Redação Pragmatismo
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Racismo não 03/Mar/2014 às 12:24
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O Brasil e '12 anos de Escravidão'

É sintomático da crueldade brasileira que os melhores relatos sobre a nossa escravidão venham de estrangeiros, como os descritos em Charles Darwin e Vauthier.

12 anos de escravidão brasil
Cena de 12 Anos de Escravidão, filme vencedor do Oscar 2014 (Reprodução)

Urariano Mota, Direto da Redação

Mais de um crítico já observou que o filme “12 Anos de Escravidão”,  para historiadores norte-americanos, delimita um marco no conhecimento da escravidão. Falemos agora do que esse filme representa para os brasileiros.

Na última sexta-feira, na fila do cinema aonde fui, não havia um só negro. Minto: havia só este mulato que agora escreve. Ao procurar outro na fila, recebi dos cidadãos de pele mais clara uns olhos envergonhados, que se baixavam até o chão. Tão Brasil. Tão brasileiro é o pudor educado para o que não se enfrenta. Mas o filme na tela nos pagaria. Lá, podemos ver o retrato da casa-grande: a indiferença de todos ante a tortura. Linda, a sinhá olha da varanda o negro ser torturado e nada vê, melhor, assiste ao espetáculo obsceno como uma liberalidade do senhor, o seu marido. Que aula. É um filme quase didático da infâmia, do que no Brasil está encoberto até hoje.

Para a nossa própria história, a do Nordeste do açúcar em especial, para o que não se destaca em Gilberto Freyre, para o que em Gilberto é prosa encantatória, a realidade no filme mostra um escravo na forca, pendurado por horas em uma árvore, enquanto a rotina da fazenda segue sem distúrbio, sem assaltos de horror ou de repulsa. Mas isso é tão Brasil, amigos. Hoje mesmo, aqui na minha cidade, na sua,  jovens são amarrados em postes, os velhos pelourinhos. Os novos escravos são espancados, enquanto comunicadores na televisão aprovam e ganham dinheiro e fama por açular a massa para o linchamento.

Se houvesse uma só imagem a destacar, eu destacaria a tortura de uma escrava sob o chicote. Por um lado, lembrei o comportamento da sobrevivência sob os torturadores na ditadura brasileira.  Por outro, se fosse desenvolvida ao nível do real, do histórico, a cena daria vômitos pela agonia da dor, apesar de apenas representada. Porque a realidade é ainda mais cruel que o mostrado na tela. E os corações mais delicados, e hipócritas por extensão, se recusam a ver que os negros escravos no Brasil eram passados em moendas de cana, que expulsavam suas vísceras como bagaço. Outros, após o chicote, condenados à morte tinham as feridas abertas lambidos por bois. E aqui não preciso falar o quanto é áspera, cruel e ferina a língua de um boi. Poupemos o domingo. Mas de passagem menciono que  negros eram ferrados no corpo como os quadrúpedes da fazenda. Eles não tinham a marca do dono por uma medalhinha, como aparece no escravo Salomon no filme.

É estranho, é sintomático da crueldade brasileira, que os melhores relatos sobre a nossa escravidão (nossa aí em mais de um sentido, de falta de espírito liberto e de herança cultural) venham de estrangeiros, como os descritos em Charles Darwin e Vauthier, o engenheiro francês que viveu no Recife.

De Vauthier cito: “Madame Sarmento nos contou que como sua negrinha lhe tinha roubado seis vinténs, ela amarrou-lhe as mãos e deu-lhe umas boas chicotadas!!! Levantando- lhe a roupa!!! Sem nenhum constrangimento!!! Diante dos filhos!!! O mais velho deles observou que o posterior da negrinha não era mais bonito do que o de um cavalo, quando levanta a cauda. Qualquer pessoa poderia chegar a praticar coisas semelhantes num momento de excitação e envergonhar-se delas depois, mas contá-las… Que mulher! Que alma!… Hoje o cadáver de um negro ficou boiando na praia, debaixo das nossas janelas, levado e trazido pelas oscilações das marés. Mil pessoas passaram, viam-no, pararam um instante antes de seguirem caminho muito filosoficamente. Aprecio pouco as ideias geralmente admitidas sobre cadáveres que tendem em alguns casos a conceder mais cuidados aos despojos sem alma do que ao ser quando está vivo – mas este descaso, essa indiferença geral perante a morte – é verdade que era um negro! Um negro vivo já é pouca coisa: o que será então um negro morto? Essa incúria generalizada com as exalações que emanam de um cadáver, tudo isso caracteriza de modo bem saliente esta barbárie, engastada na selvageria e mal maquilada em civilização”. 

