Redação Pragmatismo
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Fotografia 11/Dec/2013 às 11:49
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Fotógrafo italiano na Cracolândia: 'queria saber até onde o ser humano pode chegar'

Fotógrafo italiano vai à Cracolândia e registra efeito da droga: “Queria saber até onde o ser humano pode chegar”

fotógrafo italiano crack crackolândia
O fotógrafo italiano Alessio Ortu caminha na madrugada de São Paulo (reprodução)

Na última semana de novembro, o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou a decisão de terceirizar o atendimento aos usuários de crack da região central da capital paulistana. O novo espaço da Cracolândia, que funcionará de segunda a sábado e tem previsão de ficar pronto até fevereiro de 2014, deve contar com área de internação que terá “moradias de crise” para 30 dependentes químicos, atividades esportivas e culturais para 100 usuários por dia, 21 leitos de desintoxicação e dormitórios onde os dependentes poderão morar por até três meses.

Com o objetivo de “devolver o sentido de dignidade e humanidade a quem é desprezado por todos”, o fotógrafo italiano Alessio Ortu passou um ano clicando a cada 15 dias os viciados em crack. O resultado da série foi o projeto “Simulacrum Praecipitii” (“A imagem do abismo”, em latim), composto de livro, exposição e documentário. Este último percorre atualmente vários festivais de cinema, de Gramado a Mar Del Plata. Alessio falou sobre o que viu durante o período em que frequentou a Cracolândia e afirma: “Nem todo dependente de lá é ladrão como mostram”. A entrevista a seguir foi realizada por Igor Zahir da revista Marie Claire.

De onde surgiu a ideia de fazer o projeto “Simulacrum Praecipitii”?

Alessio Ortu: Tudo começou quando, alguns anos atrás, me mudei para São Paulo e me impressionei com essa realidade vista no centro da cidade. Algo tão diferente de outros lugares que morei na Europa e América do Norte. Em setembro de 2011 dei início ao projeto e fotografei durante um ano.

As fotos geraram um livro, uma exposição e um documentário, certo?

Sim. Do livro surgiu a exposição, que ficou em cartaz no Palácio da Justiça em novembro. O documentário “Simulacrum Preacipitii – a visão do abismo” estreou em festivais de Gramado, Goiás, Cuba e Mar Del Plata. No início do próximo ano a exposição entrará em cartaz na OAB. Assista ao trailer abaixo:

Como se comportavam as mulheres que você clicou? Eram violentas?

O temperamento de todos eles –homens e mulheres – é igual. Quando percebem que você chega lá com boas intenções, querendo ajudá-los e não se aproveitar de uma situação, eles colaboram. Eles querem ser ouvidos. Fui quase sempre bem acolhido.

Como elas reagiam quando propôs clicá-las?

A maioria pedia dinheiro para alguma coisa e perguntavam qual era o objetivo. O que ajudou também é que cheguei neles de modo diferente dos jornalistas. Antes mesmo de começar a clicar, via outros profissionais tentando fazer fotos de longe, sem serem percebidos. Isso deixa os moradores de lá muito irritados porque se sentem roubados. Agi diferente: fui lá e pedi autorização.

Como era a rotina de fotos?

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Não dá para ir todo dia, pois você fica marcado e é perigoso. Ia lá toda semana ou a cada 15 dias, saía bem cedo de casa e ia direto para o foco da Cracolândia. Às vezes levava horas para chegar na pessoa certa, porque tem fugitivos, traficantes, pessoas que não queriam aparecer e outras que estavam loucas e não entendiam nada do que eu falava. Mas, quando começava a fotografar, ficava mais fácil. Quando um deles já estava sendo clicado, os outros ficavam mais confiantes. Às vezes tinha até fila de espera para as fotos.

Como você os abordava?

Eu os parava nas ruas e ia direto ao ponto: perguntava se fumavam crack, se moravam nas ruas e se queriam ser clicados. Explicava que estava fazendo um projeto pessoal, sem ligação com a mídia ou fins comerciais. Acho que o fato de eu ser estrangeiro também ajudou um pouco, pois eles ficavam interessados nos meus motivos para me interessar por essa realidade em São Paulo.

Foi atacado por algum viciado?

Não, em nenhum momento. Havia pessoas mais agressivas, que não queriam ser clicadas, mas eu respeitava e não insistia. Vi brigas entre elas, algumas até mais violentas, mas simplesmente observei. Vi prostitutas que usavam a prostituição para comprar o crack.

