Redação Pragmatismo
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Preconceito social 21/Feb/2014 às 14:19
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Sem banho de piscina para babás

No Jockey, faz um mês que banho-de-piscina está proibido para babás. Em vigor desde janeiro, lei 6.660 será aplicada contra clubes que barrarem acompanhantes não-uniformizados

Por Daniel Feldman Israel*, para Pragmatismo Político

“Sou contrária à lei, porque é uma intervenção inconstitucional nas regras de funcionamento dos clubes”, afirmou Karla Pinaud, presidenta no Sindicato dos Clubes do Estado do Rio de Janeiro), em entrevista no programa “Tema Livre”. O programa é transmitido diariamente pela Rádio Nacional AM, e essa edição foi ao ar no dia 16/1.

A lei a que a sindicalista se refere, é a de nº 6.660, sancionada dez dias antes pelo governador Sérgio Cabral Filho. Deputados estaduais, Gilberto Palmares (PT) e Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB) são os autores da medida, que vale para todo o estado do Rio de Janeiro. Desde que foi sancionada pelo governador, passa a ser “proibido aos clubes a exigência de uniforme para ingresso em suas dependências”, como expresso no art. 1º do texto. Como se viu em um episódio recente, que completou um mês na terça-feira (18/2), toda legislação para fiscalizar relações sociais, dentro de locais privados, também depende do comprometimento da sociedade.

Quase duas semanas após a lei entrar em vigor, uma associada do Jockey Club Brasileiro (JCB) se rebelou contra duas babás que tomavam banho na piscina do clube. Embora sem muita repercussão, o colunista Ancelmo Gois registrou em nota o fato, sob o título “Revolta das madames”, no jornal carioca O Globo: “Uma madame não gostou e esbravejou com diretores. Ficou decidido que babá não pode entrar na piscina.”.

Construído em 1868, a partir da associação entre pessoas interessadas em corridas de cavalos, o clube é famoso por sediar, desde 1933, o Grande Prêmio Brasil (a principal competição no turfe nacional) e a vasta área que ocupa, localizada entre os bairros da Gávea, Jardim Botânico e Lagoa. Está cercado por dois dos mais belos espaços para lazer e passeio ao ar livre na cidade –o Parque Jardim Botânico e a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Mas no JCB é preciso pagar um preço altíssimo para desfrutar de tudo o que o clube tem e pode oferecer. Na opinião da antropóloga Julia O’Donnell, que pesquisa as relações humanas em ambientes como a praia, esta questão se justifica por um “desejo de exclusivismo”. “O clube é um reduto de exclusivismo, onde se paga para estar entre “iguais”. É apenas o desejo de exclusivismo que justifica a própria existência do clube. Mas o caso recente de clubes exigindo que babás circulassem apenas uniformizadas mostra que começa a haver reação a isso. A Justiça estadual determinou que a exigência é discriminatória sim”, afirma ela, que trabalha na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e é autora do livro A invenção de Copacabana (Ed. Zahar).

Até o próximo domingo (23), o Jockey será palco para o Rio Open de Tênis, mais um evento que reforça a ideia em voga no Rio de Janeiro dos últimos anos: cidade-espetáculo, atraente para investimentos públicos e privados de todo tipo. Em março, estará na cidade o empresário Donald Trump, que vem conhecer o complexo comercial que está sendo construído em seu nome, na zona portuária.

Jockey Club não se pronuncia

O sociólogo e radialista Marcos Romão, outro entrevistado durante o programa na Rádio Nacional, percebe a relevância social dessa lei. “Esta é uma forma positiva de passar a discutir, na sociedade, que poder é esse que tem o associado de um clube de tratar mal o outro”, opina ele. “Tratar mal o outro significa, também, mandar usar um uniforme.”.

E foi graças às denúncias de inúmeras pessoas incomodadas com tais violações, que, em 2013, o Ministério Público estadual (MP-RJ) instaurou inquérito civil contra quatro clubes que têm sede na zona sul do Rio: além do próprio Jockey, Caiçaras, Naval e Paissandu foram citados na ação. A decisão do MP-RJ levou à redação de uma lei específica, conforme explica Gilberto Palmares em sua página oficial na Internet.

