Redação Pragmatismo
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América Latina 20/Mar/2014 às 11:33
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EUA se isolaram na questão da Venezuela

Washington ficou isolado na questão venezuelana. EUA apoiaram setor golpista da oposição da Venezuela, que tenta chegar ao poder através da força

Desde o começo de fevereiro de 2014, os setores da extrema direita multiplicaram os atos criminosos na Venezuela com o objetivo de quebrar a ordem constitucional e derrubar o presidente democraticamente eleito Nicolás Maduro. A violência causou a morte de pelo menos 29 pessoas, entre elas vários membros das forças da ordem.

Três líderes da oposição elaboraram o plano de ação em janeiro de 2014: Leopoldo López, presidente do partido de extrema direita Vontade Popular; María Corina Machado, deputada da Assembleia Nacional, e Antonio Ledezma, prefeito de Caracas. Os três convocaram publicamente um golpe de força contra o governo legítimo da República Bolivariana da Venezuela. (1)

protestos venezuela molotov
Soldado recolhe garrafas de coquetel molotov na praça Altamira, em Caracas, nesta segunda-feira, 17. A praça, palco de intensos protestos contra o governo de Nicolás Maduro nas últimas semanas, foi retomada pela Guarda Nacional. | REUTERS/Carlos Garcia

Os Estados Unidos se opuseram desde o início a Hugo Chávez a à Revolução Bolivariana, apesar de seu caráter democrático e pacífico. Desde 1999, Washington dá seu apoio político, diplomático, financeiro e midiático à oposição venezuelana. Em 2002, George W. Bush tinha orquestrado um golpe de Estado contra o presidente Chávez com a cumplicidade da oligarquia venezuelana, de uma parte do Exército e dos meios de comunicação privados do país. Hoje, a administração Obama ampara abertamente as tentativas de desestabilização da democracia venezuelana apoiando as atividades da extrema direita.

O Departamento de Estado defendeu as manifestações violentas em nome da “liberdade de expressão”. Exigiu que as autoridades venezuelanas libertassem os responsáveis por esses atos, “detidos injustamente”, apesar de vários terem sido presos com armas nas mãos. John Kerry, secretário de Estado, inclusive ameaçou a Venezuela com sanções. (2)

Entretanto, Washington está isolado no continente americano. A imensa maioria dos países da região condenaram a violência orquestrada pela oposição e deram seu apoio ao governo legítimo de Maduro. No dia 7 de março de 2014, a OEA (Organização dos Estados Americanos), tradicionalmente conservadora e alinhada a Washington, que agrupa todas as nações do continente exceto Cuba, infringiu uma derrota à administração Obama. Uma resolução, que todos os países adotaram com exceção dos EUA, do Canadá e do Panamá, expressou a “solidariedade” e o “apoio” da OEA às instituições democráticas, ao diálogo e a à paz na República Bolivariana da Venezuela”.

Em uma alusão à posição de Washington, a OEA falou do “respeito ao princípio de não intervenção nos assuntos internos dos Estados” e expressou “seu compromisso com a defesa da institucionalidade democrática e do Estado de Direito”. Também condenou a atitude da oposição expressando sua “mais enérgica desaprovação a toda forma de violência e intolerância”. Finalmente, a OEA declarou “seu pleno apoio e alento às iniciativas e aos esforços do governo democraticamente eleito da Venezuela e de todos os setores políticos, econômicos e sociais para que continuem avançando no processo de diálogo nacional”. (3)

Por sua vez, a Unasul (União de Nações Sul-Americanas), que agrupa os 12 países da região, condenou “os recentes atos de violência”. “Qualquer demanda deve ser canalizada de forma pacífica, pela via democrática, e respeitando o Estado de Direito e suas instituições”, enfatizou. Também expressou sua “solidariedade” ao “povo e ao governo democraticamente eleito dessa nação” e decidiu “apoiar os esforços do governo da República Bolivariana da Venezuela para propiciar um diálogo” com todos os setores da sociedade. Em uma clara alusão aos EUA, a Unasul expressou sua “preocupação frente a qualquer ameaça à independência e à soberania da República Bolivariana da Venezuela”. (4)

