Redação Pragmatismo
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opinião 19/Mar/2014 às 12:28
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Brasil, Rússia e Montesquieu, tudo junto e misturado

Qualquer que seja a origem da coragem russa é impossível comparar a conduta política daquele povo à hesitação temerosa dos brasileiros

A despeito das ameaças ocidentais, o povo da Criméia decidiu unir-se à Federação Russa. E a Rússia, que contra si tem apontados não só os mísseis econômicos como os mísseis nucleares dos EUA, não recuou: decidiu incorporar ao seu território a Criméia reconhecendo a validade da decisão tomada pelo povo da região.

Podemos não gostar dos russos ou abominar a decisão do povo da Criméia, podemos até temer as conseqüências de um conflito aberto entre a Rússia e os EUA. Mas uma coisa nós temos que admitir: é inquestionável a coragem dos eslavos. Mesmo sob pressão econômica e ameaça militar eles se mostrarem resolutos na Criméia e na Rússia.

O que ocorreu esta semana parece dar razão às palavras de Montesquieu:

“Já dissemos que o muito calor debilitava a força e a coragem dos homens; e que havia nos climas frios, certa força do corpo e do espírito que tornava os homens capazes de ações longas, duras, grandes e ousadas. Isso se vê não só de nação para nação, mas também no mesmo país, de uma parte para outra. Os povos do norte da China são mais corajosos que os do sul; os povos do sul da Coréia não o são tanto quanto os do norte.

Não é de espantar, pois, que a covardia dos povos de clima quente os tenha quase sempre tornado escravos e que a coragem dos povos de climas frios os tenha mantido livres. Esse é um efeito que deriva de uma causa natural.

Isso também se mostrou verdadeiro na América:  os impérios despóticos do México e do Peru encontravam-se perto do equador, e quase todos os pequenos povos livres estavam e anda estão perto dos pólos.”  (DO ESPÍRITO DAS LEIS, Livro XVII, Capítulo II, Martin Claret, 2ª reimpressão 2011, p. 283)

Qualquer que seja a origem da coragem russa é impossível comparar a conduta política daquele povo à hesitação temerosa dos brasileiros. No exato momento em que a Rússia se afirma diante do mundo aceitando quaisquer conseqüências econômicas e militares de sua decisão de adotar a Criméia, no Brasil não conseguimos resolver os dilemas políticos impostos por uma ditadura que começou há 50 anos e findou há quase 30 anos. Nenhum militar envolvido em torturas e execuções foi condenado e preso, muitos deles seguem fazendo ameaças privadas e públicas ao regime democrático. E quando eles rangem os dentes provocam temor nas principais lideranças partidárias.

O urso é um símbolo muito venerado entre os russos. O animal reflete algumas das características dos eslavos, como a disposição para aceitar os riscos de uma ação livre, ousada e perigosa:

“Desde a pré-história, como provam a pintura rupestre, o urso desempenha um papel importante nos cultos. Foi venerado sobretudo pelos povos nórdicos como ser poderoso e semelhante ao homem; considerado muitas vezes o mediador entre o céu e a terra, sendo também, para muitos povos, o ancestral da espécie humana. De acordo com as tradições do norte da Europa, não era o leão o rei dos animais, e sim o urso. Para os celtas, o urso associava-se aos guerreiros e aos ofícios de guerra. Na Sibéria e no Alasca, ele é relacionado com a Lua, porque, por ser animal hibernante, também ‘vai e vem’ regularmente. Na iconografia medieval, em relação hibernação, ele era um símbolo da velhice e da morte do homem. Na China, o urso é um símbolo masculino, e está associado ao princípio yang. Os alquimistas viam no urso um símbolo da escuridão e do mistério da matéria primordial. Na mitologia grega, é o acompanhante ou a encarnação de Ártemis. No simbolismo cristão, aparece quase sempre como um animal perigoso, eventualmente representado pelo demônio; às vezes simboliza também a gula, um dos pecados capitais. Entretanto, encontrava-se por vezes uma ursa como símbolo do parto da Virgem, pois afirmava-se que ela dava forma aos seus filhos lambendo-os. C.G. Jung vê no urso um símbolo dos aspectos perigosos do inconsciente.” (DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS, Herder Lexikon, Cultrix, p. 199/200).

