Redação Pragmatismo
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Desenvolvimento Brasileiro 19/Nov/2013 às 17:40
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Países ricos se inspiram no Bolsa Família

Reportagem observa que a crise nos países ricos está estimulando debates sobre a ideia de prover uma renda básica para famílias em dificuldades

bolsa família new york times
Segundo New York Times, Bolsa Família é modelo para países “ricos”

A notícia, publicada na edição de sexta-feira (15/11) do Estado de S. Paulo, é a versão traduzida de um texto da jornalista especializada em política econômica Annie Lowrey, que escreve no New York Times.

Na linha fina que sustenta o título, o jornal afirma: “Programas assistenciais tipo Bolsa Família são cada vez mais debatidos em todo o mundo”. A seguir, relatos de experiências desse tipo feitas em países ricos e opiniões de economistas sobre os resultados dessas ações sociais.

Agora, sugerimos que o prezado leitor e a leitora atenta tentem se recordar de como a imprensa brasileira tratou, desde o início, os programas sociais de distribuição de renda adotados pelo governo do ex-presidente Lula da Silva. Expressões como “bolsa-esmola” e “incentivo para a vagabundagem” ainda podem ser apreciadas em artigos e reportagens publicados a partir de 2003, quando a prática de combater a miséria com a concessão de renda virou política pública.

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Depois de passar anos condenando o programa, a imprensa se convenceu de seus resultados e passou a cobrar uma “porta de saída” para os beneficiários e “adequações” do sistema. Ainda no ano passado, o Globo publicava ampla reportagem na qual fazia uma avaliação dos benefícios da injeção de dinheiro nas famílias pobres, reconhecendo como efeitos colaterais alguns dos resultados previstos ainda no lançamento do projeto: drástica redução do trabalho infantil, aumento da escolaridade nas regiões beneficiadas, diminuição da violência familiar e novo protagonismo da mulher.

Ao cobrar “aperfeiçoamentos”, o jornal citava o caso de uma faxineira, do Piauí, que rejeitou um emprego de babá porque preferia continuar com seus próprio filhos, sustentada pelo dinheiro do governo. O Globoapresentava essa história como crítica ao programa, como exemplo de que em alguns casos os beneficiários prefeririam não trabalhar fora, com medo de perder a renda mínima.

E é justamente nesse ponto que se revela a miopia social da imprensa brasileira: ao escolher ficar com seus próprios filhos, a mulher citada na reportagem estava justamente realizando o propósito do projeto social, ou seja, procurava assegurar com sua presença que os filhos fossem à escola. Se fosse cuidar dos filhos da patroa, certamente ganharia mais dinheiro, mas quem cuidaria de suas próprias crianças?

Pobres países ricos

A reportagem do New York Times, reproduzida pelo Estado de S. Paulo, observa que a crise nos países ricos está estimulando debates sobre a ideia de prover uma renda básica para famílias em dificuldades, principalmente para os jovens que não encontram emprego (ver aqui o texto original em inglês).

O caso da Suíça é emblemático: lá, uma campanha defende a concessão de um cheque mensal de 2.500 francos suíços – o equivalente a R$ 6.348 – a cada cidadão, rico ou pobre, idoso ou jovem, esteja ou não empregado. Como resultado imediato, a pobreza desapareceria completamente. A proposta é de um artista nascido na Alemanha, mas, segundo o texto, está mobilizando a sociedade e provoca grande debate entre economistas.

Mesmo nos Estados Unidos, pátria do liberalismo econômico, a discussão mobiliza as forças políticas de todos os matizes, mas praticamente já não se questiona a conveniência de programas de assistência: a controvérsia gira em torno do modelo mais adequado, se a renda básica será proporcionada por um programa de seguridade social expandido ou pela simples entrega de dinheiro, sem nenhuma obrigação em troca. Daí a uma ação internacional para o resgate da África, por exemplo, o caminho fica mais curto.

Uma pesquisa feita no Canadá e citada pelo jornal observa que a experiência de doação pura e simples de um salário mínimo a todos os cidadãos de uma pequena cidade durante um curto período conseguiu eliminar a pobreza, os índices de conclusão do ensino médio subiram e o número de pessoas hospitalizadas, caiu. O estudo projeta resultados mais amplos, demonstrando que uma política de renda básica não produz uma sociedade ociosa, como diziam os jornais brasileiros.

Programas de incentivo à base de transferência de renda vinham sendo experimentados no Brasil desde 1994, em Campinas, e acoplados a planos de educação, como aconteceu em 1995 em Brasília, durante o governo do hoje senador Cristovam Buarque. Mas foi o ex-presidente Lula da Silva que transformou essa ideia em política nacional, sob o nome de Bolsa-Família.

A reação da imprensa foi o que se viu.

Passados dez anos, o Brasil produziu o fenômeno da mobilidade social, milhões de cidadãos foram resgatados da miséria, muitos celebram o ingresso de seus filhos na universidade, os pobres aprenderam o que é autoestima, e países ricos pensam em aplicar a mesma receita para reduzir os danos do capitalismo especulativo.

Agora os jornais brasileiros não falam mais em “bolsa-esmola”. É que deu no New York Times.

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

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Comentários

  1. Osvaldo Fabiano Postado em 19/Nov/2013 às 21:14

    Maravilhoso esse texto, parabéns!

  2. renato Postado em 19/Nov/2013 às 21:33

    Nunca foi tão copiado o meu querido Brasil.

