Redação Pragmatismo
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Direita 19/Mar/2014 às 11:10
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Marcha da Família 2014: General da reserva propõe golpe militar

Militar da reserva sugere “eventual intervenção militar”. Há uma clara insubordinação à Constituição e ao governo, que deveria ser respondida, e é espantoso que o Ministério da Defesa e o Ministério da Justiça permaneçam mudos

Independentemente das avaliações que faça sobre o alcance real da latente rebelião da extrema-direita militar (e civil) frente à Comissão Nacional da Verdade (CNV) e à própria existência da gestão Dilma, o governo federal não pode se omitir diante da propaganda e convocação de um golpe militar, ou seja, de um movimento armado que pretenda derrubá-lo.

Trata-se de um governo constitucionalmente eleito e em pleno exercício de suas atribuições. Não pode admitir que generais, da ativa ou da reserva, se deem ao direito de disparar mensagens pelas redes sociais (e presumivelmente por outros meios) convocando colegas de farda e apoiadores civis a derrubar o governo.

Pois bem: é exatamente isso que vem acontecendo. Um general de brigada reformado, Paulo Chagas, acaba de postar mensagem no blogue Sociedade Militar em que prega um golpe militar, utilizando como pretexto a recente decisão do STF de absolver os réus da AP 470 do crime de formação de quadrilha!

“A debacle [derrocada, ruína] da Suprema Corte, desmoralizada por arranjos tortuosos que transformaram criminosos em vítimas da própria Justiça, compromete a crença dos brasileiros nas instituições republicanas”, diz o general Chagas, para quem esse fato soma-se “às muitas razões que fazem com que, com frequência e veemência cada vez maior, os Generais sejam instados a intervir na vida nacional para dar outro rumo ao movimento que, cristalinamente, está comprometendo o futuro do Brasil”.

Prossegue o militar golpista, agora fazendo alusão aos acontecimentos da Venezuela: “Os militares em reserva se têm somado aos civis que enxergam em uma atitude das Forças Armadas a tábua da salvação para a Pátria ameaçada, quando não são eles próprios os alvos do clamor daqueles que já identificam nas imagens dramáticas da capital venezuelana a cor fúnebre do nosso destino”.

Acrescenta, adiante, que ao “exercerem seu direito legal de opinar e criticar, os militares da reserva diferem entre si na forma, na intensidade e na oportunidade de uma eventual intervenção militar que venha a dissuadir as pretensões mais ousadas dos dissimulados adeptos da versão ‘bolivariana’ do comunismo de sempre, todavia, são coincidentes e uníssonos no rebatimento de acusações mentirosas que, divulgadas de forma criminosa, visam a criar na sociedade o receio de ter os militares como fiadores da democracia”. O que seria uma “eventual intervenção militar”, se não um golpe de Estado?

Civis ingratos?

O general também se queixa daqueles civis que segundo ele desejam uma ação militar, mas não saem em defesa da Ditadura iniciada em 1964: “Todos querem que os Generais ‘façam alguma coisa’, mas ainda são poucos os que se dispõem a fazer o que está ao seu alcance. Poucos são os que adotam atitudes concretas e manifestam-se pública, individual e coletivamente, em defesa dos governos militares, escrevendo para os jornais ou protestando contra a hipocrisia e as más intensões [sic] das ‘comissões da verdade’”.

Prossegue o general, conclamando maior apoio civil ao golpismo: “No momento atual, a causa da democracia não dispensa o concurso de ninguém. Seria portanto uma importante contribuição se todos os civis que têm as Forças Armadas como última razão da liberdade e a garantia dos fundamentos constitucionais pusessem suas opiniões a público, em artigos, manifestações, textos, ‘cartas do leitor’ e outros recursos do gênero e não apenas em comentários restritos à leitura dos poucos profissionais da mídia que ainda ousam remar contra a correnteza ou dos escribas de mídias sociais que, mesmo comprometidos com a causa, têm apenas seu limitado e débil sopro para tentar enfunar as velas da embarcação”.

