Redação Pragmatismo
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América Latina 20/Feb/2014 às 14:31
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The Guardian: Apoio dos EUA aos protestos na Venezuela é um erro

Entenda por que o apoio dos EUA à mudança de regime na Venezuela é um erro. O artigo é do jornal britânico The Guardian

Mark Weisbrot, The Guardian

Quando é considerado legítimo tentar derrubar um governo democraticamente eleito? Em Washington, a resposta sempre foi simples: quando o governo dos EUA diz que é. Não por acaso, esta não é a forma como os governos latino-americanos, em geral, encaram a questão.

No domingo, os governos do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela) divulgaram um comunicado sobre as manifestações da semana passada na Venezuela. Descreveram “os recentes atos de violência” na Venezuela como “tentativas de desestabilização da ordem democrática”. Eles deixaram bem claro de que lado estavam.

Declararam “seu firme compromisso com a plena vigência das instituições democráticas e, neste contexto, rejeitam as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política”.

Podemos lembrar que quando manifestações muito maiores balançaram o Brasil no ano passado não houve declarações do Mercosul ou de governos vizinhos. Isso não é porque ninguém ama a presidente Dilma Rousseff, mas porque esses protestos não procuravam derrubar o governo democraticamente eleito do Brasil.

A administração Obama foi um pouco mais sutil, mas também deixou claro de que lado estava. Quando o secretário de Estado John Kerry afirma que “estamos particularmente alarmados com relatos de que o governo venezuelano mantém detidos dezenas de manifestantes antigoverno”, ele está tomando uma posição política. Na verdade, houve muitos manifestantes que cometeram crimes: atacaram e feriram policiais com pedaços de concreto e coquetéis molotov, queimaram carros, destruíram e às vezes incendiaram prédios do governo, entre outros atos de violência e vandalismo.

Um porta-voz anônimo do Departamento de Estado foi ainda mais claro na semana passada, quando expressou preocupação com o “enfraquecimento das instituições democráticas na Venezuela” e disse que havia a obrigação das “instituições governamentais responderem eficazmente à necessidades econômicas e sociais legítimas de seus cidadãos”. Ele uniu esforços com a oposição para deslegitimar o governo, uma parte vital de qualquer estratégia de “mudança de regime”.

Claro que todos nós sabemos quem o governo dos EUA apoia na Venezuela. Eles realmente não tentam esconder: há US$ 5 milhões no orçamento federal americano de 2014 para financiar as atividades da oposição dentro do país e isso é quase certamente a ponta do iceberg – somando-se as centenas de milhões de dólares de apoio explícito nos últimos 15 anos.

Mas o que torna importantes essas declarações atuais dos americanos e irrita os governos da região é que eles estão dizendo à oposição venezuelana que Washington está mais uma vez apoiando a mudança de regime. Kerry fez a mesma coisa em abril do ano passado, quando Maduro foi eleito presidente e o candidato da oposição Henrique Capriles afirmou que a eleição foi roubada. Kerry recusou-se a reconhecer os resultados das eleições. A postura antidemocrática agressiva de Kerry causou uma forte reação dos governos sul-americanos e ele foi forçado a mudar de curso e tacitamente reconhecer o governo Maduro. (Para quem não acompanhou esses eventos, não havia nenhuma dúvida sobre o resultado das eleições.)

O reconhecimento de Kerry dos resultados colocou um fim à tentativa da oposição de deslegitimar o governo eleito. Depois que o partido de Maduro venceu as eleições municipais por uma larga margem em dezembro, a oposição estava derrotada. A inflação estava em 56% e houve escassez generalizada de bens de consumo, mas uma sólida maioria ainda tinha votado no governo. Sua escolha não poderia ser atribuída ao carisma pessoal de Hugo Chávez, morto há quase um ano, e nem era irracional. Embora o ano passado tenha sido duro, os últimos 11 anos – desde que o governo passou a ter o controle sobre a indústria do petróleo – têm trazido ganhos nos padrões de vida para a maioria dos venezuelanos que eram previamente marginalizados e excluídos.

Havia muitas reclamações sobre o governo e a economia, mas os ricos e os políticos de direita da oposição não refletem os valores do povo e nem inspiram confiança.

O líder da oposição Leopoldo López tem retratado as manifestações atuais como algo que poderia forçar Maduro a sair do cargo. Era óbvio que não havia, e ainda não há, possibilidade de isso acontecer de forma pacífica. Como o professor da Universidade da Georgia David Smilde argumentou, o governo tem tudo a perder com a violência nas manifestações e a oposição tem algo a ganhar.

No fim de semana passado, Capriles, que estava inicialmente desconfiado de uma estratégia potencialmente violenta para a “mudança de regime”, mudou de ideia. De acordo com a Bloomberg News, ele acusou o governo de “infiltração nos protestos pacíficos para convertê-los em atos de violência e repressão”.

Levou muito tempo para que a oposição aceitasse os resultados das eleições democráticas na Venezuela. Eles tentaram um golpe militar, apoiado pelos EUA em 2002; quando isso fracassou, tentaram derrubar o governo com uma greve do petróleo. Eles perderam uma tentativa de reclamar a presidência em 2004 e protestaram; em seguida, boicotaram as eleições para a Assembleia Nacional, sem motivo, no ano seguinte.

