Redação Pragmatismo
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Música 30/Jan/2014 às 11:51
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A orquestra que nasce do lixo

"O mundo nos dá lixo, nós retribuímos com música". Não se trata de um slogan, mas da pura verdade. Conheça a primeira orquestra do mundo que nasceu do lixo

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Ana Meza, 16 anos, toca violino durante ensaio da Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura (Reprodução)

Luis Pellegrini

O cenário é o de Cateura, favela que cresceu ao redor de um aterro sanitário na periferia de Assunção, Paraguai. Jovens moradores desse lugar de extrema pobreza descobrem possuir vocação musical, graças a um professor, Flávio Chavez, e a um músico, Luis Szaran. Os dois decidem criar uma orquestra com os garotos de Cateura. Os moradores recebem a ideia com entusiasmo, mas… como arranjar dinheiro para comprar instrumentos musicais? E acontece a surpresa: numa das ruelas da favela mora Nicolas Gomez, um artesão capaz de fabricar instrumentos com peças encontradas no entulho. E a música aparece, como mostram os dois vídeos abaixo.

O primeiro vídeo é a introdução a um documentário que está sendo produzido e que, em poucos dias, conseguiu obter 214 mil dólares de doações feitas por usuários da rede através do site de crowdfunding Kickstarter. Parte da soma obtida será usada para terminar o documentário. O que sobrar servirá para ajudar a bancar um tour da Orquestra de Instrumentos Reciclados.

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Durante os ensaios da Orquestra de Reciclados, basta ouvir e olhar ao redor para entender – não sem um certo espanto. O sons de uma guitarra clássica provêm de duas grandes latas de goiabada justapostas. Uma máquina de raio-X usada serve de base para um conjunto de percussão. Uma velha saladeira de alumínio e cordas afinadas com pedaços do que já foi uma mesa elegante se transformaram em um violino. Tampas metálicas de garrafas de cerveja funcionam perfeitamente bem como chaves para um saxofone.

Composta de 20 crianças e adolescentes, a orquestra de câmera usa esses e outros instrumentos confeccionados a partir de materiais reciclados encontrados em um aterro sanitário de onde os seus pais tiram o sustento como catadores de lixo. Da orquestra e seus instrumentos a música que se ouve é a de Beethoven e Mozart, Vivaldi e Bach, Henry Mancini e os Beatles. Às vezes há também incursões no repertório de Frank Sinatra e no das polcas e guarânias paraguaias.

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Alguns instrumentos feitos com material reciclados do lixão de Cateura, dentre os que foram expostos no Museu dos Instrumentos Musicais, nos Estados Unidos

Rocio Riveros, 15 anos, diz que levou um ano de estudos para aprender a tocar sua flauta, feita de pequenas latas soldadas. “Agora, já não posso mais viver sem essa orquestra”, ela diz.

Correm mundo as notícias sobre esses garotos músicos de Cateura – uma vasta favela na periferia de Assunção, onde 25 mil famílias muito pobres sobrevivem como catadores de lixo.

Fazendo o impossível

Os jovens da “Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura” já tocaram no Brasil, Panamá e Colômbia. Preparam-se agora para tocar num recital organizado para eles no Museu do Instrumento Musical (Musical Instrument Museum) em Phoenix, Arizona, EUA.

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Professor Flávio Chavez dirige ensaio ao ar livre da Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura. Ele é o responsável pela criação da orquestra

“Queremos encontrar um meio para que essas crianças e suas famílias possam sair da favela. Assim, estamos fazendo o impossível para que possam viajar para fora do Paraguai, para que possam ser reconhecidas e admiradas”, diz Flávio Chávez, um assistente social e professor de música que deu início à formação da orquestra.

A conexão com o museu norte-americano foi feita pela cineasta documentarista paraguaia Alejandra Amarilla Nash. Ela e a produtora Juliana Penaranda-Loftus acompanharam as movimentações da orquestra nos últimos anos, para a produção do documentário “Landfill Harmonic”, realizado com extrema carência de recursos.

O documentário ainda não está completo. Mas há poucos meses as cineastas criaram uma página no Facebook e publicaram um curto trailer no You Tube e no Vimeo que se tornou viral, obtendo rapidamente mais de um milhão de acessos.

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Quatro jovens membros da orquestra de câmera, todos eles moradores da favela de Cateura

Transformar o sonho em realidade

A comunidade de Cateura não poderia ser mais marginalizada. Mas a música que vem do lixo agora faz com que essas famílias acreditem num futuro diferente para seus filhos.

“Graças à orquestra, estivemos no Rio de Janeiro. Tomamos banho de mar, fomos às praias de Copacabana e Ipanema. Nunca pensei que meus sonhos iriam se tornar realidade”, diz Tânia Vera, 15 anos, violinista que vive num barraco à beira de um riacho que serve de esgoto para a comunidade.

A mãe de Tânia Vera sofre de várias moléstias, seu pai abandonou a família, e sua irmã mais velha deixou a orquestra após engravidar. Tânia persiste, e agora quer ser também médica veterinária, além de instrumentista musical.