Ao contrário dos russos, os brasileiros não veneram simbolicamente nenhum animal específico. Mas se o fizéssemos, provavelmente nosso ícone zoológico representaria os aspectos mais obscuros da personalidade dos brasileiros, como este medo pavor privado e público que temos de enfrentar um punhado de criminosos fardados envelhecidos. Os argentinos meteram quase todos os criminosos da sua Ditadura na prisão. O clima da Argentina é mais frio que o do Brasil e a comparação entre nós e los hermanos também parece favorecer a tese de Montesquieu.

A ciência parece ter superado as crenças que Montesquieu julgou verdadeiras no século XVIII. Cá, porém, as “verdades climático-comportamentais enunciadas” no livro do autor francês continuam a produzir estragos. Nós continuamos a nos comportar com medo e hesitação diante dos inimigos da democracia. Mas eles, todavia, se comportam como se fossem jovens eslavos montados num urso selvagem. Apesar de envelhecidos, sub-representados no Congresso e economicamente impotentes, os policiais e militares que rosnam para ficar impunes demonstram uma coragem admirável. Ao invés de nos encolher diante destes espantalhos nós deveríamos espelhá-los para liquidar de uma vez por todas esta fatura, metendo-os todos na prisão (que é onde eles deveriam estar apodrecendo há décadas).

Felipe de Oliveira Ribeiro, GGN

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 19/Mar/2014 às 12:34

    Eu tinha uma opinião contrária a anexação da Criméia com a Rússia. Mas se o povo de lá assim quer, se estão felizes, qual o problema? Eu mudei de opinião ao ver inúmeras imagens da população da Criméia com as bandeiras da Rússia. Putim está certíssimo em enfrentar o Tio Sam e anexar o território. Dane-se as Sansões, mesmo com o mundo globalizado é possível sim viver com a malcriação do G7.

    • Anderson Postado em 20/Mar/2014 às 16:10

      Concordo plenamente, os EUA querem o beneficio da UE, por isso se intrometem em tudo, pea os brasileiros não terem o vigor dos russos e crimeios.

  2. Rafael Postado em 19/Mar/2014 às 14:06

    Esse artigo é bem interessante,mas façamos justiça à brava gente de Canudos, que enfrentou o Exército Brasileiro com muita coragem e em pleno sertão, impondo derrotas que doem até hoje no orgulho dos militares como, por exemplo, a morte do Coronel Moreira Cesar.

  3. Peterson Silva Postado em 19/Mar/2014 às 14:13

    Ah, velho, na boa? Pra gente criticar o Brasil e o que fazemos em relação à nossa história com a ditadura não precisamos usar esse artifício comparativo que, no frigir dos ovos, é besta. Concordo com toda as suas conclusões, mas esse seu método literário é tosco e simplista. Os russos têm coragem de adotar a Crimeia, mas eles também têm um arsenal atômico, vão ter medo do quê, exatamente? Os russos têm coragem pra fazer algo que vai beneficiá-los imensamente economicamente - bah, que coragem mais humana, que coisa mais linda, que admirável. Os russos têm coragem de anexar a Crimeia, mas também têm coragem de ser um dos povos mais intolerantes, homofóbicos, repressivos, etc. "Não é de espantar, pois, que a covardia dos povos de clima quente os tenha quase sempre tornado escravos e que a coragem dos povos de climas frios os tenha mantido livres. Esse é um efeito que deriva de uma causa natural." Pois é, e você vir usar de base poética pro seu argumento um texto que fala que quem é de clima quente tem um fator natural que os levou à escravidão? Isso é um nível de culpabilização da vítima que nunca vi, sinceramente. Está para a culpabilização das vítimas de estupro tal como o genocídio está para o assassinato. "Não é de se espantar, pois, que o temperamento das mulheres as levem a serem submetidas ao estupro e o temperamento dos homens, a estuprá-las. Esse é um efeito que deriva de uma causa natural" <- viu como dá pra brincar disso? Ridículo.