  3. José Ferreira Postado em 19/Nov/2013 às 22:27

    O jornal "se esqueceu" de citar o FHC, que implantou a nível nacional pela primeira vez esse tipo de transferência de renda. Não que eu ache que ele fez algo de bom com isso, afinal a tal "transferência de renda" são os impostos dos trabalhadores que vão para os "passa-fome". Dos poderosos ninguém tira nada, pois eles sempre dão um jeito de não pagar os impostos (vide Globo)...

    • Rafael Postado em 20/Nov/2013 às 00:11

      Zé Ferreira, Bolsa Família é sucesso mundial. Várias organizações e governos reconhecem sua importância e não vai ser sua coxinhice que mudará isto. Chora na cama que é lugar quente!

      • José Ferreira Postado em 20/Nov/2013 às 08:28

        Se não fossem os Bolsas-Família, a Dilmão não seria eleita. Qualquer um com alguma escolaridade não vota nessa daí, não importa a sua renda.

  4. Príscila Postado em 19/Nov/2013 às 23:41

    sou professora, e sempre soube da necessidade do bolsa, justamente por conhecer a realidade de quem precisa... algumas pessoas são contrárias porque não saem do seu mundinho de reclamações... não percebem que o bolsa da oportunidade de estudo a milhões de crianças que estariam fora dos bancos escolares para trabalharem... hoje as nossas crianças possuem opção... tenho uma clientela na escola que antes não via... porque não tinham motivação para o estudo... porque eram excluídos... só acho que as faltas não deveriam ser o foco, mas o rendimento, as notas... porque nada me deixa mais triste ao ter que passar de ano crianças que precisariam ficar mais um ano no ensino fundamental 1... essa ideia de ciclos está falida e precisa ser revista... recebi neste ano numa turma de 3º ano do 1º ciclo 27 alunos vindos de locais de riscos... graças a Minha Casa, Minha Vida... destes 27, 15 não conheciam nem o alfabeto... recebi eles em agosto, e agora em novembro destes 15 tenho 3 alunos que infelizmente terei que reter... porque 12 eu consegui ensinar a ler... se o bolsa exigisse maior rendimento as famílias abraçariam valendo a causa de seus filhos e entenderiam que a escola sozinha não FAZ MILAGRES...

  5. Eduardo Abreu Postado em 20/Nov/2013 às 02:18

    O mundo está compreendendo o que Lula fala, o mais importante para o ser humano é ter o direito de comer três refeições por dia, o resto vem por acréscimo. E, viva Bono Vox, o primeiro nome mundial a reconhecer o trabalho que Lula desenvolveu com a criação do Fome Zero, hoje mantido por Dilma e sucesso no mundo inteiro. Não podemos retroceder, o voto em 2014 é 13.

  6. Carlos Postado em 20/Nov/2013 às 10:30

    Assim como a imprensa no passado citou apenas os malefícios do bolsa família esse texto cita apenas o lado bom. O bolsa familia pode funcionar mas a custo do que? O suor de quem está pagando essa conta? O governo não da nada de graça. Alguém tem que se esforçar um pouco a mais pra possibilitar que outro alguém ganhe dinheiro sem fazer nada.

  7. luiz carlos ubaldo Postado em 20/Nov/2013 às 10:40

    Mesmo sendo reconhecido mundialmente o bolsa família ainda encontra resistência por parte dessa "elite" de merda, fhc não passa de um socíologo frustrado com seu povo, esquecido até por companheiros de partido, esse zé ruela não fez nada pelo nosso povo, m,as mesmo assim ainda encontra criaturas subservientes a ele, Brasil é hoje exemplo para o mundo!

  8. Suely Tavares Postado em 20/Nov/2013 às 10:47

    Sinto muito decepciona-lo, senhor José Ferreira, mas tanto o meu quanto o nível de escolaridade da minha colega de profissão Priscila nos permite enxergar além desta nuvem de fumaça que a tão citada mídia desonesta insistiu em lançar por tanto tempo na cara de seus telespectadores. Me arrisco até a dizer, e com a certeza de estar certa, que devido ao nosso histórico semelhante ( também conheço a realidade de quem precisa, colega mestra Priscila), não acreditamos em contos da carochinha, e muito menos no mimimi televisionado. Só é uma pena saber que ainda há tanta gente inocente. Em tempo: colega mestra Priscila, me permita usar um trecho do teu texto com algumas modificações, mas no final a conclusão é idêntica: " porque nada me deixa mais triste ao ter que passar de ano crianças que precisariam ficar mais um ano na 1ª série do ensino médio porque não alcançaram os requisitos necessários para prosseguirem seus estudos em Matemática ... a escola em que leciono não adota o sistema de ciclos mas na prática a Secretaria de Estado de Educação nos "orienta" a praticar o mesmo modelo, que já estamos cansados de saber que está falido e precisa ser revisto.“

  9. Fernanda Postado em 20/Nov/2013 às 13:49

    A diferença é que, em país rico eles sabem que o imposto que eles pagam será revertido em algo bom pra eles (vide a educação europeia e a saúde), eles sabem que é só por um tempo até eles conseguirem e firmar, porque europeu saber o poder do trabalho árduo. E outra, conheço pessoas que moram lá, e o governo já dá uma quantia "x" por mês para quem tá desempregado há anos, e o próprio governo arranja emprego pra eles, diferente daqui, que o governo só alimenta e não ensina a pescar....