Michelle Bachelet, presidenta do Chile, que recebeu em Santiago a reunião da Unasul, deu seu apoio total a Maduro e condenou as tentativas da oposição de quebrar a ordem constitucional. “Não aceitaremos jamais que ninguém, seja uma pessoa ou um país, incite por meio de mecanismos violentos a deposição de um presidente legitimamente eleito”, afirmou, em uma nova alusão aos EUA. Segundo ela, os conflitos devem ser resolvidos por meio de “uma via de diálogo e de paz”, condenando, assim, as manifestações violentas da oposição. (5)

Cristina Kirchner, presidenta da Argentina, declarou desaprovar as tentativas golpistas e ofereceu seu apoio à “democracia venezuelana”, lembrando que a legitimidade do atual governo vem de ter ganho 18 processos eleitorais dos 19 dos quais participou durante os últimos 15 anos. Pediu que a oposição não abandonasse a via democrática, enfatizando a possibilidade de organizar um referendo revogatório em 2016, de meio mandato, que permitiria convocar eleições presidenciais antecipadas em caso de triunfo. “A Venezuela é o único país do mundo que têm o referendo revogatório, ou, pelo menos, da região, onde há o direito revogatório do presidente”, ressaltou.

Da mesma maneira, não deixou de denunciar as tentativas de desestabilização orquestradas pelos EUA e advertiu contra “as intervenções externas e estrangeiras, motivo pelo qual seria lamentável permitir que ventos de fora derrubem um país irmão como a Venezuela”. (6) Cristina também denunciou a “tentativa de golpe suave que estão tentando dar contra a República Bolivariana da Venezuela”. (7)

Assim como aconteceu durante a presidência de Hugo Chávez, entre 1999 e 2013, os EUA não renunciaram em acabar com a Revolução Bolivariana democrática, pacífica e social. O país se opõe ao presidente Maduro e apoia à oposição golpista. Por sua vez, os meios de comunicação ocidentais, principal apoio dessa tentativa de desestabilização, tomaram partido a favor dos partidos que querem a ruptura da ordem constitucional e que são contra a democracia venezuelana.

* é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos, professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e EUA. Seu último livro se chama “Cuba. Les médias face au défi de l’impartialité”, Paris, Editions Estrella, 2013, com prólogo de Eduardo Galeano.

Salim Lamrani, Opera Mundi

Contato: [email protected]
Página no Facebook: https://www.facebook.com/SalimLamraniOfficiel

1 Salim Lamrani, “25 verdades sobre as manifestações na Venezuela”, Opera Mundi, 23 de fevereiro de 2014.

2 EFE, “EEUU no responde a oferta de diálogo de Maduro e insiste en pedir mediación”, 17 de março de 2014.

3 Organisation des Etats américains, “Consejo permanente aprobó declaración sobre la situación en Venezuela”, 7 de março de 2014. http://www.oas.org/es/centro_noticias/comunicado_prensa.asp?sCodigo=C-084/14 (site consultado no dia 18 de março de 2014).

4 Union des nations sud-américaines, « Resolución », 12 de março de 2014. http://cancilleria.gob.ec/wp-content/uploads/2014/03/RESOLUCI%C3%93N-UNASUR-MARZO-2014.pdf (sote consultado no dia 18 de março de 2014).

5 The Associated Press, “Bachelet reitera apoyo a Maduro”, 16 de março de 2014.

6 Agencia Venezolana de Noticias, “Presidenta Fernández : Defendemos la democracia de Venezuela”, 1 de março de 2014.

7 Telesur, “Fernández : Derrocamiento del Gobierno de Venezuela sería fatal para Latinoamérica”, 1 de março de 2014.

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Comentários

  1. Gustavo Postado em 20/Mar/2014 às 11:51

    Falta papel higiênico e as pessoas ficam mais de 5 horas em filas para adquirirem mercadorias de necessidades básicas e a culpa é dos EUA e da oposição golpista oO