Como foi ver uma realidade bem diferente da europeia?

Foi bem impactante ver o tamanho do problema. Na Europa a realidade social é mais controlada. Não tem essa pobreza extrema. O mais chocante é que isso acontece sob nossos olhos, num lugar lindo e histórico. É muito descuido.

Muitas fotos de sua série têm o foco nas mãos. Por quê?

Veio de forma muito natural, já que as mãos retratam muito de nossa alma. Elas fazem tudo, principalmente para quem mora nas ruas. Eles as usam para comer, catar lixo, roubar, se prostituir, se drogar. As mãos dessas pessoas são destruídas, mostrando os sinais da devastação da vida nas ruas. São claramente feias, mas consigo ver uma beleza plastificada nelas.

Você viu coisas que as pessoas associam às drogas? Prostituição, crimes…

Vi mulheres que usavam a prostituição para comprar o crack. Também não me interessava porque acho isso sensacionalista, já que, infelizmente, é um dos únicos jeitos que elas têm de conseguir as drogas. Mulheres se prostituem, crianças e outras pessoas catam lixo, tralhas de casas. Por incrível que pareça, a minoria rouba para se drogar. Apesar da mídia mostrar o contrário, poucos roubam. Na Cracolândia as pessoas catam lixo para comprar a droga. Essa é a realidade.

Qual história mais mexeu com você?

Vários casos, mas o dos menores de idade é impressionante. Não pude mostrar o rosto deles, então tive que clicar com as mãos cobrindo, já que, segundo a lei, eles não devem aparecer. A história deles é muito triste: são meninos e meninas entre 14 e 16 anos, que estão vivendo nas ruas.

Você se envolveu emocionalmente em algum momento?

Sem dúvida. Fui lá principalmente para conhecer a história dessas pessoas e devolver a dignidade e humanidade para elas, que são ignoradas e desprezadas por todos. Cada pessoa que encontrava perguntava a história pessoal, para saber como acabaram nessa situação. Cada caso é muito impactante porque mostra a gravidade do problema e o quanto é difícil escapar da situação.

É uma realidade paralela?

Sim, e o pior: acontece no meio da cidade. Ninguém se importa com esse problema, as pessoas preferem fingir que nada está acontecendo. Isso também foi um dos motivos que me levaram a fazer esse projeto: deixar de ignorar o assunto. As pessoas tendem a não querer saber sobre isso, até como forma de autoproteção. É uma carga espiritual muito negativa, a tendência é que a população evite contato com os moradores de lá. Com essa série, quis me confrontar com esse aspecto da população que mora num nível de pura sobrevivência. Queria saber até onde o ser humano pode chegar para continuar existindo.

Confira algumas imagens:

crackolândia fotógrafo italiano
Daniele (esq.) e Sabrina alimentam o vício se prostituindo (Foto: Alessio Ortu)

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Sabrina, uma das clicadas na série
Sabrina, uma das clicadas na série

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Alessio Ortu diante de dois viciados em crack. Um deles, a direita, usa a droga há 20 anos
Alessio Ortu diante de dois viciados em crack. Um deles, a direita, usa a droga há 20 anos

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Comentários

  1. Enzo Postado em 11/Dec/2013 às 12:42

    Europa e Estados Unidos, sao os maiores consumidores de drogas!!! acho que ele nao conhece bem por la!!!!

    • danusia Postado em 11/Dec/2013 às 13:27

      pensei a mesma coisa. ah, esses gringos...

      • Davi Postado em 11/Dec/2013 às 15:39

        Nacionalismo barato em época de Copa não resolve nada. O olhar de uma pessoa culturalmente diferente da nossa, sobre a nossa cultura, muito me interessa..., ainda mais se for um olhar artístico e com objetivo de aumentar a dignidade de qualquer oprimido ou minoria que seja...

    • Clara Postado em 11/Dec/2013 às 13:49

      Em momento algum ele disse que não se consome drogas na Europa ou nos EUA, mas sim que a situação de miséria e pobreza em São Paulo não se compara com a realidade de lá. Não conheço os EUA, mas quanto a Europa ele tem toda razão!