A fracassada tentativa de deslegitimar a eleição presidencial em abril de 2013 foi um retorno a um passado escuro, mas não tão distante. Continua uma incógnita quão longe eles irão para ganhar por outros meios, já que não têm vencido nas urnas, e por quanto tempo terão o apoio de Washington para a mudança de regime na Venezuela.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 20/Feb/2014 às 14:48

    A Diferença entre Dilma e Maduro é absurdo. Dilma fez política ao reconhecer os protestos e ouvir, nem que seja para colocar panos quentes, os manifestantes. O presidente em pleno século 21 que não sabe lidar com a oposição, apenas aumentará as ondas de violência e colocar sua população em risco. Liberta os caras seu otário! Finja que quer ouvi-los. Liga para o tio Lula que ele te ensina a ser POLÍTICO.

    • Renato Postado em 20/Feb/2014 às 23:24

      Fica a dica.

    • Walter Hauer Postado em 20/Sep/2015 às 13:25

      Thiago Teixeira, O Maduro não sabe lidar com a "oposição"? Eles querem o petróleo da Venezuela seu mal caráter confe$$o.

  2. Marco Postado em 20/Feb/2014 às 15:00

    Aparentemente, o boicote às eleições para a Assembléia Nacional não foi sem motivo. Eles queriam construir a imagem de "ditadura" com o governo tendo maioria na Assembléia.

  3. Diego Guimarães Postado em 20/Feb/2014 às 15:58

    Uma coisa é inquestionável: A INGERÊNCIA ESTADUNIDENSE TEM QUE PARAR IMEDIATAMENTE!!

  4. Matheus B. Postado em 20/Feb/2014 às 16:19

    De fracasso em fracasso, o socialismo vai aumentando a montanha de cadáveres que se especializou em produzir, sempre com a mesma estratégia de imputar a um inimigo externo os crimes que comete, primeiro por ineficiência, depois para sustentar o seu regime falido. É sempre, sempre, sempre a mesma história.

    • Gomes Postado em 20/Feb/2014 às 18:25

      Tanto o socialismo, quanto o capitalismo, estão matando no mundo. Mas o q mais me deixa intrigado, é como as pessoas q defendem ambos os lados, ficam discutindo qual matou mais q o outro. Isso n tem importância nenhuma. Ambos os lados tem causado morte nesse mundo e muitas vezes, em pessoas q mão podem se defender disso tudo. Ambos os lados deveriam parar e observar o estrago q estão fazendo no mundo. Por que n unem forças ao invés de viver em conflitos? Enquanto ouver desputa por poder, vai haver sangue, e enquanto houver sangue, ave-la morte.

      • Matheus B. Postado em 20/Feb/2014 às 19:35

        Capitalismo não mata porque é um modelo econômico, o único que trouxe prosperidade aonde foi realmente aplicado. Quem mata são ideologias políticas, como o socialismo, comunismo, nazismo e fascismo.

      • Renato Postado em 20/Feb/2014 às 23:26

        Sério que capitalismo não é também uma ideologia política!?!?! Nossa, to chocado.

      • Daniel Bento Postado em 20/Feb/2014 às 23:42

        As pessoas de defendem o capitalismo apenas conseguem enxerga-lo como modelo econômico, ignoram o poder político do mesmo. Estados Unidos é o braço armado do capitalismo e com este poder já matou milhões de pessoas pelo mundo. Veja recentemente Iraque e Afeganistão e a ganancia pelo petróleo. Se vc não consegue ver isso é mais um tolo. Mantenha-se nessa ilusão e seja feliz amigo.

      • Alguém Postado em 21/Feb/2014 às 09:43

        Capitalismo é o que mais mata! Enquanto alguns são ricos, outros pobres. Sempre vai ter pessoas colocando uma arma na cabeça de outras para conseguir dinheiro, seja por necessidade ou para se igualar a uma classe social. Essas diferenças de classes causam inveja, ninguém gosta de ser inferior. Só digo uma coisa: capitalismo é o mal da sociedade!

  5. Elias Postado em 20/Feb/2014 às 19:43

    Exatamente o Matheus.B resumiu bem o capitalismo é um mero modelo econômico enquanto a esquerda em geral é uma ideológica, essas sim matam e matam muito.

    • Matheus Postado em 20/Feb/2014 às 21:45

      "Capitalismo é um mero modelo econômico..." Haha, Pragmatismo também tem piadistas, que legal. É a única justificativa que eu encontro para esses comentários. Como se o capitalismo não mantivesse a ideologia da propriedade privada, da desigualdade social e do lucro. Ai ai, esses comunistas malvados, querendo destruir esse inocente modelo econômico que não interfere na política... ^_^

      • Elias Postado em 21/Feb/2014 às 01:12

        O que vc tem contra o lucro, vai gerar riqueza como? Propriedade privada sempre existiu apenas em regimes ditatoriais que ela é banida, desigualdade social é um problema sério mas o capitalismo não é responsável por ela existem inúmeros outros fatores.

