Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 03/Apr/2014 às 15:39
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A pesquisa ibope de 1964 que nunca foi revelada

Pesquisa Ibope realizada dias antes do Golpe de 1964 desmente a tese golpista de que as bases populares do ex-presidente João Goulart estavam corroídas

joão goulart povo
O ex-presidente João Goulart (Arquivo)

Como uma lavagem cerebral, certa historiografia e certo jornalismo buscaram perpetuar no último meio século a ideia de que as bases populares do presidente João Goulart estavam corroídas quando ele sofreu o golpe de Estado em 1º de abril de 1964.

Pesquisa Ibope realizada de 9 a 26 de março daquele ano, às vésperas da deposição, mostra realidade oposta: Jango permanecia com amplos contingentes de eleitores fieis.

“Se o presidente João Goulart também pudesse candidatar-se à Presidência:”

pesquisa ibope jango

“Se a eleição para presidente da República fosse realizada amanhã, em qual destes candidatos você votaria?”

ibope jango 1964

Fonte: “Ibope – Boletim de Pesquisas Especiais (1943-1973). Volume “Ibope – Pesquisas Especiais – 1964 – Vol. 2″.

O levantamento em oito capitais revelou que em cinco, se pudesse ser candidato na eleição presidencial prevista para 1965, Goulart receberia a maioria dos votos (Recife, Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Rio de Janeiro). Em outras três (Curitiba, São Paulo e Belo Horizonte), seu desempenho era expressivo, com percentuais de 41% a 39% dos que responderam que nele votariam.

Como a escolha para o Planalto ocorria em turno único, o resultado impressiona ainda mais.

Acontece que, conforme a legislação em vigor, inexistia direito à reeleição. Sem Goulart (PTB) na cédula, na consulta estimulada com oito candidatos, liderava com folga o ex-presidente Juscelino Kubitschek (PSD), de quem Jango fora vice de 1956 a 1961. O oposicionista Carlos Lacerda (UDN) aparecia como segunda força.

A sondagem do Ibope não foi divulgada nem antes do golpe, nem nos anos que o sucederam. Ignoro o motivo. Desconheço registros sobre quem a encomendou. Seu objetivo era “determinar a opinião do eleitorado das principais capitais do país sobre fatos e questões políticas, administrativas e eleitorais”.

A primeira notícia que tive dela foi no livro “A democracia nas urnas” (Iuperj/Revan), de Antônio Lavareda, publicado em 1999. Busquei mais dados na apuração do meu livro “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras, 2012). Nos arquivos da Unicamp, anos atrás, uma boa alma copiou tabelas para mim, em antigos alfarrábios do Ibope lá conservados.

O instituto constatou que a reforma agrária e a encampação de refinarias particulares de petróleo, que mereciam iniciativas de Jango em março de 1964, tinham aprovação dos eleitores. Ao contrário da legalização do proscrito Partido Comunista Brasileiro, defendida pelo presidente e rejeitada pela maioria dos entrevistados da pesquisa.

É evidente que os eleitores das capitais não representam o conjunto do eleitorado, mas parece incontestável que a dita impopularidade de Jango é lenda.

Legiões espalharam-se país afora pedindo a cabeça do presidente, nas marchas da família de março de 1964. Os manifestantes expressavam um segmento de opinião, não necessariamente o que ia pela cabeça da maioria dos brasileiros. Naquelas jornadas, a direita foi à luta, confrontando medidas do governo.

O presidente, pelo contrário, a não ser em atos pontuais como o Comício da Central, em 13 de março, não mobilizou a multidão que o respaldava.

As marchas da família enganam, como retrato do Brasil inteiro, feito as urnas eletrônicas da zona sul do Rio: se essa parte da cidade escolhesse sozinha o presidente, a candidata Dilma Rousseff não teria ido nem ao segundo turno em 2010.

João Belchior Marques Goulart era o presidente constitucional. Eleito vice-presidente em 1960 (reeleito; para vice a reeleição era autorizada), assumiu a Presidência em setembro de 1961, depois da renúncia de Jânio Quadros e da tentativa de golpe de Estado capitaneada pelo comandantes das Forças Armadas. Em janeiro de 1963, um plebiscito para a escolha entre os sistemas presidencialista, vitorioso, e parlamentarista configurou um eloquente triunfo de Jango.

Em suma, o balanço sincero da história é o seguinte: em 1964, os golpistas rasgaram a Constituição e derrubaram o presidente constitucional. E também um governante com imenso apoio popular.

P.S.: a segunda tabela tem um problema que pode ser do original do Ibope ou do relatório que recebi: faltam 10 pontos percentuais no resultado do Rio de Janeiro. O erro não compromete o quadro geral, com a liderança de JK, seguido por Lacerda.

Mário Magalhães, em seu blog

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Comentários

  1. Elias Postado em 03/Apr/2014 às 16:11

    Deve ser por isso que a população doava dinheiro para os militares na época, o que ocorreu no Brasil não é muito diferente do que ocorre na Venezuela hoje.

  2. Thiago Teixeira Postado em 03/Apr/2014 às 21:41

    É impressionante como desde os primórdios da democracia, o eixo sul - sudeste sempre foi e sempre será coxinha.

    • Thiago Postado em 04/Apr/2014 às 02:43

      Você está enganado. O Rio de Janeiro sempre teve uma esquerda muito forte: foi o estado do brizolismo, o estado que elegeu Lula com a maior diferença para o segundo colocado, e agora é onde o Psol tem sua base principal. Porém, os fluminenses não elegeram Dilma com a mesma vantagem devido às decepções da esquerda do RJ com o PT.

      • Thiago Teixeira Postado em 04/Apr/2014 às 12:27

        Carioca não é esquerdista, ele simplesmente não vota em paulista. Por coincidência, os candidatos paulistas são quase sempre da direita.