Causa da democracia? “Última razão da liberdade”? Ora, o Brasil vive um período de relativamente ampla liberdade política, pelo menos nos marcos da institucionalidade. Tanto é que até provocadores de extrema-direita como o deputado federal Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, movimentam-se à vontade. Mas voltemos ao texto do general.

“As pessoas de bem, informadas, estão com medo do futuro, acuadas até para reagir e para manifestarem-se pacificamente”, continua Chagas. “Não basta, portanto, pedir uma atitude dos militares, é preciso que os civis esclarecidos e convencidos do perigo ostentem massivamente suas posições e opiniões e que contribuam para magnetizar a agulha que definirá o novo rumo a ser tomado”.

Nova “Marcha com Deus”, novo golpe?

O militar não explica por que as “pessoas de bem” estariam “acuadas”. Quem as está acuando? Mas o “novo rumo” proposto fica claro no trecho final de seu texto: “As ‘Marchas da Família com Deus Pela Liberdade’, programadas para o mês que inicia, são um bom começo para esta soma de esforços e para reafirmar o que, há cinquenta anos, fez com que o Brasil fosse visto e admirado como a ‘Nação que salvou a si própria’!”.

Em suma, o general está propondo um novo golpe. Novamente contra um governo legítimo, como ocorreu em 1964 contra João Goulart. E as mensagens de apoio que ele vem recebendo, na linha expressa de “Eu apoio a intervenção militar”, e mesmo de um ex-fuzileiro naval que se coloca “à disposição”, sugerem que sua mensagem foi devidamente compreendida.

Quando dezenas de generais das três Armas assinaram e divulgaram virulentos manifestos contra o governo, em 2012, o ministro da Defesa, Celso Amorim, anunciou que haveria punições. Não houve. De lá para cá, generais da ativa e da reserva continuam a a rosnar ameaças, a dar declarações a propósito de assuntos que não lhes dizem respeito, e a proferir insultos contra a CNV. Caso o governo continue fingindo que nada acontece, estará incorrendo novamente em grave omissão.

Há uma clara insubordinação à Constituição e ao governo, que deveria ser respondida. É espantoso que o Ministério da Defesa e o Ministério da Justiça permaneçam mudos. Parece que a Defesa foi “capturada” pelas Forças Armadas, como se costuma dizer de agências nacionais que passam a ser controladas pelos interesses econômicos que deveriam ser fiscalizados e controlados por elas.

Desse modo, permite-se ao fascismo fardado e civil articular-se à vontade e crescer, criando ameaças reais à sociedade brasileira. A Polícia Federal, que vem sendo utilizada para reprimir povos indígenas, e a Agência Brasileira de Informação (Abin), sempre tão atenta aos movimentos sociais de esquerda, não conseguem enxergar o perigo fascista?

O governo petista, também nesse tema, parece submeter sua ação inteiramente ao cálculo eleitoral: se a extrema-direita é minoritária, para que gastar capital político confrontando o discurso golpista?

No próximo dia 22, a extrema-direita promete sair às ruas. Para o general Chagas, a tal “Marcha” seria apenas “um bom começo”. Para a esquerda e os democratas em geral, será o momento decisivo para avaliar: Dilma e Celso Amorim fazem bem ao fingir que nada está acontecendo? Ainda que as Marchas do dia 22 reúnam pouca gente, parece absurdo que um governo legítimo e as forças políticas que o apóiam assistam inertes ao avanço do golpismo.

Aliás, a reação ao golpismo deveria reunir também os setores democráticos da oposição – gente séria que, à esquerda ou ao centro, não aceita que o país caminhe de volta para uma ditadura militar.

