Redação Pragmatismo
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Política 17/Apr/2014 às 17:50
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Aécio Neves, Lênin e a coerência histórica

Aécio Neves pede uma CPI em defesa da Petrobras; em 2013 lançou uma agenda eleitoral de oito mil palavras, sem destinar uma ao pré-sal

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A desabalada defesa da Petrobrás –motivada pelo prejuízo que a operação Pasadena trouxe à estatal– revelou um zelo pelo interesse nacional que o país desconhecia.

A síntese arrematada da novidade é o empenho do presidenciável Aécio Neves em encaixar uma CPI sobre o tema no calendário eleitoral de 2014.

A política, como se sabe, não é o reino da linha reta. Política é economia concentrada, contém o conjunto das contradições da sociedade. Seguir uma reta num pântano é missão para santidades, não para pecadores.

Aécio ou Lênin não podem ser julgado por atos isolados.

Para que não se firme, porém, a impressão de que a política é o inferno da hipocrisia convém dar aos eventos a ponderação da coerência histórica, cotejada pela correlação de forças determinante em cada época.

Tomados esses cuidados, o ambiente político adicionalmente turvado pelas disputas eleitorais deixa de passar a falsa impressão de que todos os gatos são pardos.

Quando se afunila a visão, ao contrário, estamos a um passo do moralismo.

Não importa que ele venha entrecortado de bem intencionados sustenidos radicais.

O moralismo traz no DNA a prostração política encarnada nas legendas redentoras do ‘tudo ou nada’.

O ‘nada’ muito frequentemente tem saído vitorioso nessa prática de dar a história o tratamento de uma roleta de cassino.

Ou não será nisso que o conservadorismo aposta para levar a eleição de outubro a um segundo turno do tipo ‘todos contra o bando do PT’?

O incentivo quase paternal aos protestos contra a Copa do Mundo dimensiona o valor elevado que o jornalismo isento atribui a essa aposta.

É nesse ponto, quando o alarido do presente embaça a percepção do futuro, que a balança crítica deve escrutinar o saldo da coerência no prato da direita e no da esquerda.

Um exemplo extremo, à esquerda, a título de ilustração, foi a política de capitalismo de Estado, adotada por Lênin, em março de 1921, com amplas concessões ao capital privado.

Quando a NEP (nova política econômica) foi instaurada, a Rússia revolucionária sangrava ferida de fome, desabastecimento, desemprego e colapso na infraestrutura.

A NEP regenerou práticas capitalistas contras as quais se fez a revolução.

Por exemplo: o investimento privado do capital estrangeiro foi liberado no setor varejista ( o comércio atacadista foi preservado em mãos do Estado).

Enquanto avançava a criação de cooperativas no campo, a NEP proibia novas expropriações de indústrias nas cidades; a nacionalização de fábricas só poderia ocorrer após minuciosa avaliação do governo revolucionário.

Não só.

Foi restaurada a livre contratação de mão de obra.

O salário igualitário foi suprimido.

O critério de produtividade foi reposto no cálculo das folhas.

E mais: a população passou a pagar pelos serviços de água, transportes, moradia, jornais, correio e eletricidade, gratuitos no início da revolução.

A ninguém ocorre carimbar em Lênin o epíteto de ‘covarde’ por ter cedido espaços ao capital quando a alternativa era perder tudo.

Pode-se (deve-se) discutir exaustivamente os gargalos e erros que levaram a experiência de 1917 a desaguar na queda de 1989.

Carta Maior tem opiniões claras sobre isso: uma delas remete à natureza indissociável entre socialismo e participação direta da sociedade na sua construção.

É impossível, porém, negar à biografia de Lênin a coerência por ter reagido como reagiu ao risco de uma metástase do regime, em 1921.

Feito esse entrecho à esquerda, voltemos à coerência de Aécio Neves e assemelhados na defesa, algo tardia, que fazem agora da Petrobrás.

Avulta aqui o oposto na balança.

Não há qualquer coerência entre o que se diz no presente, o que se praticou no passado e o que se promete consumar no futuro .

Alguém duvida que entre as ‘medidas impopulares’, das quais o tucano se jacta de ser um portador destemido, encontra-se a quebra do regime de partilha do pré-sal, que hoje garante a redistribuição da renda petroleira na forma de educação, saúde e infraestrutura aos nossos filhos e aos filhos que um dia eles terão?

