Redação Pragmatismo
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Drogas 02/May/2014 às 18:38
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Mujica explica legalização da maconha no Uruguai

“Nós visamos o tráfico de drogas... Essa não é uma lei de apoio ao vício. É uma maneira de lutar contra a economia do mercado negro. Todo vício é uma praga, exceto o amor”

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Nos domínios da sua pequena fazenda a meia hora de carro de Montevidéu, José Mujica acabou de fazer sua colheita anual de acelga.

Mas, como presidente do Uruguai, ele vai supervisionar um experimento sem precedentes e um cultivo muito mais controvertido: o país de 3 três milhões de pessoas em breve se tornará o primeiro no mundo a legalizar, regular e participar da produção, venda e taxação da maconha.

A “revolução da erva” do Uruguai está sob o escrutínio de todo o mundo enquanto líderes internacionais lutam com a piora crítica da longa “guerra às drogas”.

Mujica, um ex-guerrilheiro e preso político de 78 anos, virou manchete depois de sua decisão de abster-se do palácio presidencial em favor de sua chácara em ruínas e de 90% de seu salário.

Mas em uma entrevista realizada com o Telegraph na sala da frente de seu mal iluminado bangalô, onde vive há 30 anos, o aquecimento fornecido por um antigo fogão a lenha, ele expressou surpresa com a polêmica internacional.

“Nós visamos o tráfico de drogas”, disse. “Não é uma lei de apoio ao vício. É uma maneira de lutar contra a economia do mercado negro”.

Mujica soa lírico, mesmo quando eu falo do flagelo das drogas. “Todo vício é uma praga, exceto o amor”, diz o presidente, cujo único flerte com abuso de substâncias é o hábito do cigarro.

“Se você tomar dois uísques todos os dias, isso é ok, embora não seja bom. Mas se você tomar uma garrafa inteira todos os dias, então você tem um problema e deve ser tratado.”

Sob a lei nova e radical, que entra em vigor neste mês, não só os cidadãos e empresas privadas estão autorizadas a criar, comprar e vender cannabis, como o governo entrará no negócio – cultivando e colhendo a safra, distribuindo, vendendo e tributando os lucros.

A legislação é muito mais radical do que na famosa Holanda liberal, onde o cultivo permanece proibido, ou nos novos acordos nos estados de Colorado e Washington, onde não há envolvimento direto do governo dos EUA.

Mujica e seus aliados argumentam que a nova política oferece uma alternativa inovadora para o que eles chamam de falhas da “guerra às drogas” defendida pelos EUA na América Latina, que já matou dezenas de milhares de pessoas em países produtores, enquanto pouco é feito nos países consumidores da Europa e nos Estados Unidos.

Com seu principal porto na cidade de Montevidéu e suas fronteiras com o Brasil, Argentina e Paraguai, o Uruguai tem uma experiência como ponto de trânsito do tráfico em todo o continente e para a Europa.

“A droga é produzida principalmente na América Latina, mas os maiores consumidores são os países ricos”, diz Mujica, ecoando um lamento familiar aos líderes da região.

A lei tem como objetivo dar um golpe nos cartéis através da remoção de um dos seus maiores meios de ganhar dinheiro.

“Se você quer mudar a realidade, é tolice continuar fazendo a mesma coisa em vez de mudar alguma coisa, mesmo que não seja bem-sucedido”, afirma Mujica.

Com a nova lei, os uruguaios serão capazes de comprar uma quantidade limitada de cannabis, que deverá ser de 40 gramas por mês, por um preço competitivo em farmácias ou em balcões normalmente utilizados para o pagamento de contas ou para trocar dinheiro.

Os usuários terão que se registrar em um banco de dados em poder do governo e aqueles que fazem pedidos excessivos serão encaminhado às autoridades de saúde para tratamento. O banco de dados também visa assegurar que só os habitantes do Uruguai comprem a mercadoria e assim reduzir os riscos de turismo da droga.

