Redação Pragmatismo
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Aborto 22/Apr/2014 às 17:08
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O aborto deve ser tema na eleição 2014?

Como cada candidatura vai lidar com a questão do aborto em 2014? Afirmar-se “cristão” ou “pai” ou “mãe” não é resposta, é subterfúgio

aborto legal seguro uruguai
No Uruguai, número de abortos diminui após legalização e não foi registrada nenhuma morte de mulher que realizou o procedimento de maneira legal (Reprodução)

Maíra Kubík, em seu blog

“Não conheço ninguém que seja a favor do aborto”, declarou Eduardo Campos, candidato à Presidência da República, no último final de semana em Aparecida (SP). “Minha posição é a de todos”, completou.

Bom, para começar, eu me reivindico incluída no “todo” da sociedade brasileira e sou a favor da legalização do aborto. E aí? Se há pelo menos uma pessoa que discorda, não temos “todos” a mesma posição, certo?

Além disso, aborto, como crença individual, não deveria ser tema de campanha eleitoral. Se Eduardo Campos teve 5 filhxs e nunca considerou – alguém consultou a mãe das crianças? – interromper voluntariamente nenhuma das gestações, isso é uma questão que diz respeito à sua família, e apenas a ela, ao seu microcosmos. Não tente transferi-la para todas as outras.

VEJA TAMBÉM: “Sou fruto de estupro e a favor do aborto”

É verdade que Campos também mencionou sua posição estrutural: “[a lei brasileira] já prevê as circunstâncias e os casos [em que é permitido interromper a gravidez sem que seja considerado crime]”, disse, defendendo que não há razão para que esses termos sejam alterados. E falou isso diante de membros da Igreja Católica, que clama publicamente pela proibição total ao aborto.

De fato, poderíamos ter aí um caminho para uma discussão legítima. Mas não foi essa a informação que permaneceu nas manchetes, e sim o “não conheço ninguém” do início do texto, junto com sua declaração de ser “cristão”, o que traz flashbacks arrepiantes da eleição de 2010. E o ex-governador, claro, tem interesse que seja essa sua posição divulgada.

É o aborto como direito de escolha previsto em lei e como questão de saúde pública que deve ser debatido pela sociedade brasileira. Mais de um milhão de interrupções voluntárias de gestação são realizadas ilegalmente por ano no Brasil, segundo estimativas do Sistema Único de Saúde (SUS), independentemente da vontade do candidato — ou de qualquer candidatura.

Cálculos da OMS (Organização Mundial de Saúde) indicam que a taxa de mortalidade em decorrência de abortos induzidos varia de 0,2 a 1,2 mortes a cada 100 mil abortos nos países onde a prática é legalizada e, portanto, segura. Naqueles onde não é, o número sobe para 330 mortes a cada 100 mil abortos.

No Brasil, apenas aquelas que possuem recursos financeiros têm acesso à clínicas especializadas. Elas podem pagar não só pelo tratamento médico, mas também pelo silêncio. Ou seja, quem realmente está à mercê das interrupções inseguras são as mulheres pobres, para quem a legislação atual, defendida por Campos, pode significar uma sentença de morte.

Por outro lado, uma pesquisa feita em 2007 pela OMS (Organização Mundial da Saúde) demonstra que nos países onde o aborto é permitido por lei, o número de procedimentos tende a cair – com exceção de Cuba e do Vietnã, onde o acesso a métodos contraceptivos é bastante restrito. Há um crescimento inicial, pela demanda reprimida, e depois isso se estabiliza e há uma diminuição subsequente.

Como cada candidatura vai lidar com essa questão?

Afirmar-se “cristão” ou “pai” ou “mãe” não é resposta, é subterfúgio. Legalizar o aborto deve ser tema da eleição sim, mas junto com um debate de projeto de país e de acesso à direitos e de distribuição da riqueza.

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Comentários

  1. Lopes Postado em 22/Apr/2014 às 17:48

    Por que não?

  2. André Postado em 23/Apr/2014 às 00:19

    Pq não investir em planejamento familiar tb? Será q eh pq não dá notícia nem voto?

    • Luiz Postado em 23/Apr/2014 às 09:17

      Que mania de binarismo! A liberação do aborto não implica em abandonar o planejamento familiar. Muito pelo contrário. Faça uma pesquisa rápida e veja: Nos países onde o aborto foi liberado, o número de procedimentos como estes diminuiu. Isto porque, antes de se realizar o aborto, há todo um acompanhamento médico/psicológico. E mesmo que o número aumentasse: O corpo é da mulher, e apenas dela. Ela deve decidir. Se você é contra o aborto, simplesmente não o faça. A liberação não é uma obrigação.

