Redação Pragmatismo
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Ditadura Militar 03/Apr/2014 às 17:59
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Fernanda Montenegro: "Fui ameaçada de morte. O medo e a coragem nos alimentaram"

Fernanda Montenegro: ‘O medo e a coragem nos alimentaram. Fomos audaciosos’. Atriz, de 84 anos, conta que foi ameaçada de morte e, dias mais tarde, uma bala estilhaçou a janela de seu quarto

Por Fernanda Montenegro

Penso que também para muitos de nós da área cultural não é fácil lembrar o golpe de 1964 porque, nos anos que se seguiram, a perda da liberdade de se expressar chegou às raias da total crueldade, da total boçalidade e da criminalidade.

Uma censura cavalar na sua trindade de forças: a federal, a estadual e a municipal. Durante 20 anos ficamos entregues ao jogo sádico desses inúmeros funcionários ou nomeados, ditos censores. Pois a cada momento, em cada cidade, tudo poderia ser alterado ou proibido. Qualquer petição, qualquer pedido de revisão, só em Brasília.

fernanda montenegro
A atriz Fernanda Montenegro (Reprodução)

Quando da proibição da peça “A volta ao lar,” de Harold Pinter, em São Paulo (apesar de a mesma já ter sido apresentada no Rio por dez meses), o coronel, em Brasília, que atendeu Fernando Torres pegou um parecer sobre sua mesa e finalmente explicou que, desde que chegasse a ele um documento com “aquela cor”, isso significava que não tinha volta. Eram ordens do alto escalão.

Havia a censura do texto, quando eram feitos inúmeros cortes. Mas o golpe mortal vinha constantemente no ensaio geral. Foi aí que se instituiu um sistema orgânico de destruição de uma cultura. “Uma solução final.” Estreia suspensa: elenco desesperado, desempregado. Produtor endividado. Estaca zero. Recomeçar. Vivemos aqueles anos sempre com uma lupa inquisitorial sobre qualquer ato criativo. Destaque para o teatro e a música popular.

Quando da proibição de “Calabar,” de Chico Buarque e Ruy Guerra, junto ao comunicado veio uma advertência, não escrita, de que não se poderia tornar pública essa interdição. Terminantemente proibido falar à imprensa, citar o nome da peça, dos autores e atores. Tínhamos já vendido cinco espetáculos. O aviso nos jornais se resumiu ao seguinte: o espetáculo que estrearia no dia X, no Teatro João Caetano, está adiado “sine die.” Ponto final.

Já na montagem de “O homem do princípio ao fim”, uma colagem de textos alinhavada por Millôr Fernandes, na excursão que fizemos em grande parte do Brasil, em cada cidade tínhamos alterações. Em Porto Alegre, podia-se apresentar só o slide de Getúlio Vargas, não a “Carta testamento.” Em Brasília, a “Carta testamento” foi liberada, mas o slide, não. Na mesma apresentação, trechos de “ A megera domada,” de Shakespeare, foram, no dizer deles, amenizados. Em Curitiba cortaram uma fervorosa oração de Santa Tereza d’Ávila.

Explicamos que a oração não era do Millôr, era da própria santa. Diante do esclarecimento, liberaram. Em “A volta ao lar” estropiaram brutalmente o diálogo, cortando o que eles consideraram “baixo calão”. Fernando (diretor) e o protagonista Ziembinski foram à censora, Dona Solange. O grande Ziembinski, em lágrimas, suplicou que não destruísse a peça. Os termos crus, violentos do seu papel eram a força do seu personagem. Para vencer a proibição, uma estranha composição: para cada expressão mais forte tivemos que barganhar dois ou três vocábulos menos violentos. E com “Um elefante no caos,” de Millôr, repetiu-se o processo de “Calabar.” A peça foi proibida, e a proibição, oficialmente, jamais pôde ser comunicada.

O medo e a coragem nos alimentaram sempre. Fomos homens e mulheres audaciosos, resistentes, desafiadores.

Hoje, na distância desses 50 anos, para aqueles que nasceram no pós-golpe é praticamente impossível avaliar o clima de terror político, persecutório, no qual sobrevivemos. Cada um de nós, a seu modo, viveu situações-limite, muitas vezes arriscando a própria vida.

Como fatos emblemáticos desses anos de chumbo, guardo dois acontecimentos que me ficaram e ficarão para sempre: O CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadindo um teatro e espancando um elenco completamente indefeso. E a prisão (e exílio) torpe, covarde, abismante de dois jovens e extraordinários artistas: Caetano Veloso e Gilberto Gil. Homens, já naquela época, referências importantes na cultura do nosso país.

Bala estilhaçou a janela

E, no que diz respeito ao Fernando e a mim, não posso deixar de narrar uma situação de terror extremado pela qual passamos durante a temporada, em São Paulo, de “É…”, também de Millôr. Através de constantes telefonemas anônimos, fomos ameaçados de um ato extremista: eu sofreria um atentado em cena. Um tiro certeiro na testa. Em pânico, nos perguntávamos se devíamos parar a temporada, voltar ao Rio e reconstruir a vida. Mas permanecemos. Pedimos segurança à polícia (época louca: a polícia era o sistema). Os espectadores eram revistados ao entrarem no Teatro Maria Della Costa. Representamos mais de um mês com as luzes da plateia acesas e quatro seguranças em cada ângulo da sala. Preciso lembrar que na mesma época houve uma radicalização na caça às bruxas.

Segue o horror:

No início de uma madrugada, nesse mesmo período dos telefonemas, hospedados eu e Fernando na casa do diretor e amigo Celso Nunes, estávamos já no nosso quarto, no segundo andar, quando uma bala estilhaça o vidro da nossa janela e fica cravada na madeira do teto. Um carro, da rua, arranca em disparada.

