Leandro Dias
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Colunistas 03/Mar/2014 às 18:40
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As Revoluções de Lampedusa

O brasileiro não se enxerga como parte do poder constituinte, não se vê como fiador das autoridades, dos políticos e dos representantes. Não se enxerga como parte da "cidade". Ele é, pois, um não-político, um anti-burgo, alienado de sua principal característica da modernidade liberal: ele é um súdito e não um cidadão. Seria o Brasil um expert em Revoluções de Lampedusa?

No romance Il Gattopardo, o autor italiano Giuseppe di Lampedusa teceu importantes considerações sobre a mentalidade conservadora diante de uma crise revolucionária, cenário de sua obra. A elite encastelada, formadora de uma oligarquia que dominava a Sicília em uma Itália em unificação, é apresentada fazendo todo jogo político necessário para se manter no poder, evitando que o caos que tomava as ruas mudasse alguma coisa significativa para eles. Na passagem emblemática que se tornou clássica do seu pequeno livro, o autor escreve:

O Príncipe teve uma de suas visões: um selvagem conflito de guerrilha, tiros nas florestas e Tancredi, caído no chão com suas tripas para fora, como um pobre soldado. “Você é louco, meu garoto, por ir com eles, o povo! São todos mafiosos, são todos arruaceiros. Um Falconeri deveria estar conosco, pelo Rei!

Seus olhos sorriram novamente: “Pelo Rei, sim, mas é claro. Mas qual Rei!?” O rapaz teve um súbito ar de seriedade que o tornou muito misterioso e cativante: “A não ser que nós tomemos medidas agora, eles irão nos forçar uma república. Se quisermos que as coisas continuem como estão, as coisas precisam mudar. Você entende?!” (The Leopard, 1960, pag. 10)

A frase “[s]e quisermos que as coisas continuem como estão, as coisas precisam mudar” ficou muito famosa e ela simboliza claramente o sentimento conservador, seja qual for a tendência política, de permanecer no poder. Fazem-se ajustes aqui, corta-se um excesso acolá, concede-se uma pouco aqui, para ganhar ali, enfim, na pior das hipóteses, perdem-se os anéis para não se perderem os dedos, deixando a mão intacta para agir como sempre fez. Mudam-se as estruturas, mas os fantasmas persistem a assombrar, formando a perpétua impressão de que, apesar de toda a aparente mudança, nada de fato mudou.

Assim, seria o Brasil um expert em Revoluções de Lampedusa?

Em 1964 ocorreu um golpe dado por parte da sociedade brasileira que, entre outras coisas, via na “república sindicalista de Jango” o fantasma comunista, desculpa ideal para, no contexto de Guerra Fria, fomentar um golpe. Não importava que João Goulart fosse um rico estancieiro, ligado ao trabalhismo (movimento identificado com a esquerda mas que rejeitava o comunismo), para o espírito conservador que dominava a elite e setores da pequena classe média brasileira, seguindo a linha de seus principais apoiadores, os EUA, as reformas de base de Jango eram sinais da quimera bolchevique, origem de todo o mal. Assim, buscando a “renovação nacional”, ele precisava cair, tudo precisava mudar… para continuar exatamente como sempre foi.

Embora existissem entre os golpistas reais setores nacionalistas se esforçando para emplacar algumas reformas desenvolvimentistas, especialmente ligadas à filosofia militar de “segurança nacional” (setor energético basicamente), a parte civil da ditadura, núcleo fundamental de suporte econômico e ideológico ao golpe, fez o esforço necessário para que, após 25 anos, a “revolução” (sic) dos militares, deixasse o país exatamente como nela eles haviam entrado: desigual, analfabeto, com as antigas oligarquias intactas e uma ainda pior e inabalável concentração de propriedade e renda. Se por revolução entende-se uma mudança considerável de alguma sociedade, a nossa não passou por revolução alguma em 1964. E pior, a ditadura militar terminaria, após seu último presidente (o civil e imortal José Sarney), conseguindo a proeza de deixar as Forças Armadas tão ou mais sucateadas do que quando aderiram à aventura golpista, reforçando a tese de que os militares foram apenas a infantaria necessária para as oligarquias que vinham perdendo seu poder para Jango, Brizola e seus aliados realizarem seu projeto de retorno ao poder, já que vinham perdendo o governo seguidas vezes nas urnas.

