Redação Pragmatismo
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Europa 13/Dec/2013 às 17:51
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Monte Saint-Michel resume história da civilização francesa

Oásis medieval, Monte Saint-Michel é resumo da história da civilização francesa. Seja turismo de religião, histórico ou de aventura, visitantes podem usufruir de todo tipo de experiência

Monte Saint-Michel frança
Monte Saint-Michel. Local é um dos maiores tesouros históricos da França (reprodução)

Conhecido como um dos pontos turísticos mais antigos e belos da França, o Monte Saint-Michel impressiona pela imponência. Visto de longe, sua presença se torna mais evidente pelo aspecto insular, isolado do continente pelas águas da baía de Saint-Michel – ou pela areia, quando a maré está baixa –, como um verdadeiro oásis medieval parado no tempo em meio à paisagem rural.

Essa pequena ilhota composta por um penedo de 80 metros de altura, localizada na fronteira entre a Normandia e a Bretanha, bem na foz do rio Couesnon, é a cidade francesa com o maior número de monumentos históricos por habitante na França (61 para uma população de apenas 42 pessoas), enquanto recebe cerca de três milhões de visitantes por ano.

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Antigo local de peregrinação, o Monte, construído originalmente para ser um santuário, tem atrações para todos os gostos, sendo a abadia, situada no topo, a personagem principal. Foi a partir e por causa dela, primeira construção no local, que todos os outros edifícios do monte foram erguidos.

Além das demais igrejas e sítios religiosos, o Monte Saint-Michel conta também com museus bem estruturados, restaurantes, jardins, antigas masmorras, além de paisagens naturais impressionantes.

Travessia

O turismo de aventura é uma das experiências turísticas mais inusitadas e recomendáveis para quem quiser conhecer esse patrimônio milenar. As agências locais oferecem um sem número de opções de travessias a pé partindo de regiões próximas ou bem afastadas do monte e chegando ao local pela baía quando ela se encontra em maré baixa. Os passeios podem ser realizados de dia ou de noite e podem durar de duas até 15 horas.

monte saint michel
Vista aérea do Monte Saint Michel (wiki commons)

No passado, a travessia a pé ou a cavalo pela baía provocou inúmeras vítimas fatais, já que a maré sobe muito rapidamente, pegando desprevenidos os viajantes desinformados e mais otimistas que imaginavam que iriam conseguir percorrer a travessia antes de a água voltar – as ondas podem chegar a atingir 14 metros. O grande número de mortes por esse fenômeno gerou muitas lendas e histórias fantásticas no decorrer dos anos – um dos apelidos do monte é “São Michel ao perigo do mar”.

Por ser um percurso perigoso e traiçoeiro, ele só deve ser feito com acompanhamento profissional. Toda caminhada é realizada em equipes, comandadas por guias experientes que conhecem os pontos mais perigosos e os horários das marés, além de conhecerem a história da região. As travessias podem ser só de ida ou ida e volta. Como equipamento básico e vestimentas, bermudas e pés descalços – os calçados ficam na mochila para serem usados só quando se chegar ao monte. Além, é claro, de protetores solares e bonés e um casaco de nylon, por segurança.

As travessias a pé podem ser realizadas durante o ano todo, mas não se recomenda fazê-las nos meses mais frios [de novembro a março], pois as temperaturas são muito extremas. Nessa época, recomenda-se o uso de botas de borrachas, além de mais roupas de frio.

Há um grande temor, por parte da comunidade local e do próprio governo francês que, em um futuro a curto prazo, por volta de 2025, o Monte Saint Michel perca sua principal característica: seu aspecto insular. Isso porque ano a ano a vegetação continental se aproxima cada vez mais do monte, em razão das mudanças climáticas e, principalmente, do acúmulo de terra e areia transportado pela maré.

Para evitar isso, através de financiamento público de várias esferas e com a ajuda de sindicatos, foi construída uma nova e moderna barragem no rio Couesnon, como parte do “projeto de restabelecimento do aspecto marítimo do Monte São Michel”. O objetivo da construção é evitar a chegada de novos sedimentos através da foz do rio, que vão se acumulando com a areia e o lodo e virando pasto para as ovelhas. No entanto, mesmo com 40 milhões de euros gastos, ainda é cedo para saber se o projeto, que se concluirá em 2015, dará certo.

monte Saint Michel noite
Vista noturna do monte Saint Michel (reprodução)

Desde 2012, os estacionamentos estão localizados há aproximadamente 2,5 km do monte São Michel (preço a 8,5 euros por dia). Para facilitar o acesso, o restante do caminho é feito por ônibus ou charretes. No estacionamento antigo, que ficava no pé do monte, era comum ver automóveis desgarrados serem tomados pelas ondas.