A lei da maconha é uma das três leis levaram o governo Mujica – em seu segundo mandato com a coalizão de esquerda Frente Ampla – a dar ao Uruguai a reputação improvável de país mais liberal da América Latina. O casamento entre pessoas mesmo sexo foi introduzido em setembro passado, enquanto um ano antes o aborto foi legalizado.

Mas, no país católico e conservador, as pesquisas de opinião têm mostrado que muitos uruguaios não gostam da “revolução da erva”. A oposição vem tanto daqueles que acreditam que isso vai incentivar o uso quando dos que simplesmente não apoiam a “nacionalização” do comércio de cannabis.

Seus críticos citam a recente reação na Holanda, onde a posse de até cinco gramas de maconha é legal desde 1976 e que recentemente proibiu a venda a estrangeiros em seus cafés.

Mujica diz que seus adversários estão simplesmente “assustados” com tal mudança dramática. Também admitiu que a nova lei poderá abrir o caminho para a descriminalização de outras drogas.

Há, entretanto, desafios práticos para a implementação da política nova e ambiciosa porque, por enquanto, o Uruguai não produz o suficiente para atender a demanda.

Os líderes da Frente Ampla, incluindo a senadora Lucia Topolansky, que também é a primeira-dama, sugeriu que produtores canadenses de maconha medicinal preencherão a lacuna nesse ínterim.

“Para começar, teremos que comprar cannabis”, disse ela recentemente. “Eu acho que vamos comprar do Canadá porque ali tem o produto de melhor qualidade”.

Isso era novidade para o Canadá, onde um porta-voz do Ministério da Saúde disse que não havia “nenhum plano” para exportar a maconha para o Uruguai ou qualquer outro lugar.

Para Mujica, o seu papel na vanguarda da política de drogas internacionais é outro capítulo de uma vida notável. Enquanto se prepara para deixar o cargo no próximo ano e planeja criar uma escola para ensinar agricultura em sua amada chácara, o autodeclarado ateísta refletiu sobre seu momento.

“Eles dizem que eu sou um presidente pobre, mas eu não sou”, disse. “Eu sou um presidente sóbrio”.

“Eu me acostumei a viver por muitos anos em uma masmorra, onde nas noites em que eu tinha um colchão eu ficava feliz. Eu não consigo acreditar em Deus, mas acredito a cada dia um pouco mais na natureza. Aprendi essa lição muito simples: a vida é bela, então você tem que vivê-la com intensidade e buscar a felicidade”.

Telegraph

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Comentários

  1. Rodrigo Postado em 03/May/2014 às 05:03

    No Português que todo mundo gosta. "Se não consegue derrotar o inimigo, junte-se a ele"

    • Leandro Postado em 03/May/2014 às 08:41

      Em parte faz sentido, Rodrigo, mas acho que o ditado combinaria mais com o escândalo do HSBC+EUA+Narcotráfico. Os EUA sabem do envolvimento do banco, porem não fizeram nada, nesse caso sim Juntaram-se ao inimigo. No caso do Uruguai ele vai tirar do inimigo!

  2. Francis Postado em 04/May/2014 às 07:35

    No Português que todo mundo é capaz de entender mas alguns não conseguem, se uma estratégia não funciona usamos outra!

  3. Denisbaldo Postado em 04/May/2014 às 13:47

    90% da droga produzida no mundo não é apreendida pelas autoridades. É uma guerra perdida que, além de tudo, cria o mercado negro, o narcotráfico.

  4. Alexandre Lopes Postado em 04/May/2014 às 20:45

    Esse homem é sensacional ! Eu fico encantado com sua simplicidade . Ignorantes são os que dizem que um homem com esse perfil é populista . Ateu, contra a política conservadora ( e burra ) de combate ás drogas, promoveu a legalização do aborto e do casamento homossexual . Se um sujeito desse é populista , eu simplesmente não sei mais o que é populismo . Viva Mujica !!

