Redação Pragmatismo
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Mídia desonesta 12/Feb/2014 às 12:07
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O desabafo de Florestan Fernandes Jr.

"Nós, jornalistas, estamos de luto. A família de Santiago Andrade está de luto. Não nossos patrões que fazem do jornalismo um espetáculo dos horrores. Que colocam na frente das câmaras âncoras despreparados e irresponsáveis que vomitam seus preconceitos e ódios"

Florestan Fernandes Jr

Apenas um desabafo de um jornalista de televisão

“Vai ser rápido, três takes”, foi o que disse Santiago ao sair da redação. A expressão banal usada com frequência por repórteres e cinegrafistas quando têm a tarefa de gravar um assunto que não demanda muito tempo, agora merece uma longa e demorada reflexão.

Morreu um companheiro de trabalho, jornalista de frente, da cobertura pesada das ruas, vielas e palácios suntuosos do país. Morreu um repórter do cotidiano, que colocava sua vida em risco quase que diariamente na nobre tarefa de informar. Com suas imagens ajudou a aumentar a audiência de telejornais. Certamente nunca teve o reconhecimento financeiro de seu importante trabalho. Como todos os colegas de profissão, tinha um salário miserável pelo risco que corria.

Mas isso não é mais importante. Ele já está morto. Morreu registrando as cenas de barbárie de um país que, pela primeira vez, se olha no espelho e vê refletido um rosto marcado pelas cicatrizes de centenas de anos de abandono e descaso. De um país de poucos, de uma justiça para poucos, de terras nas mãos de poucos, da educação para poucos, de riqueza para poucos. Um país de uma elite arrogante, perversa e preconceituosa, que por séculos controla a política em todos os níveis; estadual, municipal e federal.

Nós jornalistas, sim, estamos de luto. A família de Santiago Andrade está de luto. A sociedade brasileira mais uma vez está de luto. Não nossos patrões que fazem do jornalismo um espetáculo dos horrores. Que colocam na frente das câmaras âncoras despreparados e irresponsáveis que vomitam seus preconceitos e ódios. Jornalismo de baixo nível que usa e abusa do sensacionalismo para garantir audiência. De “âncoras” desafiando o bom senso todos os dias com um pensamento esquizofrênico e preconceituoso. Um jornalismo travestido de notícia que manipula dados, denúncias e, em vez de levar conhecimento, cultura e educação, faz da noticia um controle de mentes.

São os Black bloc da comunicação. Ajudaram e continuam ajudando a destruir os valores mais importantes da cidadania e de justiça social. Tudo cinicamente justificado pela liberdade de expressão. Tudo para manter o status quo de uma elite atrasada e mesquinha que realmente não quer abrir mão de seus privilégios.

protesto cinegrafista santiago andrade

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 12/Feb/2014 às 12:48

    Sensacional Fernandes, tirou as palavras de minha boca. Fico muito tranquilo em saber que os profissionais, e verdadeiros profissionais do jornalismo, tenham esta visão dos safados âncoras que ganham até 20 vezes o salários dos colegas que coletam dados, informações mas que são utilizados de maneira porca, golpista a mando se seus patrões fechados com aqueles que querem ver o circo pegar fogo para terem audiência.

  2. Anonimo Postado em 12/Feb/2014 às 12:54

    Certo dia, navegando na internet, li que um médico brasileiro desenvolveu um equipamento e o software para detectar mais fácil e rapidamente um determinado problema na córnea. Fiquei satisfeito em ver aquela notícia, pois iria facilitar a detecção desse problema, melhorar a vida de muita gente e mostrar como a educação pode mudar uma sociedade. Seria uma excelente manchete mas ao invés disso o que vemos nos noticiários e na maioria dos programas da tv brasileira? Tragédia, corrupção, deturpação de valores, etc. Infelizmente o que é realmente importante para ser mostrado não dá audiência.

