Redação Pragmatismo
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Racismo não 17/Feb/2014 às 18:29
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Uma história sobre Tinga

“Se pudesse não ganhar nada e ganhar esse título contra o preconceito, eu trocaria todos meus títulos por igualdade em todos os lugares, todas as áreas, todas as classes”

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Paulo César, mais conhecido como Tinga (Reprodução)

A Restinga é um dos bairros mais populosos de Porto Alegre. O censo de 2010 indicava que sua população era de 51.560 moradores. Sua formação, a partir dos anos 60, tem a ver com a urbanização da cidade – e tem a ver também com exclusão social. Para abrir avenidas e solucionar os problemas de habitações insalubres, moradores das Vilas Theodora, Marítimos, Ilhota e Santa Luzia foram removidos para um novo bairro do extremo sul porto-alegrense, a 22 quilômetros da região central.

Foi na Restinga que dona Nadir criou seus quatro filhos com o salário de faxineira. Quando pegava o ônibus de manhã cedo, pensava: “Quando será que vou parar de trabalhar?” Numa tarde de 1997, seu filho Paulo César foi encontrá-la no serviço. Tinha 19 anos, estava acompanhado de uma equipe de televisão e vinha contar de seu primeiro salário como profissional: 2,5 mil reais.

Tinga já era uma revelação do time do Grêmio, aparecendo ao grande público com um golaço contra o Sport Recife. Diante do repórter Régis Rösing, chorou ao ver a mãe limpando chão.

– Já prometi pra ela que isso aí vai mudar, e vai mesmo, disse, deixando bem claro: “trabalhar não é vergonha pra ninguém”.

A vida da família mudou rapidamente, porque Tinga logo se tornaria um jogador importante para o Grêmio, ao ponto de sua torcida reproduzir, na arquibancada do Olímpico, o grito de guerra da Estado Maior da Restinga, uma das mais populares escolas de samba de Porto Alegre:

– Tinga, teu povo te ama!

Tinga mudou a condição de vida da família rapidamente, mas há outras coisas que demoram a mudar. Num jogo de 2001, Ronaldinho fez um gol pelo Grêmio e correu para abraçar Tinga no banco de reservas: “Esse gol é pra nós, que somos da vila”, disse, num episódio não registrado mas muito conhecido em Porto Alegre. Ser da vila e, principalmente, ter a pele bem escura, ainda representam um problema.

Carregando no nome o bairro onde nasceu e seu criou, Tinga é respeitado em todos os clubes por onde passou e é ídolo de vários deles. No Internacional, afirmar que foi bicampeão da Libertadores e autor do gol do título em 2006 é, na verdade, diminuir sua importância histórica na reconstrução do clube. Jogador de fibra, presente em todos os cantos do campo, pegador e goleador, Tinga foi um dos jogadores mais importantes do Inter no período entre 2005 e 2006. No Borussia, da Alemanha, o respeito com que dirigentes, torcedores e companheiros se despediram em 2010 é a melhor prova da trajetória que construiu.

Tinga sempre foi um jogador sério, dentro e fora de campo. Um treinador do Internacional disse certa vez que Tinga puxava os companheiros pelo exemplo, dedicando-se nos treinos e nas partidas como se estivesse em início de carreira. No Cruzeiro, o técnico Marcelo de Oliveira afirmou que o jogador era referência para os mais jovens do grupo. Foi assim em todos os clubes.

Nada disso, porém, foi suficiente para mudar o preconceito, que nos estádios de futebol emerge na vazão dos sentimentos levianos que expomos quando em multidão. Tinga, que em 2005 já havia ouvido imitações de macaco quando pegava na bola no estádio Alfredo Jaconi, teve de ouvir a ofensa mais uma vez na noite da última quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014, no Estadio de Huancayo, no Peru.

Ao final do jogo entre Cruzeiro e Real Garcilaso, uma equipe de TV pediu que Tinga comentasse o episódio. Ele tomou ar, respirou o ar da Restinga, o cheiro do colo da mãe Nadir, os golaços que fez, os títulos que conquistou, o respeito que adquiriu no futebol, todas as entrevistas ponderadas e inteligentes que deu ao longo da carreira, e disse com a serenidade e a altivez dos grandes:

– Se pudesse não ganhar nada e ganhar esse título contra o preconceito, eu trocaria todos meus títulos por igualdade em todos os lugares, todas as áreas, todas as classes.

Não precisa nos dar mais nada em troca, Tinga. Teu exemplo é o suficiente.

Daniel Cassol, Impedimento

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Comentários

  1. Luciano Postado em 17/Feb/2014 às 19:54

    Ao jogador Tinga eu digo: Siga em frente, transforme a dor em energia não deixe o racismo pousar em seus ombros. Aos racistas eu digo: TOMEM VERGONHA NO MEIO DA CARA E CUIDEM DE SUAS VIDAS EM PLENO SÉCULO 21 VOSSO COMPORTAMENTO BABACA É INACEITAVEL.

  2. Thiago Teixeira Postado em 17/Feb/2014 às 20:29

    Aquilo que ocorreu foi a coisa mais IDIOTA que já em toda minha vida. Na arquibancada, um monte de Peruanos, 90% de origem indígenas, imitando um macaco ... Nem na Alemanha de Hitler nas olimpíadas de 1936 ocorreu uma patifaria dessas.

  3. renato Postado em 17/Feb/2014 às 21:59

    Hoje ao soltar a Australiana, a JUSTIÇA profanou todas as palavras de TINGA, Não quero carregar esta mochila pesada que deve ser o preconceito de raças. Ela é Funcionária Publica e ganha do meu dinheiro para atentar contra a honra de um homem feito TINGA. Um ídolo nosso, um ídolo do Brasil. Já fizeram isto com Charles..

  4. Abílio Postado em 18/Feb/2014 às 07:39

    E a inveja de um negro vencedor, vitorioso onde fica?! Que lutou contra todas as adversidades que a diferença de classes impõe a quem é pobre, negro, filho de faxineira e da periferia! Vencedor em uma das poucas áreas que oferece oportunidade pra mostrar o talento. É muito recalque, rancor e inveja! Siga em frente Tinga!! E venha jogar no Palmeiras! Rsrss...

  5. clenio Postado em 18/Feb/2014 às 08:24

    pessoas que tentam te humilhar so querem ser como vc.

  6. Leonardo Lemes Postado em 18/Feb/2014 às 15:54

    Inconcebível. Indígenas e negros, os povos que mais sofreram com as atrocidades. E vemos índio - sim porque a maioria esmagadora dos peruanos são descendentes diretos de índios - discriminando um negro. Esse fato me deixou mil vezes mais chateado do que ver o racismo que o jogador Marcelo do Real Madrid sofreu em um jogo contra o Atlético da mesma cidade. O racismo é odiável sempre, no entanto me chocou mais pois em vez de nos unirmos, digo a América Latina, coisas imbecis nos separam. O brabo é que sou gaúcho, o povo mais racista do Brasil, e infelizmente isso acontece com muita frequência por aqui e sou pouco esperançoso que isto mude.

  7. Alexandre Lopes Postado em 18/Feb/2014 às 17:17

    Belíssima resposta !! De fato, uma resposta nobre, de um homem nobre .

  8. Carlos Normann Postado em 19/Feb/2014 às 13:09

    um legítimo herói de dois mundos, um desses caras que enchem de orgulho gremistas e colorados, o Tinga pede passagem e dá seu recado lúcido, maduro, coerente com sua postura de líder e craque em campo. Tinga, teu povo realmente te ama!!!