Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 28/Mar/2014 às 10:13
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"Hoje sinto vergonha de ser homem"

Meninos e rapazes, mas também meninas e moças, deveriam ser devidamente educados, desde cedo, para que não se tornassem os monstrinhos hoje formados em ambientes que fomentam o machismo

mulheres-violadas

Leonardo Sakamoto, em seu blog

Estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que 42,7% da população concorda totalmente que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e 22,4% concordam parcialmente com a afirmação. E 35,3% concordam totalmente que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Outros 23,2% concordam parcialmente.

Quem se assustou com isso não conhece o país em que vive.

Vou reproduzir um comentário que já havia feito:

Para uma parcela considerável da sociedade, não se enquadram na categoria de “vagabundas” apenas mães e avós, que dormem o sono das santas católicas, enquanto quem é “da vida” povoa as ruas e a madrugada.

Porque “mulher de bem” cuida da família, não sai sozinha ou à noite, não aceitaria nunca colocar um vestido acima do joelho e deixar as costas de fora, não bebe, fuma ou tem vícios detestáveis, não ama apenas por uma noite e não ri em público, escancarando os dentes a quem quer que seja.

“Mulher de bem” permanece em casa para servir o “homem de bem” e estar à sua disposição como empregada, psicóloga, enfermeira, cozinheira ou objeto sexual, a qualquer hora do dia e da noite. Por que? Porque, na cabeça dessa parcela considerável da sociedade, elas pertencem a eles. Porque assim sempre foi, é assim que se ensinou e foi aprendido. É a tradição, oras!

E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado.

Nesse sentido, quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns “corretivos sociais”. Reclamamos de estúpidos muçulmanos que, do alto de uma interpretação bisonha do Corão, atacam mulheres que resolveram ser independentes, mas acabamos por fazer o mesmo aqui. Não é a contundência de um vidro de ácido lançado no rosto de quem deixou a burca ou o shador em casa. Mas pode corroer tão fundo quanto e deixar marcas que podemos não perceber.

Corretivos sociais que aparecem na forma de “inocentes” brincadeiras, de comentários maldosos, de críticas abertas, de encoxadas humilhantes, de assédio psicológico ou físico, de tentativas e de estupros consumados.

As formas de violência que não envolvem agressão física são também perversas porque, como tal, não são encaradas. “Não foi nada demais, apenas uma brincadeira” ou “Esqueça! Ele é jovem! Só está fazendo molecagem.”

Uma mulher que conversa de forma simpática em uma festa está à disposição.

Uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição.

Um grupo de mulheres sem “seus homens”, andando na noite, está à disposição.

Depois perguntam o porquê de Marchas das Vadias acontecerem ao redor do mundo para protestar pelo direito de viver da forma que melhor convier.

Torço para que a quantidade bizarra de histórias sobre rapazes que crêem que moças são objetos à sua disposição seja consequência do aumento de informação circulando por conta do crescimento das ferramentas de redes sociais e não por causa de uma mudança no seu comportamento. Ou seja, fatos que já aconteciam antes e que, agora, deixaram a penumbra e ganharam visibilidade. Caso contrário, vou entrar em depressão profunda.

– Você não tem namorado. Se tivesse, ele não te deixava sair sozinha.
– Mulher minha só vai para festa comigo do lado.
– Não importa que você não queira, se não me der um beijo, eu não deixo você ir.
– A culpa não é minha, olha como você tá vestida!
– Se saiu de casa usando só isso de roupa, é porque estava pedindo.
– Ei, mina, se liga! Se não queria ficar comigo, porque topou trocar ideia?

Como já trouxe aqui, o homem precisa começar a entender que tem direito ao afeto, às emoções, a sentir. Passar a ser homem e não macho. Começar a mexer na sua programação que, desde pequeno, o ensina a ser agressivo e a tratar mulheres como coisas. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto em público. Legal é xingar, machucar, deixar claro quem manda e quem obedece. O contrário é coisa de mina. Ou, pior, de bicha.

E vale ressaltar: homens e mulheres responderam essas aberrações no estudo, sendo as mulheres, aliás, a maior parte. Porque esse sistema de homens conta com soldados de ambos os lados. Não importa de onde vem o preconceito, a matriz continua machista. Meninos e rapazes, mas também meninas e moças, deveriam ser devidamente educados, desde cedo, para que não se tornassem os monstrinhos hoje formados em ambientes que fomentam o machismo, como família, igrejas e escolas.

Enquanto o processo de conscientização caminha, o Estado deve deixar claro que violência contra mulheres, seja ela física ou verbal, não pode ficar sem punição. Pois enquanto uma mulher não tiver a garantia de que não será importunada, ofendida ou violentada, com ações ou palavras, toda a sociedade vai ter uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer. Ou seja, não fiquem tranquilos se estiverem na porcentagem que respondeu outra coisa.

