Redação Pragmatismo
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Saúde 03/Dec/2013 às 23:29
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Os médicos cubanos na visão de um inglês que vive no Brasil

Correspondente da Agência Reuters no Brasil dá “um banho” em muitos repórteres brasileiros que cobrem a atuação dos médicos cubanos no país

médica cubana bahia brasil
Médica cubana Dania Rosa Alvero Pez posa para uma foto na rua, perto do centro de saúde onde trabalha, na cidade de Jiquitaia, Bahia (Reuters / Ueslei Marcelino)

O inglês Anthony Boadle é correspondente da Agência Reuters no Brasil desde o ano passado. E deu “um banho” em muitos dos repórteres brasileiros que cobrem a atuação dos médicos cubanos no país, dentro do programa Mais Médicos.

Boadle, simplesmente, ouve o que as pessoas têm a dizer, em lugar de procurar dirigir o que dizem.

Ouve as pessoas simples e consegue transmitir o que elas sentem. Não confunde ser imparcial com ser ranzinza ou advogado do diabo. Está ali para ver e descrever situações, não para arranjar defeitos ou fazer propaganda.

Ouve quem é contra, ouve quem se beneficia.

Fala, é claro, dos efeitos políticos que o programa traz para Dilma, mas isso é mostrado como uma consequência, não um objetivo sórdido.

Vale a pena ler. Quem quiser, tem aqui o texto em inglês.

É bom trabalho profissional, é bom conhecer a realidade.

Confira a íntegra da reportagem abaixo.

Médicos cubanos atendem aos pobres do Brasil e dão impulso a Dilma

Anthony Boadle

JIQUITAIA, Bahia, 2 Dez (Reuters)Eles foram vaiados e chamados de escravos de um Estado comunista assim que desembarcaram no Brasil, mas nos cantos mais pobres do país a chegada de 5.400 médicos cubanos está sendo saudada como uma benção.

O programa para preencher lacunas no sistema nacional de saúde com médicos estrangeiros, principalmente de Cuba, pode se tornar um grande catalisador de votos para a presidente Dilma Rousseff agora que ela se prepara para disputar um segundo mandato na eleição do ano que vem, apesar da feroz oposição da classe médica nacional.

A decisão de usar o programa cubano de exportação de médicos, iniciado pelo ex-líder Fidel Castro, se tornou uma prioridade depois que protestos de massa contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos de transporte, educação e saúde tomaram as ruas de várias cidades do país em junho.

Poucas semanas depois, Dilma lançou o “Mais Médicos”, programa de contratação de médicos brasileiros e estrangeiros para regiões remotas do país e periferias de áreas metropolitanas.

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O governo federal assinou um contrato de três anos para trazer milhares de médicos cubanos para trabalhar nessas áreas onde os profissionais brasileiros preferem não atuar.

Com base em um acordo que renderá cerca de 225 milhões de dólares por ano a Cuba, onde o governo precisa de dinheiro, médicos cubanos estão sendo enviados a postos de saúde em comunidades de várias cidades brasileiras e em vilarejos do Nordeste castigados pelas secas, áreas que carecem de médicos residentes.

O Estado da Bahia está reabrindo centros de saúde em áreas rurais, fechados por falta de funcionários.

Moradores de Jiquitaia, um povoado do interior cercado por cactos, bodes e gado esfomeado, não precisam mais viajar 46 quilômetros em estrada de chão para consultar um médico.

“Foi uma benção de Deus”, disse o agricultor Deusdete Bispo Pereira, depois de ser examinado por dores no peito pela médica Dania Alvero, de Santa Clara, Cuba. “Mudou 100 por cento. Todo mundo está gostando. A gente tem medo que vão embora”, disse ele.

Idosos e mulheres grávidas lotavam o centro de saúde da família esperando ser examinados por Dania, que é especializada em medicina preventiva, como a maioria dos médicos cubanos.

“Há doenças aqui das quais eu só lia em livros, como a lepra (hanseníase), que já não existe mais em Cuba”, disse ela, mesclando palavras em espanhol e português.

MÉDICOS DE ALUGUEL

Há décadas, Cuba começou a enviar médicos ao exterior para ajudar países em desenvolvimento por motivos ideológicos, como disciplinados soldados revolucionários mandados por Fidel ao tabuleiro de xadrez da Guerra Fria, da Argélia e Etiópia a Angola e Nicarágua.

Com o país mergulhado em uma crise econômica depois do colapso da União Soviética, Fidel concebeu um esquema de médicos-por-petróleo com o falecido presidente venezuelano Hugo Chávez, em 2000.

