Redação Pragmatismo
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Cinema 11/Mar/2014 às 22:23
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Psicopatas do cinema inspiram estudo científico

Psicopatas retratados no cinema inspiram estudo científico. Uma equipe de psiquiatras forenses da Bélgica analisou psicopatas retratados no cinema. Conclusão: famosos personagens encarnados por Anthony Hopkins, Michael Douglas e Sharon Stone poderiam ser pessoas reais

hannibal psicopata

O cinema é uma arte particularmente apropriada para a descrição de psicopatias, afirma Samuel Leistedt, psiquiatra forense do hospital Marroniers, localizado em Tournai, na Bélgica. Muitos filmes que retratam psicopatas entraram para lista dos clássicos e bateram recordes de bilheteria, comoPsicoseSilêncio dos Inocentes e Sangue Negro.

Leistedt e sua equipe criaram um banco de dados com 400 filmes. Com base no realismo dos personagens, cerca de um terço desse material foi selecionado para uma análise. O estudo, que foi publicado no Jornal of Forensic Sciences, descobriu que, ao longo dos anos, as psicopatias retratadas no cinema se aproximaram bastante da realidade.

“Eu identifiquei personagens tão bem construídos, tão realistas, que seria possível encontrá-los no consultório”, conta Leistedt, coautor do estudo em parceria com Paul Linkowski.

Um clássico protótipo idiopático – doença que surge de forma espontânea e não depende de outra já conhecida – muito parecido com um caso clínico real é Anton Chigurh, o psicopata assassino de aluguel do filme Onde os fracos não têm vez, personagem interpretado pelo ator Javier Bardem. “Eu encontrei um rapaz exatamente como ele. Era um assassino na Bélgica a serviço de uma organização criminosa. Ele era muito frio e assustador”, exemplifica o pesquisador.

Mas nem todos os psicopatas são assassinos, serial killers ou estupradores. Alguns sequer são violentos ou criminosos. Atacantes manipuladores de corporações, como Gordon Gekko do filme Wall Street – Poder e Cobiça, de Oliver Stone, podem destruir outros seres humanos e ainda conseguem dormir tranquilamente.

“Gordon Gekko é, provavelmente, o melhor exemplo desse tipo de psicopata manipulador bem-sucedido. Eles não cometem um assassinato, mas são muito charmosos. Eles mentem e gostam de poder”, descreve o pesquisador.

Sexo frágil

Curiosamente, as poucas psicopatas mulheres no cinema que o estudo analisou são do tipo manipuladoras. Catherine Tramell, personagem de Sharon Stone no filme Instinto Selvagem, usa a sexualidade para atrair suas vítimas e matá-las com um picador de gelo, embora a agressão física seja rara entre as mulheres.

“Psicopatas do sexo feminino são mais manipuladores que os do masculino. A motivação para o assassinato é diferente, como a viúva negra que se casa com um homem mais velho saudável e coloca veneno na bebida dele”, resume Leistedt.

A contrapartida para o manipulador inteligente é o tipo machão, que possui mais músculos que cérebro. “O exemplo mais belo do machão é o famoso gangster de Chicago Al Capone. Ele é agressivo, mas não muito esperto”, completa o pesquisador.

Para o crítico de cinema Dietmar Kanthak, a definição do traço de personalidade de todos os tipos de psicopatas, tanto no cinema como na vida real, é a falta de empatia. Kanthak descreve Anton Chigurh como “o vilão perfeito com um péssimo corte de cabelo”.

“Ele mata como Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro, como uma máquina. Ele tem essa inteligência e vontade de concluir um trabalho. Ele não tem qualquer empatia!”, adiciona Kanthak.

Outro traço da psicopatia é a falta de remorso – ou de culpa. “Eles podem imitar emoções. Intelectualmente, eles têm a capacidade de explicar o que é tristeza, mas eles não conseguem sentir tristeza ou ansiedade”, revela Leistedt.

Fatores biológicos

A incapacidade de sentir emoções pode ter uma origem biológica. Quando imagens fortes de dor, horror ou sofrimento são mostradas a indivíduos psicopatas, a atividade cerebral mal é registrada em exames de ressonância magnética. As amídalas cerebelosas, duas pequenas estruturas em forma de amêndoas no centro do que é chamado cérebro emocional, permanecem frias.

“É como se o cérebro estivesse paralisado ou dormente. Essas estruturas são muito importantes em termos de emoções e medo. Quando uma pessoa vê uma cobra, por exemplo, a amídala ficará normalmente bem ativa”, conta Leistedt.

A ressonância magnética revela as diferenças em cérebros de psicopatas e não-psicopatas, mas não explica suas causas. Não se sabe até que ponto a ausência de ação da amídala cerebelosa pode ser um defeito de nascença ou genético. Sabe-se, por outro lado, que privações sociais, traumas de infância ou lesões na cabeça podem deixar uma impressão neurológica no cérebro.

Muitos dos psicopatas dos filmes analisados são, na verdade, sociopatas. Eles cometem os mesmos crimes brutais que os psicopatas, mas a diferença é que podem ser capazes de sentir emoções e remorso. Um exemplo clássico é o caso real de Matthew Poncelet, retratado no filme Os últimos passos de um homem. O ator Sean Penn interpreta o personagem condenado à pena de morte.

“Ele tem acesso às emoções, à tristeza e à culpa. Ele é antissocial e viciado em drogas, mas não é um psicopata”, afirma o Leistedt.

Cinematograficamente, Matthew Poncelet é um dos personagens mais reais do estudo. “Nós não sabemos se ele é culpado ou inocente, em seguida, aparecem as evidências que o apontam como assassino de dois adolescentes. É possível perceber toda a complexidade desse personagem”, afirma o crítico de cinema Kanthak.

DW.DE

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Comentários

  1. Felipe Postado em 12/Mar/2014 às 00:11

    Acho muito interessante essas análises psiquiátricas e psicológicas, mas acredito que deveria haver uma interdisciplinaridade e integração maior entre essas áreas e as ciências sociais e a história. Desde o começo do curso de Ciências Sociais aprendemos o poder da cultura na determinação do que é o ser humano, ao ponto de ser difícil estabelecer um homem com H maiúsculo. Além disso, não seriam as ideologias e cada cultura específica sistemas norteadores das ações humanas? Um Tupinambá que matasse e comesse seus inimigos à sangue frio segue padrões culturais, simbólicos e mitológicos próprios, e é bem possível que não sofresse qualquer remorso, pois segue suas determinações culturais, por mais que hoje isso nos cause repulsa. Da mesma forma, Gilberto Freire nos fala do mundo sádico potencializado pelo regime escravista no Brasil, no qual o poder absoluto e ilimitado dos grandes proprietários rurais produzia verdadeiras atrocidades que recaiam sobre os negros; esses, como sabemos, considerados objetos num sistema escravista. Poderíamos citar ainda Norbert Elias no livro O Processo Civilizador, que expõe a história da "evolução" dos modos à mesa, do controle dos instintos, etc. Enfim, os exemplos são inúmeros, e de qualquer forma, as ciências humanas teriam bastante a contribuir para tornar o debate dessas questões menos biologizantes e mais complexo.

    • Bruna Postado em 12/Mar/2014 às 12:59

      Concordo com você, Felipe.

  2. renato Postado em 12/Mar/2014 às 20:21

    Sério, não acredito, verdade mesmo...UAU!!!!