Seguiu-se então o “período democrático” para “mudar tudo”. O ranço autoritário dava lugar à “nova era de liberdade brasileira”. E como não poderia deixar de ser, o período seria não apenas comandado por praticamente as mesmas forças econômicas que “mudaram tudo” com o golpe, mas também muitas vezes foi literalmente encabeçado pelas mesmas pessoas que dividiam o poder na ditadura. Destituindo parlamentares opositores e “subversivos” de seus cargos, com prisões e exílio de outros, a ditadura pôde criar seu simulacro de parlamento, incluindo até uma oposição consentida, que na prática não lhe servia de real oposição, mas de legitimação de seu poder absoluto, e por mais que figuras importantes da redemocratização como Tancredo Neves se empenhassem numa redemocratização “de dentro”, o faziam na medida que reconheciam a legitimidade do governo golpista que faziam parte. Assim, é incrível observar que, muitos dos “ícones” políticos e líderes partidários, que construíram o poder no novo período democrático, são exatamente os mesmos que dividiram situação e oposição durante o período ditatorial anterior: famílias Sarney, Neves, Quércia, Tuma, Maluf, Alckmin, Dornelles, e muitas outras; estavam todas com cargos importantes no período ditatorial, independentes de gostarem ou não da “linha central”, formavam o poder constituído. É difícil encontrar uma só figura fundadora da “nova democracia” brasileira que não estivesse profundamente ligada às oligarquias que governaram o país nas três décadas anteriores.

Não é incrível que o primeiro presidente eleito a terminar um mandato no novo período, Fernando Henrique Cardoso, tivesse tido como vice Marco Maciel, proeminente figura da ditadura, presidente da Câmara na ditadura, governador “biônico” nomeado por Geisel em 1978?! E, mais ainda, a base governista de FHC era o PFL, herdeiro direto do ARENA, partido do comando da ditadura, de gente como Jorge Bornhausen e Antonio Carlos Magalhães, expoentes do Brasil de 1964… mas e quem mais? PMDB é claro! Na “democracia”, as antigas oposição e situação se unem num “novo governo” para um “novo período”. Isso é que é renovação democrática. Mudam-se as ideias, mas o fantasma das estruturas persiste.

Por fim, passado o “Tucanistão”, a renovação lulista de 2002 em diante precisou se associar com quem para governar? Exatamente com o PMDB, que divide o poder com quem quer que seja o vencedor. Assim, as oligarquias regionais brasileiras descobriram o mais estável modelo de governo para o capitalismo aristocrático e de interesses que representam: a democracia liberal parlamentar. Fiel partidário do “extremo centro”, o PMDB elevou ao limite a conciliação de vontades opostas em prol do mútuo favorecimento, no clássico espírito de corte, consagrando o mito da “cordialidade brasileira”, onde cordialidade tem um sentido ainda mais literal. Os quadros do partido são os mais heterogêneos possíveis, variando de figuras dinastias progressistas como Roberto Requião, até o simulacro de senhores feudais como José Sarney, passando por intransigentes como Sérgio Cabral e Eduardo Paes (cria do próprio PFL-PSDB). Talvez o único aspecto em comum de todos os seus componentes é serem, em maior ou menor grau, representantes legítimos das oligarquias de suas regiões. Sem este suporte parlamentar do PMDB, o governo do PT, como de qualquer outro partido, seria completamente inviável no Brasil. Por sua vez, para as oligarquias estabelecidas que o PMDB tão bem representa, quem melhor do que um popular líder sindical para executar uma conciliação de interesses conflitantes e apaziguar os desiludidos pela falta de prosperidade que a “renovação democrática” deveria ter trazido?

O PT, então, vem consolidar a tese da “classe estabilizante” de Jean-Claude Milner, difundida por Slavoj Zizek: “[não é] a velha classe dominante, mas aqueles comprometidos com a estabilidade e continuidade da ordem política e econômica – a classe daqueles que, mesmo quando clamam por mudança, o fazem para assegurar que nada realmente vá mudar” (ZIZEK, 2012). Hoje, após três sucessivas vitórias eleitorais e uma aliança já aparentemente orgânica com as oligarquias, o PT surge como fiador da ordem estabelecida, do capitalismo oligopolista de grandes empreiteiras, sistema financeiro, conglomerados de mídia e mega-varejistas, como prova final de que o capitalismo brasileiro está finalmente estável e consolidado. Vale observar a guinada do movimento trabalhista inglês nos anos 90 para melhor entender o contexto:

Quando Margareth Tatcher foi perguntada qual sua maior conquista, ela prontamente respondeu: ”New Labour”. E ela estava certa: seu triunfo foi quando até mesmo os inimigos políticos dela adotaram suas políticas econômicas básicas. A verdadeira vitória sobre os inimigos dela ocorre quando eles começam a usar a própria linguagem dela, de forma que suas ideias formem a base de todo o campo em discussão. (idem)

Não é por acaso que Odebrecht e Magazine Luiza estão com o PT. Não é por acaso que foi no petismo e não no Tucanistão que os grandes bancos ficaram ainda maiores e bateram recordes atrás de recordes de captação e crescimento, com lucros superiores a 83 países do mundo e Roberto Setúbal, presidente do Itaú, chamou Lula de “maior presidente do Brasil”. Nenhum governo foi tão bom para o grande capitalismo nacional quanto o petista, e somente dinossauros da antiga elite é que não enxergam isso e o acusam de bolivariano, bolchevique e outros impropérios. Parecem desconhecer que mesmo o arremedo de trabalhismo petista, se minimamente bem feito, é o túmulo do comunismo.

E então chegamos ao presente, onde as “jornadas de junho” e o calor das ruas parecem representar uma nova perspectiva de mudança no cenário político nacional. Mas estaríamos vivendo um ensaio de uma nova Revolução de Lampedusa?

Em junho de 2013, o preço das passagens dos transportes públicos aumentou e a repressão policial foi dura em cima dos que reclamaram do aumento. Pareceu a gota d’água para muitos brasileiros. Milhares se levantaram quase que simultaneamente em várias capitais; atearam fogo na Assembléia do RJ num histórico dia 17 de Junho; depredaram prédios governamentais em São Paulo e tomaram o Palácio da Alvorada em Brasília, tudo na mesma semana. “O gigante acordou”. E então, sem muito esforço, os governos por todo o país baixaram as passagens; realizaram alguns pronunciamentos assustados na TV e a classe dirigente, atordoada, pareceu notar pela primeira vez em décadas, a existência dos seus governados, esboçando medidas governamentais que de fato pareciam atender o “clamor das ruas”.

No entanto, passaram-se os meses sem que nada tivesse mudado de fato, e os protestos perderam a força nacional, voltaram ao núcleo dos “que nunca dormiram” (sindicatos combativos, esquerda radical e periferias mais ou menos organizadas, as mais assoladas pelas intempéries governamentais). Aparentemente, os 20 centavos foram suficientes para acalmar o resto da população. E agora, o pequeno reaquecimento das ruas em fevereiro de 2014 foi devidamente abortado por conta da tragédia na manifestação contra novo aumento da passagem no Rio de Janeiro, quando, além do aposentado Tasman Acciolly, atropelado ao fugir das bombas da polícia, o cinegrafista da Band, Santiago Andrade, morreu por fogo amigo de manifestantes em caso de repercussão nacional. A comoção generalizada acelerou o processo de acomodação.

Seja pela excessiva repressão policial, levando os moderados que estão nas ruas a temer sua associação com a violência disruptiva de alguns manifestantes; seja pela auto-realização social e demonstração pública de “dever cumprido” de alguns que foram as ruas em junho como se participassem de um “ritual cívico”, um gozo político-carnavalesco lembrando mais um Entrudo do que qualquer outra coisa, alimentando a ilusão de que agora afinal, os governantes prestarão contas à população. Seja por estes fatores todos combinados enfim, a poeira revoltosa de 2013 parece devidamente baixada e o brasileiro parece estar voltando à sua normalidade. E, independente de reconhecer os excessivos gastos na realização da Copa, as ingerências dos governos e o abuso da Lei Geral da Copa, além é claro, das corriqueiras mazelas de nossas grandes cidades (nota especial para o transporte no Rio de Janeiro), quase 80% dos brasileiros não irá a manifestações contra a Copa, sendo que 40% é abertamente contra os protestos. A classe dirigente aliviada caminha para nova estabilidade, mudou-se tudo, para tudo continuar na mesma. Lembrando aquelas mensagens ao final de grandes produções hollywoodianas: “Nenhuma oligarquia saiu ferida na realização deste filme”.