  5. Paulo F Postado em 04/May/2014 às 22:54

    Bom,pelo o que aprendemos com a Holanda,a tendência é um ''boom'' de liberação de drogas seguido por restrições gradativas.

  6. luiz carlos ubaldo Postado em 05/May/2014 às 08:50

    Parabéns Mujica pela decisão corajosa, esta guerra esta perdida do jeito que se vem combatendo o narcotrafico, os países produtores só tem empobrecido, já os consumidores ganham verdadeiras fortunas as custas dos mais pobres, viva Mujica!

  7. Allysson W. Postado em 05/May/2014 às 09:07

    Grande presidente. Mujica já é um dos grandes nomes do século XXI.

  8. Bruno Postado em 05/May/2014 às 10:46

    Uma dúvida.Pelo texto a cannabis vai ser vendida apenas aos uruguaios.Mas se um estrangeiro obtiver cidadania uruguaia poderá comprar a cannabis?

    • Lucas Postado em 06/May/2014 às 10:07

      Sim, poderá.

  9. igor Postado em 05/May/2014 às 13:53

    Esse é um dos pouquíssimos políticos que merecem o verdadeiro respeito.

  10. Pereira Postado em 05/May/2014 às 14:12

    Puxa vida , então quer dizer que se liberar o narcotráfico vai acabar? é isso que eu entendi ? Vejamos : o que será melhor? comprar um baseado ilegal na boca por, digamos 1,00 real ou comprar um legalizado da souza cruz cheio de impostos por 3,50 ? Vamos acordar minha gente liberar não vai acabar com o narcotráfico, isso é ufanismo da esquerda.

    • Lucas Postado em 06/May/2014 às 10:11

      Pereira, esse problema ai eu enxergo no modelo americano. No Uruguai eles vão taxar o preço de acordo com o mercado negro. A grama na farmácia custará o equivalente ao que custa na boca. E além disso será possível plantar ou se associar a uma cooperativa de cultivo. É inocência acreditar que o narcotráfico vai acabar, mas acredito que sofrerá um grande prejuizo.

      • Pereira Postado em 07/May/2014 às 13:25

        Desculpa Lucas, mas não concordo. Ta na cara que o governo quer lucrar com a liberação e taxar a maconha tanto a cultivada para consumo próprio, quanto a vendida em bares. Assim como se faz com o cigarro e bebidas.O contrabando de maconha vai continuar, assim como há o contrabando de cigarros. Eu acredito que o presidente quer alavancar uma receita nova para seu governo, bem como uma popularidade mundial. Ele fez uma aposta, ninguém sabe ao certo ainda se dará certo. Cabe lembrar ainda que na Holanda, país em que a maconha é liberada a anos, o governo já estuda medidas para restringir e muito o seu uso, pois não reduziu a venda ilegal e criou mais viciados e problemas.

  11. Pereira Postado em 05/May/2014 às 14:14

    Olha que na holanda já se estuda um melhor controle estatal sobre a droga. O número de novos viciados ta crescendo assustadoramente. Na holanda estão percebendo que o "Libera geral" não funciona.

  12. Pereira Postado em 05/May/2014 às 14:18

    ...E tio Mujica pega sua varinha de condão e acaba com as mazelas do mundo !!!! Vejam o caos que esse senhor causou numa cidade chamada Santa vitória do palmar no RS, já há caravanas de drogados para poder fumar do outro lado da fronteira, os moradores da cidade já estão aterrorizados com essa nova espécie de turismo, o turismo da droga.

  13. Pereira Postado em 05/May/2014 às 14:21

    Como num passe de mágica o narcotráfico vai reduzir com a liberação da maconha. Acho que os traficantes estão rolando de tanto rir. Assim como os economistas rolaram de rir quando ele disse para o ricardo boechat que é ele que manda no mercado.