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O artesão Nicolas Gomez, residente na favela de Cateura, é o responsável pela fabricação der quase todos os instrumentos da orquestra. Ele recicla materiais catados no lixão local

A orquestra é fruto da imaginação de Chavez. Esse idealista de 38 anos abriu uma escolinha de música há cinco anos em Cateura. Sua esperança era conseguir manter pelo menos alguns jovens fora do mundo das drogas e da delinquência. Mas ele possuía apenas cinco instrumentos para compartilhar, muitas vezes parte dos jovens que vinham às aulas não podiam sequer praticar. Foi aí que Chavez pediu a um dos catadores de lixo, Nicolas Gomez, para fazer alguns instrumentos a partir de materiais recicláveis, de modo a manter as crianças ocupadas. “Só frequentei a escola até a 5ª série, e depois tive de trabalhar como quebrador de pedras em uma pedreira”, diz Gomez, 48 anos. Mas “se alguém me der instruções precisas, sou capaz de construir um helicóptero!”

Em abril último, vários instrumentos que Gomez criou foram exibidos no Museu dos Instrumentos Musicais, em Phoenix, Arizona, ao lado dos pianos de John Lennon e das guitarras de Eric Clapton.

“Um novo sentido para minha vida”, é o que afirma Ada Rios, violinista de apenas 14 anos e dona de um grande sorriso. “A Orquestra de Instrumentos Reciclados realmente mudou os rumos da minha existência. Em Cateura, infelizmente, a maior parte dos jovens não tem oportunidade de estudar, porque têm de trabalhar para ajudar as famílias, ou então caem muito cedo no vício do álcool e das drogas”. Para ela, e para quase todos os demais membros da Orquestra, a música representou um caminho de salvação.

Vídeo 1

Vídeo 2

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Comentários

  1. Carlos Postado em 30/Jan/2014 às 13:06

    Muito bom. A iniciativa privada mostrando mais uma vez que a criatividade de cada individuo pode fazer qualquer coisa que o estado diz-que-faz-desfaz. Pena que estas politicas keynesianas inversionistas dificultam que o povo tenha recursos para investir em tantos projetos bacanas.

    • Renato Postado em 30/Jan/2014 às 16:58

      Muito Bom!! mostrando que juntas, as pessoas conseguem coisas maravilhosas, até mesmo fazer coisas que o Capitalismo Liberal não permite a essas crianças, que vivem na miséria graças ao maldito livre mercado, belo exemplo!

      • Carlos Postado em 30/Jan/2014 às 18:37

        Qual livre mercado? Este que inflaciona o dinheiro que o povo poderia estar poupando? Este que dificulta a criação de empregos para a família dessas crianças? Este que dificulta que os pobres empreendam, economizem e invistam em projetos que os tirariam da pobreza e facilitariam a vida de outros pobres? Pois um projeto destes ainda está vivo porque não estão taxando a produção de produtos de material reutilizados e nem criando regulamentações para "garantir a qualidade" de tais produtos feitos de embalagens. Já não passou da hora do governo intervir nisto para "ajudar" e "incentivar" a reciclagem e reutilização para garantir a qualidade destes produtos aos mais pobres? Livre mercado são as pessoas fazendo coisas. Dizer que elas conseguem fazer coisas maravilhosas apesar da liberdade é uma contradição. Pode-se reescrever de duas formas para mostrar o absurdo: As pessoas conseguem fazer coisas maravilhosas apesar deste sistema de fazer coisas maravilhosas não permitir; ou: Pode-se praticar o livre empreendedorismo e o capitalismo liberal apesar do capitalismo liberal. Este é realmente um belo exemplo. Não foram os impostos do governo que formaram esta bela orquestra, mas sim a criatividade e o empreendedorismo de indivíduos. Assim como não foi com a ajuda do governo que se descobriu o fogo, se inventou a metalurgia e se alfabetizou tanta gente com a invenção da imprensa. Para nada disso foi preciso o confisco de imposto e a participação do BNDES. Agora para a morte de tantos judeus e ucranianos, para o surgimento de tantas crises e a declaração de guerra entre tantos estados(e não entre povos) já não podemos dizer o mesmo.

  2. Higor Costa Postado em 30/Jan/2014 às 16:57

    Que coisa maravilhosa de se ver! Estou sem palavras.

  3. Fernando Postado em 31/Jan/2014 às 11:34

    Sou músico e professor e me emocionei às lágrimas lendo o artigo e vendo os vídeos. Parabéns ao abengado artesão, ao maestro e a todos os envolvidos. Enquanto há tantos que com tantos recursos, por preguiça pouco ou nada produzem, estes jovens, teoricamente sem qualquer chance de aproximação com a dita arte musical culta, dão-nos uma aula de perseverança, força de vontade e vigor juvenil. Parabéns a todos e sugiro que se pense em uma campanha de doação de instrumentos de verdade - para que possam evoluir tecnicamente - partituras, acessórios, enfim, tudo o que for necessário para ajudar no seu desenvolvimento.

    • Carlos Postado em 31/Jan/2014 às 23:28

      Queria conseguir tempo e ferramenta para fazer instrumentos como este. Já pensei na possibilidade de se fazer um saxofone de pvc. Caramba, aquele cello de lata tem aquele som? Se for ta ai meu primeiro cello.