  4. Yohan Postado em 19/Mar/2014 às 16:37

    Vamos lá: A Russia teve essa "coragem" toda por uma questão geopolítica. Apenas isso. Quanto a Montesquieu ele era apenas um preconceituoso que não soube ver outras diferenças entre os povos, apenas o calor e o frio do local onde viviam. Até por que frio não depende apenas de Latitude, mas também de Altitude. E assim vai por água abaixo o argumento da invasão espanhola aqui nos Andes. A questão do domínio do mundo pelos europeus, na minha opinião, é muito bem explicada pela teoria do Professor Jared Diamond (Armas, Germes e Aço). Tem a ver com agricultura, domesticação de espécies e com armas. "Sinto" outra coisa negativa no texto, que é a percepção de que tudo que se opõe aos EUA são bons, quando em alguns casos podem ser até piores se estivessem na mesma posição. Temos que cuidar para não fazermos como os povos aqui da América fizeram quando ajudaram os espanhóis a acabar com os Incas e acabaram arranjando "amigos" piores que os Incas.

    • Vinicius Postado em 20/Mar/2014 às 16:34

      Perfeito!

  5. Elton Postado em 19/Mar/2014 às 20:31

    Pera, não precisava citar Montesquieu. Na boa teoria determinista facilmente refutada!

  6. Elias Postado em 19/Mar/2014 às 22:59

    Bobagem, nada de textos bonitinhos em relação as ilhas Malvinas e a coragem do povo de lá, dois pesos duas medidas, comunistas em relação a mortes mataram muito mais que ditaduras, só CHE matou mais gente que toda nossa "ditadura" provavelmente.

    • Peterson Silva Postado em 19/Mar/2014 às 23:17

      Gente que coloca ditadura entre aspas => gente que precisa urgentemente estudar.

      • Rodrigo Postado em 20/Mar/2014 às 09:41

        Perfeito, mas quanto ao mais, Peterson? Por que o socialismo pode repetir todos os erros que critica no capitalismo e, ainda assim, dizer que é diferente? Será por ser o capitalismo mais eficiente que há, ao concentrar riquezas nas mãos dos generais, relegar o povo à escassez, bem como fazer esse mesmo povo acreditar que um general pode receber 9 mil reais, de cada um, como mais valia, para sustentar sua fortuna na Forbes e trajar-se com Lacoste, Adidas e Rolex? Estamos, todos, precisando ter mais honestidade intelectual e não nos darmos a uma meia verdade, seja ela pertinente ao capitalismo, seja ao comunismo. Abertamente falar das condutas bárbaras dos seguidores de ambas, da corrupção comum, dos crimes comuns, dos genocídios comuns. Assim, pois, abandonando o etiquetamento e expondo que o problema não é ser deste ou daquele partido, deste ou daquele viés econômico, desta ou daquela faixa de renda ou escolaridade.

  7. Luiggi Postado em 20/Mar/2014 às 01:46

    Citar Montesquieu, neste caso, é um tanto anacrônico, ultrapassado. A questão de ter ou não coragem diante de determinadas situações advém de fatores culturais. Os Russos e outros povos ao redor do globo tiveram que brigar muito para manter seus territórios e sobreviver a toda sorte de intempéries e guerras. Essas coisas se aprende e são passadas de pai para filho. O Brasil foi criado para ser explorado, ser fornecedor de mão-de-obra e matérias-primas, não para ter gente pensante, com vontade própria. Meus avós eram russos e fico indignado com a subserviência do brasileiro - latino em sua essência e covarde por criação - diante dos menores problemas. E isto é cultural, vem lá da herança lusitana colonizadora. Frases do tipo "manda quem pode, obedece quem tem juízo" são parte do cabedal de conformismo da manada para que não ouse levantar os olhos e encarar os "superiores". Mas a raiva e o desejo de justiça e vingança não passam, daí vem os crimes, roubos, etc, como forma de vingar as humilhações driblando as barreiras impostas pelos códigos sociais. Sou mais minha herança genética e cultural. As pessoas não gostam da minha franqueza mas também não me desafiam porque ouvem na cara minhas opiniões - gostem ou não. E tudo feito dentro dos padrões da civilidade.