Essa constatação de nova calmaria parece reforçar o sentimento de que o brasileiro enxerga o poder constituído como algo dado, natural e legítimo em si, como uma formal imperial de ordem. Parece vigorar um aspecto tenebroso do etos cultural pré-liberal: a autoridade emana do próprio cargo, assim como sua legitimidade. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. O brasileiro não se enxerga como parte do poder constituinte, não se vê como fiador das autoridades, dos políticos e dos representantes. Não se enxerga como parte da “cidade”. Ele é pois, um não-político, um anti-burgo, alienado de sua principal característica da modernidade liberal: ele é um súdito e não um cidadão.

A frase-slogan de Lenin “[o] estado somos nós” tem sua antítese na opinião que parece comum ao brasileiro: nada do que o governo faz teria relação com a população, “o estado são eles”. Como se, além de ser legítimo em si, o governo e seus quadros não refletissem sentimentos e costumes comuns à sociedade que o compõe. Figura sempre a perspectiva de que a população é vítima de um governo absolutista alheio a ela, como se “do nada” tivesse surgido e erguido seu poder à revelia da vontade popular, em estado perpétuo de imposição ditatorial. Com isso, a população parece se eximir de responsabilidade sobre seu próprio destino, vive como se todo tipo de barbárie e ingerência cometidos pelo poder não só não lhe dizem respeito, mas, como por isso mesmo, são legítimos, pois o governo é auto-justificado por ser a autoridade atual, independente da vontade da população. “O Estado NÃO somos nós”. E o brasileiro, resignado e milenarista, espera que outro governante “melhor”, um messias esclarecido, venha salvá-los de sua incapacidade de governar e de se responsabilizar pela política.

*Leandro Dias é formado em História pela UFF e editor do blog Rio Revolta. Escreve mensalmente para Pragmatismo Politico. ([email protected])

REFERÊNCIAS

ELIAS, Norbert. A Sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001.
LAMPEDUSA, Giuseppe di. The Leopard. New York: New York Review of Books, 1960.
ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samatha. (Orgs.) Construção social dos regimes autoritários: Brasil e América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
ZIZEK, Slavoj. Why Obama is more than Bush with a human face. The Guardian, Nov. 2012. Disponível em: <http://www.theguardian.com/commentisfree/2012/nov/13/obama-ground-floor-thinking>. Acesso em: 20 fev. 2014.
ZIZEK, Slavoj. When only heresy can keep us alive. Odbor, Nov. 2012. Disponível em: <http://www.odbor.org/when-only-a-heresy-can-keep-us-alive/>. Acesso em 19 fev. 2014.

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Comentários

  1. Carlos Prado Postado em 03/Mar/2014 às 19:32

    Grande corporativismo, também chamado fascismo por Benito Mussilini. Lula de certo foi muito eficiente em manter funcionando o sistema que é monopolista dos pensamentos de todos os governos atualmente, que o pensamento corporativista e mercantilista social-democrata. É realmente muito bom para o empresariado que tem contatos no governo. A Odebrecht realmente deve adorar este dinheiro fácil, vindo direto do bolso do contribuinte sem esforço algum. Mas quem não gosta de um dinheiro fácil vindo de um governo que lhe elimina toda a concorrência e lhe garante monopólio através de agências regulatórias? Eu sei que esta mesma social-democracia quebrou a Europa. E que esta mesma bonança de o governo ajudar os grandes capitalistas gerou uma bela crise em 2008. Este sistema pode parecer belo a curto prazo, mas é bolha especulativa. Se não se gerar riqueza real a bolha explode, um dia ela explode. E para o governo atual é bom que seja na mão do adversário. Seria até bom para a Dilma ela lembrar que não é o Lula e deixar a bomba explodir na mão do Aécio uma vez. Mantendo este Status Quo uma hora a bolha explode. Este autoritarismo de todas as formas de governo, coisa que o latino americano parece gostar tanto, só sabe destruir riquezas e gerar bolha. Deveria se manter longe da economia. E não há qualquer forma de governo que resolva, só resolve se se abster de governar. Isto podemos ver em toda a história do Brasil, como nas politicas de socialização do prejuízo do Conselho Nacional do Café; ou na economia centralizada e estatal dos militares, com uma burocracia de dar inveja a qualquer União Soviética; ou o Sarney e seus fiscais, com uma politica de controle de preços de dar inveja aos militares.

  2. guy cap Postado em 03/Mar/2014 às 19:37

    Sabemos que o Brasil é um pais do futuro, agora sabemos porque .