Enfim, a pesquisa apenas confirma o que já sabemos. Mesmo assim, ver os números, escancarados, gera uma sensação ruim.

Sim, hoje é um daqueles dias em que sinto uma enorme vergonha de ser homem.

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Comentários

  1. Rafael Postado em 28/Mar/2014 às 10:28

    Sempre disse isso, certas atitudes masculinas enojam.

    • Rita Candeu Postado em 29/Mar/2014 às 07:31

      masculinhas E FEMININAS o que tem de mulher machista não dá para contar

  2. Rafael Postado em 28/Mar/2014 às 10:29

    Eu sempre disso isso, não me sinto inferior nem melhor que um monte de cara que vejo mexendo com mulheres na rua.

  3. Carlos Prado Postado em 28/Mar/2014 às 10:41

    Feminismo implantado com sucesso. Só esperar os casos de homens com vergonha por serem homens se multiplicarem e já poder-se-á aprovar mais um pacote de leis misândricas. A cereja do bolo: uma lei que mande o homem a forca por qualquer desconfiança de uma denunciante que sequer chegou perto do sujeito - afinal, ele é um estuprador reprimido desde que nasceu homem.

    • Carla Postado em 28/Mar/2014 às 10:47

      Que medo hein, Carlos, que as coisas mudem. Queria eu que o feminismo estivesse implantado. Aí poderia finalmente mudar de nome e se chamar HUMANIDADE. Você apóia a misoginia por medo da misandria, que vergonha...

      • Rodrigo Postado em 28/Mar/2014 às 11:02

        Carla, o problema é quando saímos de um extremo para outro, sem que seja buscado o ponto de equilíbrio. Quando resumimos nossos anseios, nossos desejos de mudança, apenas à manutenção de um "ismo", a qualquer custo, o movimento deixa de ter por objeto a mudança, em prol apenas de ser o novo opressor. Tal é o cuidado que se deve ter, sempre que necessária a crítica, a intervenção. Questionar, pois: "estou vencendo a dominação de um carrasco ou me tornando um novo carrasco?" Às mulheres, todos os direitos de igualdade, de liberdade individual, de autodeterminação quanto a si próprias (não confundindo o próprio corpo com o de outrem), mas com a devida reflexão.

      • Carlos Prado Postado em 28/Mar/2014 às 13:56

        Bem, não me lembro de ter apoiado misoginia alguma. Se em algum momento o fiz no comentário acima me ajude a identificar a passagem para que eu possa corrigir ou pelo menos saber exatamente as consequências do que eu defendo. Já as feministas não parecem ter vergonha de apoiar misandria atiçando medo pela misoginia. Longe de mim pensar alguma vez que alguém é incapaz de alguma atividade laboral unicamente por ser mulher ou contabilizar isso em sua inferioridade. Mas não posso jamais concordar com os discursos de ódio exacerbado e de estatísticas distorcidas espalhados pelas feministas, coisa que pouco ajuda as mulheres. Tanto que há muitas mulheres que se dizem contra o feminismo, o que também mostra como há realmente mulheres inteligentes e independentes - não são todas feministas, que acreditam que a lógica e a razão é mais uma ferramenta do patriarcado para oprimir as mulhures.

    • André Campello Postado em 29/Mar/2014 às 11:18

      Perfeita a análise!

    • André Campello Postado em 29/Mar/2014 às 11:36

      É por isso que eu sempre disse: leis se mudam de uma hora para outra, mas costumes, valores e tradições levam séculos e às vezes milênios. Outra: todo comportamento indesejado num homem é pior ainda se perpetrado por uma mulher, v.g., homem bêbado é desagradável? Uma mulher então. .. Homem falando palavrão é feio? Mulher então... O mundo é como é; e não como deveria ser! Fato!

  4. Paulo Postado em 28/Mar/2014 às 11:11

    Enfim, todos somos culpados, tendo votado sim, não ou ficado em cima do muro. Seus ancestrais te condenaram, antes de você nascer. A garantia é a lei e esta já existe pelo que sei. Ainda não somos uma Índia onde grupos tribais e comunitários decidem se a mulher deve ser estuprada pelos "crimes" por cometer adultério ou simplesmente querer estudar. Temos sim uma cultura de extrema impunidade pelo fato de o estado, na figura do judiciário e executivo, não julgar e colocar na cadeia esses casos patológicos.

    • Marcelo Gurgel Postado em 24/Jul/2015 às 23:35

      Pois é, ridículo. Essas pessoas não conseguem entender algo simples: a moral tem a ver com escolha, se os homens nascessem estupradores não seria uma escolha moral. O negócio é que quem faz sempre tem escolha.

  5. Bruno Postado em 28/Mar/2014 às 11:39

    Eu vejo pesquisas, criações de leis, protestos e muita reclamação sobre o achismo. Mas até hoje não vi uma pessoa com uma proposta boa para a educação familiar, mas eu vejo a propagação da vitimização o tempo todo, sem nenhuma medida efetiva.