Cética com relação às mudanças previstas na PEC 66 (PEC dos Trabalhadores Domésticos), Carli Maria dos Santos, presidenta no Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro (STD-RJ), contesta a medida adotada pelo JCB. “Se eu sou responsável por uma criança, não posso deixá-la sozinha na piscina. Além disso, pai e mãe precisam conversar com os clubes. Porque se algo ocorrer com a criança, como a babá vai se responsabilizar por isso? É uma incoerência”, opina ela, que até o contato para a produção desta reportagem não sabia do ocorrido no Jockey.

Sobre a aparente falta de interesse no caso das famílias para as quais trabalham as duas babás, afirma a também antropóloga Liane Braga da Silveira, “há uma tensão entre as ideias estranho e familiar, e porque é familiar, torna-se tão familiar que é invisível, e, portanto, perfeita. Acho que esse deslizamento de termos pode traduzir parte da ambigüidade dessas relações. Desse modo, borrando, ofuscando uma prática de relações entre camadas sociais distintas”. Pesquisadora na Fiocruz e autora do livro (ainda não lançado) Como se fosse da família: a relação (in)tensa entre mães e babás (Ed. E-Papers), ela acredita que a PEC 66 promoverá “diversas mudanças”. “Mas, a meu ver, embora as leis imponham novos princípios, isso não significa transformação. Transformação implica em mudança de mentalidade, de valores, de cultura de uma sociedade.”.

Marcos Romão deixa um desabafo, oportuno num momento de manifestações, e as pessoas que moram na cidade, têm a chance de repensar todo tipo de prática política. “Eu estou de saco cheio de há 40 anos denunciar casos de racismo. Nos últimos anos, tem sido insuportável, para negras e negros lidarmos com pessoas que nos ofendem nas ruas, pela Internet.”.

Responsável pela assessoria de imprensa do Jockey, a Monte Castelo prometeu esclarecer a posição oficial do clube com o envio de uma nota. No entanto, até o fechamento desta edição, ninguém na empresa tinha respondido. Também foi tentado o contato com o Sindicato dos Clubes do Estado do Rio de Janeiro, mas os números de telefone só davam ocupado ou estavam errados.

*Daniel Feldman Israel é jornalista

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 21/Feb/2014 às 15:05

    Será que a babá que estava na piscina para causa raiva da Perua era loirinha?

  2. Alexandre Lopes Postado em 21/Feb/2014 às 15:23

    Sociedade elitista, oligárquica e rigidamente hierarquizada . A nossa hierarquia social é mais rígida do que a dos militares . É assustador como nós somos atrasados . Isso aí parece até relação entre senhor feudal e vassalo . Que coisa horrível ! Quanto à inteligente provocação do nosso amigo Thiago Teixeira , com certeza não . devia ser uma moça " moreninha " como dizem por aí .

    • Thiago Teixeira Postado em 21/Feb/2014 às 16:36

      As Peruas devem barrar também os personal trainer das madames, se for seguir a lógica.

      • sofia Postado em 23/Feb/2014 às 20:16

        Mas o personal trainer é acessório da beleza e status de quem o ostenta, como uma sela Hermes, enquanto que a babá, reles cuidadora de um filho...(obviamente que estou zombando da situação, já que não me resta outra alternativa).

      • Yan Matos Postado em 24/Feb/2014 às 11:23

        Primeiro Lugar: Se for continuar seguindo a lógica então, a babá (quando acompanhada da criança) também não precisa pagar a passagem do ônibus, não precisa pagar cinema, passe em parque de diversões e assim por diante. Clube é um prestador de serviços e cobra pelos serviços. Existem pessoas, ASSIM COMO A BABÁ, que vivem da renda desses serviços. Pessoas que trabalham duro para tornar o clube um lugar prazeroso de estar, seja pelo motivo que for. Babá não é salva vidas para cuidar da segurança da criança dentro da piscina (isso inclusive gera periculosidade e desvio de função no caso dela). Ok, se o clube não tem restrição quanto a acompanhantes (babá, personal, etc) na piscina legal, mas se isso incomoda quem paga caro pelo serviço a questão passa a ser discutível e necessita de uma analise mais profunda, coisa que não deve ser generalizada ou analisada superficialmente e genericamente em um blog/pagina da web. Segundo lugar (sem relação com a resposta do Thiago): Incrível que mesmo quando a questão racial não esta envolvida as pessoas tentam enquadrar de qualquer jeito este outro problema social na historia.

