Redação Pragmatismo
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opinião 11/Dec/2013 às 19:12
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Leonardo Boff: Por que no meio da dor os negros cantam, dançam e riem?

Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam

Por Leonardo Boff

Milhares de pessoa em toda a África do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os guardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tant ajudou a se libertar.

Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na Africa, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual.

Refiro-me aqui tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título:”somos todos africanos” atualizado face à situação atual mudada. De saída importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa, mas de seus países ou negociadas no mercado especulativo. As famosas “land grabbing” possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje a Africa é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado e podemos hoje ainda ser desumanos e terríveis. A atual neocolonização é mais perversa que a dos séculos passados.

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Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de sete milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens cerca de noventa mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano este se propagou para a Asia, há sessenta mil anos; para a Europa, há quarenta mil anos; e para as Américas há trinta mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada.

A África além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África, está presente em todos nós.

Identifico três eixos principais do espírito da África que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola.

O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum.

O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que singifica:”eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano.

À essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas.

O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura.

Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebrados com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo.

Notoriamente é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas.

Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nosos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:”Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar ea dançar, com um largo sorriso. Um dia, perguntei a um jovem motorista de taxi:”Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?” E ele: “Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós.”

Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode ofecer.

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Comentários

  1. Peterson Silva Postado em 11/Dec/2013 às 20:25

    Estranho ele falar em "ritual de passagem". Esse conceito antropológico não tem muito a ver com ritos fúnebres.

  2. renato Postado em 11/Dec/2013 às 21:46

    Uma visão apenas. Tenho outras e melhores. MAS....acompanhando o começo do texto, parecem pessoas em panico. Para o "respeito", Mandela viveu e morreu. Para outras conquistas, quantos outros heróis serão preciso. Porque eu te respeito, mas não deixo você entrar em minha casa e repartir com você o que tiro da terra. Mas te respeito muito, afinal Mandela é da sua cor, você deve sentir muito orgulho.Mas não posso fazer nada por você. Mas apareça....

  3. Márcio Ramos Postado em 12/Dec/2013 às 12:45

    Primeiro, não é "na" África, mas "em" África, pois muitos imaginam a África como se fosse um continente homogêneo. A mesma coisa acontece com os habitantes dela, sempre se referem como OS NEGROS, não como povos diversos que possuem cada um suas próprias identidades culturais, seu próprios valores éticos, morais e políticos. As pessoa sempre estão homogeneizando e universalizando povos e culturas. E não é só OS NEGROS que encaram a morte desta maneira. Na América Central, Guatemala, os pessoa celebram o dia dos finados com festividades, levam flores, cantam, fazem refeição, as crianças soltam pipa e etc.

    • Fábio Postado em 12/Dec/2013 às 15:05

      Mesmo? Nossa, obrigado por enriquecer o debate nos informando que a mera retirada de um artigo definido que se refere a um continente - e não a povos e culturas - eleva nossa consciência antropológica. Aliás, essa suposta homogeneidade comunicada pela expressão "Na África" não deve, aparentemente, servir para outros continentes, já que vc usou "Na América Central". Devo informar-lhe que a América Central tb não é homogênea ou esse seu detalhismo linguístico é desnecessário?

  4. Rodrigo Postado em 12/Dec/2013 às 16:23

    No próprio Brasil temos exemplos. Em muitas roças/fazendas/sítios/chácaras o velório é acompanhado por música de raiz, no cômodo ao lado, muitos "bebendo o defunto", a noite findando com choro, claro, mas também com lágrimas de felicidade e mesmo riso, ao ser lembrado o finado e suas histórias. De toda sorte, face ao momento, válida e interessante a anotação de Boff.

  5. Marco Felippe Postado em 12/Dec/2013 às 17:38

    Sempre quando algo refere-se a NEGROS às respostas são sempre meio que defensivas. Por que será? Acho que em momento nenhum ele quis dizer que os Negros africanos e afrodescendentes são os únicos a festejar seus mortos, sinceramente nem acho que este seja o cerne da questão, mas ao invés de uma discussão a cerca do que foi dito, vem sempre um discurso tentando de algum modo desqualificar ou desvalorizar sem ao menos terem o menor conhecimento, nem do que tenta desqualificar, nem do que tenta dar enquanto exemplo de similaridade. Deprimente! Ainda bem que o texto do Boff é muito interessante e nem vale dar luz a estes comentários.

    • Thiago Teixeira Postado em 12/Dec/2013 às 19:33

      Alguém aqui fez discurso vitimista? Você está batendo antes de ser provocado para uma briga.

  6. Marcos Postado em 13/Dec/2013 às 02:50

    Os negros sentem Deus na pele, os asiáticos sentem Deus onde? Melhor nem responder.

  7. pedro Postado em 13/Dec/2013 às 03:45

    Olhar para a África para entender o homem, de qualquer continente. 98% da variabilidade genética do ser humano esta lá, assim como comportamentos que podem revelar muito de nossa essência como IRMÃOS HUMANOS, radicalmente iguais. Somos todos filhos da África!