Eric Gil
Colunista
Compartilhar
Mulheres violadas 07/Mar/2014 às 19:46
24
Comentários

O machismo em números

Neste 8 de março, a tarefa que fica é endossarmos a luta contra o machismo e por políticas públicas que invertam esta triste realidade. Como já diria o cubano José Martí, "Nada causa mais horror à ordem que mulheres que sonham e lutam"

No dia 18 de fevereiro deste ano, saía na capa do Diário de Pernambuco a notícia sobre o assassinato da sindicalista e militante feminista, Sandra Lúcia, e o seu filho de dez anos, Icauã Rodrigues, na cidade do Recife. O autor do crime? Seu próprio companheiro, que alegou ter feito isto por ciúmes. Infelizmente este caso não foi uma exceção, prova disto foi na capa desta edição, o qual o Diário estampou as palavras “Esta lista precisa de um ponto final”, com o nome de mais 21 mulheres que já haviam sido assassinadas até então, no ano de 2014, apenas em Pernambuco, finalizando com o nome da Sandra.

machismo capa diário de pernambuco
(Imagem: Capa / Diário de Pernambuco)

O sentimento de posse é apenas mais uma das manifestações do machismo. Em uma sociedade desigual e opressora como a que vivemos, as mulheres são vítimas cotidianamente da violência e da discriminação.

Salário baixo e maior desemprego

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, o rendimento médio mensal das mulheres é 27,1% menor do que o dos homens. Bem, já foi pior, como há dez anos, em 2004, quando esta diferença era de 36,4%. A causa deste fenômeno vem de dois fatores: (i) as mulheres ocupam cargos com remunerações mais baixas do que os homens, sendo, por exemplo, uma grande concentração no setor de serviços domésticos (onde 94,5% são mulheres); e (ii) ainda existem trabalhos que pagam mais para homens do que para mulheres, mesmo sendo a mesma função.
Além de remuneração mais baixa, a taxa de desemprego também atinge as mulheres de forma mais intensa do que os homens. Para o mês de janeiro de 2014 a taxa de desemprego, calculada também pelo IBGE, foi de 4,8%, no entanto, se formos separar por sexo, esta taxa foi 4,1% para os homens, e 5,6% para as mulheres, ou seja, a taxa de desemprego para as mulheres é 36,5% maior do que para os homens.

A violência contra a mulher

Entre 1980 e 2010, segundo o Mapa da Violência 2012, produzido pela FLACSO, foram assassinadas no país mais de 92 mil mulheres, 43,7 mil, quase a metade, só na última década. O número de mortes nesse período passou de 1.353 para 4.465, que representa um aumento de 230%, mais que triplicando o quantitativo de mulheres vítimas de assassinato no país. Os estados com maiores índices são, respectivamente, Espírito Santo, Alagoas e Paraná. Em ranking internacional, o Brasil ocupa, hoje, a sétima posição de taxa de homicídio feminino, perdendo para países como El Salvador, Trinindad e Tobago e Rússia.

O local com maior número de casos de violência física segundo local de ocorrência da agressão é em sua própria residência, quase cinco vezes a quantidade que ocorre em via pública. Isto ocorre por conta da característica destas agressões. O Ministério da Justiça fez um estudo chamado “Homicídios no Brasil: Registro e Fluxo de Informações”, e chegou a seguinte conclusão sobre mulheres:

“Constatou-se que 45% dos 180 casos de mulheres mortas analisados pela pesquisa ocorreram em situação de violência doméstica e familiar; desse número, 70 são ações penais e 11 são inquéritos. Em 53% dos casos, o agressor era marido ou companheiro da vítima; em 43%, o agressor era ex-marido ou ex-companheiro; e em 4% dos casos, o agressor era filho da vítima” (p. 158)

Tanto o Mapa da Violência como o estudo do Ministério da Justiça põe o caso da Sandra como apenas mais um, ou seja, a regra, motivado por sentimentos de posse por parte dos seus ex-companheiros.
A Lei Maria da Penha, que certamente foi uma conquista para as mulheres, ainda está longe de ser o suficiente. Segundo o IPEA, em um estudo chamado “Violência contra a Mulher: feminicídios no Brasil, “não houve impacto, ou seja, não houve redução das taxas anuais de mortalidade, comparando-se os períodos antes e depois da vigência da Lei. As taxas de mortalidade por 100 mil mulheres foram 5,28 no período 2001-2006 (antes) e 5,22 em 2007-2011 (depois). Observou-se sutil decréscimo da taxa no ano 2007, imediatamente após a vigência da Lei, […] e, nos últimos anos, o retorno desses valores aos patamares registrados no início do período.”

