pode SER e não PERCEBER.

  9. Diego Postado em 13/May/2014 às 20:26

    Pergunta para os "cotistas" ja que as cotas representam esperança de estudo para os negros oque fazemos com os brancos, índios e asiáticos pobres que tambem não tem oportunidades ?????

    • Fernando Postado em 14/May/2014 às 15:39

      Diego, eu não quero parecer mal educado, mas eu poderia elencar vários argumentos para a sua pergunta, mas vou resumir em um e lhe fazer outra pergunta: Eu como ex aluno cotista (recebi o prêmio de segundo melhor aluno do curso entre mais de 80 pessoas) enxergo as cotas como solução para um dos grandes problemas sociais brasileiros e que este artigo trata...A representatividade dos negros, procure dados sobre a quantidade de negros e pardos em profissões como médicos, advogados, políticos entre outros...Como um país se se auto-declara miscigenado tem em suas esferas de elite uma maioria esmagadora de brancos (por ex no meu curso dos mais de 80 somente 3 eram negros e pardos). E sobre os brancos, índios (que fazem parte das cotas raciais) e asiáticos pobres, todos tem programas específicos de inclusão no ensino superior, no caso dos negros e índios além do problema do acesso, há esse problema da representatividade. E para você entender o peso desta questão exemplifico com uma frase que uma amiga (branca) muito próxima me disse, "Não existem negros nas faculdades porque eles só querem saber de cantar pagode e jogas futebol" Esse pode não ser seu pensamento sobre a questão, mas nos da a ideia de que hoje nós realmente só temos destaque para negros nestas posições, oque influencia muita a identidade dos jovens negros no país, enquanto não tivermos muitos negros como médicos, políticos, advogados estaremos perpetuando este "apartheid" velado. Indico a leitura de outros artigos neste site sobre as cotas, elencam vários outros argumentos bem interessantes. Por fim gostaria de devolver a pergunta para você: Todos achamos que a escravidão foi a muito tempo atrás, mas sabendo que meu bisavô foi escravo, você realmente acredita que com o passar destes cento e alguns anos a população negra já alcançou uma representatividade igual aos brancos em esferas da elite da sociedade?Se não, qual é então a razão? Fico aberto para ouvir seus argumentos...Abraços

  10. Daniel Postado em 13/May/2014 às 23:51

    E é assim no dia a dia, o racismo parece escondido, mas está a minha frente todos os dias e a cada dia eu o derrubo, assim foi desde criança e assim será para sempre.

  11. Rafael Martini Postado em 13/May/2014 às 23:58

    Muito bem escrito o texto. E realmente, com algumas exceções, a mídia ainda insiste em retratar o brasileiro como as pessoas da família do comercial de margarina, e isso pode acabar refletindo em como nos percebemos enquanto povo (ou deixamos de fazê-lo).

  12. Francisco Postado em 14/May/2014 às 09:42

    Numa sociedade em que o padrão é o racismo, ao ponto de ser difícil de perceber, por ser tão ubíquo quanto o ar, não se preocupar com questões raciais é sim ser racista. Do ponto de vista do discriminado, não importa nada se o discriminador tem ou não consciência subjetiva de que é objetivamente um racista, e não se deixa de ser racista por ignorar o fato, apenas depõe contra a própria capacidade de percepção. Só confrontado com a possibilidade de ser acusado de nazista, um racista integral e assumido, é que se pode tentar mudar a sua atitude objetiva e não cair nas armadilhas do racismo.

  13. Nicolau Postado em 03/Jul/2014 às 21:14

    Todos no mundo são nazistas, só que quando o nazismo caiu da moda depois de 1945, todos os covardes se declaram de "patriotas e nacionalistas", por medo e covardia pra não ser chamados de "nazistas" e irem pra cadeia como tal!

  14. Marcos Postado em 26/Aug/2014 às 09:22

    Já reparei nisso na revista "Blitz Universitária" do CEUT, faculdade do Piauí. Procure uma negra na capa e não achará uma só. Até parece que é faculdade de SC, e não do PI.

  15. Maurício Ruiz Postado em 26/Aug/2014 às 10:43

    Se existe racismo? Bom é só ver quantos negros aparecem nos comerciais de manteiga, ou quantos negros aparecem sendo bem sucedidos no trabalho e não como empregados,pagodeiros ou ainda jogadores de futebol.O padrão de beleza já foi instituído a séculos pelos "colonizadores".E isso perpetua infelizmente até hoje. Como disse MV Bill : " Sociedade hipócrita só lembram que eu sou brasileiro na copa"