Redação Pragmatismo
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Mercado 31/Jan/2014 às 16:57
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As mentiras e o dinheiro da indústria farmacêutica

Indústria farmacêutica, mentiras e muito dinheiro. Confira lista de remédios cujos riscos não impediram que seus fabricantes fossem autorizados a colocá-los a venda

Quando um medicamento causa efeitos colaterais, esta informação muitas vezes não é exposta durante anos, o que permite à indústria farmacêutica continuar ganhando muito dinheiro.

O Food and Drug Administration (FDA) [órgão governamental dos EUA para alimentos e medicamentos] e a indústria farmacêutica argumentam que os efeitos colaterais perigosos em uma droga só aparecem quando é usada por milhões de pessoas – e não no grupo relativamente pequeno de pessoas que fazem testes clínicos. Mas existe outra razão pela qual os consumidores acabam sendo cobaias. Os remédios são levados apressadamente ao mercado, após um período muito curto (de apenas seis meses) para que a indústria possa começar a ganhar dinheiro, enquanto a segurança ainda está sendo determinada.

Tanto a droga para os ossos Fosamax, repleta de riscos, quanto a analgésica Vioxx, ambas da indústria Merck, foram ao mercado após seis meses de revisão. No caso da Vioxx, isso ocorreu porque “o medicamento potencialmente provia uma vantagem terapêutica sinificativa sobre outras drogas já aprovadas”, disse a FDA.

Obrigado por isto. E cinco drogas (TrovanRezulinPosicorDuract e Meridia), que entraram no mercado em 1997 por pressões da indústria e do Congresso sobre a FDA, diz a PublicCitizen, foram em seguida retirados.

Abaixo, algumas drogas cujos riscos não impediram que seus fabricantes fossem autorizados a colocá-las a venda e exercer seu “valor de patente”.

1. Singulair

Você imaginaria que a Merck aprendesse, após os problemas com Vioxx e a Fosamax, que marketing agressivo pode esconder apenas por algum tempo os riscos emergentes das drogas. Mas não. Para vender o Singulair, sua droga contra asma e alergias para crianças, a indústria fez uma parceria com Peter Vanderkaay, o nadador medalha de ouro nas Olimpíadas, com acadêmicos e com a Academia Norte-americana de Pediatras – mesmo após a FDA advetir sobre os “eventos neuropsiquiátricos” do medicamento, incluindo agitação, agressão, pesadelos, depressão, insônia e pensamentos suicidas.

Enquanto a Merck fazia a propaganda do Singulair (que vem em fórmula mastigável e com gosto de cereja), com slogans como “Singulair é feito pensando nas crianças”, a Fox TV e mais de 200 pais relataram, no site askapatient [“pergunte a um paciente”] que suas crianças, ao tomar o remédio, exibiam humor alterado, depressão e déficit de atenção (ADHD), hiperquinesia e sintomas suicidas. Cody Miller, um garoto de 15 anos de Queensbury, Nova York, tirou sua própria vida dias após tomar o medicamento, em 2008. Ainda assim, o Singulair arrecadou 5 bilhões de dólares para a empresa, em 2010. Após sua patente expirar, em 2012, a Administração de Bens Terapêuticos da Austrália (equivalente à FDA ou à Anvisa) reportou 58 casos de eventos psiquiátricos adversos em crianças e adolescentes, primariamente pensamentos suicidas. Quem sabia?

2. Zyprexa

Como vender uma droga que provoca ganho de peso de cerca de 10kg, em 30% dos pacientes, chegando até 45kg, em alguns? Enterrando seus riscos. O antipsicótico Zyprexa era a nova aposta da Eli Lilly, depois de seu antidepressivo campeão de vendas Prozac – mesmo que o laboratório soubesse, já em 1995, de acordo com o New York Times, que a droga está ligada a um ganho de peso incontrolável e até diabetes. Os efeitos colaterais do Zyprexa de “ganho de peso e possível hiperglicemia fazem um grande mal ao sucesso de longo prazo desta molécula criticamente importante”, havia escrito Alan Breier, da Lilly, segundo documentos obetidos pelo jornal. Mais tarde Alan tornou-se médico-chefe da empresa.

