Redação Pragmatismo
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Barbárie 05/Feb/2014 às 16:04
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O menino amarrado ao poste

No meio do caminho tinha um menino (amarrado ao poste). Tinha um menino (amarrado ao poste) no meio do caminho. O episódio é lamentável, mas desgraçadamente providencial para refletirmos sobre nossas desumanidades cotidianas

Por Rosiane Rodrigues*

A cena chocou. É possível que o motivo da consternação tenha sido o local da ação e não a ação em si. Sim. Um menino, amarrado ao poste, em uma rua da Zona Sul do Rio de Janeiro, não é um fato comum. Meninos, amarrados em postes, baleados, espancados, violentados não cabem na paisagem da Zona Sul da cidade. Essas devem ser imagens periféricas, cotidianas das favelas, dos subúrbios. Imagens de barbárie que já não chocam nem causam espanto aos olhos dos que estão – e devem continuar – à margem.

O “menino amarrado ao poste”‘ deu sorte. Ele poderia estar morto. Se assim fosse, seria mais um a entrar para a estatística da barbárie cometida diuturnamente, nos becos e vielas em todo País. Imagens de corpos violados, machucados, inertes… reflexos distantes de uma realidade encoberta aos olhos sensíveis de uma parcela da população que teima em não querer enxergar: a indústria do genocídio da juventude preta e pobre.

Preto, pobre

Pesquisa do Ipea, divulgada recentemente, demonstra que 53 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Destes, a grande maioria é de jovens entre 15 e 29 anos, que possuem de quatro a sete anos de estudo formal. Sim. Jovens pretos, moradores de favelas. Incriminados por sua cor, estigmatizados por seus locais de origem. O que choca não é o ato, é a imagem. Na voz de muitos “era um marginalzinho, um bandidinho, que rouba carteiras de pedestres indefesos”, “Mereceu! Tinha que ter sido queimado”… esses foram apenas alguns comentários que li nos comentários dos sites dos grandes jornais que veicularam tão insólita notícia.

A moradora do bairro, ao invés de chamar a ambulância ou a polícia, postou a foto da cena numa rede social. Mais que uma febre que assola o mundo contemporâneo, a atitude da ‘denunciante’ faz parecer que meninos pretos, amarrados em postes, depois de espancados, não merecem ser atendidos por médicos, muito menos, terem o aparato jurídico-policial o tratando como vítima. Para uma grande parte dessa sociedade conectada, virtual, que faz até seis refeições por dia, esse é mais um menino que nasceu criminoso… cresceu e aprendeu que “vítima” não é o lugar que deve ser ocupado por gente como ele.

Meninos assim nascem aos montes… e se habituam a serem tratados por esse aparato (sócio-governamental) como um mal a ser combatido. Esse hábito não é apenas imposto, mas aceito por todos como algo natural. Para que chamar a polícia ou a ambulância para quem sabe que apanhar, ser humilhado e, daqui a pouco, morto, faz parte do cotidiano? Diriam alguns, é a vida… ou, em bom francês: c’ést la vie.

Monstrego

Uma cena deslocada na paisagem da cidade que se arruma – e é vendida – para receber milhares de turistas em poucos meses. Uma cidade que está nua de alma, mas cheia de encantos. Um monstrengo que mais parece um arremedo de boneca-inflável – que tendo grotesca aparência de humanidade, mantém seu interior vazio.

Uma cidade, cuja população, ao perceber a impossibilidade de lidar com suas pobrezas (que são muito maiores que aquela significada em forma de escassez de alimentos, moradia, transporte, escolas, hospitais etc. etc. etc.) esconde seus famintos (famintos de atitude, de reconhecimento de suas especificidades históricas) em locais “protegidos” (?!?!) por UPPs. Doces sonhos de uma classe média que teima em se sentir segura enquanto meninos são amarrados em postes, jovens são assassinados, pessoas são queimadas em praças públicas.

O episódio – que desnuda a violência atroz – é lamentável, mas desgraçadamente providencial para refletirmos sobre nossas desumanidades cotidianas.

*Rosiane Rodrigues é jornalista, escritora e pesquisadora do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas (Nufep) da Universidade Federal Fluminense

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Comentários

  1. Lucas Postado em 05/Feb/2014 às 16:17

    Essa foi uma das cenas mais lamentáveis que já vi. Nossa sociedade está acabada ! Está fadada a auto destruição. Infelizmente não consigo ver a tal luz no fim do túnel mais.

  2. Thiago Teixeira Postado em 05/Feb/2014 às 18:13

    Excelente texto e muito bem fundamentado. Não sabia desta idiota que bateu a foto com o intuito de portar na internet e não se moveu para tirar o jovem de uma situação humilhante.

  3. renato Postado em 05/Feb/2014 às 20:11

    O pessoal da comunidade estava fazendo um filme sobre escravidão.. Desceram do morro, e num determinado momento amarraram o jovem pelo pescoço...filmagem daqui, filmagem dali...cadê a chave???????? Corre lá buscar... .Mas já esta amanhecendo.. .vai porra ligeiro, voce fica com ele, tá bom... Vai gente tõ pelado... Olha a policia, tõ indo Cade a roupa, não sei... ai tô com medo vou embora.. O resto voces sabem.. Deu tudo errado... Até a Cherazedo enquadrou o guri..

