Redação Pragmatismo
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Saúde 11/Nov/2013 às 15:35
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Pacientes do agreste agradecem "de joelhos" chegada de médicos cubanos

Pacientes que vivem em regiões pobres e castigadas pela seca “dão beijos e agradecem a Deus de joelhos no chão” pela chegada de médicos cubanos

médicos cubanos agreste
O médico cubano Nelson Lopez (Foto: Daniel Carvalho/Folhapress)

Quando, há muito anos, minha filha, então uma pré-adolescente, fez um comentário preconceituoso e cruel sobre uma pobre mulher que vivia em necessidades, próximo ao lugar onde morávamos, mandei-a buscar um dicionário.

Revoltada, foi, resmungando muito. Então, mandei que lesse em voz alta o significado de compaixão.

-Eu sei, é pena…

-Leia, minha filha…

E então ela leu que compaixão é algo como ser capaz de sentir o sofrimento alheio e ter o impulso de, mesmo não sendo o nosso, mitigá-lo.

Lembrei-me disso lendo a matéria “No agreste, pacientes agradecem médicos cubanos de joelhos“, hoje, um trabalho sensível do repórter Daniel Carvalho, no interior de Pernambuco.

Leia um trecho e, se puder, leia a matéria inteira.

“A demanda de médicos no interior do país é gigantesca e a cubana Teresa Rosales, 47, se surpreendeu com a recepção de seus pacientes em Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano.

“Eles [pacientes] ficam de joelhos no chão, agradecendo a Deus. Dão beijos”, afirma a médica, que atendeu 231 pessoas neste primeiro mês de trabalho dos profissionais que vieram para o Brasil pelo programa Mais Médicos, do governo federal.

O posto de saúde em que Teresa trabalha fica no distrito de São Domingos, região pobre e castigada pela seca.

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Durante os últimos quatro anos, o posto não tinha o básico: médicos. Até o final de setembro, quando Teresa chegou ao distrito, quem andava quilômetros de estrada de barro até chegar à unidade de saúde sempre voltava para casa sem atendimento.

A situação se repetia a algumas ruas de lá, no posto onde o marido de Teresa, Alberto Vicente, 43, começou a trabalhar em outubro.“Foi Deus quem mandou esse homem. Era uma dificuldade, chegou a fechar o posto por falta de médico”, disse a aposentada Isabel Rocha, 80, que agora controla o diabetes sob orientação médica.

Ao ler isso, pensei naquelas jovens de jaleco branco, vaiando os médicos cubanos no Aeroporto de Fortaleza, aos gritos de “escravos, escravos”…

Talvez, já a caminho dos 30, não sejam capazes de entender o que eu quis ensinar a uma mocinha de doze anos, mandando-a ler o dicionário…

Não, não há “torcida” política, partidária ou ideológica que possa fazer imaginar ser bom um ser humano, por qualquer razão, ajoelhar-se aos pés de outro ser humano.

Isso, sim, é viver na condição humilhante de escravo e na pior de suas escalas, quando nem mais o chicote é preciso para fazer alguém se ajoelhar.

Há outro látego vergastando estes nossos irmãos há séculos: o da pobreza, o do abandono, o da indiferença dos dirigentes e das elites deste país para com eles.

E essa indiferença veio à tona da maneira mais crua e chocante na reação ao “Mais Médicos”.

O “Mais Médicos” não vai, é certo, resolver todos os problemas da saúde no Brasil. Como um prato de comida não vai resolver os problemas da fome.

Mas é monstruoso, desumano, dá vontade de chorar ver que há gente que quer lhes negar isso, esse mínimo, gente incapaz de sentir a parca compaixão de cuidar de um semelhante em apuros.

Perdoem-me os médicos cubanos ou os outros estrangeiros, cuja maioria até sei que tem tal capacidade, mas eu não estou nem um pouco interessado em se vocês são capazes de um diagnóstico de alta complexidade.