    • Daniel Bento Postado em 20/Feb/2014 às 23:46

      Invadir nações e matar nativos a fim de explorar riquezas naturais e algo bem "econômico" mesmo, capitalista é tão bonzinho. Financiar ditaduras em todas as partes do mundo pra manter seu poder político e econômico tbm não tem nada a ver com o capitalismo. Esses tolos que acham que o capitalismo é um mar de rosas, sem ideologias.

  6. Alexandre Lopes Postado em 20/Feb/2014 às 20:34

    Quando a direita começa a atacar de forma antidemocrática e agressiva, é um sintoma de que não anda tão bem das pernas . Os EUA já perderam na Venezuela, nada disso vai dar certo e já perderam também na Ucrânia . Eles estão loucos, porque sua hegemonia está indo para o espaço . É verdade que eles ainda são a maior economia e força bélica, mas não são mais os líderes absolutos no mundo . Já existem muitas pedrinhas no sapato do tio sam .

    • Matheus B. Postado em 21/Feb/2014 às 08:39

      Acha que a queda de um império significa o fim do imperialismo? Se os EUA realmente caírem, Rússia e China tomam o seu lugar, e teremos saudade do Tio Sam.

      • Alexandre Lopes Postado em 22/Feb/2014 às 09:40

        Eu disse que a relativização do poder dos EUA é boa, pois o contraponto é sempre importante . Não falei de queda de um império .

    • Bruno Postado em 21/Feb/2014 às 08:43

      Não anda bem da perna tem séculos de acordo com vocês. Toda crise é o "fim do capitalismo". Enquanto isso qualquer crise em país de esquerda é guerra cívil e fim do mundo, claro que tudo isso "sempre é culpa dos EUA". Parabéns ;)

    • Thiago Teixeira Postado em 21/Feb/2014 às 11:05

      No caso da Ucrânia ... eu acho que o povo está coberto de razão de razão.

  7. arão Postado em 20/Feb/2014 às 21:28

    Com o petróleo que a venezuela tem, seria semelhante ao Catar ou Emirados ÁRABES. E Caracas seria riquíssima. Deprimente esse país.

    • Renato Postado em 20/Feb/2014 às 23:29

      Sim, claro, os países árabes exportadores de petróleo têm um IDH semelhante ao dos nórdicos. Lá todo mundo tem carrões de luxo e adoram viver em cidades feitas de ouro.

  8. Nino de Oliveira Postado em 20/Feb/2014 às 23:31

    "O Capitalismo não mata", e todas as guerras por petróleo, por influência geopolítica, por território, por reservas minerais, e as vendas milionárias de armamentos, e a queima de alimento estocado para elevar os preços, e os medicamentos que os laboratórios lançam no mercado mesmo sabendo que podem matar usuários, e o controle monopolista das sementes que causa fome e miséria, e a exploração da mão de obra com salários de fome, e o apoio das ditaduras pelo poder econômico, etc etc etc. Acho que o problema da humanidade não é a ideologia tal ou o sistema econômico que se escolhe, pois no fim nenhum funciona bem, o problema é a mentalidade humana que estraga tudo.

    • Matheus B. Postado em 21/Feb/2014 às 08:38

      Sim, Nino, a distorção do capitalismo mata. Já o socialismo e o comunismo matam pela própria ineficiência, não precisam ser modificados da sua teoria. Basta aplicá-los conforme a cartilha que o desabastecimento surge poucos anos depois, como está acontecendo agora na Venezuela, e já aconteceu na China e Rússia, onde milhões morreram de fome.

    • Alexandre Lopes Postado em 21/Feb/2014 às 08:43

      Nino, você não acha que " a mentalidade humana que estraga tudo " não estraga justamente porque está ligada , indissoluvelmente , a uma ideologia específica chamada capitalismo ? Eu não conheço mentalidade dissociada de ideologia . E a ideologia que predomina é a do massacre , é o capitalismo . Portanto, é uma impropriedade dizer que o capitalismo distorcido sim é ruim, pois o capitalismo já é , por essência , uma distorção , uma iniquidade .

  9. André Postado em 21/Feb/2014 às 08:48

    Que raios é um "porta-voz anônimo"??? Como alguém pode representar a voz de uma instituição sendo "anônimo"? Pisou na bola PP.

    • Ton MarMel Postado em 03/Mar/2014 às 15:48

      Isso mesmo!... Quem não tem o que escrever por falta de argumento, inventa expressão para demonstrar o que não tem: conhecimento da causa!

  10. Yohan Postado em 21/Feb/2014 às 09:00

    Na minha opinião tem um erro grave na notícia. O uso do termo "mudança de regime". Ora..... se temos democracia na Venezuela (e temos) o termo "mudança de regime" é errado e leva o leitor menos informado a acreditar que se está tentando substituir uma atual ditadura por uma democracia. É o tipo de nuance utilizada pela mídia dominante para ir "embutindo" ideias equivocadas na cabeça das pessoas. Por outro lado o termo "mudança de regime" não está errado, pois se estaria derrubando o atual sistema democrático com um golpe.... e aí sim seria uma mudança de regime.