As causas são diversas, tanto a pequena quantidade de casas abrigos e delegacias das mulheres, fruto da falta de prioridade do orçamento público para estas políticas, quanto a cultura machista, ainda reproduzida enormemente por comerciais, comediantes sem graça e outros tipos de empecilhos.

Mas neste 8 de março, a tarefa que fica é endossarmos a luta contra o machismo e por políticas públicas que invertam esta triste realidade. Como já diria o cubano José Martí, “Nada causa mais horror à ordem que mulheres que sonham e lutam”.

*Eric Gil é economista do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) formado pela Universidade Federal da Paraíba, mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Paraná; escreve quinzenalmente para Pragmatismo Político

Recomendados para você

Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 07/Mar/2014 às 19:55

    Agora eu pergunto ... porque estas "mulheres" escolhem esses lixos para lhe entregarem o útero? Será que elas não tinham opção? O machismo existe, porque há mulheres que aceitam e criam filhos e acostumam os maridos desta forma. Analogicamente o racismo existe, porque o negro brasileiro não vota em Negro (ver a população negra versus representatividades em todo escalão do executivo). Mas nunca é tarde para combater estes idiotas, mas o respeito deve partir dos desrespeitados (as).

    • Gilberto Postado em 07/Mar/2014 às 20:17

      Sempre tem um igual a esse Thiago Teixeira pra culpar a vítima.

      • Clarissa Machado Postado em 11/Mar/2014 às 12:37

        Sempre! Se o homem é machista é pq a mãe dele criou ele assim e não pq ele tem um pai imbecil que oprimiu a mãe a vida inteira.

      • Danilo Postado em 18/Mar/2014 às 10:11

        Minha Tia "namorou" um cara violento, depois de quase ser morta pelo o mesmo eu e minha família praticamente teve que se juntar e brigar com ELA! para ela se separar do cara, e brigar de novo para que ela fosse até a polícia (o cara se encontra foragido), então depois desse caso, SIM!, existe uma parcela de culpa da vítima. Ninguém, repito ninguém forçou ela a namorar o cara, pelo contrário incentivou a se separar.

    • Bruna Postado em 07/Mar/2014 às 20:24

      Ah sim porquê se você é homem, branco, hétero, não tem que se preocupar com os direitos dos oprimidos, eles que se danem né , vivem assim porquê 'querem' , devem 'se dar' ao respeito ao invés de ter o respeito e consciencia das outras pessoas.Afinal o machismo existe por culpa das mulheres né? segundo sua teoria fala sério...

      • Thiago Teixeira Postado em 07/Mar/2014 às 21:44

        Citei o racismo porque sou negro. Quanto ao machismo fiz uma provocação as mulheres que alimentam este ciclo.

    • Sarcasmo Postado em 07/Mar/2014 às 22:45

      Cara, como você é INTELIGENTE. Você deveria ir na ONU falar que você simplesmente descobriu a "cura" para todo o problema do machismo. Que GENIAL! Já imagino até o seu discurso: "Caros representantes mundiais e pessoas de todo o planeta etc etc e tal, eu tenho uma solução muito simples para o machismo; é só as mulheres deixarem de educar os seus filhos para serem machistas. É muito simples. Afinal, todo mundo sabe que são as mulheres as únicas responsáveis pela educação das crianças, tem sido assim desde a idade das cavernas. É claro que crianças e adolescentes não convivem em sociedade, não absorvem a cultura machista do todo social, não veem televisão e não têm amigos: as mães tem que passar 18 anos com os filhos presos num quartinho educando eles, então tudo que eles fazem de errado deve ser culpa delas. E também têm que parar de acostumar os maridos a serem machistas. Sim, é claro, porque se os homens casados tratam a mulher como suas posses, ou se sentem no direito de batê-las, isso é obviamente porque elas os ensinaram assim. De outra forma como é que o homem saberia que deveria respeitá-las, não é mesmo? E no caso dos homens não casados e já adultos hoje, bem, é só as mulheres saberem quem são e não se casarem com eles. Porque obviamente fora do casamento eles não conseguem fazer mal nenhum, não há machismo fora da relação conjugal e/ou amorosa. Claro que se a mulher diz não para eles e eles acham que ela não tem direito de dizer não provavelmente é porque ela não foi clara o bastante - mulheres do mundo, uni-vos para aprender a dizer "NÃO" em alto e bom som ou o camarada pode entender errado e aí a culpa é de vocês, que não sabem falar direito, suas mulas. Enfim, o respeito deve partir dos desrespeitados - é, isso faz TODO sentido, quem não respeita simplesmente não respeita, é óbvio que não podemos esperar que de uma hora pra outra eles comecem a ter ideias, como por exemplo, que mulheres são humanos tão cheios de valor quanto a eles e que merecem respeito. Ora, que expectativa tola! Pronto, está aí, resolvido o problema do machismo, podem me agradecer agora." *limpa a lágrima dos olhos em comoção enquanto aplaude fervorosamente*

