Redação Pragmatismo
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Mercado 06/Nov/2013 às 12:09
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A superexposição dos humoristas do Porta dos Fundos

O Porta dos Fundos conquistou, em um ano, um espaço incrível. Mas será que seus humoristas chegaram ao limite da superexposição?

poechat porta dos fundos propaganda
Fábio Poechat é um dos fundadores do excelente Porta dos Fundos (reprodução)

Woody Allen contava uma história em seus shows de stand up. Ele foi convidado, certa vez, a estrelar um anúncio de vodka. Ofereceram 50 mil dólares. Teve uma crise de consciência. “Eu sou um artista. Eu não estou à venda. Devo fazer propaganda de um produto que eu não uso?” Foi se aconselhar com seu rabino. “Não faça isso. É ilegal e imoral!”, ordenou o homem. Woody dispensou a oferta. Um mês depois, Allen abre uma revista e encontra o rabino numa praia da Jamaica, refestelado numa cadeira, anunciando uma boa vodka gelada. “Ele está numa boate, agora, com seus colegas, numa boa. Sem quipá”.

O pessoal do Porta dos Fundos tem sido acusado de fazer propagandas demais. Fábio Porchat tornou-se onipresente. Seu cachê, segundo algumas estimativas, está perto de 500 mil reais. Ele mesmo declarou, recentemente: “Outro dia eu vi minha cara três vezes seguidas no intervalo do horário nobre. Acho que está na hora de dar uma parada para não desgastar a imagem”.

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O PF criou um canal específico para as propagandas que eles mesmos produzem. Ali está a mais recente, da construtora Rossi, em que um casal briga em torno da maquete de um apartamento. Há muitas outras.

É eficiente? Mistério. O número de visualizações da Rossi no YouTube estava em 1 389. Um outro, da seguradora Mapfre, tinha 6 500. O mais bem sucedido, da Visa, estava com 270 mil. É bem menos do que qualquer dos vídeos, digamos, artísticos do grupo, que ultrapassam fácil os 2 milhões.

O PF conquistou, em um ano, um espaço incrível. Eles empreenderam na Internet e, através dela, se tornaram um fenômeno em outras mídias. São talentosos. Ouvi gente dizendo que estão se vendendo. Não acredito nisso. Humoristas sem vendendo? Que grande crise de credibilidade poderia existir aí?

O problema da superexposição é outro. É evidente que eles viraram uma opção fácil para agências (“Chama lá o pessoal do Porta dos Fundos e um abraço!”). Há o cansaço (“puts, lá vêm aqueles caras de novo”). E sempre o risco da graça ir para o buraco. Que piada possível com um seguro? Com um sabão em pó?

Ninguém ali tem nenhum tipo de compromisso ideológico com nada. Não é como quando a Nike usou “Revolution”, dos Beatles, para vender tênis, até ser processada pelos na época três sobreviventes da banda. Eles não são o Woody Allen. Eles podem ser o rabino do Woody Allen.

Se desejam ser alguma outra coisa, seria bom começar a pensar nisso agora. Se não, dá-lhe Porchat fazendo infomercial das facas Ginsu.

Se você não aguenta mais, pense no lado positivo. Pense que poderia ser o Gentili.

Kiko Nogueira, DCM

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 06/Nov/2013 às 13:56

    É o momento, isso é normal na publicidade, eles exploram quem está no auge, e sem mais e sem menos deixam de contratar a celebridade para focar na bola da vez.

  2. Felipe Postado em 06/Nov/2013 às 14:25

    "Se você não aguenta mais, pense no lado positivo. Pense que poderia ser o Gentili." esse texto também teu seu humor...

  3. Juniperos Postado em 06/Nov/2013 às 14:28

    Como ele será provavelmente esquecido como tantos outros foram (por mais talentosos que foram, ou pelo desgaste), ele deve sim, se precaver com fundos para uma aposentadoria razoaveis e boas memorias de trabalhos variados. Apoio o dito acima, sempre estão em cima de quem está no auge. mas nada disso parece ter real significancia para a verdadeira evolução do pais, coisa que gosto de ver aqui no pragmatismo . Não me interessou muito.

  4. Fernanda Postado em 06/Nov/2013 às 14:30

    haha a última frase fechou com o texto todo. Eu prefiro ver o Porchat em comercial da manhã até a noite, doo que ver um so do Gentili, estragaria meu dia. :))

  5. Fred Chevitarese Postado em 06/Nov/2013 às 15:14

    Eu não acho que eles estão se vendendo também. E no mais, por trás do humorista, existe um profissional que tem mesmo é que fazer o pé de meia dele. Acho que alguns vídeos tem sido um tanto quanto sem graça, mas talvez seja pela grande expectativa criada pelos primeiros vídeos que foram engraçadíssimos! Enfim, acho que a propaganda nos vídeos não é o fim da picada também não. Se é para que eles possam manter o "caixa no azul" devem mais é fazer mesmo! Viva la vida!