Celso Nunes é testemunha desse fato pouco divulgado.
Paro aqui.

Muitos de nós, se ainda vivos, têm tanto ou mais para contar.

* Em depoimento a Nani Rubin

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Comentários

  1. Eduardo Abreu Postado em 03/Apr/2014 às 22:17

    e tem uns senis que querem a volta desta loucura.... devem estar comendo bosta, e bebendo água de mangue.

  2. Esdras Pereira Alves Neto Postado em 03/Apr/2014 às 22:17

    Puxa vida eu fico pensando que época horrível de se viver. Eu sou do do interior do Estado do Mato Grosso do Sul e logo que nasci fui morar com meus pais na fazenda e la vivemos de 1963 a 1970 para depois mudarmos para o interior de São Paulo do qual moramos até hoje; e no entanto, nessa fazenda tinha um campo de aviação e ela se localizava uns 80 Km da fronteira com o Paraguai e na fazenda foi invadida por tropa do exercito em 1967 do qual revistou a sede toda, meus pais e os funcionários, e o exército ficou ali alojado durante 60 dias para ficarem sondando quem poderia descer de avião nesse local. Pessoal eu tinha apenas 4 anos e pode ter certeza eu não me esqueço dessa movimentação que houve naquele tempo.

  3. rogerio david Postado em 04/Apr/2014 às 15:50

    Eu tenho medo!!!

  4. Olga Postado em 04/Apr/2014 às 16:15

    Vivi a ditadura em Argentina e no Uruguai, lá conheci brasileiros que tinha, fugido daqui. Lá também foi muito duro, a gente não respirava, apenas entrava un pouco de ar no peito que estava agitado o tempo todo, o corpo e a mente em estado de alerta constante, qualquer coisa podia atrair a tenção daqueles que poderiam te prender e torturar. Os aniversários de crianças deviam ter permissão da policia, por escrito devia-se comunicar a hora de começo, convidados, local e a hora do fim da festa. Qualquer reunião familiar devia ser comunicada e até os velórios eram suspeitos de reuniões clandestinas. a noite o toque de queda, no se podia circular pela rua e mesmo na frente da tua casa. O medo foi uma constante diaria, os amigos, os parentes sumíam. na minha casa tive um primo meu escondido por uma semana, ele estava comprometido e todos seus companheiros fugindo ou presos, o proprio pai dele estava na busca pelas suas ideias, ele logrou sair do pais. Mais muitos foram presos, torturados e mortos, de muitos a gente via na tv como eram transportados para o Hospital Militar em Montevideu, já para morrer de tanta tortura, outros jamais foram encontrados. E muitas crianças nascidas na carcel foram doadas como cachorros e ainda nada se sabe delas, unas poucas foram encontradas, outros muito bem ocultos ainda que nem eles mesmos sabem quem são. Amigos, companheiros, parentes, vicinhos eram levados no camião do exercito e muitos nunca mais voltaram. Lá foram 13 anos de conter o fólego, de dormir com sono leve, de cuidar as palavras, de olhar primeiro quem esta por perto para logo falar alguma coisa pois qualquer coisa era tomada por subversiva. Discos, filmes,musicas todo era censurado... Eu não tive juventude, dos 23 aos 36 o medo era o prato de todo dia, e nem falar nas fronteiras não, documentos, estudos médicos todo era absolutamente destruído em busca de alguma coisa comprometedora.Eu tinha me diplomado como professora e eles tinham una lista em que eu estava como duvidosa por isso não tinha trabalho e ninguém me empregaba. foi a pios epoca da minha vida e nunca mais quero voltar a viver, já bastam as lembranças!!!

  5. Rodrigo Giotto Postado em 04/Apr/2014 às 23:40

    Só os sádicos e loucos, sem nenhum conhecimento da história do próprio país são quem defendem essa atrocidade que foi o Golpe de 64! Falam dos comunistas, mas a burrice deles é tanta que acham que existiu realmente algo comunista no mundo, sendo uma coisa totalmente distorcida. Ah é uma grande lástima para mim ser professor de História num país ignorante!

    • Jonathan 'Hamelin' Malavo Postado em 05/Apr/2014 às 17:05

      Ao Rodrigo Giotto: Já não basta nosso povo ser analfabeto funcional em Língua Portuguesa e em Política, mas ANALFABETO MESMO, dos que confundem "mas" com "mais" (e outras coisas que como professor de idiomas, inclusive o pátrio, sou obrigado a abominar e criticar, e obrigado também a ser mal recebido pela crítica; depois quando digo que prefiro ser artista e enxadrista e não professor, tem gente que vem me criticar) e acha que saber votar é apenas marcar o nome do candidato na célula (selecioná-lo em uma urna eletrônica, hoje em dia), não me espanta nada ver que nosso povo também é analfabeto funcional na própria história.

  6. jusanni Postado em 08/Apr/2014 às 18:52

    Meu pai foi preso, cassado e torturado. Graças a Deus sua vida foi salva, eu tinha 4 anos. Vivi e principalmente senti tudo, principalmente na alma. Ficamos 10 anos escondidos, mas extremamente felizes. Não lamento, foi uma permissão de Deus para que eu estivesse mais preparada e experiente nesta vida. Fico feliz de receber a solidariedade de todos vocês! Deus os abrace infinitamente!

  7. eu daqui Postado em 06/Jun/2014 às 14:59

    Eu era feliz na época da ditadura mas não por causa da ditadura e sim porque eu era criança.

  8. Antonio Passos Postado em 30/Mar/2016 às 08:37

    Mas ela foi uma que se vestiu de preto, junto com outras atrizes globetes, ajudando a criar esse clima de terror que vivemos hoje.