Não estamos falando de um detalhe tangencial à luta pelo desenvolvimento brasileiro.

O pré-sal, é forçoso repetir quando tantos preferem esquecer, mudou o peso geopolítico do Brasil ao adicionar à sua riqueza uma reserva da ordem de 50 bilhões de barris de óleo.

A preços de hoje isso significa algo como US$ 5 trilhões.

É como se o Brasil ganhasse dois anos de PIB –sob controle político da sociedade– para se recuperar das mazelas seculares incrustradas em seu tecido social.

Não se trata tampouco de um futuro remoto.

O pré-sal já alterou a curva de produção da Petrobras.

A estatal, que levou 60 anos para chegar à extração de dois milhões de barris/dia, vai dobrar essa marca em apenas sete anos.

A ignorância tudo pode, mas quem desdenha dessa mutação em curso sabe muito bem o que está em jogo.

Dez sistemas de produção do pre-sal entram em operação até 2020.

Hoje, os novos reservatórios já produzem 400 mil barris/dia.

Em 2020 serão mais dois milhões de barris/dia.

A curva é geométrica.

Para reter as rendas do refino na economia brasileira, a capacidade de processamento da Petrobras crescerá proporcionalmente: de pouco mais de dois milhões de barris/dia hoje, alcançará 3,6 milhões de barris/dia em seis ou sete anos.

O conjunto requer US$ 237 bilhões em investimentos até 2017.

É o maior programa de investimento de uma petroleira em curso no mundo.

Seus desdobramentos não podem ser subestimados.

A infraestrutura é o carro-chefe do investimento nacional nesta década. Mais de 60% do total de R$ 1 trilhão a ser gasto na área estará associado à cadeia de óleo e gás.

Objetivamente: nenhuma agenda política relevante pode negligenciar aquela que é a principal fronteira crível do desenvolvimento brasileiros nas próximas décadas.

Mas foi exatamente esse sugestivo lapso que o agora patriótico Aécio Neves cometeu em dezembro de 2013, quando lançou sua agenda eleitoral como presidenciável do PSDB.

Em oito mil e 17 palavras encadeadas em um jorro espumoso do qual se extrai ralo sumo, o candidato tucano não mencionou uma única vez o trunfo que mudou o perfil geopolítico do país, o pré-sal.

A omissão fala mais do que consegue esconder.

Seu diagnóstico sobre o país, e a purga curativa preconizada a partir dele, são incompatíveis com a existência desse incômodo cinturão estratégico a encorajar a construção de uma democracia social , ainda que tardia, por essas bandas.

Ao abstrair o pré-sal a agenda de Aécio para o Brasil mais se assemelha a uma viagem de férias à Brazilândia do imaginário conservador, do que à análise do país realmente existente –com seus gargalos e trunfos.

Só se concebe desdenhar dessa janela histórica –como o fez o agora empedernido defensor da CPI — se a concepção de país embutida em seu projeto negligenciar deliberadamente certas urgências.

Por exemplo, a luta pela reindustrialização brasileira, da qual as encomendas do pré-sal podem figurar como importante alavanca, graças aos índices de nacionalização consagrados no regime de partilha.

Mais que isso: se, ao contrário, a alavanca acalentada pelo tucano, para devolver dinamismo à economia, for como ele gosta de papagaiar aos ouvidos do dinheiro grosso, o chamado ‘choque de competitividade’.

Do que consta?

Daquilo que a emissão conservadora embarcada na mesma agenda alardeia como inevitável dia sim, o outro também.

O velho recheio inclui ingredientes tão intragáveis que se recomenda dissimular em um contexto eleitoral, a saber: ajuste fiscal drástico, com os custos sociais sabidos; ampla abertura comercial –com a contrapartida imaginável de desindustrialização adicional e desemprego; livre movimento de capitais; privatização do que sobrou das estatais (quando Aécio fala em ‘estatizar’ a Petrobrás é a novilíngua, em ação beligerante contra a inteligência nacional); cortes de direitos trabalhistas e de poder aquisitivo real dos salários –para reduzir o custo Brasil e tornar o país ‘atraente’ ao capital estrangeiro.

Por último, ressuscitar a lógica da Alca e atrelar a diplomacia do Itamaraty aos interesses norte-americanos.

