Redação Pragmatismo
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Direita 26/Mar/2014 às 14:48
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"Golpe militar contra a corrupção" só existe na cabeça de sádicos

Não existe golpe militar contra corrupção; golpe é a corrupção

golpe militar marcha família 2014
Imagem da Marcha da Família com Deus, versão 2014 (Reprodução)

Marcelo Semer*

Uma das grandes sandices dos saudosistas da ditadura, ou daqueles que evocam a nostalgia do que jamais conheceram, é pregar por “um golpe militar contra a corrupção”.

Nessas toscas, porém não ingênuas, chamadas para uma marcha com Deus, família, liberdade e canhões, a ideia se repete com uma irritante constância.

Mas um golpe militar jamais será contra a corrupção. O golpe é a própria corrupção.

Não bastasse o fato de corromper a ideia em si do estado de direito (que cede ao estágio da força bruta), e ser, portanto, uma violência contra a democracia, a ditadura por essência se opõe aos princípios mais básicos do combate a qualquer corrupção: transparência e igualdade.

Leia também: Fascistas transforma centro de SP em hospício

Nada disso existe quando o poder é absoluto.

Não passa de um mito, construído pelo marketing da mentira e pela estratégia da ocultação, a ideia de que não houve corrupção na ditadura.

Pequenas notícias, grandes fortunas.

Quantos não foram os empreendedores pró-militares que enriqueceram, enquanto o país se endividava brutalmente?

O que não havia na ditadura era liberdade da imprensa para divulgar, nem a de órgãos de controle para averiguar ilícitos.

A ideia de república pressupõe o controle do poder; a ditadura, ao revés, se baseia no uso do poder como controle.

Reportagem recente do jornal O Globo -insuspeito no assunto, porque foi um dos mais persistentes no apoio aos militares- aponta que a Comissão Geral de Investigação criada pela ditadura arquivou inúmeras denúncias contra amigos do regime ao mesmo tempo em que se detinha em vasculhar a vida de seus opositores.

Enquanto arquivos pessoais de Leonel Brizola e João Goulart eram devassados (sem sucesso) pelos investigadores atrelados ao governo, denúncias contra José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, por exemplo, foram simplesmente arquivadas sem qualquer tipo de apuração.

Os amigos do poder tinham mais que direitos; os inimigos, bem menos do que a lei.

Pode-se encontrar violência, privilégios e obediência pelo medo nos desvãos da nossa ditadura.

Mas não uma polícia isenta, um Ministério Público com autonomia ou a plena independência judicial.

A promiscuidade entre empresários e membros do regime militar é, aliás, um dos pontos que tem chamado a atenção da Comissão Nacional da Verdade recentemente. Já foram levantados vários apontamentos de visitas de representantes de entidades de industriais a locais de repressão.

O documentário Cidadão Boilesen (2009, direção Chaim Litewsky) aborda o tema com farto material histórico, relatando o subsídio empresarial para a manutenção de centros de tortura –uma espécie de parceria público privada para uma operação ilegal, ao mesmo tempo no coração e à margem do sistema.

Alguns aderiram à promiscuidade como forma de não serem alijados de licitações ou grandes contratos; outros justamente para poder se aproveitar das oportunidades que se abriam com essas ligações escusas -o documentário avoluma dados sobre as conexões entre o grupo do executivo e a Petrobrás.

Com a aproximação do aniversário de cinquenta anos do golpe militar, que mergulhou o país em mais de duas décadas de sombras, proliferam-se manifestações nostálgicas, estimuladas pelo negacionismo de historiadores reacionários.

A ditadura, de fato, tinha menos paciência com rebeliões de políticos aliados. E nenhuma tolerância contra os inimigos do regime.

Mas daí não resulta qualquer mérito. Ao revés, a intolerância do poder foi devastadora.

Muitas famílias acabaram destroçadas. E as marchas que vieram a partir do golpe não desaguaram nem em Deus nem nas liberdades. Apenas espalharam violência.

Há quem esteja predestinado a repetir a história como farsa. Mas há muita gente ainda de olho na tragédia.

*Marcelo Semer é Juiz de Direito e autor do blog Sem Juízo

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Comentários

  1. Denisbaldo Postado em 26/Mar/2014 às 16:38

    A política econômica-desenvolvimentista da ditadura seria considerada de extrema-esquerda nos dias atuais. Quase que um comunismo. Protecionismo total, cercados por uma cortina de tarifas aduaneiras, alimentando uma indústria sucateada pertencente a uma classe minoritária ultra-rica. Isso esses bananas não sabem.

    • Carlos Prado Postado em 26/Mar/2014 às 17:23

      E não o era? O que diferia do que está sendo implementado hoje? Só porque um não é abrupto, mas gradual, é válido?

    • Thiago Postado em 27/Mar/2014 às 00:53

      Como se a direita se resumisse a livre-mercado... Apesar de ter dito uma enorme besteira, comece a divulgar isso para a olavetes, integralistas, e demais representantes da extrema-direita que sempre apoiaram a ditadura.

      • Denisbaldo Postado em 27/Mar/2014 às 11:18

        Thiago, desde de quando eu disse que a direita se resume a livre mercado? O que há de errado em minha afirmação? Você que não disse nada em sua, só criticou sem corrigir-me. Se quer argumentar, argumente, em vez de retrucar e contrariar o que foi dito sem base técnica alguma. O que eu disse não é uma teoria, é um fato. Você é que não sabia disso e ficou surpreso.