Pedro Pomar e Rodrigo Vianna, Escrevinhador

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Comentários

  1. renato Postado em 19/Mar/2014 às 11:18

    Acima de tudo, de todas estas ignorancias estamos num pais DEMOCRATA.. e assim queremos que permaneça.... Naquela época não havia comunicação em massa...não se preocupem, deixem eles marchar, faz bem para os joelhos e podem neste dia mandar lavar seus pijamas. Afinal devem estar encardidos e com sangue seco dentro dos bolsos.. Dá até para mandar as crianças tremularem pequenas bandeiras...

    • Sergio Postado em 19/Mar/2014 às 19:03

      Estou recebendo algumas mensagens nesse sentido! Morava perto da Central do Brasil e acompanhei tudo com meu pai. Ele achava que aquele golpe ia resolver o problema do Brasil. Que nada! Era estudante secundarista e tinha que entrar no primeiro ônibus que aprecia pois não podia haver aglomeração! Soube depois de muita "m...." que meus colegas de faculdade e que eram militares faziam! Desde de colocar combustível em quarteis, ninguém comprava gasolina! Isso foi só começo! Só quem não conhece a história pode aceitar esses absurdos! Se a política é podre foi porque ficou anos no "inferno" da ditadura!

  2. renato Postado em 19/Mar/2014 às 11:21

    Mas Bah!!!, queimei o arroz, minha mulher vai me matar... fico entretido aqui, e dançei, ela me dá mais medo..

  3. Fábio Postado em 19/Mar/2014 às 12:07

    Talvez não seja estratégico confrontar e dar voz a um discurso q, prima facie, não tem nenhuma força. Não só pelo número do eleitorado da extrema direita, mas tb pela situação internacional. A falta do ambiente da Guerra Fria e a pouca força do comunismo no mundo são dados que mudam completamente o cenário em relação a 64. Não creio q os EUA e outros países estejam dispostos a reconhecer e muito menos a patrocinar um golpe militar em 2014. Não digo que possamos ficar tranquilos. Mas uma reação oficial, a meu ver, é um erro estratégico. Mesmo porque esse grupo tem um discurso maniqueísta de fácil assimilação - talvez possa ganhar até apoio do "gigante adormecido". Prefiro o debate em outros canais democráticos a uma repressão oficial do discurso.

    • Tijolo Postado em 19/Mar/2014 às 16:14

      Tem certeza? Você esqueceu do que os EUA tentou (e continua tentando) fazer com a Venezuela esse ano? O apoio não precisa ser direto e descarado.

  4. Thiago Teixeira Postado em 19/Mar/2014 às 12:18

    Golpe militar não tem sentido algum no Brasil. O governo está certíssimo, todos os eventos devem ser respeitados, disponibilizar policiamento, acompanha-los no início do protesto, no final da manifestação acompanha-los até o ponto de ônibus ou estação de metro, varrer as ruas e a vida continua. Golpe militar só acontece com financiamento de grandes grupos financeiros locais e com apoio norte-americano. Esse turma não tem nada disso, nenhum mega empresário está disposto a ter seus negócios interrompidos mediante uma crise política, portanto, como diz o ex-presidente Lula: "Vimemos numa democracia, todos tem o direito de protestar".

  5. Eduardo Oliveira Postado em 19/Mar/2014 às 15:09

    Tolo general, até mesmo o próprio governo americano esta satisfeito com os avanços democráticos do Brasil, é doença de boi chifrudo esse ódio da cor vermelha, da esquerda, dos avanços sociais, das melhorias que o nosso país esta tendo de fato. Presidenta Dilma, Ministro da Justiça, contribuam sobe a ordem de suas funções Ordenem a prisão de qualquer oficial de alta patente que viole a lei constitucional democrática. Cadeia pra esses generais...

  6. jose Carlos Postado em 19/Mar/2014 às 15:40

    Este general está senil.O lugar dele é na Veneuela. Lá que é lugar de golpes.O Brasil tem um governo eleito pelo povo. Este ano o povo tem a chance de mudar pelo voto. Não precisamos de assassinos e torturadores.

  7. douglas Postado em 19/Mar/2014 às 16:20

    Compraram bem a noticia, bando de petralhas...