Saímos do cinema com uma frase do personagem na memória:  “Eu sou a prova de que não existe justiça na terra”. Brancos, negros e mestiços de todas as cores bem compreendemos. Enquanto os miseráveis continuarem a ser presuntos, presidiários, enquanto não for vista a pele mais negra no topo da sociedade, em um papel que não seja o de capitão-do-mato, como Joaquim Barbosa, não existe justiça no Brasil. Mas podíamos começar pela conhecimento real da nossa história.

É necessário que esse filme se prolongue em artigos e discussões entre os brasileiros. Ele é o vislumbre do que temos sepultado. Vejam o filme e releiam a história escura, oculta da escravidão. O filme é melhor do que os livros de sociologia escritos no Brasil até hoje.

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Comentários

  1. Rafael Martini Postado em 03/Mar/2014 às 16:33

    A escravidão acabou oficialmente, mas seus efeitos maléficos têm perdurado por todos esses anos, só não vê quem não quer, a chamada cegueira hipócrita.

    • luana Postado em 03/Mar/2014 às 17:37

      a escravidão acabou? KKKK...a maioria dos brasileiros só é livre pra escolher o seu senhor ou morrer de fome....ops... bolsa família

      • André Postado em 04/Mar/2014 às 17:59

        Não fale bobagem filhinha, vai estudar História vai... Tecer este tipo de comentário é assinar embaixo que você não entendeu nada do texto que foi escrito e nem do filme!

  2. Marcia Postado em 03/Mar/2014 às 16:53

    Pra mim, esse artigo só demostra o quanto brasileiro está alheio ao debate historiográfico acerca da escravidão no país! Depois de Freyre, muitos autores já se debruçaram sobre os vários aspectos do período escravista no universo luso-brasileiro.

    • ariel Postado em 04/Mar/2014 às 17:15

      E outro dia vi o filme sobre zumbi de cacá diegues...o orçamento deve ter sido um centésimo, mas como "documento" é muito mais que esse filme de Hollywood, para nós.

  3. antonia veralucia da silv Postado em 03/Mar/2014 às 17:05

    Excelente o artigo,já que no Brasil somos todos descendentes de negro,todo mundo pensa que é branco,devido a côr da pele!

    • José Ferreira Postado em 05/Mar/2014 às 10:34

      20% de genética negra não fazem de ninguém negro, e negro mesmo são 8%. Sinto muito por você, mas aqui não é a África, é a nossa América Latina, com os seus problemas peculiares.

  4. Alexandre Lopes Postado em 03/Mar/2014 às 17:40

    O autor do artigo mencionou um fato bastante eloquente sobre a hipocrisia brasileira a respeito da nossa história escravocrata : " O pudor gentil dos brancos de hoje quando veem um negro num contexto de desvalia . " Deve ser mais fácil para os fracos ou indiferentes agir desse modo.

  5. Leandro Coelho Postado em 03/Mar/2014 às 17:42

    Concordo com a Marcia. Além disso, já tivemos tantas obras televisivas e cinematográficas que abordaram o tema de forma ampla. O autor viajou um pouco na maionese (ou

  6. Albertina Rodrigues Postado em 03/Mar/2014 às 19:17

    Ninguém fala dos índios e a terra, em verdade, é deles; somos todos intrusos, seja negros, amarelos ou brancos. Ninguém fala de colocar um índio como Presidente do Brasil ou Ministro do STF

    • Elias Postado em 03/Mar/2014 às 20:45

      Todos os povos do mundo são intrusos, todas as "raças" existente foram escravizadas, pelo amor de deus.

    • José Miguel Souza Postado em 05/Mar/2014 às 18:01

      Sabia que os negros vieram para cá forçadamente, sequestrados na África!?

      • Elias Postado em 06/Mar/2014 às 00:20

        Eles eram vendidos por escravocratas negros, por sinal o continente que possui mais escravos literais no mundo ainda hoje é a África. Vc esta caindo no conto da esquerda, são idiotas uteis, a esquerda sem o ódio, sem guerra de classes, branco contra negro, opressor contra oprimido e por ai vai não EXISTE, ela desaparece, se ela continuamente não ficar nessa retórica ela some, o filme tem seu mérito sim mas o discurso de esquerda de “reparação histórica” nunca fez sentido e nunca fará, estude mais talvez entenda a linguagem dessa gente.