      • Dalmo Postado em 23/Apr/2014 às 16:07

        O corpo é da mulher, o ser vivo que estiver dentro sendo gerado não.

    • Maximo Postado em 23/Apr/2014 às 14:49

      André, como o Luiz já disse... Nos países em que o aborto foi legalizado, as mulheres recebem um acompanhamento de médicos e psicólogos antes... mas veja, o Estado só pode adotar essas medidas coma legalização... Enquanto é ilegal, ele o aborto é tratado simplesmente como um crime... Situação semelhante à descriminalização do uso de entorpecentes... se o uso é crime, o dependente químico é um criminoso, portanto, cadeia... se não, ele tem condições de receber tratamento e ter alguma chance de recuperação...

  3. Nolah Postado em 23/Apr/2014 às 09:22

    Há vários métodos contraceptivos, eu opto por eles, e sei que se um dia eu me descuidar eu vou engravidar, mas isso não me da o direito de tirar uma vida pelo simples discurso de que "o corpo é meu e eu faço o que eu quiser". Não sou cristã, mas acho que todos tem direito a vida. Sim, uma educação sexual seria MUITO mais plausível do que a liberação do aborto.

    • Leandro Postado em 24/Apr/2014 às 16:38

      Nolah, conheço uma moça que NÃO planejava engravidar, namorava a anos o mesmo rapaz, usa anticoncepcional e mesmo assim engravidou... Ela decidiu abortar e felizmente ocorreu tudo bem. Talvez tenha ocorrido por estar muito recente, o que não é problema, pois vc não está matando ninguém! Até o quinto mês são uma junção de células sem forma ainda, por tanto não há assassinato. Vc foi contra, mas sem nenhum argumento válido, o que me parece ser uma forte influencia do cristianismo.

  4. Marizardo Postado em 23/Apr/2014 às 11:07

    Não concordo legalizar aborto,salvo casos "especiais",porque homens e mulheres,envolvidos na relação sexual,tem opções de evitar a gravidez,já o feto no útero,não tem defesa.Não quer ter filho não transe sem prevenção.vejo muita hipocrisia nesse lance de legalização.

    • Leandro Postado em 24/Apr/2014 às 16:39

      Vejo muita falta de informação e noção de mundo nesse comentários... Até 5 meses não existe nada alem de um monte de células. Por mais triste que vc ache, tem gnt que opta pelo aborto e devem ter todo o apoio do estado.

  5. marcos Postado em 23/Apr/2014 às 11:41

    Cada um tem direito a qualquer opinião, o interessante são os argumentos. Me ajudem a entender. Como o SUS faz a estatística de mortes através de abortos? Se sabe a causa da morte, que é um crime, isto significa que os médicos(ou quem for) foram presos, ou não? Um argumento que ouço, é que a mulher tem direito sobre o próprio corpo. E o direito do homem sobre o filho? Esse direito apenas vale quando a mulher decide da-lo? Ou seja, quero ter filho, então tem que pagar pensaõ para que a gravidez possa transcorrer de forma tranquila(justíssimo). Não quero ter o filho, então não tem mais direito algum. è assim que funciona?

  6. Megara Postado em 23/Apr/2014 às 12:58

    Quer ter um filho? Esteja com uma mulher que tbm o quer, seja naquele momento ou num futuro próximo. Eu pretendo ser mãe um dia, porém nem eu nem meu parceiro temos condições (financeira, psicológica...) para criar um outro ser humano. Tomamos nossas precauções, e admito, se desse algo errado e engravidasse, não sei qual seria minha atitude. Porém, me sentiria mais segura de tomar qualquer tipo de decisão se ambas as opções fossem consideradas direito meu de escolha, para bem do meu futuro e do futuro de meu parceiro.

  7. marcos Postado em 24/Apr/2014 às 10:13

    Megara. Não foi essa minha indagação. A questão é a seguinte: Você engravida. Seu parceiro quer o filho, mas você não. Sendo assim, como o corpo é seu, você pode simplesmente abortar? independente da vontade do pai? Essa é minha dúvida sobre esse assunto.

    • Leandro Postado em 24/Apr/2014 às 16:42

      Marcos, acho que nesse caso é algo a ser discutido entre os dois e talvez até fosse para justiça, porem para isso ocorrer é preciso descriminalizar. Vc prefere que um casal possa discutir isso na justiça ou a mulher gravida tome a decisão sozinho indo ao médico clandestino sem nem mencionar com o parceiro?

      • marcos Postado em 25/Apr/2014 às 07:39

        Leandro, me desculpe, mas a justiça é que vai decidir se um pai tem o direito ou não de ver o seu filho nascer? A pauta dos grupos a favor do aborto e que o corpo e da mulher. Sinceramente, ha muitas incongruências nessa tese.