  3. Alexandre Lopes Postado em 03/Mar/2014 às 21:12

    Triste demais ; porém , essa tese corresponde perfeitamente à realidade . Realidade desgraçada . O Brasil nasceu morto !

    • renato Postado em 04/Mar/2014 às 12:59

      Por isto eu digo, para ressuscita-lo somente DILMA 13 2014 .

  4. Paulo Postado em 03/Mar/2014 às 21:51

    Parabéns pelo ótimo texto e a perfeita colocação de que somos apenas súditos, não cidadãos. Há tempos defendo que só vale a pena ser brasileiro se você ou é muito rico ou é muito pobre. Dentro desse contexto, o rico oligárquico, nacional ou multinacional mantêm seus privilégios pois tem o conhecimento da burocracia estatal. E os muito pobres, comprados pelos governos, recebem suas migalhas dos programas assistencialistas, comprados diariamente, retribuirão nas próximas eleições. A sociedade acordou em 2013, descobriu que era um sonho e voltou a dormir, letárgica e acomodada.

  5. Antonio Postado em 04/Mar/2014 às 08:43

    Terei que apenas discordar no trecho que fala sobre o "legado" que a ditadura deixou que segundo o texto foi exatamente igual ao comeco da ditadura. Na verdade foi bem pior do que antes, o pais acumulou dividas externas, dividas publicas, a inflacao tava a mil, e por ai. Outra observacao, apesar do tom meio "pessimista" do texto e alguns diriam que eh um tom realista mesmo, eu jamais subestimo a capacidade de surpreender que o povo brasileiro (ou qualquer povo do mundo) possa ter. Nao eh porque "as coisas sempre foram assim por aqui" que nao possam mudar de um dia pro outro. Os protestos podem ter servido pra muito mais do que pensamos. O proprio brasileiro esta discutindo mais politica do que antes, seja nas redes sociais, nas ruas ou no trabalho. E hoje, qualquer motivo, sejam os vinte centavos ou nao, eh motivo pro povo reagir. Sim, tenhamos pe no chao que a massa ainda eh exatamente isso que o Leandro disse, porem, o povo parece que tomou gosto por cobrar mais e se inserir no proprio estado. A internet eh uma ferramenta importante ai.

    • Alexandre Lopes Postado em 04/Mar/2014 às 10:47

      Pois é , Antônio . A única coisa que nos resta é a utopia . O Brasil nasceu morto , mas ele pode ressuscitar . Vamos fazer a nossa parte como cidadãos .

    • Alexandre Lopes Postado em 04/Mar/2014 às 10:48

      Ressuscitar não !! Nascer seria a palavra certa !

      • Antonio Postado em 04/Mar/2014 às 11:24

        Nesse caso nao me interesso muito pelo historico ou pelo determinismo que se atribue a sociedade brasileira. Prefiro acompanhar as mudancas diarias que ocorrem no mundo e observar que hoje, o Brasil, aquele pais que de outrora era visto como um pais de bundoes, onde tudo acaba em pizza, eh hoje um pais de referencia internacional, onde as pessoas mesmo que em passos de formiga, estao mudando. Prefiro me ater ao momento atual mesmo, nao soh do Brasil como mundial. Se o Brasil vai tirar bom proveito disso ou nao soh o tempo mesmo pra dizer.

    • Carlos Prado Postado em 06/Mar/2014 às 21:19

      Realmente, assim que os militares saíram tivemos uma década perdida. E não porque eram outros no comando, a destruição econômica leva tempo. Sintoma de uma economia planeada e centralizadora de dar inveja aos soviéticos.

    • zerino Postado em 11/Mar/2014 às 02:52

      pelas palavras "Antonio"

  6. Fernando Postado em 04/Mar/2014 às 10:55

    Parabenizo o autor pela análise histórica do nosso quadro político. Embora seja cético or natureza, penso que, embora Lula e Dilma sejam verdadeiros papais noéis para os bancos e grupos afins, esta inserção de milhões de miseráveis no mercado consumidor e sua conseqüente melhora de vida é uma etapa que prepara uma transformação a médio e longo prazo e a lógica é simples: os pobres sempre se mantiveram cordatos e submissos senão morriam de fome, alimentando-se das migalhas que vinham da burguesia sob a forma de sub-empregos, sub-habitações, sub-alimentação, sub-escolaridade e outros subs que tanto os caracterizaram ao longo de nossa história. Acontece que este mesmo povo sentiu o gosto de uma vida um pouquinho mais digna e não abrirá mão tão facllmente de suas conquistas. Isto é normal no ser humano, ninguém se habitua à queda de padrão sócio-econômico. Eu aposto nesta força de resistência como geradora de um novo modelo que sendo mais ou menos capitalista tentará se cristalizar no tecido social e isto trará conseqüências políticas óbvias.