    • Felipe Postado em 27/Mar/2014 às 22:37

      Denisbaldo, meu filho, tu sabias que a maior concentração de renda, desde a proc. da republica, deu-se no período militar? Tu lembras o período que sucedeu o tal "milagre econômico" e toda aquela política supostamente desenvolvimentista? Da onde tiraste que havia protecionismo total? Milhares de empresas norte-americanas entraram no brasil com isenções fiscais desde JK. Galeano escreve em "Veias Abertas" que a deposição de jango foi forjada, além das ameaças de ataque ao governo, por uma série de empresas mineradoras como a New Steel. Quase um comunismo? Comunismo é ausência de Estado. Me desenha (porque não consigo entender) como uma ditadura pode ser quase um comunismo? Por favor, tenha pena dos meus olhos e do meu tempo. Se é pra escrever merda, escreve M-E-R-D-A, e não enche a cabeça de leitores com contrainformação e distorções históricas.

      • Denisbaldo Postado em 28/Mar/2014 às 08:28

        O COMUNISMO É UMA DITADURA PRA COMEÇO DE CONVERSA. VÁ ESTUDAR O MODELO "SUBSTITUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES" APLICADO NA AMÉRICA LATINA DURANTE AS DITADURAS SULAMERICANAS. DEPOIS VENHA ME DIZER SE NÃO VIVÍAMOS EM UMA CORTINA PROTECIONISTA. TANTO QUE TODOS OS NOSSOS PRODUTOS ERAM INFINITAMENTE INFERIORES E ULTRAPASSADOS AO DOS MERCADOS ABERTOS DO RESTO DO MUNDO E NÃO HAVIA COMPETIÇÃO INTERNA. QUEM NÃO ENTENDE DE HISTÓRIA ECONÔMICA E NÃO CONSEGUE COMPARAR MODELOS ECONÔMICOS EM DIFERENTES REGIMES POLÍTICOS DEVE FICAR QUIETO. VOCÊS SÓ ENTENDEM DA CARTILHA DA TITIA MARICOTA QUE ENSINOU COMUNISMO E CAPITALISMO, SAIU DISSO VOCÊS SE CONFUNDEM. M-E-R-D-A É O SEU PODER DE COMPREENSÃO E DISCERNIMENTO.

      • Felipe Postado em 28/Mar/2014 às 11:40

        Não, não, não, não, não... Dois pontos: eu nunca vou vencer a burrice alheia quanto tratamos de comunismo/socialismo e suas diferenças estruturais de Estado e não me manda estudar, velho, não gosto de bacharelismo, mas sou mestrando em história pela ufrgs. Na boa, velho, a substituição de importações não foi aplicada em ditaduras, mas em governos populistas, vargas(brasil), perón(arg) e cardenas(mex). Por favor, eu peço, para de escrever contrainformação! É ruim pras pessoas que tão lendo, não pra ti, que é apenas mais um anônimo burrico e imbecil da internet.

      • Felipe Postado em 28/Mar/2014 às 11:44

        Me esqueci de te perguntar: tu sabias que comunismo é ausência total de Estado? Não me leva a mal, mas só pra saber mesmo.

      • Felipe Postado em 28/Mar/2014 às 11:45

        "O COMUNISMO É UMA DITADURA PRA COMEÇO DE CONVERSA. VÁ ESTUDAR ". Droga, não tinha lido essa parte. É... não tem jeito mesmo... Abraço, denisbaldolavo.

      • Denisbaldo Postado em 28/Mar/2014 às 12:54

        Anarquismo é ausência total de estado meu amigo, se você for colocar o comunismo como uma vertente de tal...A URSS, Cuba, Coreia do Norte são modelos de ausência total de Estado!?!?!?! Você está confundindo teoria com prática. Nosso mercado era tão aberto que em 90 o Collor abriu a economia e tudo desabou pela péssima qualidade de nossa indústria deteriorada pelos anos de barreiras aduaneiras fortíssimas. Substituição de Importações na Era Vargas!!!! HAHAHAHAHA! Como assim se ela só foi defendida por Raul Prebisch no CEPAL na década de 60 bem depois da segunda guerra mundial.HOJE MESMO UM ECONOMISTA RUSSO ESTÁ COMPARANDO O GOVERNO ATUAL DE PUTIN COM O DA DITADURA ARGENTINA!!! Nem precisa falar mais nada porque os seus comentários estão repetitivos sem nenhuma informação verdadeira. NÃO PASSA DE UM ZÉ ARRUELA! VAI ESTUDAR SIM, VAI LOGO QUE TÁ FEIA A COISA NA SUA CABECINHA! HAHAHA!

      • Denisbaldo Postado em 28/Mar/2014 às 13:07

        SEGUINDO O SEU RACIOCÍNIO: OU CUBA NUNCA FOI COMUNISTA OU FIDEL CASTRO NUNCA FOI UM DITADOR, AFINAL COMUNISMO É AUSÊNCIA TOTAL DE ESTADO E NÃO UMA DITADURA! NA PRÁTICA A TEORIA É OUTRA!!! VAI ESTUDAR!

      • Carlos Prado Postado em 28/Mar/2014 às 14:28

        A ausência total de estado do comunismo se dá quando tudo é estado. Ai não tem sentido mais falar em estado, pois não existe um não-estado. Mais um jogo de palavras marxista. Mas claro que não devemos também julgar uma política apenas pela sua intenção, mas pelo seu resultado. E o resultado de qualquer tentativa comunista ou será resistência da população, logo nenhum comunismo, ou uma ditadura escravista de fins justificando os meios.

  2. Thiago Teixeira Postado em 26/Mar/2014 às 19:55

    É esse o caminho a ser traçado pela direita. Eles estão certíssimos. Só um golpe para tirar um governo popular do poder. O Dem e PSDB devem se unir ao movimento de uma vez por todas e assumirem quem são, e parar com esse blá blá blá de partido socialista ou democrático.