Mesmo após a Lilly ter pagado multas, após acusada de ocultar informações sobre a relação entre a droga e altos níveis de açúcar no sangue ou diabetes (e de ter comercializado ilegalmente a droga para pacientes com demência), o Zyprexa rendeu 5 bilhões de dólares em 2010, acima até do Prozac. Quem disse que crime não compensa? O Zyprexa foi especialmente comercializado para os pobres e virou um dos medicamentos principais do Medicaid, o programa público de saúde norte-americano, extraindo pelo menos 1,3 bilhões de dólares do orçamento do país, só em 2005. Em 2008, a empresa estabeleceu um acordo para cobrir o custo dos pacientes do Medicaid que desenvolveram diabetes após usar a Zyprexa. Como raposa vigiando galinheiro, a Lilly ofereceu um “serviço gratuito” para “ajudar” os estados a comprar drogas como a Zyprexa para doenças mentais — e vinte deles aceitaram a oferta. A patente do remédio acabou em 2012.

3. Seroquel

O antipsicótico Seroquel, produzido pelo laboratório AstraZeneca, do Reino Unido, tornou-se um dos medicamentos mais vendidos nos EUA, arrecadando mais de 5 bilhões de dólares em 2010, apesar de seus riscos, frequentemente relatados. O remédio foi comercializado tão vastamente para crianças pobres que, em 2007, o Departamento de Justiça para a Juventude da Florida comprou duas vezes mais Seroquel que Advil. Sua elevada aquisição no serviço militar, para usos não aprovados — como para estumular o sono e para distúrbio de estresse pós-traumático (PTSD) — também foi espantosa. Relatos de mortes repentinas de veteranos que utilizavam a droga emergiram quando as compras do Seroquel pelo Departamento de Defesa dos EUA cresceram 700%.

Poucos meses após a aprovação da Seroquel, em 1997, um artigo no Jornal de Medicina de Dakota do Sul já levantava questões sobre a interação perigosa da droga com outros onze medicamentos. Passados três anos, pesquisadores da Cleveland Clinic questionavam o efeito da Seroquel na atividade elétrica do coração. Mas mesmo quando as famílias de veteranos falecidos prestaram testemunhos em audiências no FDA, em 2009, e exigiram respostas de dirigentes e legisladores, o órgão protegeu a empresa. Depois, em 2011, com pouco alarde, o FDA emitiu novos avisos que confirmavam as notícias devastadoras: tanto o Seroquel quanto sua versão estendida, que fora lançada, “deveriam ser evitados” na combinação com pelo menos outros 12 remédios. A droga também deveria ser evitada pelos idosos e pessoas com doenças cardíacas, por causa de seus claros riscos ao coração. Ops… A patente expirou no ano seguinte.

4. Levaquin

Os antibióticos à base de fluoroquinolona estão entre os mais vendidos. Muitas pessoas lembram-se do Trovan (na época dos ataques com antrax, logo após o 11 de setembro), mas a indústria farmacêutica espera que não nos lembremos de que foi retirado de circulação por causa de danos ao fígado, e do Raxar, removido por causar eventos cardíacos e morte súbita. O Levaquin, da Johnson & Johnson, igualmente baseado em fluoroquinolona, foi o antibiótico mais ventido nos EUA em 2010, com receitas acima de US$1 bilhão por ano — mas agora é tema de milhares de processos.

Em 2012, um ano após a patente do Levaquin expirar, uma enxurrada de efeitos colaterais começou a emergir, sobre este medicamento e toda a classe de fluoroquinolonas, lançando dúvidas sobre sua segurança. A revista da Associação Médica Norte-Americana relatou que, de 4.384 pacientes diagnosticados com descolamento de rotina, 445 (10%) foram expostos a fluoroquinolone no ano anterior ao diagnóstico. A Revista de Medicina da Nova Inglaterra relatou no mesmo ano que o Levaquin estava ligado a um risco crescente de morte cardiovascular, especialmente morte súbita por distúrbios no ritmo cardíaco.

