Redação Pragmatismo
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Homofobia 07/Mar/2014 às 14:48
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Jean Wyllys: Para Alex, com carinho

Semelhante a Alex, que morreu espancado pelo próprio pai, quando criança eu também não tinha "jeito de homem"; gostava de brincar com as meninas, gostava de cantar e dançar

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Alex (esq.) teve o fígado dilacerado pelo próprio pai, que não aceitava o ‘jeito afeminado’ do filho (Imagem: Pragmatismo Politico)

Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater idéias e fatos, sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção…

Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele…

Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a música “No dia em que eu saí de casa”. A letra descreve quase que em detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):

“No dia em que saí de casa, minha mãe me disse ‘filho, vem cá’; passou a mão em meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: ‘por onde você for, eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu vou pedir a Deus que ilumine os passos seus’.

Eu sei que ela nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que, depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria continuar ali, mas o destino quis me contrariar… E o olhar de minha mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar! A minha mãe, naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena cidade, ela jamais saiu… Ela me disse assim: ‘meu filho, vá com Deus que este mundo inteiro é seu!”.

Depois de ouvir essa música, ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo próprio pai para que “tomasse jeito de homem”. Alex, natural de Mossoró, RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai, desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para tal.

Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou ao perceber que não havia quase ninguém lá… Sozinha, aquela semente indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.

Meu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro…

Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha “jeito de homem”; gostava de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e insultos desde que me entendo por gente. Cresci sob apelidos grosseiros e arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu “jeitinho” me fazia vulnerável… e eu sabia disso ou, ao menos, intuía; por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência. Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia mudar em mim. Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu pai, em particular, com um distanciamento.

Minha estratégia de sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era. Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram.

Tanto que, no dia em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada diziam: “Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu”. E é!

Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como aconteceu com o pequeno Alex…

Hoje eu quis, do fundo de meu coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para perto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e das mãos de seu algoz; de chamá-lo de “filho”; olhar em seus olhos e dizer “Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te proteger”; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele, “seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho dele”…

Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe mesmo, que ilumine sua alma…

Jean Wyllys é professor universitário e deputado federal pelo PSOL. Texto originalmente publicado em CartaCapital

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Comentários

  1. Priscila Postado em 07/Mar/2014 às 15:08

    Lindo Texto, não tem como não se emocionar com essa tragédia e sua sensibilidade.

  2. ricardo Postado em 07/Mar/2014 às 15:28

    Crime é crime. Quer dizer que se não fosse por esse motivo o crime seria menor? Não temos que diferenciar as pessoas. Simplificando foi um crime contra um ser humano.

  3. Alexandre Lopes Postado em 07/Mar/2014 às 15:31

    Texto belíssimo !! Me emocionou , profundamente .

  4. Carlos Oliveira Postado em 07/Mar/2014 às 16:59

    A cada dia mais tenho orgulho de ter votado no deputado Jean Willys!! Parabéns... excelente e comovente texto.

  5. Fran Oliveira Postado em 07/Mar/2014 às 20:17

    É impossível não chorar. Onde já se viu cometer tamanha barbárie contra uma criança? Mas de uma coisa você pode ter certeza Jean, as pessoas odeiam nos outros aquilo é delas mesmas, nada mais.

  6. Sandra Lucca Postado em 08/Mar/2014 às 13:50

    Impossível não chorar

    • Samara Postado em 10/Mar/2014 às 17:45

      Realmente, impossível.

  7. Carlos A . B Postado em 08/Mar/2014 às 20:52

    realmente lindo texto, parabéns ao nosso querido deputado e ser humano Jean Wyllys . Mas aproveitando o gancho , tendo como exemplo esse terrível absurdo que aconteceu com o menino Alex, não seria uma ótima oportunidade pra o nosso deputado iniciar , ou mesmo tentar colocar na câmara , um projeto prevendo um lei de responsabilidade social ??? Ou algum de vocês amigos leitores concordam que toda e qualquer pessoa tem direito a ter quantos filhos quiser sem a mínima responsabilidade ??

  8. Nina Postado em 09/Mar/2014 às 21:46

    Jean, belíssimo seu texto me emocionou! Que tua luta e teu exemplo permaneçam! Que possamos acolher o Alex, mesmo que seja só em pensamento, para que saibamos acolher tantos outros que encontraremos para que não precisem lutar com todas as forças de suas almas para receber o que é básico nas relações: respeito, justiça e amor.

  9. Pereira Postado em 10/Mar/2014 às 16:38

    Fizeram a mesma coisa que um aborto !!!