    • Santiago Postado em 08/Mar/2014 às 01:03

      Lhe entregarem o útero... acostumam o marido desta forma... Cala a boca!

      • Thiago Teixeira Postado em 08/Mar/2014 às 09:16

        Vai lá no interior de Alagoas e tenta meter chifre ou pior, agredir uma mulher para ver o que as alagoanas fazem com o caboclo. Fervem água quente e derramam na orelha do cara enquanto dormem. Resumindo, o cara pensa 4 x antes de fazer alguma covardia. Tanto homens como mulheres devem reprimir com violência safados e covardes que batem em mulher. Não adianta discutir com você, pois numa hora dessas há mulheres "entregando o útero" para o mesmo homem que sentou a mão nela ontem.

    • Riacardo Postado em 08/Mar/2014 às 20:00

      Eu ia comentar a notícia escrevendo exatamente mais ou menos o mesmo que está nas suas duas primeiras frases. Não tem cabimento escolher caras assim nem para namorar, ou ficar, muito menos para dar. Em sendo uma militante feminista, mais incompreensível ainda. Não tenho esperança de que esta lista tenha ponto final, se depender de acabar com os idiotas. Mais fácil seria enxugar gelo. Só as mulheres podem acabar com isso.

    • leandra Postado em 09/Mar/2014 às 23:42

      não sei se você prestou atenção no texto mas O Alagoas citado por Você como exemplo, e um dos estados com o maior índice de feminicídios do pais. Se informe antes de externar esses comentários machista.

  2. Olga Postado em 07/Mar/2014 às 20:50

    Fico triste vendo que nem lendo artigos como os desta pagina, tem gente que ainda não entende e entendendo não comprende, com gente assim como mudar o mundo?..melhor digo com gente assim como pode mudar este pais? é a falta de consciência, ego super dilatado, o mundo gira em torno a estes coitados, e ainda nem sabem onde estão parados nem para que vivem!!!

  3. renato Postado em 07/Mar/2014 às 21:22

    Matar mulher...o unico ser humano do planeta!!! Só pode ser coisa de animal...

  4. Paulo Silveira Postado em 07/Mar/2014 às 23:08

    Impunidade, se todo condenado a qualquer crime aqui no Brasil fosse realmente punido, o n´° desses crimes e de outros seria bem menor, evidente que teríamos que mudar muita coisa neste país. Até que se mude alguma coisa as mulheres (ou alguém próximo delas) tem que denunciar qualquer tipo de violência (começa com uma alteração de voz, depois um puxão no braço, mais gritos e se deixar chegar nos socos, aí já era, depois acaba no cemitério). Na verdade é toda uma mentalidade que temos que mudar, dentro de casa, nas escolas, ou seja uma tarefa dificílima, mas tem que ser feita.

  5. renato Postado em 08/Mar/2014 às 15:18

    Feliz dia da MULHERES, para esta MULHERADA toda do meu Brasil varonil V A R O N I L...?????????????????????. Há controvérsias...

  6. Alexandre Lopes Postado em 08/Mar/2014 às 16:22

    Eu , ao refletir sobre o tema , me vejo obrigado a concluir no sentido de que a mulher insere-se num contexto de dominação masculina e não tem liberdade qualitativa de escolha . Desde pequena, regra geral, ela é condicionada por tia, vovó , mãe a se preocupar em arrumar um marido, satisfazê-lo de todas as formas e ter filhos .Com isso , elas passam a se preocupar só com a questão estética , com o prazer do parceiro e com a instituição casamento , relegando ao esquecimento potencialidades ou aptidões para estudar, trabalhar , evoluir profissionalmente etc . o que é triste , pois a mulher, como qualquer ser humano , tem capacidade para conseguir qualquer coisa na vida. Portanto , é incorreto , a meu ver, culpar a vítima , pois ela está num contexto socio-cultural de dominação masculina; logo , ela tende a assimilar ou aceitar tudo isso como muito natural . Trata-se de uma covardia e , além disso , culpabilizar a vítima é uma conclusão totalmente equivocada . OBS : Eu, por ser homem e estar inserido nesse contexto social, sempre fui bastante insensível a essa questão . Porém, de algum tempo para cá, eu mudei radicalmente meu posicionamento sobre o assunto, ao ler a respeito de alguns casos e refletir sobre o tema . Portanto, é sempre edificante quebrar preconceitos e eu tenho a humildade de dizer que eu estava completamente equivocado acerca do assunto .