Embora a FDA tenha alertado sobre as rupturas de tendão — especialmente os tendões de Aquiles — provocadas por fluoroquinolonas em 2008, e adicionado uma tarja preta de advertência na embalagem, novos avisos graves foram feitos dois anos após o fim da patente do Levaquin. Em 2013, a FDA advertiu sobre o “efeito colateral sério de neuropatia periférica” — um tipo de dano nos nervos no qual as vias sensoriais são prejudicadas — nas fluoroquinolonas. Neuropatias periféricas causadas por esta classe de antibióticos podem “ocorrer logo após a administração destas drogas, e podem ser permanentes”, alertou a ageência. Fluoroquinolonas também estão ligadas ao Clostridiumdifficile, também chamado de C. Diff, um micróbio intestinal sério e potencialmente mortífero.

5. Topamax

Antes de sua patente expirar, em 2009, a droga Topamax deu à Johnson & Johnson um bilhão de dólares por ano, e foram mais US$ 538 milhões depois disso. O remédio foi tão preferido, para condições de dor no serviço militar, que recebeu o apelido de “Stupamax” – uma referência à maneira com que diminuia os tempos de reação e prejudicava a coordenação motora, a atenção e a memória, de acordo com o ArmyTimes. Não era muito bom para o combate…

Um ano antes de cair a patente do Topamax, a FDA alertou que ela e outras drogas estão correlacionadas com suicídios, e pediu a seus fabricantes para adicionar avisos na caixa. Quatro pacientes usuários da droga mataram-se, contra nenhum sob placebo, declarou a FDA após rever os testes clínicos. Já em 2011, o órgão anunciou que o Topamax pode causar defeitos de nascimento nos lábios, nos bebês de mães que ingerem a droga. “Antes de começar com o topiramato, grávidas e mulheres em idade fértil devem discutir outras opções de tratamento com seu profissional de saúde”, alertou o FDA, mas isso não impediu o órgão de aprovar uma nova dieta de medicamentos contendo o genérico do Topamax, em 2012.

6. Oxycontin

Oxycontin, do laboratório Purdue Pharma, é a avó de drogas que geram muito dinheiro, apesar de seus efeitos colaterais letais. Junto de outros opióides, ele causou o número assutador de 17 mil mortes no ano passado — quatro vezes mais que em 2003. “O aumento [no uso] foi alimentado em parte por médicos e organizações de defesa de analgésicos, que recebiam dinheiro de empresas e faziam alegações enganosas sobre a segurança e a efetividade de opióides — inclusive afirmando que o vício é raro”, relatou o Journal Sentinel. A Sociedade de Geriatras Norte-Americanos usou pesquisadores ligados à indústria farmacêutica para reescrever guias clínicos em 2009, diz a publicação. Após reescritos, eles especificavam opióides para todos os pacientes com dor moderada a severa

Devido a sua fórmula, que lhe permite agir por um longo período, pensou-se que o Oxycontin teria toxidade e potencial de provocar dependência reduzidos – ao menos até seus efeitos tornarem-no mais popular que a cocaína nas ruas (todos os 80mg de pílulas podíam ser tomados de uma vez). Em 2010, respondendo aos vícios, overdoses e mortes associadas à droga, a Purdue Pharma desenvolvou um Oxycontin inviolável, e, dois anos depois, passou a pressionar por leis que exigissem inviolabilidade de todos os opiácios. A empresa garantiu que sua maior preocupação era a saúde pública, mas muitos se perguntaram sobre o porquê desta preocupação só se revelar às vésperas do fim da patente da droga, em 2013…

Martha Rosenberg, Outras Palavras. Tradução: Gabriela Leite

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Comentários

  1. Rafael Martini Postado em 31/Jan/2014 às 18:46

    Muitos, mas muitos médicos são marionetes da indústria farmacêutica. Percebe-se facilmente isso ao sair de uma consulta com o clássico diagnóstico de "virose" (ou seja, doença causada por vírus) e nas mãos uma receita de antibiótico (que combate bactérias). Infelizmente, o povo carece de informação e é muito crédulo na medicina tradicional.

  2. Patricia Postado em 31/Jan/2014 às 18:49

    Onde encontro as fontes dessas informações? Me interessei muito pelo assunto. Obrigada.

    • Administrador
      Moderação Postado em 31/Jan/2014 às 19:43

      Olá, Patrícia. Basta clicar nas palavras destacas que estão linkadas. Cada palavra com link é uma fonte.

  3. Jairo Postado em 31/Jan/2014 às 23:17

    Mas os benefícios que a indústria farmacÊutica foram inúmeros inclusive aumento na expectativa de vida. Sem ela todos os diabéticos e cardiopatas e pessoas com infecções iriam morrer.