    • João Postado em 19/Mar/2014 às 17:36

      O único "argumento" que uma pessoa com esse nível de inteligência consegue fazer é "petralhas". Parecem papagaios, não ensinaram a argumentar, mas, somente, repetir uma palavra.

    • Sergio Postado em 19/Mar/2014 às 19:18

      Você quer fuzil na sua cara??? Isso é que a ditadura fez!

  8. queiroga Postado em 19/Mar/2014 às 16:49

    Esse babaca não deve ter o que fazer. Porque não procura uma lavagem de roupa ou outra coisa pra ocupar o tempo.

  9. Dagô Postado em 19/Mar/2014 às 17:08

    Sempre fui contra regimes de exceção, ditatoriais, truculentos e por aí vai. Sou democrata convicto, ensejando continuamente a preservação da liberdade, a busca pela igualdade de direitos e o fomento da fraternidade humana universal, mas infelizmente reconheço que nossa democracia reconquistada há pouco tempo, criança ainda, de fraldas até, está dodói, muito febril, necessitando de cuidados preciosos para que as feridas apontadas e sentidas na carne pelo povo, não se tornem purulentas e em chagas abertas nas três instâncias. Resta-nos votar e votar bem. É assim que funciona a democracia, agrade ou não. Resta-nos participar mais da vida de nosso país com muito empenho e dedicação, agrade ou não. Resta-nos investigar e questionar as verdades sobretudo aquelas ditas absolutas... Agrade ou não. Resta-nos promover a educação e os educadores, única fonte de água potável ainda acessível nesse gigante deserto adormecido.

  10. elza maria villas boas Postado em 19/Mar/2014 às 18:49

    ...ou então ocupar o tempo pra umas aulinhas de língua portuguesa...

  11. prof. Klinger Ericeira Postado em 19/Mar/2014 às 21:37

    Apenas uma velha senhora, ressentida e recalcada... De qualquer forma, precisamos estar atentos a toda e qualquer iniciativa que ponha em risco a democracia que tanto nos custou para construir.

  12. Oliveira Postado em 19/Mar/2014 às 23:33

    depois dos movimentos de 2013, eles só podem estar brincando, as força armadas no Brasil também são inteligente, um ato desse é de extrema burrice. Não existe lógica em nenhuma esfera, seja ela social, econômica, política ou de qualquer outra natureza, seria um fracasso total. hoje quem comanda a comunicação não é mais a grande mídia de antes e sim a internet e os celulares, de cada jovem em cada esquina, é outra realidade totalmente diferente de cinquenta anos traz.

  13. Denisbaldo Postado em 20/Mar/2014 às 11:07

    general do banco de reservas...se fosse titular até dava pra ficar com medo...

  14. A. Buscariolli Postado em 20/Mar/2014 às 12:16

    Pois é... o "medo" ao petismo que parte da mídia instalou perdeu o controle e se tornou cada vez mais fanático e disforme. Passou do ponto em que bastava eleger o PSDB na esfera federal, agora o pessoal quer "intervenção militar". O problema é que por mais que a propaganda contra o governo tenha dado certo até certo ponto, parte do "público alvo" dessa propaganda não é fanático o suficiente para apoiar barbaridades como intervenção militar. Formou-se quase um "Tea Party" brasileiro, assim como a ala fanática acaba por prejudicar o partido Republicano nos EUA, esse tipo de fanatismo torna a direita mais desunida e disfuncional no Brasil.

  15. luizcarlosoliveira Postado em 20/Mar/2014 às 14:16

    Espero que nenhum brasileiro com mais de 40 anos tenha esquecido o país em que eramos forçados a aceitar ou deixa-lo...no caso do "povão"...não existia alternativa.Não pela miséria e a opressão pelas armas da elite oligarca-uma instituição perene no Brasil...-,mas, pela perda da Liberdade,-o direito mais essencial que pode ter um ser humano-e sobre sua vida.