    • Bruno Postado em 11/Dec/2013 às 14:34

      discordo - os junkies holandeses, por ex., têm acompanhamento por instituições do governo e recebem a(s) dose(s) diárias de heroína (ou metadona, conforme o caso) gratuitamente. têm moradia e não vivem nas ruas (e são orientados por assistentes sociais e enfermeiros constantemente) - o controle é mais eficaz e a destruição fica por conta dos efeitos devastadores do consumo das drogas. penso que a realidade brasileira (assim como em outros países onde o assunto é tratado como caso de polícia) é que motivou a pesquisa e não o consumo (ou a quantidade de consumidores), principalmente quanto à forma como os cidadãos usuários de drogas são tratados.

    • Nava Postado em 11/Dec/2013 às 14:43

      A diferença e que os problemas sociais causados pelo consumo de drogas, lá, são muito diferentes dos daqui

    • Fernando MDB Postado em 11/Dec/2013 às 15:17

      Enzo, creio que ele não falou sobre o uso de drogas, mas sobre a situação lamentável das pessoas na cracolândia, isso não é assim lá fora. Acredito que nós, brasileiros, precisamos sair da propaganda de que 'no mundo todo é assim', pois não é.

      • Marcos Postado em 11/Dec/2013 às 15:54

        Deveria ir ao Bronx, ou passear entre os viciadosa em desomorfina na europa. Aí sim, veria miséria maior que esta que viu aqui, só que a mídia desses locais se auto censura para não macular a "imagem" do país.

  2. King Postado em 11/Dec/2013 às 13:18

    "Enzo POSTADO EM 11/DEC/2013 ÀS 12:42 Europa e Estados Unidos, sao os maiores consumidores de drogas!!! acho que ele nao conhece bem por la!!!!" A diferença é que existe um projeto público de auxílio aos viciados. Eles não ficam jogados numa região da cidade como se fossem lixo.

  3. Mariana Postado em 11/Dec/2013 às 14:00

    falas preconceituosas, um olhar de passeio ao zoológico

  4. Marco Aurélio Postado em 11/Dec/2013 às 14:49

    Mas o que ele quiz dizer, no meu entendimento, é que o grau de degradação do usuário é menor no primeiro mundo, pelo fato de a pobreza lá ser menor. É simples, mais justiça social, mais mecanismos de assistência social, o indivíduo mesmo viciado se degrada menos.

  5. Jaqueline Postado em 11/Dec/2013 às 15:03

    Os Estados Unidos?Nem saúde pública lá tem,pobre quando adoece se lasca. Não sei se são os maiores consumidores, mas talvez traficantes......

    • Marina Postado em 12/Dec/2013 às 23:32

      Que maluquice vc está dizendo? Claro que tem saúde pública por lá! E pobre tem atendimento gratuito sim. Aliás, como aqui. Temos a mania de falar mal de tudo que existe aqui, mas o SUS, pelo menos no estado de SP atende muito bem.

  6. Jonny Coelho Postado em 11/Dec/2013 às 15:31

    WASHINGTON D.C - berço do crack.

  7. Gláucia Postado em 11/Dec/2013 às 15:33

    A realidade do crack é bem diferente das outras drogas que também são devastadoras. Mas creio que ele quis mostrar o descaso do Governo e das pessoas para esta realidade. O crack é assunto de saúde pública. São poucas as pessoas que se importam com os usuários. Pergunte a ele quantas pessoas ele viu, durante esse tempo, doando sua vida para ajudar esses usuários.

  8. Rafael Postado em 11/Dec/2013 às 17:25

    Traficantes possuem um ministério para defende-los, enquanto esses usuários estão nas ruas como zumbis, matem os traficantes o problema resolve, mas não podemos fazer isso eles são seres humanos nós de esquerda defendemos a morte apenas de bebes dentro do corpo de suas mães, bandidos são seres humanos.

    • Rafael Postado em 12/Dec/2013 às 13:44

      Beleza, chará. Agora já pode voltar a comentar no G1.

      • carlos Postado em 14/Dec/2013 às 15:24

        Rs que visao simplista da situaçao...pq td o esquerdofobico pensa de forma tao raza e obtusa? Resposta: PQ e mais facil. Peça pro papai noel um campo de concentraçao e seja feliz pequeno facista.

  9. deoclecio Postado em 11/Dec/2013 às 20:50

    * Ele pode não estar lembrado mais ;europa e E.U.A. passaram por isto nos anos 90 .com .a degradação pode ter sido menor ,pois lá se encara os problemas de frente .e quanto o fato de uma minoria roubar é pura verdade e quando eles recebem .uma atenção sem critica realmente eles se abrem.pois na cabeça deles .não estão fazendo nada de errado . eu conheço uns bem l*