Mesmo com a maior parte da renda indo para o governo de Cuba, os médicos cubanos adoram ir para fora porque podem ganhar muito mais do que recebem em casa, onde o salário máximo de um médico equivale a 50 dólares por mês.

“Nós não ganhamos muito, mas não estamos aqui pelo dinheiro. Estamos aqui para ajudar nosso país, que é pobre”, disse Lisset Brown, que trabalha em um posto de saúde da localidade de Ceilândia, o maior bairro na periferia de Brasília.

A chegada de 12 médicos cubanos aliviou o trabalho do sobrecarregado hospital de Ceilândia e melhorou a credibilidade do sistema público de saúde, disse a enfermeira brasileira Tânia Ribeiro Mendonça. “A população vê com bons olhos que o governo está tentando uma melhoria na atenção médica.”

INSATISFAÇÃO DOS MÉDICOS

Inicialmente, os médicos brasileiros tentaram impedir a chegada dos colegas estrangeiros, vistos como uma tentativa de minar seus interesses profissionais e padrões médicos.

Quando um primeiro contingente de cubanos desembarcou no aeroporto de Fortaleza, em agosto, médicos brasileiros revoltados gritaram “Escravos!” para eles.

Mas eles tiveram de abaixar o tom de suas críticas porque as pesquisas de opinião mostram que a vasta maioria dos brasileiros é a favor da contratação de estrangeiros quando não houver médicos locais disponíveis, mesmo que permaneçam dúvidas sobre as qualificações dos cubanos.

“Nós não somos contra a vinda de médicos de fora para trabalhar aqui. Podem vir da Rússia, Inglaterra, Cuba ou Bolívia. O que nós defendemos é que médicos formados fora devem ser avaliados para trabalhar no Brasil. O governo não está fazendo isso”, disse o presidente da Associação Médica Brasileira, Florentino Cardoso.

Cirurgião oncológico, Cardoso se queixa de que Dilma “procurou demonizar” os médicos brasileiros ao associá-los com as muitas deficiências do sistema nacional de saúde. Levar mais médicos para áreas periféricas, disse ele, não vai acabar com as filas nos serviços médicos deficitários nas cidades.

ELEIÇÕES DE 2014

Com pouco mais de quatro meses de lançamento, o Mais Médicos está ganhando oportunos elogios políticos para Dilma, que pode apontar o programa como um exemplo de sua rápida resposta aos protestos populares de junho.

Mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas na época expressar sua ira contra serviços públicos inadequados que consomem dinheiro dos contribuintes e são criticados pelas longas filas e demorada espera por atendimento nas unidades de saúde no país.

“Este é um grande plus para a reeleição dela. As pesquisas mostram que há uma elevada taxa de aprovação ao programa”, disse o professor de Política David Fleischer, da Universidade de Brasília.

No Nordeste, médicos cubanos estão de fato ganhando os corações e votos para Dilma.

“Eles têm carisma e humildade e olham nos olhos da gente na consulta, o médico brasileiro não”, disse Angelo Ricardo, que levava o pai idoso a um centro de saúde na cidade baiana de Remanso. “A população carente no Brasil está precisando disto, preocupação na vida do paciente. Eu voto nela, sem dúvida.”

Fernando Brito, Tijolaço

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Comentários

  1. Gustavo Postado em 04/Dec/2013 às 01:11

    Parabéns, Dilma! Bola dentro. E antes que venham criticar a política dos "Mais Médicos" como eleitoreira, num olhar empobrecido, digo que não vejo mal algum de uma boa política, que a população gosta e aprova, render resultados eleitorais positivos. Tratar o povo como idiota, numa visão elitista, é que não ajuda

    • João Postado em 04/Dec/2013 às 09:26

      Melhores passos para uma medicina mais socializada - assim como é visto em SiCKO (documentário do Michael Moore), quando fica clara a capacidade da medicina cubana.

    • Alexandre Postado em 04/Dec/2013 às 12:34

      Correto !!