  7. Dikson Viana garret Postado em 03/Mar/2014 às 19:58

    ORAS BOLAS AMERICANOS COLONIZADORES, "OS DONOS DO PLANETA", OS VERDADEIROS ESCRAVIZADORES METENDO UM BEDELHO MAIS UMA VEZ NAS QUESTÕES POLÍTICAS DO MEU PAÍS. ELES AINDA IMAGINAM E QUEREM O ENTREGUISTA FHC E SUA TURMA DE NOVO PARA COMPLETAR SEUS PROJETOS DE VENDA DE UM PAÍS. NÃO POSSO PERMITIR !

    • Carol Postado em 03/Mar/2014 às 21:02

      Só no bom e velho inglês WTF????

  8. Leonardo Postado em 03/Mar/2014 às 22:22

    Capitão do mato era responsável por prender negros escravizados, o que tem isso haver com Joaquim Barbosa, um dos juristas que mais tem trabalho sobre ações afirmativas.

  9. Nany Vieira Postado em 04/Mar/2014 às 00:09

    Eu acho que sim, brancos e mais brancos deveriam assistir o filme, pois o negro sabe da sua ancestralidade mas o branco parece desconhecer ou foi ensinado erroneamente (claro) sobre a face dominadora da escravidão. Eu penso que Gilberto Freire prestou um grande desserviço ao país ao escrever um livro tão mitológico quando o Casa Grande e Senzala. Eu to contando as horas pra assistir esse filme. Ahhh, Lupita me representa!

  10. Mauricio Patricio Jr Postado em 04/Mar/2014 às 01:07

    Nem todos os brasileiros têm ancestrais de origem africana, é demagogia afirmar o contrário. Mas não preciso ser negro pra me ofender com o tratamento dado a esses meus concidadãos em nossa sociedade; meus ancestrais não precisam ter sido torturados para que eu sinta vergonha dessa parte de nossa história; Não preciso ter pele mais escura pra sentir a dor que é ser afro-descendente neste Brasil; não preciso morar numa favela ou na rua pra saber o quanto é ultrajante o tipo de vida dado a quem já nasce com 500 anos de injustiças nos lombos. Talvez um bom passo pra mudarmos essa mentalidade tosca de nossa sociedade seja deixar de lado a condescendência e a pena, para aplicarmos a fraternidade.

  11. Regiane Postado em 04/Mar/2014 às 10:40

    Me emocionei com seu texto lindamente escrito! Uma ótima definição para Joaquim Barbosa... Capitão-do-mato! Parabéns!!!

  12. Akira Postado em 04/Mar/2014 às 13:10

    Todos somos escravos deste sistema falido!!! Brancos, amarelos, vermelho, pretos e até os verdes!!! Ninguém sabe o que fazer com este mundo que um dia acharam que era perfeito e que não passa de merda!!! Pois o que resta é começar por nós mesmo, largar de sermos facista com moralismo, procurando um culpado. Humildade, Amor e Afeto dentro dos nossos metros quadrado é o suficiente!!! Um grande começo, limpar nosso interior jáaaaaaaa!!! Abs

  13. [email protected] Postado em 04/Mar/2014 às 15:15

    Há dois dias atrás, mais ou menos (veja....eu não me lembro bem) passou na TV a imagem de presos entrando numa delegacia: estavam amarrados pelo pescoço tal como há uns cento e poucos anos eram conduzidos negros para o mercado de escravos.........

  14. Nizinha Postado em 05/Mar/2014 às 12:30

    De fato, o filme é muito superior a toda a sociologia que corre por aí a respeito da escravidão no Brasil. Mais do que isto. A comparação é até injusta porque a sociologia corrente (brasilianistas incluso) não trata, de fato, da escravidão no Brasil. Para conhecê-la é indispensável a leitura dos seus grandes apologistas, tais como Antonil, Azeredo Coutinho ou Benci, por exemplo. Eles demonstram que a escravidão é - e tem que ser - tal qual aparece no filme: bárbara. Como os sociólogos só tratam sobre o nada, isto é, do mundo como ele deveria ser, e não como de fato é, seus textos são pura fantasia.

  15. Mateus Postado em 05/Mar/2014 às 17:27

    Belo! Meus parabéns!

  16. Elias Postado em 06/Mar/2014 às 00:14

    https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=gyDaaSSrNuw Um bom vídeo, o tema é feminismo mas é bom tb.