  8. Marco Paulo Valeriano de Postado em 20/Mar/2014 às 14:05

    Não concordo com a teoria de Montesquieu e com diversas outras semelhantes, que no fundo reportam a autoridade eurocêntrica, a supremacia caucasiana e a justificação de suas atrocidades e ignomínias para com outros povos, outras etnias, de outras latitudes... Há corajosos no seio de todas as sociedades humanas, e também os fracos, medíocres, medrosos, toscos... Nada haver com Montesquieu, que formulou sua tese dentro de sua ótica e compreensão do mundo à época, mas com a humanidade e toda a complexidade que envolve sua organização e desenvolvimento. Não acho serem covardes e medrosos os brasileiros, e também não descarto que eles existam em nosso meio... Nossas mazelas não se vinculam a essa ordem e nossas virtudes tampouco... Os Russos têm lá os seus covardes e os seus valentes no contexto de sua história, e não é uma decorrência meteorológica. Do Brasil posso dizer o mesmo. A climatologia não é a ciência mais adequada ao estudo do desenvolvimento ou decadência das civilizações, muito embora possa até ter lá suas influências. Grandes impérios em África, como o egípcio e o de Sabá, dentre outros, estão aí para nos comprovar que homens fortes, valentes e sábios não precisam necessariamente viverem sob a neve... Roma não era nenhuma nação nórdica. O mesmo lembramos da Grécia, Pérsia e Mesopotâmia... Nesses áureos tempos a Rússia sequer existia como país ou nação, e o que conhecemos hoje como Europa, a exceção de Roma, experimentavam a barbárie e o nomadismo... Aqui pelas Américas, e não foram em seus pólos extremos, Incas, Maias e Astecas, dentre outras civilizações ameríndias intermediárias, já conheciam e praticavam habilidades que o mais nobre e corajoso dos europeus "civilizados" nem imaginavam... A coragem não está em acorrentar, açoitar, humilhar e escravizar seus semelhantes, para explora-los, mas nos que resistem a essas iniquidades e vencem todas as barbaridades que lhes foram impostas... A coragem e a covardia, enfim, estão em toda a parte, na Rússia, no Brasil ou em qualquer esquina deste mundo...

    • Carlos Prado Postado em 17/Apr/2014 às 23:57

      Realmente este estudo do desenvolvimento humano é muito limitado. Não se pode falar que o frio ajuda só porque se vê nações geladas em grande desenvolvimento. Tem que se olhar ao todo e ver que a Europa já esteve mergulhada em extrema pobreza enquanto os chineses tinham um império muito desenvolvido, que o Egito e a Etiópia já tiveram grandes nações, que enquanto os bretões eram quase tribais os romanos construíam cidades como Londres. E mais tarde a Europa ultrapassou a Ásia, os reinos egípcios e romanos caíram e os iletrados bretões mais tarde construíram um império que ocupou um quarto da superfície terrestre e um quarto da população mundial da época.

  9. Leandro Postado em 20/Mar/2014 às 17:49

    Mais um exemplo de que a tese de Montesquieu prevalece é o fato de os tribunais do sul (RS e SC) serem pioneiros em entendimento jurisprudencial acerca de um tema controverso, a exemplo a união entre homoafetivos. Muito bom texto! Parabéns

  10. Henrique Postado em 20/Mar/2014 às 20:25

    O que Montesquieu chama de coragem, eu chamo de inveja. A inveja dos que vivem famintos e congelando daqueles que vivem na praia na maior fartura é o que motivou-os a invadir e escravizar.

  11. Rafael Postado em 20/Mar/2014 às 21:27

    pouco pragmático este texto, não?