  7. Lais Milan Dania Postado em 04/Mar/2014 às 12:56

    Leandro Dias:A unica esperanca e o surgimento de um Messias.Tudo e todos que ja passaram e os que agora estao,sao nabos do mesmo saco.E so examinar as aliancas,conchavos e aceitacao daquilo que outrora se opunham.

  8. Valter Augusto Postado em 04/Mar/2014 às 15:45

    Parabéns ao autor.Texto bem escrito,análise profunda e "realista" do nosso momento político.Mas a coisa não é bem assim tão ruim: o povo JAMAIS voltará a ser como antes.Discute-se mais política-como disse muito bem o companheiro aí em cima-com paixão,até.E os enfrentamentos continuam e isso é perceptível.Quem diria que no "país do futebol"haveria gente indo às ruas gritando:"não vai ter copa"?

  9. Pedro Postado em 05/Mar/2014 às 12:04

    O professor diz isto e aquilo do povo brasileiro como se as características que ele atribui com exclusividade ao brasileiro não pudessem ser encontradas em toda parte. Parece, e aqui não vai nenhuma acusação, que o professor gostaria que o povo brasileiro se comportasse como o proletariado francês por ocasião da Comuna. Que outro proletariado se comportou como o francês? O alemão viu as tropas alemãs darem as condições para o governo de Thiers cometer seu genocídio e ficou na sua. O proletariado americano é especialista em dar porrada em operários que de vez em quando se revoltam contra a exploração capitalista. Recomendaria ao professor a leitura do livro de Steinbeck, A América e os Americanos. Lá se encontram coisas do arco da velha no que se refere a este nosso mundo capitalista. Uma coisa é verdade, o povo americano, aí incluindo a classe operária, é muito mais direitista do que o povo brasileiro. Não deduzo disto que o povo brasileiro é mais politizado. Nada disto. Simplesmente, concordo com Marx quando afirma com todas as letras que a ideologia dominante é a da classe dominante. Apenas acrescentaria que não só é como tem que ser. O problema professor é quando os dominantes não mais conseguirem manter a sua ideologia. Tenho certeza de que, neste momento, o povo virá em seu socorro. Outro problema, e este insolúvel, é quando o povo não puder mais dar à classe dominante essa mãozinha. E este momento, professor, está chegando. Esta brutal concentração da riqueza, que na sua forma monetária já é, em grande medida, dinheiro podre, não servirá mais à produção. Está virando tesouro. Pensa no seguinte, professor, o PT está obrigando os capitalistas a botar dinheiro na produção. Os capitalistas querem viver da ciranda financeira. Passaram a viver a ilusão de que a compra e venda de ações produz lucro. Negociatas financeiras têm a única função de fazer o dinheiro mudar de mãos. E só. Um escritor francês que publicou o seu Tableau de Paris aí por volta de 1780 dizia que a aristocracia não merecia outra coisa senão a guilhotina. Os nossos 85 bilionários que concentram uma riqueza que corresponde à pobreza de 3 bilhões e meio de miseráveis, nem isto merecem. Está chegando a hora em que Marx será muito ouvido.

    • Leandro Dias Postado em 06/Mar/2014 às 16:55

      Pedro - Quando pensamos em alguém politizado teríamos de pegar até mesmo o sentido literal da frase: aquele que pensa na polis, na cidade. Por isso me referi ao brasileiro como um súdito anti-burguês. Nossa mentalidade, por diversas razões históricas que não caberiam em uma postagem, não saiu do Ancien Regime para a Res-publica. Ao contrário dos americanos, que mesmo os de extrema direita são bastante constitucionalistas e legalistas (o que é até estranho para nós), aqui nossa extrema direita tem simpatias monarquistas, absolutistas e claro, personalistas (messiânicas)...