  4. Alexandre Lopes Postado em 05/Feb/2014 às 20:12

    Eu vi, agora à noite , uma matéria do RJ TV , e quase vomitei. A abordagem sobre esse caso foi extremamente conservadora e nojenta . A apresentadora Ana Luiza Guimarães disse que esse é mais um caso ilustrativo do problema de " segurança " no bairro do Flamengo . Segurança ????? Esse é um problema eminentemente social . A polícia só atua sobre efeitos , nunca sobre causas . Porém, é conveniente incitar o punitivismo estatal , já que assim teremos uma falsa sensação de segurança, enquanto que os interesses da classe dominante ( geradores de desgraças como essa ) permanecem intangíveis . Foucault já havia dito no seu clássico " Vigiar e punir " que uma sociedade precisa de um inimigo artificial para sustentar-se e nada melhor do que focar em crimes cotidianos , pois , desta maneira, conservam-se os interesses dominantes tornando-os imunes a ataques e deixam o bode expiatório exposto à demonização popular " . Esse episódio me deixou profundamente triste e com um nojo ainda maior da nossa sociedade , que chancela , como bem disse a autora do artigo , o genocídio da juventude preta e pobre .

  5. Rodrigo Postado em 05/Feb/2014 às 20:59

    Imagine então as vítimas dos assaltos anteriores dele (tem "ficha" policial). Que risco não correram a cada violência ou grave ameaça por ele imposta... Não acho que se deva matar, trucidar, mas também não podemos nos esquecer das vítimas, que merecem o mesmo respeito e acolhimento. Aliás, não, não pensemos nas vítimas. Pensemos, sim, que temos de seguir ofendendo os negros, pobres, homossexuais, mulheres e integrantes de demais "minorias", como os nordestinos (como eu o sou). Temos de seguir fechando os olhos para os honestos, os que buscam melhoria de vida, os que trabalham, bradando, sim, que todos eles têm que poder roubar, assaltar, estuprar. Para quê respeitarmos a dignidade e honestidade do porteiro, que, com o pouco que ganha, busca dar o melhor para seus filhos e cobra que estudem e, logo que possam, trabalhem. Ou que, infelizmente, vê seus filhos trabalhando mais do que estudando, não tendo o devido tempo para o estudo. Esqueçamos a lavadeira, que sempre ensina seus filhos a serem honestos e buscar o crescimento pessoal. Esqueçamos o motorista de ônibus que, conforme amplamente divulgado, usou o valor da rescisão trabalhista para montar pequena produção de chinelos quadrados, tendo sucesso, ampliação da produção, contratação de empregados e pagamento de impostos. Esqueçamos esses desgraçados, que teimam em mostrar que quantidade de melanina na pele, origem, credo, orientação sexual e muito mais não têm qualquer relação com a propensão ao crime. Afinal, Lalau é branco, tinha ótimo salário, e mesmo assim foi condenado pela prática de crimes. O Sêo Justin Bieber, hoje multimilionário, picha muros, agride motoristas, varre a bandeira argentina do palco, disputa "rachas". Ele também é branco e rico. Muitos "classe média" também se dão à prática de crime. A propensão ao crime, pois, é pessoal. A escolha é individual, a partir do livre arbítrio. Cumpre, então, registrar a fala do cumpre registrar a fala do hoje Desembargador ROGÉRIO MEDEIROS GARCIA DE LIMA: "Quando eu era juiz da infância e juventude em Montes Claros, norte de Minas Gerais, em 1993, não havia instituição adequada para acolher menores infratores. Havia uma quadrilha de três adolescentes praticando reiterados assaltos. A polícia prendia, eu tinha de soltá-los. Depois da enésima reincidência, valendo-me de um precedente do Superior Tribunal de Justiça, determinei o recolhimento dos “pequenos” assaltantes à cadeia pública, em cela separada dos presos maiores. Recebi a visita de uma comitiva de defensores dos direitos humanos (por coincidência, três militantes). Exigiam que eu liberasse os menores. Neguei. Ameaçaram denunciar-me à imprensa nacional, à corregedoria de justiça e até à ONU. Eu retruquei para não irem tão longe, tinha solução. Chamei o escrivão e ordenei a lavratura de três termos de guarda: cada qual levaria um dos menores preso para casa, com toda a responsabilidade delegada pelo juiz. Pernas para que te quero! Mal se despediram e saíram correndo do fórum. Não me denunciaram a entidade alguma, não ficaram com os menores, não me “honraram” mais com suas visitas e…os menores ficaram presos." (basta por no google) Por fim, já que são pessoas interessadas na questão negra, conclamo à divulgação, conforme relatado pelo próprio portal Vermelho.org, do aumento de mais de 300%, registrado em 2012, quanto aos 8 anos anteriores, do aumento do homicídio de negros na BA (basta por no google). Querem bater um papinho com o companheiro Wagner, para saber o por quê de tanto descaso para com os negros, ou é melhor deixar isso pra lá?

  6. Pereira Postado em 06/Feb/2014 às 16:42

    O autor do texto faz o que , para reduzir a violência ???? Acho que o autor poderia adotar o tal "pobre menino" !!! e levar para o convívio da sua casa , adote-o , adote uma criança !!!(alguma que o aborto não matou). Falar é fácil , pura demagogia !!!