Talvez um entre dez mil destes brasileiros totalmente desvalidos possa precisar de um. Outros 9.999, porém, vão morrer de diarréia, verminose, infecções, doenças parasitárias ou de pneumonia e não daqui a 50 anos por complicações de uma formação quadricúspide de valva aórtica, como foi detectado em outro filho tão amado quanto aquela.

Veio-me a cabeça o que me disse um bom amigo, médico, que trabalhava no Hospital São Sebastião, de doenças infecto-parasitárias, no início da epidemia da Aids: “Fernando, muitas vezes o que se pode fazer por essas pessoas é dar-lhe uma cama limpa e lhes dar alguma atenção para morrer”. Havia pouco, muito pouco a fazer, então, até que tivéssemos o arsenal bendito, hoje, para cuidá-las.

Não, não pode trazer qualquer alegria ver nossos irmãos ajoelhados porque houve alguém vindo de longe que não lhes foi indiferente, alguém que talvez não vá a congressos médicos ou que não se feche em sua condição de “culto e rico”, porque fez uma faculdade de Medicina, muitas vezes paga com o dinheiro deste mesmo povo.

Nem que, por falta de atendimento primário, tudo se agrave e lote as estruturas das cidades maiores, para onde os mais afortunados são levados, quando aquilo que poderia ter sido curado muito antes, com simplicidade, tenha uma gravidade muito maior.

As mocinhas de Fortaleza, ali tão perto de lugares de miséria, de pobreza extrema, não são obrigadas a serem médicas. Mas, se são, não estão desobrigadas de cuidar das pessoas. E o fato triste é que não houve senão uma mínima procura para postos de trabalho com remuneração digna (R$ 10 mil), suporte de casa e alimentação e um prazo razoável para viver outra vida: três anos.

Nem mesmo para a periferia das grandes metrópoles houve interessados. Nem mesmo os mais jovens.

Com todo o respeito e acatamento pelas boas razões de quem diz que saúde não é só médico, não há o que justifique isso por parte de boa parte de uma corporação profissional.

Exceto, infelizmente, a perda de um sentimento de utilidade social que essa profissão, mais do que muitas, deve conter.

Ou de alguém que, na primeira aula, lesse para os calouros o verbete compaixão num dicionário.

Fernando Brito, Tijolaço

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 11/Nov/2013 às 15:57

    Não faltam médicos, falta vergonha na cara desse governo incompetente que só pensa na maioria da população. Este governo deveria fretar vans para levar os pacientes até o aeroporto mais próximo pegarem os destinos até as grandes capitais. Distribuir um cartão da UNIMED para cada um no aeroporto, leva-los para um hotel, dar banho em todo mundo, passar perfume e depois entregar nas clinicas dos nobres DRs. CRM, de preferência um por dia. Padilha e Dilma estão dando mau exemplo em levar médicos até os locais remotos do Brasil.

    • Sueline Postado em 11/Nov/2013 às 16:04

      Isso, não faltam médicos, o que falta é vergonha na cara da maioria dos médicos brasileiros.

    • André Postado em 11/Nov/2013 às 16:09

      Nossa cara, quanta ignorância!

    • Andressa Postado em 11/Nov/2013 às 18:03

      Esse foi um comentário irônico, né?!

    • geise Postado em 11/Nov/2013 às 18:23

      kkkkkkkk essa é boa!

      • Thiago Teixeira Postado em 11/Nov/2013 às 18:56

        Ufa, pelo menos alguém entendeu o deboche!!!!!! kkkkkkkkk

  2. Angela Postado em 11/Nov/2013 às 16:03

    Muito bom o texto! Parabéns

  3. José Ferreira Postado em 11/Nov/2013 às 16:12

    Eleições 2014!!! Enquanto a Dilmão e os seus companheiros são atendidos no Sírio Libanês, o povão do interior acaba ficando com médicos escravos de procedência duvidosa. Se eles são tão bons, a Dilmão poderia se tratar com um desses cubanos. Coerência é uma grande virtude...