  10. Jose Postado em 06/Mar/2014 às 08:45

    Esse distaciamento do brasileiro com o poder constituinte citado no início do texto pode ser justificado pela forma que as leis e a política em geral são feitas para manter o “[s]e quisermos que as coisas continuem como estão, as coisas precisam mudar". O artigo escrito em http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1045/noticias/uma-terra-sem-lei?page=1 fala sobre o o desapego as leis baseado no livro "A Civilização do Espetáculo" de Mario Vargas Llosa. Segue um trecho da matéria: "O desapego pressupõe que as leis são obra de um poder que não tem outra razão de ser senão a de servir a si mesmo, ou seja, às pessoas que o encarnam e administram, e que, portanto, as leis, os regulamentos e as disposições que emanam dele têm como lastro o egoísmo e os interesses particulares e de grupos, o que exonera moralmente o cidadão comum de cumpri-los." E isso é válido para qualquer lugar no mundo onde os interesses estão sempre ligados a classe dominante. O processo de politização da população brasileira se dará aos poucos de forma menos rápida do que gostaríamos e essa velocidade dependerá de uma séries de outros fatores. Porém, devemos combater esse sentimento de pessimismo determístico sobre o futuro do país e da mesma forma evitar o otimismo cego baseado em promessas de uma maioria que só querem mudar para nada mudar.

  11. RAUL Postado em 11/Mar/2014 às 11:32

    Alguém já reparou que a Amazônia é o jardim do quintal? Do pantanal às gerais, descendo os pampas até a caatinga é tudo quintal? Que a idéia imperial de Estado centralizado nunca sumiu? Que estamos unidos pq o Estado é “anti” autonomista, controlado por uma elite central que governando tudo e todos num pacto colonial sem fim. Mesmo as elites locais tão pouco entendem isso, elas se iludem não vem o óbvio, são analfabetas também. No Brasil tudo que está além de 100km da costa é potencial construtivo das elites dos Estados do RIO-SP e das cidades de Belo-Horizonte-Porto Alegre-Salvador, que é onde mora a verdadeira elite. Esse potencial é cuidado pela elite fantoche do interior, que não mandam em nada, mas acha que mandam do alto das suas S10 e pistolas. Até o RS joga esse jogo, quando as terras se esgotam vão se todos à Amazônia, expulsando índios, ribeirinhos quem quer que seja, atrás vem os que foram expulsos da suas terras no sul. Assim Brasília só se converteu em balcão de negócios da elite colonial do Brasil. IBOVESPA? Isso é para industriais liberais. Não se iluda, o Brasil tem donos. O Balcão atende os que vivem no centro-sul a beira do mar, com origem colonial. Volte e meia uma reunião no DF reorganiza a partilha, Odebrecht, Brahma, Ambev, Votorantim, Sadia, Perdigão, Friboi, Souza Cruz, GLOBO, RECORD, Igreja Universal, Folha de S.Paulo, TAM, GOL... A maquina colonial funciona a todo o vapor, está sempre escarrada na nossa cara de Norte a Sul, por 4.500 km, a lógica é sempre igual. Há alguma região no Brasil que seja capaz de inovar a organização e apresentar outro modelo de país? Não, e não precisa, o pacto está ótimo assim, basta ver como funcionam as emissoras de TV do RIO-SP e suas filiadas. No fim é não se incomodar, ficam na sede da capitania hereditária, que vale lembrar, tem tamanho de país, sempre na espera das ordens dos reis. Esse país tem colônias internas que satisfazem a maquina da metrópole central, RIO-SP-MG-RS-DF. com todos os tipos de recursos descritos por Pero Vaz de Caminha: gente, terra, energia, produtos...Vai mudar? nunca! O que acabei de dizer soa a classe média, a elite intelectual e a igreja... como um susto. A classe média diria, cale-se, temos que ficar juntos - o meu pai era baiano, meu avô pernambucano e o meu bisavô mineiro - e assim jogamos o mesmo jogo para sempre. N se pede nem maior autonomia para organizar a maquina pública. No Brasil a União retém 70% dos impostos, 20% ficam com os Estados e apenas 10% para municípios. Como isso se distribui? Nós estudamos onde de 1 à 9 série? Os primeiros cuidados médicos tem que ser feitos por quem? A manutenção da sua rua fica a cargo de quem? O transporte público organiza quem? O parque que se sonha quem deve construir? Mas a taxa selic é de 10%, valor pago para empréstimos que o governo faz. Ninguém para pensar nisso, queremos mesmo é cuidar da vida das pessoas na Amazônia, como se lá fosse o cofre do tio patinhas dos daqui e eles não pudessem se cuidar.