Em resumo, um neoliberalismo requentado, indiferente ao prazo de validade vencido na crise de 2008.

Reconheça-se, não é fácil pavimentar o percurso oposto, como vem tentando o Brasil desde então.

Com a maturação da curva do pre sal as chances de êxito aumentam geometricamente nos próximos anos.

Não é uma certeza, é uma possibilidade histórica.

Os efeitos virtuosos desse salto no conjunto da economia exigem uma costura de determinação política para se efetivarem.

Algo que a agenda eleitoral do PSDB omite, renega e descarta.

Em nome da coerência, Aécio Neves deveria adicionar ao seu pedido de CPI uma explicação ao país sobre o destino reservado ao pre-sal, caso as urnas de outubro deem a vitória a quem assumidamente se propõe a ser uma réplica do governo FHC em Brasília.

Saul Leblon, Carta Maior

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Comentários

  1. Alberto Postado em 17/Apr/2014 às 23:31

    "Dez sistemas de produção do pre-sal entram em operação até 2020." Ou eu aprendi o português errado, ou não sei em que anos estamos! De qualquer modo só podemos estar falando da próxima década aqui, pois no ano em que vivo, 2014, as coisas não vão tão bem assim e não tem essa de pré-sal aumenta extração do petróleo! Como se o governo fosse o único contribuidor para sua descoberta, como se o Lula tivesse ido ele mesmo pesquisar sobre as camadas sedimentares! Tem que ser investigada a compra da refinaria na Passadena e qualquer gasto que ponha a nossa Estatal(da qual tenho orgulho como brasileiro e acionista) em perigo! Em véspera de eleição ou não!

    • Weslei Postado em 18/Apr/2014 às 09:58

      Nem tudo é para hoje! Antes da criação da Petrobras o Governo Dutra queria abrir a exploração de petróleo para o capital, mas, o Brasil não tinha empresários com conhecimentos para a exploração, está medida deixaria a exploração de petróleo na mão de obra estrangeira, foi quando, grupo de nacionalista no congresso vetou tal medida. Em 1953 o Presidente Getúlio Vargas apesar de ter sido um ditador anos atrás, era um nacionalista e estadista, criou a grande empresa que Petrobras com o monopólio de exploração, a campanha era: O petróleo é nosso! Em 1997 o Presidente Fernando Henrique tirou o monopólio da Petrobras, já tentaram mudar o nome para Petrobrax 2000/2001. Como a história comprova, o Governo que esteja no poder tem grande participação em qualquer acontecimento da Petrobras, sobre a Pasadena está parecendo mais um mal negócio do que corrupção, portanto, a investigação é política, e sendo assim que se investigue Petrobras, Metro SP e o que tiver dinheiro público envolvido.

      • Carlos Prado Postado em 19/Apr/2014 às 22:26

        E qual o problema se o cara que vai administrar a extração do petróleo saiu de uma polaca, de uma vietnamita ou de uma inglesa? Fazendo em terras adquiridas legalmente com ferramentas que lhes pertença os seja autorizado a usar pelo dono não sou que tenho que tomar satisfações. Já quando me vem com esta história de "o petróleo é nosso" é para que eu engula a palhaçada de que um cara com boas conexões políticas vai usar o dinheiro público para explorar coisas que não lhe pertence e o governo fez o "favor" de desapropriar dos próprios donos e me cobrar o olho da cara pela ineficiência. Ai como é com os recursos do povo para benefícios de poucos políticos me interessa. Se o petróleo fosso mesmo meu não estaria nem aí se que vai explorá-lo é um sueco ou um americano se me trouxesse os resultados. Agora me fazem essa palhaçada com dinheiro que é mesmo meu e de todo o povo e me vendem uma porcaria por um preço absurdo! Porque devo rejeitar um estrangeiro sem ver se ele fará um trabalho honesto e aceitar um pilantra made in brazil?

  2. anti-coxinhas Postado em 19/Apr/2014 às 11:42

    aécio é claramente um vendilhão do país... o resto é papo furado...

  3. Hector Ramalho Postado em 20/Apr/2014 às 20:47

    Aécio não é um tucano, ele é um abutre.

  4. luiz carlos ubaldo Postado em 22/Apr/2014 às 10:31

    Aébrio nunca governou ou administrou nada na vida, é só um fantaoche de sua irmã!