    • ricardo Postado em 08/Mar/2014 às 20:09

      Atribuir responsabilidade à mulher não significa desculpar o idiota, que tem de ser punido com o máximo rigor possível. Senão, cabe o mesmo argumento de que o idiota não tem culpa de ser culturalmente formado para se comportar como tal, como seu pai e seu avô. Sem a reação feminina, nada disso vai mudar. E para isso elas contam com o apoio irrestrito de nós não idiotas.

      • Alexandre Lopes Postado em 10/Mar/2014 às 18:06

        Ricardo , não cabe o mesmo argumento não, porque o homem está na condição de opressor . Acho lamentável que ,num debate tão rico, pessoas como você deixem questões pessoais ( vaidade ) interferir, com o objetivo exclusivo de refutar ou fazer ressalvar a opiniões alheias . A divergência é sempre salutar, mas , quando feita de modo infundado , é dispensável .

    • Grazi Postado em 09/Mar/2014 às 16:25

      Alexandre, bom saber que existem homens como você que são capazes de reavaliar os conceitos e mudar a postura.

  7. Luciana Leite Postado em 09/Mar/2014 às 14:30

    é isso ai alexandre lopes, se mais pessoas como vc começarem a quebrar regra imposta por uma socio cultura de dominação do medo e do poder poderemos pensar em mudar não somente o nosso Brasil, mas também o mundo..... Ainda creio no ser Humano.....

  8. eu daqui Postado em 10/Mar/2014 às 14:16

    Se viver 500 anos, ainda não vou entender porque uma feminista casa com um brasileiro.

  9. Dominique Postado em 17/Mar/2014 às 18:57

    Concordo com o Thiago em um ponto: muitas mulheres se relacionam com sujeitos que demonstram desde sempre serem agressivos, desrespeitosos com elas e ainda assim "lhe entregam o útero " e não procuram coisa melhor

  10. Alexandre Lopes Postado em 21/Mar/2014 às 17:10

    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que esse linguajar é absolutamente deselegante . Em segundo lugar, talvez elas se relacionem com homens agressivos , porque elas veem neles e nela agressividade toda, uma forma de suprir uma impotência que elas acham que têm . Ou seja, trata-se de uma inversão inconscientizada da mulher sobre ela mesma e acho importante que as pessoas, sobretudo as mulheres, reflitam a esse respeito .

  11. Aline Antunes Barbosa Postado em 27/Mar/2014 às 17:26

    Eu não li todos os comentários mas trabalho diretamente com situações de violência contra a mulher. Vejo várias pessoas falando: "mas como elas não se separam, ou como continuam nessa situação de violência?" Há inúmeros fatores, mas vou falar apenas alguns. Primeiro: alguns casos elas já viram a mãe apanhar, a avó apanhar, a tia apanhar, a irmã apanha: então "faz parte, homem é assim mesmo", não conseguem olhar para uma vida sem a violência. Segundo: elas amam esses homens. Não confundam com amar apanhar. Algumas vezes esses homens batem por estarem sob efeito de álcool, drogas e elas acreditam que se eles ficarem bem ou levarem um susto (conversa com alguma autoridade) eles irão mudar. Elas realmente acreditam nisso. Terceiro: têm medo de não conseguir sustentar a família sem o parceiro. Muitos falam que vão sumir no mundo se elas se separarem e que não vão dar nem um centavo para elas sustentarem os filhos. Preocupada com as crianças, elas permanecem na relação. Quarto: Ameaça a filhos ou outras pessoas queridas. Muitas vezes há a ameaça que eles vão matar a criança se elas se separarem, e por medo que isso realmente aconteça, elas não se separam. Quinta: ameaça de suicídio do parceiro. Nesse caso, além da preocupação em não serem culpadas pela situação, no caso das que têm filhos, tem medo que essas crianças a culpem caso o parceiro venha realmente ao ato. Essas são algumas situações, há várias outras. Estou apenas expondo para aprofundar um pouco a discussão.