  2. Alefe Postado em 04/Dec/2013 às 02:16

    O grande problema trata-se de que os médicos formados no brasil estão em sua maioria trabalhando pelo dinheiro, e não a serviço da população, não foram poucas as vezes que precisei recorrer ao sistema público de saúde (pois moro no interior do ceará numa cidade onde não existe clinicas a mais perto fica à 58km daqui) e ao chegar no hospital além de passar muito tempo esperando a boa vontade do médico atender ainda era tratado como se não fosse ninguém, o médico sequer olhava em minha cara, ouvia a minha queixa e simplesmente escrevia uma receita quase indecifrável passando alguma medicamento para virose. Aqui na minha cidade uma amiga da família ficou paralítica por tomar uma injeção que não podia e o médico sequer lhe perguntou se ela podia tomar a mesma. Outra amiga desmaiou de dor no ombro e chegando ao hospital o médico lhe passou apenas um remédio muscular para aliviar a dor e disse que aquilo não era nada demais, no outro dia quando essa amiga foi para uma clinica descobriu que estava tendo uma hemorragia no pulmão, se não tivesse ido à clinica não teria descoberto e poderia nem estar entre nós. Depois que os novos médicos chegaram tudo mudou, eles olham em nossos olhos querem saber o que nos levou a sentir o sintoma, nos tocam, conversam de forma amigável. Só espero que os médicos brasileiros aprendam com eles e não os critiquem, pois eles estão fazendo o que à muito tempo o sistema de saúde brasileiro precisava fazer: tratar quem tem menos condições como gente. Assim vejo algum futuro para saúde brasileira pois com essa lição que os médicos estrangeiros estão dando pode ser que os brasileiros abram seus olhos e relembrem o verdadeiro sentido de ser médico que é ajudar a salvar/melhorar vidas! Um abraço gostei mt da matéria

    • Daniana Postado em 04/Dec/2013 às 14:57

      Parabéns pelo comentário Alefe, tenho vários exemplos assim como os seus citados acima. É essa a realidade dos atendimentos. Essa política veio para tentar mudar a realidade deste país, se vai atrair votos ou não não interessa, o que de fato importa é a satisfação da população sobre o programa.

    • Alex Postado em 04/Dec/2013 às 15:27

      Moro numa região rica, a grande Curitiba, na cidade de São José dos Pinhais (4ºPIB no Paraná) onde a saúde foi semi-privatizada e está sendo operada por uma cooperativa de médicos e a situação é catastrófica: precisei de atendimento para uma crise de dor ciática e depois de 7 horas de espera fui atendido por médica brasileira que sequer se levantou de sua cadeira. Nessas 7 horas, somente umas 25 pessoas foram atendidas. Aqui na cidade, o salário para médico é superior a 11 mil reais para jornada de 40horas, sou funiconário público e acompanho pelas publicações oficiais. O salário é ótimo para o nível do funcionalismo publico municipal. Falta ética e amor ao próprio trabalho e respeito ao próximo por parte dos médicos.

  3. luiz carlos ubaldo Postado em 04/Dec/2013 às 10:03

    Ninguém da população mais carente tá nem ai para os coxinhas Brasileiros, parabéns presidente Dilma, a senhora quando olha para o seu povo, se vê ali como aquela gente, não nos olha como antes nos viam, um duro fardo a ser carregado, não nos olha de cma para baixo, a senhora é gente como a gente!

  4. Vanessa Postado em 04/Dec/2013 às 10:38

    O problema disso tudo é que a população carente auxiliada pelo programa é levada a votar na Dilma por esses fatores, desconsiderando fatores externos. Apesar de o governo ter ênfase a população carente, isso gera um ciclo em que apenas petistas ficam na liderança, já que a população carente que eles ajudam é maior que a população de classe média que estava reivindicando nas ruas do país.

    • Eduardo Abreu Postado em 04/Dec/2013 às 12:07

      SERÁ QUE A REDE PIG, VAI MENCIONAR ESTA MATÉRIA EM ALGUM NOTICIÁRIO?????? NUNCA QUANDO NÃO TEM O QUE FALAR MAL DO GOVERNO ELA PREFERE MOSTRAR DESGRAÇAS....

    • Eduardo Abreu Postado em 04/Dec/2013 às 12:11

      não é só os pobres do nordeste ou que receberam os mais médicos não, nesta tão falada classe média tem um acréscimos de mais de 30 milhões de brasileiros que chegaram nele por força de governo do PT, e estes pode ter certeza votarão em DILMA. O bom nisto tudo que a continuidade é melhor que o retrocesso, pense num país falido, num país entregue aos "amigos" lá de fora, um país sem oportunidades para todos, um país onde só alguns podiam estudar, um país de joelhos e sem chinelas.....ainda bem que quem quer isto de volta é apenas 4% dos brasileiros.