História e curiosidades

O local era inicialmente habitado por ermitões cristãos que lá se instalavam para viver em solidão e pobreza – na época, o local era chamado de Monte Tombe (túmulo ou elevação). Diz a lenda que, no ano de 708, Aubert, o então bispo de Avranches, cidade muito próxima, recebe três aparições do Arcanjo São Miguel em seus sonhos, ordenando-o que consagrasse o monte ao seu culto – teria sido preciso que o anjo furasse o crânio de Aubert com o dedo para que ele passasse a acreditar em suas visões. No ano seguinte, a abadia já estava consagrada, dando origem às demais construções, passando a atrair peregrinos, e desde o século XIX, turistas de todos os cantos.

O local sobrevive às invasões dos normandos na atual região francesa hoje conhecida como Normandia – o rei da França transforma um dos líderes, Rollon, em Duque da Normandia, repassando-lhe autonomia, com a condição de que ele se convertesse ao Cristianismo e prometesse proteger a região de ataques estrangeiros. Com o tempo, é preciso expandir a abadia e construir novos edifícios, já que era cada vez maior a presença de monges, especialmente beneditinos. A Notre-Dame-sous-Terre e a capela de Saint-Martin são construídas no auge das novas técnicas que passam a reger a arquitetura românica.

No século XIII, na tomada da Normandia pela França, o monte, que já chamava a atenção pela beleza arquitetônica e tinha alto conceito como sítio religioso, é sitiado e parcialmente incendiado.

Para receber o perdão e ganhar a simpatia dos religiosos do monte para a causa francesa, o rei Felipe II envia grandes quantidades de ouro para pagar a reconstrução, quando é marcada a influência da arquitetura gótica.

O local pode se orgulhar de, apesar de ter sido sitiado várias vezes, nunca ter sido conquistado por uma força estrangeira. Na Guerra dos Cem Anos, a Normandia cai nas mãos dos ingleses. Em 1415, o abade do monte, Robert Jolivet, aceita se juntar aos ingleses, mas os demais monges se rebelam e o acusam de traição. Muitos cavaleiros, expropriados, para lá fugiram em refúgio.

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Nove anos depois, o local resistia, mas em condições críticas, pois estava cercado sem condições de reabastecer-se. Por sorte, uma vitória de bretões em Saint Malô dispersa os navios ingleses e o aprovisionamento do monte se torna possível pelo mar.

Essa vitória de resistência repercute e dá moral à tropas francesas. O culto a São Miguel cresce em novas proporções, até a hora em que ele teria aparecido para Joana D’Arc como “protetor da França”, prometendo guiá-la “em defesa do rei”. Após o fim da guerra, o monte foi cercado por muralhas e altas torres para protegê-lo de ataques, tornando-se também uma fortaleza.

Durante o século XVI, as guerras de religião tornaram o Monte um dos principais alvos do combates. Os protestantes tentaram apoderar-se da Igreja Católica por duas ocasiões. Os monges foram expulsos durante a Revolução Francesa, e a abadia torna-se uma prisão e local de tortura, fase que duraria até o período do Segundo Império (1852-1870). Quatro anos depois que o Monte finalmente se tornará monumento histórico, passando por restauros e recuperando seu esplendor. Em 1979, tornou-se Patrimônio Mundial da Unesco (União das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Outras atrações

Os restaurantes oferecem preços um pouco acima da média, mas de alta qualidade e sem economizar na fartura dos pratos. A refeição-símbolo do Monte Saint Michel é o omelete do La Mère Poulard, um dos hotéis mais próximos à entrada principal, aberto desde 1888. A omelete, que era tradicionalmente servida pela antiga proprietária do agora hotel principal da ilhota, se tornou o prato símbolo do monte.

O Monte possui quatro museus principais: o museu histórico, o mais completo, com coleções de armas, objetos e instrumentos de tortura, contando os relatos das masmorras, a trajetória dos principais monges e personagens do local. Parte das histórias são contadas com bonecos de cera; o “Archéoscope”, espetáculo multimídia que conta como o Monte se desenvolveu para virar o que é hoje; o Logis Tiphaine, uma casa do século XV dedicado à cavalaria e à astrologia; e o museu do Mar e da Ecologia, que conta a história da baía, do ecossistema local, da marinha normanda e bretã e do esforço para manter o aspecto insular do monte. Todos os quatro terminam em lojinhas de souvenires.

Para quem vai visitar o monte de maio a setembro, período da alta estação turística, são organizados uma série de concertos na abadia, em geral atrações da música sacra e concertos de órgãos.

Como chegar

Distante 360 km de Paris, a cidade mais próxima do monumento é Pontorson, a nove quilômetros, de onde saem viagens de ônibus ao monumento a cada 15 minutos. Para chegar, o carro continua sendo a opção mais econômica, com duração de quatro horas. Saindo da capital francesa, deve-se pegar a autoestrada A13, em direção a Rouen, até chegar e entrar na Nationale 175, em direção a Avranches. O tempo estimado é de quatro horas. Nesta última cidade também é possível chegar diretamente de trem.

João Novaes, Opera Mundi

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