      • Thiago Teixeira Postado em 24/Feb/2014 às 15:05

        Yan Matos, para a babá entrar no clube, estou supondo que a patroa também tenha a incluído no título, feito exame médico e tudo mais. Agora, se a patroa dela está colocando a funcionário de graça como acompanhante, ai não tiro a razão dos sócios.

  3. Thiago Postado em 21/Feb/2014 às 17:18

    Eis um trabalho indigno. Cuida do(s) filho(s) dos outros e é execrado pelo contratante do serviço ao mesmo tempo.

  4. Antonio Postado em 23/Feb/2014 às 11:17

    Esta é a nossa sociedade, a família vai para o clube num final de semana mas os pais evitam contato com os filhos, que ficam com as babás. É essa a família que andam a defender por aí? Família de crianças terceirizadas (termo utilizado pelo Dr. José Martins Filho em seu livro "A criança terceirizada - os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo"). Esse povinho acha que para ter filhos basta ter dinheiro.

  5. Maria Clara Postado em 23/Feb/2014 às 17:52

    Essa elite é podre mesmo. Como bem Thiago pontuou, não há mesmo lógiga: trata-se mal quem cuida do seu filho....Ou seja, além de podres e prepotentes, esses classistas são burros....E atrasados! Apartheid????

  6. antonia vera Postado em 23/Feb/2014 às 18:13

    Porque a babá não pode usar a piscina,quando a função dela é acompanhar e cuidar da criança onde ela estiver.Também conheço babás mais cultas que madame!!!A babá tem sim que usar a piscina,e a madame que se sentir importunada com essa prática,que deve sim ser permitida,ela ,no caso a madame que deixe de frequentar a piscina,não a babá e a criança!

    • Lopes Postado em 24/Feb/2014 às 11:37

      São um bando de hipócritas. Eu adoro ver a babá de meu filho brincar com ele na piscina daqui de casa.

  7. Maria Postado em 23/Feb/2014 às 18:56

    Então, que os próprios pais cuidem das crianças nos momentos de lazer... Os filhos adorariam...

  8. Giovana Postado em 23/Feb/2014 às 20:09

    Trabalhei como babá desde os treze anos, trabalhava para comprar livros e hoje aos 25 anos sou médica. Engraçado encotrar pessoas que te rebaixaram no passado tentando ser agradável hoje. Fica a lição: você não sabe o dia de amanhã, o mundo dá voltas!

  9. Franklin Weise Postado em 23/Feb/2014 às 21:43

    Não entendi a inclusão do penúltimo parágrafo, onde Marcos Romão cita o racismo que ele combate há 40 anos. Em lugar nenhum do texto há menção de raça, só de profissão e classe social.

    • simone Postado em 24/Feb/2014 às 11:20

      Não seja ingênuo, Franklin Weise!

  10. J Vitor Postado em 23/Feb/2014 às 21:52

    O que me deixa um pouco em x xeque é o fato de será o uso piscina. Pois ela esta para trabalhar, e não se divertir. Mas penso que realmente ela tem de acompanhar a criança em todos os espaços do club e se a motivação da exclusão é unicamente pela profissão dela deve ser repudiado sim.

  11. ana tavares Postado em 23/Feb/2014 às 21:55

    A baba não pode dividir a piscina com a madame,mas o patrão deve ser doido para dividir a baba...

  12. Suzana Lima Postado em 24/Feb/2014 às 04:44

    Espera um pouco...Sou de esquerda, odeio a babaquice burguesa, mas temos que analisar um fato: Eu sou contra o banho de babas em piscina no horário de trabalho. Assim como sou contra funcionário público fazer paciência em computador durante o expediente, políticos andando de lancha durante sessão de plenário e muitas outras coisitas.