Redação Pragmatismo
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Racismo não 07/May/2014 às 18:11
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Pelé e Anderson Silva precisam aprender com Kareem Abdul-Jabbar

Enquanto Pelé é indiferente e Anderson Silva acredita que ”há outras coisas mais importantes para se preocupar”, Kareem Abdul-Jabbar fala da necessidade de encarar o racismo de frente

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David Campayou, o torcedor espanhol que arremessou uma banana em direção a Daniel Alves, se defendeu. É mentira que seja racista. Para ele, “tanto faz se uma pessoa é negra, branca ou chinesa”, mas “o mundo é mais complicado”.

Donald Sterling, o dono do time LA Clippers flagrado numa conversa em que mandava a namorada não se meter com negros, negou o racismo. Ele “não se importa se alguém é branco, preto, amarelo ou púrpura”. Mas “é assim. Nós vivemos numa sociedade, numa cultura. Eu não posso mudar a cultura. É grande demais”.

O que eles têm em comum?

Kareem Abdul-Jabbar, num bom artigo para a Time, fala do “racismo situacional”, algo que se aplica a ambos os casos: como na ética situacional, o racismo, hoje, não tem mais um só modelo ou padrão e sim um contexto que determina a escolha moral correta. É um princípio flexível, em que nós agimos levando em conta a maneira como a ideia de raça é encarada atualmente, e não como gostaríamos que fosse.

Ele ilustra com um clichê: você encontra na rua uma grupo de negros tatuados. Se você mudar de calçada, está sendo racista ou realista?

Jabbar é um ex-jogador de basquete americano. Atuou durante 20 anos na NBA e ganhou tudo. Muitos o consideram o maior de todos os tempos. Depois que se aposentou, teve uma breve carreira como técnico. Virou conferencista, escreveu o roteiro de um documentário e ganhou um cargo honorífico de embaixador da educação do governo.

Sua formulação se aplica ao Brasil e ao mito da democracia racial que se acreditava haver aqui. Talvez a pior forma de discriminação, acredita ele, seja declarar que ela não existe ou que é culpa do sistema. Ecoando Sterling, Pelé afirmou que “isso tem em todos os setores da sociedade há muito tempo”. Em entrevista à Trip, Anderson Silva declarou que ”tem outras coisas mais importantes em que a gente tem que focar e gastar mais energia”.

Para Kareem Abdul-Jabbar, todo o mundo tem o racismo no coração: “Sentimo-nos mais confortáveis em torno de pessoas com aparência e experiências parecidas. Mas, como seres humanos inteligentes, educados e civilizados, lutamos contra reações automáticas porque muitas vezes elas estão erradas e, finalmente, porque são danosas”.

“A boa notícia será quando o racismo acabar, não quando as pessoas afirmarem que ele não existe porque, pessoalmente, não o notam”, escreve. “É por isso que o jeito mais efetivo de combatê-lo em face dessa atenção seletiva e do racismo situacional é expor todos os casos que encontrarmos”.

Kiko Nogueira, DCM

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 07/May/2014 às 18:31

    O Negro quando vira branco aos olhos da sociedade, começa a embranquecer por dentro. Isso infelizmente é normal quando passa a não mais sentir o preconceito na pele, sentimento esse que só nós negros sabemos como é.

  2. Alexandre Postado em 07/May/2014 às 20:26

    Deixa eu ver se entendi... vocês querem obrigar negros a "combater" racismo do jeito que vocês querem, é isso?? Se a pessoa não se ofende com algo, vocês agora querem dizer que ela deve se ofender??? Ta todo mundo louco, todo mundo querendo mandar verdades e leis. Na boa, vão carpi

    • Renaldo Postado em 08/May/2014 às 10:39

      se o filtro do racismo fosse apenas por ofensas verbais, a situação seria infinitamente melhor do q a atual. O problema é a pessoa perder o emprego para outra por causa da cor da pele. O negro ainda tem mais dificuldades para ser aceito na sociedade, e sobre isso não restam dúvidas.

      • eu daqui Postado em 08/May/2014 às 11:21

        O negro também tem dificuldade de se aceitar também.

      • Alexandre Postado em 08/May/2014 às 12:40

        Concordo plenamente com você...

  3. Neuza Palaro Postado em 08/May/2014 às 01:28

    Não sei para que se preocupar com opiniões ou qualquer atitude que venha de pelé, um sujeito que renegou a própria filha. Ele é a última pessoa que se fosse negra, queria que fizesse algo por mim.

  4. Ciro Messias Postado em 08/May/2014 às 09:56

    Quando se diz que temos o racismo como uma coisa institucionalizada, e as pessoas debocham dizendo que os negros se vitimizam tanto, que o sistema é igual para todos, etc, um pouquinho da minha esperança em ver um mundo mais igual para os iguais morre. Não que eu não a alimente. Mas veja se é possível continuar crendo nessa utopia ouvindo uma pessoa dizer que não é racista, inclusive é casada com um negro, "mas cabelo de preto é muito ruim mesmo". Peraí! Ruim pra quem? Quem foi que convencionou que o cabelo liso é que é bom? Isso me dá nojo. E as pessoas continuam se enganando pensando que no Brasil principalmente, um país de uma cultura plural, não existe racismo.

  5. Bruno Postado em 08/May/2014 às 10:30

    Pro negro rico não existe racismo.Mas para o negro pobre...

    • tchekowski Postado em 08/May/2014 às 11:47

      Dizem que o Pelé recebeu em Nova Iorque um brasileiro que reclamava do racismo no Brasil, no que o Pelé respondeu: "eu sei como é. Já fui preto." Realmente é a condição financeira do indivíduo que define o tamanho do racismo contra si. Quantos médicos negros você conhece? E promotores? E juízes? Joaquim Barbosa é exceção e foi ungido ao cargo através do marketing político do tipo "fui eu quem nomeou o primeiro negro ministro do STF". Seres humanos negros foram escravizados por mais de 300 anos e essas foram as piores páginas da história da humanidade. Muito pior do que o holocausto promovido por Hitler.

      • Thiago Teixeira Postado em 08/May/2014 às 18:17

        E se não fosse o Lula, jamais teríamos um negro do SFT, numa pasta ministerial (Tá bom vai, Pelé foi ministro dos esportes a um tempo atrás, mas ele não é mais negro). Podem falar o que for, Serra faria isso? Tem alguma figura negra nos cargos executivos do PSDB?