    • Bruna P Postado em 26/Feb/2014 às 17:30

      É...tem gente que vê a indústria farmacêutica como uma monarquia: o rei divino dá, o rei divino tira. O rei dá uns pães e festas de vez em quando, por isso ele tem direito de abusar sexualmente de qualquer mulher no reino. Pode parecer absurda essa comparação, mas é o mesmo raciocínio usado pelo Jairo. Ótimo o que a indústria farmacêutica fez pela qualidade de vida, ela foi paga e até premiada por isso. Mas isso não justifica a busca sem limites por lucro.

  4. Carlos Postado em 31/Jan/2014 às 23:25

    Por isto que deve-se tirar toda a regulamentação e proteção que há sobre estes aproveitadores da máquina estatal.

  5. Felininho Postado em 01/Feb/2014 às 12:28

    Sabe por que isso, né? Usam testes em animais para justificar a segurança dos remédios. Já está hora disso acabar.

    • Thiago Teixeira Postado em 01/Feb/2014 às 20:33

      Concordo, então seja voluntário você e a sua mãe para tais testes. Vamos proteger os animais.

  6. Eguimar Martins Postado em 01/Feb/2014 às 23:45

    Cuidado com as afirmativas sr Rafael Martini!!! Conheco muitos médicos que ñ estão atrelados as industrias farmaceuticas...e tbm, tenha mais critérios para questionar condutas médicas. Quando digo cuidado me baseio nos valores juridicos e verdadeiros!!

    • Rafael Martini Postado em 03/Feb/2014 às 01:25

      Eguimar, meus critérios são de um leigo que, na condição de paciente, faz uso de serviços médicos (tanto de particulares e convênios, quanto pelo SUS), tanto que abordei uma situação específica. Talvez o tom de meu comentário seja um bocado injusto, admito, pois conforme expus há pouco, abordei apenas uma situação em particular, e de fato há muitos médicos que não se alinham às referidas práticas. Entendo também que muitas pessoas sentiriam-se "enganadas" se, ao final do atendimento, o médico apenas receitasse "repouso, hidratação e canja de galinha" (aliás, o que resolve muitas causas de consultas triviais). Ademais, reafirmo que o povo carece de informação e é excessivamente crédulo na medicina tradicional. As medicinas alternativas precisam ser melhor divulgadas, estudadas e devidamente aplicadas.

      • Pierri Postado em 08/Dec/2015 às 17:11

        Cuidado nada, o que ele comentou foi apenas uma verdade, está certo que há médicos que não concordam, mais deixam isso guardado em casa, por aprática tem que ser outra, silêncio, silêncio silêncio, silêncio, vamos ganhar dinheiro.

  7. Tati Postado em 02/Feb/2014 às 00:38

    O pior é saber que o preço de uma caixinha de Zyprexa pagaria 80% do salário de um psicólogo na rede pública, solução bem mais eficiente se a intenção fosse realmente devolver a dignidade e a qualidade de vida das pessoas. Mentalidade curativa e não preventiva caminha lado a lado com a indústria farmacêutica.

  8. Alexandre Lopes Postado em 02/Feb/2014 às 10:28

    Em suma, a indústria farmacêutica é , em essência , genocida. Não difere do holocausto , substancialmente .

  9. Adalberto Postado em 26/Feb/2014 às 19:39

    Acredito que a cura do câncer e da Aids já existam, mas a manuntenção das doenças dá mais lucro que a cura.

  10. Marina Postado em 26/Feb/2014 às 21:22

    As informações sobre Oxycontin estão um pouco vagas. Este não causa mortes por hepato ou neurotoxicidade, mas sim overdoses. O usuário toma demais, normalmente mistura com alguma outra droga depressora do SNC (álcool ou diazepam, por exemplo) e tem uma parada cardiorrespiratória - pára de respirar, perde a consciência e o cérebro do usuário lentamente pára de trabalhar. O vício é algo muito sério - e real. Com certeza uma das drogas mais viciantes por ai por causa de seu efeito eufórico e sedativo, tanto que é chamada de Hillbilly Heroin (heroína de caipira) nos Estados Unidos. Felizmente o abuso da mesma é raro no Brasil e uma medicação não muito receitada por aqui.