  3. Leandro Dubost Postado em 12/Feb/2014 às 13:29

    Ótimo texto! Morreu um trabalhador, mas alguns colegas estão aproveitando disso para fazer política. O cinegrafista estava fazendo seu trabalho e foi vítima de bandidos, que devem ir à justiça. Mas isso não justifica um "vigilantismo fundamentalista" que se instaurou em certos veículos. Já tem tempo que O Globo estampa em sua capa palavras como "terrorismo" e "atentado" para falar dos protestos, com o intuito claro de desmoralizar um movimento democrático. Falam dos black blocs, mas como você dizem, agem da mesma forma... São tão extremistas quanto. Eles não soltam rojões na rua, mas abusam da violência em discursos televisionados.

  4. Maria Aparecida Jubé Postado em 12/Feb/2014 às 16:20

    Parabéns Florestan Fernandes, é muito bom saber que no jornalismo existe profissionais que vê seus patrões com nossos olhos, que deseja uma imprensa melhor, mais digna, mais comprometida com seu país e seu povo e menos egoísta, menos comprometida com as forças retrógradas que tanto mal faz a ao país, menos comprometida com a corrupção de políticos amigos, menos bandida.

  5. Eraldo Paulino Postado em 12/Feb/2014 às 18:30

    Me representa.

  6. Carlos Postado em 12/Feb/2014 às 19:30

    Metem o pau nos chamados "âncoras irresponsáveis", criticam os patrões da mídia por ganharem dinheiro com a tragédia alheia (como se isso não fosse notícia). Âncora é âncora e expressa a opinião da emissora. Jornalistas escrevem o que o patrão manda, inclusive aqueles cujo patrão é o governo. Então, vamos, parar de brincar de faz de conta e de ficar apontando o dedo. E quem não gostar, que pegue a bola ou as panelinhas e parta pra outra.

  7. Thiago Teixeira Postado em 12/Feb/2014 às 19:58

    Pergunta que não se cala: Quem paga os Black Blocs?

    • Elias Postado em 12/Feb/2014 às 22:17

      Adivinha.

    • Pereira Postado em 13/Feb/2014 às 11:02

      Partidos de Esquerda como o PSOL .

  8. renato Postado em 12/Feb/2014 às 20:06

    Estou de luto ainda por Santiago. Parabens Senhor Florestan Fernandes Jr. Tem meu apreço...

  9. Claudio Postado em 13/Feb/2014 às 08:26

    Muito boa sua reflexão, mais precisa de ações em direção a Lei da Mídia!

  10. Agnaldo Sucupira de Souza Postado em 13/Feb/2014 às 09:10

    Florestan, Sou totalmente solidário com tudo que você escreveu, mas só queria acrescentar a campanha clara da rede global em favor dos desmandos dos governantes municipais e estaduais do nosso estado e a tentativa muito clara de marginalizar qualquer tentativa de reação da sociedade, que nesse momento se encontra desorganizada pela traição daqueles que chegaram ao poder com o discurso de mudança e aprofundaram o processo de descaracterização da sociedade que vinha de alguma forma reagindo a essa elite que nos explora sem nenhum compromisso com o futuro do nosso povo.

  11. Pereira Postado em 13/Feb/2014 às 09:49

    Os marginais que atiraram o rojão, depois de pegos, eram a cara da esquerda na TV. A cara do coitadismo , do vitimismo. Será que vai ter "direitos humanos" para esses marginais ? Será que faltou oportunidades e políticas públicas para eles,por isso arrumaram um "emprego" com os black bocks sustentados e amparados por partidos de esquerda? Será que Rachel Sherazade terá que passar a mão na cabecinha deles como exigem os esquerdistas ?

    • renato Postado em 13/Feb/2014 às 20:13

      O teu direito de falar esta garantido. Desde, 10 de dezembro de 1948. mas é apenas uma declaração, em alguns lugares é lei. E precisa de pessoas para estar sempre lembrando que elas existem. Principalmente se um POVO cai na mão de Governos excludentes, de minorias ricas de seus recursos. O qual deveria ser repartido para todos, a este ultimo o nome de Nação...vou parar aqui... Ainda estou de luto por Santiago..