    • Alexandre Postado em 04/Dec/2013 às 12:40

      Vanessa, foi exatamente esta ênfase para a população carente, que o governo FHC, Sarney, Collor nunca fizeram. Este país é formado em sua maioria, por pessoas carentes. Nada mais justo que eles, recebam ajuda. Sendo na área da saúde então, nem se fala. A classe média, também foi agraciada, ou não se lembra como era difícil, ter um padrão mínimo de vida em um passado não muito distante ?

    • Renata Postado em 04/Dec/2013 às 14:01

      Acho importante ressaltar que política social e de saúde não é ajuda, é direito do cidadão, seja ele carente ou não. Fico, então, me perguntando quais fatores externos que a população mais carente precisa considerar? Que uma parte da classe média não está satisfeita?

    • Juliana Postado em 04/Dec/2013 às 14:34

      Muitos que criticam o "Mais médico" ou "bolsa família" já se beneficiaram de outros programas sociais (minha casa minha vida, fies, etc) e não reclamaram. Como alguns disseram, se a maior parte da população brasileira é carente, porquê não ajudá-los? Além do mais, o mensalão foi ridículo, uma sujeira...foi! Mas o mensalão tucano foi muito maior e não se vê comentários sobre, mesmo porque, a toda poderosa rede globo não mostra. PS: Sou apartidária.

    • Luiz Postado em 04/Dec/2013 às 15:06

      Mas o papel do governo não é corrigir distorções e atender a maioria???

      • Caio Postado em 04/Dec/2013 às 15:34

        Eles vão votar na dilma pq a dilma fez algo, ao contrario dos ex presidentes, não? Pq o voto da população pobre não vale?

    • Thiago Teixeira Postado em 04/Dec/2013 às 21:19

      Falou tudo Vanessa. Resumindo: Chora classe mérdia eternamente e viva a nossa presidenta que pensa na maioria da população e que está correspondo aos votos que recebeu, pois se fosse gente como você no poder eles estariam apodrecendo no cemitério.

  5. Caio Postado em 04/Dec/2013 às 15:33

    Sera que ele sabe que a maioria que foi reivindicar nos protestestos foram por carona apos repercussão da violencia policial? Que nem sabiam o que queriam?

  6. JULIO GOMES Postado em 04/Dec/2013 às 15:45

    Parabéns ao Programa mais Médicos. O Governo petista auxiliando e dando dignidade aos que mais precisam. Estou com a Presidente DILMA.

  7. Jose do Patrocínio Postado em 04/Dec/2013 às 16:17

    Parabéns Dilma, com certeza iremos comemorar uma vitoria já no primeiro turno, pois o Brasil continuará tendo esperança de uma vida melhor para todos os brasileiros.

  8. Jaques Moura Postado em 04/Dec/2013 às 16:28

    Gostei da matéria... mas o próprio medo da população carente demonstra que isso é mais um paliativo pro estado deplorável em que se encontra nosso sistema público de saúde. Quando o voto deixar de ser obrigatório no Brasil, a manipulação de massa vai ser bem menor. Político vai ter que se virar sem as ferramentas que vem usando de geração em geração para se manter no poder. Educação e saúde de verdade para o nosso Brasil!

  9. elton Postado em 04/Dec/2013 às 16:28

    Congratulações a Dilma.Um passo importante para melhorar a situação social lamentável desse país.Ótima matéria ,gostei muito .

  10. Miroblues Postado em 04/Dec/2013 às 17:10

    Não entendo como ainda aparece gente contra, para mim Médico é como outro profissional qualquer. Não importa de onde vem, o que importa é se ele cumpre o papel ao qual foi contratado, e, vá trabalhar onde o Patrão mandar.

  11. Luiz Benedito Ponzeto Postado em 05/Dec/2013 às 07:08

    Quem está por trás dessas manifestações contrárias ao programa "Mais Médicos" são os "grandes laboratórios", porque eles ganham "muito pouco" com a medicina preventiva.

  12. Rafael Postado em 05/Dec/2013 às 11:46

    Os médicos são necessários, mas diferente dos que acreditam na bondade Cubana, Cuba é o único país do mundo que explora seus médicos, eles não tem opção ou "ajudam o planeta" ou passam fome.

  13. Anselmo Heidrich Postado em 06/Feb/2014 às 16:33

    Curandeiros também são saudados em regiões desassistidas por completo. O parágrafo inicial já demonstra um julgamento que dá o tom final, não é nada objetivo. Não passa de uma propaganda interessada e aética. Picaretagem pura e simples.

  14. eu daqui Postado em 24/Feb/2014 às 15:39

    Se os cubanos não ajudarem a saúde no Brasil, não serão os brasileros que o farão.