  6. Desvenzel Postado em 06/Nov/2013 às 16:20

    Ha, a notícia fez um serviço pra OLX. Na real, o que ela já esperava: mídia espontânea. Os cara usam essas propagandas mais por mídia espontânea que pela celebridade em si. Ainda mais na internet que é um meio barato para divulgação. Eu não sei qual é o alarde de um humorista aparecer numa propaganda. Propaganda é arte também. Há todo um conceito, as formas de filmagens, as cores, o texto trabalhado, etc. A música do beatles poderia tocar milhares de vezes em um comercial de borracharia, ainda seria a música deles para quem realmente gosta da música. Para aqueles que não conhecem é só mais uma música, mais do que era antes pois nem se conhecia. Não vivemos mais na época da aura das artes. É tolice continuar a enfeitar tudo com algo que já não existe mais. A música dos Beatles poderia ser cantada em um show exclusivo, agora eu posso achar um mash up dela com o som de peidos. E aí?

  7. Matheus S. Postado em 06/Nov/2013 às 16:53

    Bom, as pessoas fazem coisas erradas o tempo todo, sem querer ou por querer. Se com pessoas normais, sem mídia, já há isso, imagina uma pessoa com a caras, por exemplo, sempre em cima? Os erros aparecem e são aumentados em grandes proporções. Acho muito tosco ficar criticando tanto o Danilo Gentili, quero dizer, ele é bom no que faz, e como qualquer humorista, ele faz piadas ruins, sempre há piadas ruins. como a da mulher que parou de alimentar várias crianças. Mas ficar julgando o cara para sempre por uma falha, é foda! Ninguém aqui gostaria de ficar sendo criticado para sempre por um erro. Pessoal do Porta dos fundos nunca perderão a graça, pois eles fazem piada de tudo, desde do muito polêmico, "Rola", pelos evangélicos, "Exercícios" pelos militares e/ou brigadianos e por fim "DEUS" por quase toda massa brasileira que se ofende pela exposição de um Deus que não é o imaginado de sua crença. Desculpe por parecer defensor dos humoristas, mas sou defensor de que temos que continuar rindo, não podemos entrar no políticamente correto e acabar na "sem-gracice". :)

  8. Gil Mol Postado em 06/Nov/2013 às 21:23

    Que bacana! A turma do Caceta e Planeta foram para a Globo e se venderam, até perderem a identidade. Tomara que o PF, com Porchat e cia não entre na dos Cacetas. Mas vem cá, é melhor ver os caras do PF o dia todo, do que aguentar Danilo Gentili, a turma do CQC e o pessoal do Pânico. O humor é natural nessa turma do PF, você vê os caras e já acha engraçado.

  9. Stéfano Postado em 07/Nov/2013 às 01:38

    Gosto do PF. Gosto mesmo. Acho que dá certo porque há um revezamento frequente dos roteiristas. São 4, pelo que eu saiba, e cada um tem um estilo totalmente diferente do outro. Isso dá uma dinâmica e o elenco é muito heterogêneo. Quando o canal passa por um hiato de vídeos 'normais', aparece um como o "Cura" que é sensacional. Acho que a exposição é normal, vende. E é isso que as empresas fazem: espremem até cair a última gota. Lembro-me do Porchat dizendo algo como: "Eu sou o cara quando o Adnet diz não". Entretanto, é inegável que ele está mais por cima que o novo, mas frustrante, Global. Incrível como a exposição só ocorre com ele, não é? Os demais não parecem ter o mesmo carisma...

  10. Guilherme Augusto Postado em 14/Nov/2013 às 18:11

    Mas que que cê tá pensando? Que o Porchat é mais progressista que o Gentili. Tem um vlog no youtube, do João Revolta. É outro merda vlogger que só fala asneira quando fala de política, mas um dia ele estava indignado com outra coisa. Ele estava falando sobre o monopólio de visualizações no youtube por vloggers "ricos". Do dia para a noite o PF foi às alturas, mas não foi à toa: no youtube há uma forma de pagar para deixar seus vídeos em evidência e sempre na primeira página e nas sugestões. Mas de onde veio o financiamento de um canal recém-criado no youtube? De Luciano Huck, o rei dos coxinhas. Não é à toa que o Gregório e o Porchat hoje têm um espaço ainda maior nos humorísticos globais. Na época, quem trabalhava na redação do programa do Huck era o Tabet, blogueiro de sucesso já na internet desde o começo dos anos 2000. Acontece que basta uma voltinha pelo blog do Tabet, o Kibeloco pra ver a linha humorística dele. Da mesma forma o PF é o braço da Globo na internet, e necessário, ela precisa dele, já que a sua tradição de humor de qualidade na TV morreu com Sai de Baixo na primeira temporada. Agora o que é contestável nisto tudo é: eles não fizeram sucesso do dia para a noite unicamente pelo talento deles, que não posso negar que tenham, mas o sucesso repentino veio do bom e velho QI (Quem Indica). E com a globo po trás, trata-se de mais um estruturação de gostos e comportamento através de manipulação. Todo mundo gosta de PF, todo mundo repete as piadas, os bordões. Virou moda, assim como Sertanejo Universitário, porque foi imposto, e com dinheiro. Não se tratou da mera autonomia da vontade das pessoas que foram aos poucos descobrindo o canal. O canal foi descoberto porque desde cedo ficou em evidência graças ao dinheirinho do parceiro, Luciano, O Coxinha, Huck. E reitero, a linha humorística de pessoas como Tabet não diferem muito da de Danilos Gentilis por aí. É, eu sei, eu também queria acreditar que nasceu no país uma consciência e a busca legítima por humor alternativo e livre das amarras do poder centralizador midiático, mas PF é mais do mesmo. Só mais do mesmo.