  2. Marcos Postado em 20/Mar/2014 às 15:49

    Gustavo, é justamente a oposição quem tem bloqueado estradas em que é feito o transporte dos produtos de necessidades básicas da Venezuela. Se você lesse outros veículos que fossem os "grobais", entenderia que só se informou parcialmente sobre o assunto. Procure saber mais por outras fontes, nem dói. huehuehue

    • Mauricio Palhano Postado em 21/Mar/2014 às 00:23

      Outras fontes? E quais seriam por gentileza? Aquelas que demonizam os EUA, e colocam em um pedestal Cuba, Rússia e Venezuela? O maior exemplo é esse site. Meu caro amigo, temos que ler ambos os lados da moeda, agora você vir aqui e dizer que o lado comunista+socialista é a verdadeira democracia, onde há provas cabais, testemunhas e etc...Mas o Ocidente também tem? E então? Mas é claro, sou ocidental, um imbecil americanizado, alienado, leitor de veja e "globista". Essa demonização dos EUA está ficando velha e cansativa. As pessoas esquecem o que Stalin, Fidel, Che e tantos outros dos seus "supostos" heróis já fizeram? Ou irão dizer que não sabem? Ou irão dizer que foi a mídia golpista ocidental que implantou isso em minha mente alienada? Patético, argumentos tolos...

      • Raíssa Postado em 21/Mar/2014 às 10:19

        Em nenhum momento Marcos colocou em uma pedestal Venezuela, Rússia ou Cuba - e nem sei pq esses 2 últimos países estão sendo citados, visto q não têm nada a ver com a reportagem - ele simplesmente informou um FATO que está ocorrendo na Venezuela, e que a Globo, BBC, Folha etc não estão informando. Fato esse já foi utilizado para derrubar Salvador Allende no Chile !!! Ou será que isso é apenas uma teoria da conspiração dos comunistas comedores de criancinhas? Não somos nós que colocamos no pedestal Cuba, Venezuela, Russia são pessoas iguais a vc Mauricio Palhano que são ineptos para elaborar qualquer crítica aos EUA. E parafraseando vc, mais uma vez: será que vc esqueceu o que Roosevelt fez em Hiroshima e Nagasaki? Será que vc esqueceu o que John Kennedy fez com o Brasil? Será que vc esqueceu o que Lyndon Johnson fez na Guerra do Vietnã? Ou será que vc esqueceu - e esse aparentemente sim - Nixon fez no Chile? Será que vc esqueceu o que George W. Bush fez em seus 2 mandatos - diga-se de passagem ganhados de forma fraudulenta? Será que vc esquece o que o Obama faz todos os dias? ISSO NÃO É DEMONIZAR OS EUA É SIMPLESMENTE ATRIBUIR A ELES O QUE É RESPONSABILIDADE DELES!!!!!!!

      • Antonio Palhares Postado em 22/Mar/2014 às 16:12

        Mauricio, menos. Qualquer pessoa equilibrada sabe que todo radicalismo é burro. A comunidade Europeia e os USA tentaram derrubar o governo impopular da Ucrânia no grito e deu no que deu. Eles queriam colocar a Russia contra a parede. Quebraram a cara e o Putin teve a Criméia de volta.Não se deve tentar colocar para fora nenhum governo eleito democraticamente. É golpe. Democracia não apenas quando o meu partido vence.Que os Estados Unidos querem o petróleo da Venezuela todo mundo sabe disto. Ou não? Os Americanos estão perdendo espaço no mundo porque nunca trataram os outros com respeito. Isto não é ideologia, já estou com o saco cheio desta palavra. Se o Maduro é incompetente que as urnas o coloquem para fora, não os golpistas. Ou será guerra civil.Eu sou brasileiro acima de tudo e amo o MEU PAÍS. Nem por isto sou obrigado a lamber botas de quem quer que seja. Americanos ou não. Pesquise da segunda guerra para cá, quantas guerras foram iniciadas por comunistas e quantas pelos americanos, e quantas para roubar e derrubar governos legítimos. Cada macaco no seu galho e respeitando os outros. O problema é de sempre termos de escolher entre um lado e outro. Eu já escolhi a razão e a consciência.

  3. Elias Postado em 20/Mar/2014 às 21:02

    O governo matou mais de 30, daqui a pouco irão superar a ditadura brasileira.