    • Thiago Teixeira Postado em 11/Nov/2013 às 18:20

      Grande José, sei que você não gosta de Cubanos e Bolivianos, mas a medicina deles é bem conceituada, pode ficar sussa que o povo está em boas mãos. Minha mãe mora em Cabo Verde (África), e lá só tem cubanos nos hospitais, já são bem rodados no mundo afora e não se importam com a região onde atuam.

      • José Ferreira Postado em 11/Nov/2013 às 21:53

        Não tenho nada contra cubanos, mas tenho contra apenas em relação os bolivianos que moram aqui. E o que eu mais vejo são brasileiros que foram para Cuba (e assemelhados) estudar porque não passaram nos vestibulares no Brasil. Eu não sei se eles são bons, mas, uma boa parte dos que estão no "mais médicos" não passaram na prova do revalida. Será que a Dilmão se submeteria a ser atendida por esses "médicos"?

    • Leticia Postado em 11/Nov/2013 às 18:26

      O que vc sugere então? Compatibilizar o salário dos médicos aos dos outros profissionais importantes para a sociedade, como os professores e, com isso, disponibilizar mais recursos para investir na estrutura dos posto de saúde? E quem sabe ainda sobra um pouquinho para investir nas escolas, que tb estão precisando muito.

      • Cabral Postado em 11/Nov/2013 às 19:10

        Bom, Leticia, eu sugiro que se invista de verdade em saude (atualmente a Uniao gasta menos de 6%). Sugiro investir em saneamento basico - que consequentemente é saude. Sugiro valorizar profissionais brasileiros (nao só medicos), ao inves de fazer essa propaganda ridicula contra medicos daqui para justificar a vinda de cubanos - que por sinal é um dos pilares atuais do Foro de São Paulo. Leticia, nao é pq os professores sao extremamente desvalorizados que vamos fazer o mesmo com outros profissionais. Esse discurso é alinhado com o q o PT: "Vamos nivelar todo mundo por baixo". Ah, Thiago, medicina boliviana bem conceituada??? Faz-me uma garapa.

      • Tiago Ennes Postado em 11/Nov/2013 às 23:38

        Leticia, sugiro apenas que destinem o dinheiro da saúde à saúde, o dinheiro da educação à educação, e assim por diante.. E não que coloquem em seus próprios bolsos!!!! As pessoas ficam nesse dilema de ''onde investir o dinheiro'', investir mais aqui pq está faltando, ou menos ali... É muito simples: recursos não faltam!!! É só dar o destino certo à eles, o bem-estar do povo!!!

    • João Carlos Postado em 11/Nov/2013 às 20:21

      Pelo menos Dilma está trazendo os médicos para atender os pobres.E se precisasse,se consultaria com eles.Já seus ídolos(FHC,Serra,Bolsonaro,Demóstenes Torres,etc,,)se precisassem de médicos em regiões carentes,morreriam à míngua.Taí,quem sabe não é uma boa idéia remetê-los aos confins que eles desprezam e ignoram...O quê vc acha?

    • Julia Postado em 11/Nov/2013 às 20:30

      Procedência duvidosa é doído hein?

    • Cristina Sanches Postado em 11/Nov/2013 às 21:38

      Prezado José, faz um favor pra sociedade e cala a sua boca! A especialidade dos médicos cubanos é a medicina preventiva em massa, que diminui a mortalidade infantil e materna, conscientiza a população dos cuidados básicos e prevenção, trata diarreia e aumenta a cobertura da vacinação. Ricos não tem essa necessidade, a Dilma não tem essa necessidade. Então, por gentileza, para com esse discurso pronto de direita e vai se informar antes de poluir os fóruns com suas teorias de merda.

      • Cabral Postado em 12/Nov/2013 às 00:45

        Cristina, essas funções que vc cita podem ser muito bem executadas por agentes comunitarios de saude bem treinados. Quem tem discurso pronto (e de merda) de pseudoesquerda aqui é vc...