  6. Thiago Teixeira Postado em 28/Mar/2014 às 12:04

    Em resumo, essa é a mentalidade de nossos políticos, juristas e militares. Resta nós homens que pregam o respeito as mulheres continuarmos a tirar gotas do oceano até as futuras gerações mudarem seus paradigmas.

  7. Olga Postado em 28/Mar/2014 às 13:13

    Nem machismo nem feminismo, nem o estado nem as leis, não procurar culpados, não adianta..todos os problemas tem uma raiz comum,que é a falta de valores na formação do ser humano, Uma pessoa que respeita os outros, não mexe nem agride, não critica nem bate...o problema é deixar de lado os preconceitos antigos, as formas velhas de comportamento dos seres nos relacionamentos e fora deles. RESPEITO A SI MESMO E A OS OUTROS É A LEI. se somente se entende isso, já o mundo seria diferente. Valores, gente, educação de e com valores, onde o educando aprenda e os incorpore nas suas condutas. As leis são necessárias sim para aqueles que extrapolam condutas agredindo os outros. A mulher tem sido objeto e propriedade dos homens por séculos, esta civilização é fundada no machismo, todos são jefe de alguma coisa...mais o respeito incorporado nas atitudes de todos, homens e mulheres, fará que isso mude. Sei que é uma utopia por enquanto, pero devemos empezar já, era para ontem. A escola deixo os valores de lado para priorizar as informações, esquecendo de formar o aluno em forma integral, desenvolvendo a incorporação de valores na sua vida. A toma de consciência de que todos temos direitos de viver como gostamos sem invadir o outro, sem ferir nem criticar, sem qualificar...mais isso custa muito esforço; a aceitação do outro como ele é vale para todos, homens e mulheres. Quando queremos mudar o outro e fazer com que ele se comporte como nós pensamos que esta bom, já não estamos amando o outro e si a nós mesmos, nos impondo, e isso já é violência. Mudar a concepção machista da sociedade não é fácil, é uma tarefa de tempo e educação na escola e na família.

  8. Renata Postado em 28/Mar/2014 às 14:21

    Pai e mãe..homem e mulher...a família deseduca e cria monstros. Essa é só uma das consequências.

  9. Caio Postado em 29/Mar/2014 às 10:14

    O que direi sera considerado machismo.. mas.. Nao sibestime a maldade e a vontade de estupro de um homem, nem o seu desenvolvimento, sua espontaneiadade e libido. O perigo existe nao pela injustica. Mas pela maldade que mao se corrige. Eu tenho instinto, tesao, nao avanco sinal pq tenho controle. Mas alguem nao pode decidir nao ter controle. O mundo eh mais selvagem e lei pune, lei nao impede de fato.

    • Caio Postado em 29/Mar/2014 às 10:17

      Enfim. Lutem contra isso, mas nao sejam ingenuos suficiente para achar que pode deixar de ocorrer. Querendo ou nao, mulher tem uma musculatura menor e tal. Nao deixaria minha filha sozinha em alguns ambientes nao por maxismo em ai. Mas por seguranca.

  10. tania Postado em 29/Mar/2014 às 17:34

    Meu filho morou na Irlanda por um bom tempo. Ele me contou que as mulheres andam na rua sozinhas de madrugada sem ser importunadas. Que vão aos Pubs à noite e bebem e até saem meio bêbadas as vezes, e que não há esse clima de sexo exacerbado , há uma certa naturalidade no modo de ser, e eles até tem uma figura feminina que é venerada, uma figura de mulher que seria como uma deusa pagã, dos antigos celtas. Uma espécie de mãe poderosa e mulher verdadeira, muito ao contrário da Eva dos cristãos que foi criada para botar culpa nas mulheres pra sempre. O nosso problema aqui é excesso de peso da religião que ainda se faz sentir mesmo quando pessoas acham que hoje as mulheres tem mais liberdade. Falo não de praticas religiosas, mas do peso de séculos de dominação da igreja judaico cristã. Realmente, hoje eu posso votar, posso ter conta em banco, tenho direitos que em outras épocas nem se sonhava, entretanto não encontro facilmente um homem que me olhe como um ser humano inteiro, que não tenha receio de se comparar porque eu seja mais culta, melhor economicamente, mais inteligente , talvez. O homem também possui este peso de ter que ser superior, de ser o dominador , porque lhe ensinaram com palavras e atitudes que isso era ser um macho de verdade. Dessa forma, seguem ambos em descompasso.

  11. Marcos Freybert Postado em 01/Apr/2014 às 11:01

    Como???? Vergonha de ser homem???? Tá de sacanagem!!!!

  12. Marcos Freybert Postado em 01/Apr/2014 às 11:02

    Como assim, sentir vergonha de ser homem???? Tá de zoação, né????