    • Raíssa Postado em 21/Mar/2014 às 10:20

      Quem dera Elias que a Ditadura brasileira tivesse matado tão pouco ...

  4. Mauricio Palhano Postado em 22/Mar/2014 às 02:36

    Raissa. Estou apenas virando a "arma" contra vocês. Colocando todos no mesmo pote, assim como fizeram comigo e como sempre fazem com os mesmos argumentos de sempre, cansados e velhos. Em suas "jihads" contra os EUA parecem se esquecer de tudo isso e muito mais que foi feito na URSS, Cuba e entre outros...Sei muito bem o que os americanos fizeram ao longo de sua história. Tiveram a infelicidade de serem a superpotencia do século XXI, tenho pena deles. Desafio você a me citar um país com tanto poder que não tenha feito igual ou pior ao decorrer da história da humanidade, a diferenca é que hoje somos livres sim, para transcorrer nossas opiniões e o mundo é mais pluralista, o equilíbrio é maior para fazermos frente a esse poderio. Isso justifica? De forma nenhuma! A humanidade, imperfeita como ela é, entre as "grandes" democracias do mundo, qual delas você acredita que estaria melhor na posição dos EUA? Infelizmente ainda não atingimos o Elísio social, a real democracia em nenhum país desse mundo, mas a "menos" pior, ao meu ver, estudando a história de ambos os lados é a americana! Você diz que não vejo o que Obama faz todos os dias, de fato não vejo, e você? Tem tal honra? Por gentileza estou ansioso para saber, me diga! Gosto dele, isso não significa que concordo com tudo o que ele faz, tem seus erros, mas no geral é um presidente melhor do que muitos dos seus antecessores, Bush é louco, tal como o pai, nem sequer merece atenção. Omundo avança, se multiculturaliza e as pessoas não mudam. Vocês crêem mesmo nessa divisao tola de bem x mal, comunismo x capitalismo, esquerda x direita? Isso é extremamente retrogrado e imaturo. O mundo é muito mais complexo do que he-man x esqueleto! Ter a mente aberta, analisar ambos os lados da moeda e ser imparcial, algo raro ultimamente. Ou você encontra um site como esse em que não é possível encontrar um elogio aos EUA ou então um site direitista pro-ocidente como a Globo em que é igualmente impossível ver elogios a Rússia! Limitados demais...Bush ganhou de forma fraudulenta? Me lembro dessa cimeira na época, mas porque quase sempre em esteiras soviéticas e anti-americanas. Quais são suas fontes minha cara? É muita responsabilidade ser a maior superpotencia do mundo, peso é grande demais: URSS, Reino Unido, EUA, Roma, Pérsia. Todos algozes. Sinceramente não quero isso para o Brasil, a ingerência é praticamente nata ao ser humano dotado de poder. O que sofreu o pobre do Paraguai nas mãos do Brasil e seus "aliados", se lembra? Nunca se esqueça, seres humanos. Interesses estratégicos, ou você acha que é dever dos americanos serem santos e distribuirem ao mundo pão e leite sem nada em troca? Infelizmente colega a civilização humana ainda não atingiu tal estágio evolutivo e espiritual. É essa minha crítica, enquanto os EUA rouba, espiona, mata e arquiteta planos malévolos para destruit o mundo, a Rússia apenas está defendendo seus cidadãos na Crimeia por puro patriotismo e devoção? Que meigo são eles, deve ser o Elísio na Terra! Vou me mudar para lá! Opa...Tive o prazer de estar por seis meses em São Petersburgo a trabalho, lindos monumentos, mas para por ai. O prazer fica só pela primeira vez mesmo. Você espera e exige que os americanos ajam como santos da pureza e do bem, menos amiga, muito menos, como já disse antes, todos nós estamos longe disso...Abra seus olhos...

  5. Elias Postado em 22/Mar/2014 às 19:41

    A verdade que falta tudo lá, a America Latina está se tornando pouco a pouco um regime completamente autoritário, estão prendendo lideres opositores, censurando encontros internacionais, e o povo completamente alienado.