      • José Ferreira Postado em 12/Nov/2013 às 08:08

        Se for assim, então é só mandar pais de santo e curandeiros. Não é a mesma coisa? Pau que da em Chico, tem que dar em Francisco também...

    • Eduardo Postado em 12/Nov/2013 às 14:44

      "médicos escravos de procedência duvidosa". Quando a Inglaterra reformou seu sistema de saúde, foi lá na terra desses "escravos" aprender como é que se faz. No terremoto do Haiti, foram esses "escravos", que diferentemente dos EUA, Gra Bretanha e outra potências, que fizeram uma propaganda danada, e na hora do "pega pra capar", ficaram só os "escravos", em numero muito maior, e os Médicos Sem Fronteiras. Esses "escravos" praticam medicina preventiva enqunto nossos médicos, na maioria, praticam a medicina mercantilista.

  4. Célito Hüntemann Postado em 11/Nov/2013 às 16:13

    Claro, muito bom Thiago, sairia bem mais barato para os cofres públicos fazer isso, e quando tais pessoas voltassem para as suas cidades, continuariam sem médicos, e o cartão? Enfiariam no ...

  5. Lucas Postado em 11/Nov/2013 às 16:36

    José Ferreira, você leu o texto?? As vezes fico na dúvida comentários como estes não podem ter sido escritos por alguem com dominio da lingua portuguesa e que saiba fazer interpretação de textos... Enfim como o texto mesmo disse a maior parte dessas pessoas vão morrer por falta de diagnósticos simples, que qualquer aluno de medicina é capaz de fornecer, não vivem se quer o suficiente para ter complicações mais sérias a grande maioria desse povo Tanto faz onde os governantes são ou não tratados, afinal não vivemos num regime socialista, muito longe disso, o ponto é que o programa vai levar assistencia a locais que de outra forma nunca teriam médicos...isso é mais importante do que a medida ser do partido X ou Y, mais importante do que você tem como ideologia, são almas sendo salvas... Ao governo não fez mais que a obrigação, aos médicos que estão vindo atender essa população tão carente, meu agradecimento

  6. João Postado em 11/Nov/2013 às 17:51

    Bem, pouca ajuda é melhor que nenhuma, é verdade. Mas só eu que acho essa medida um apelo populista pra tapar o sol com uma peneira? Por que então, paralelamente a mendigar médicos aos estrangeiros, o governo não investiu também em novas clínicas e equipamento. São poucos os médicos que querem cuidar dessa gente, é verdade, mas esses poucos mal tinham o que fazer sem equipamento nem leitos. O que quero dizer é que a medida ajuda, mas sem apoio estrutural interno, essa ideia não vai tão longe, e o governo taxa ela de cura milagrosa intocável, assim como fez com as cotas nas Universidades e a Cartilha Politicamente Correta

    • Thiago Teixeira Postado em 11/Nov/2013 às 19:03

      Então cara, eu não vejo por esse lado. Foram comprados equipamentos sim, muitas estruturas físicas foram construídas em todo brasil e aquisição de ambulâncias. Agora faltam profissionais, não só médicos (clinico geral), radiologista, dentista, geriatra, anestesista, e importação de Médicos, para o cidadão que mora no interior de Pernambuco (ajoelhou no chão até), não foi interpretado como "tampar o sol com a peneira", mas uma solução que está dando certo.

      • Cabral Postado em 11/Nov/2013 às 19:25

        Thiago, em que mundo vc vive? No sertão nordestino o povo nao tem sequer agua na torneira, e quando tem essa agua é suja e barrenta. Esse povo nao tem rede de esgoto. Esse povo nao sabe que é importante lavar as maos antes de comes. A grande preocupação desse povo é olhar para o ceu, rezando pra Deus para se formarem nuvens de chuva.Vc sabe o que significa "saude" em seu conceito amplo? Tenho quase certeza que nao.

  7. Ed Carlos Postado em 11/Nov/2013 às 21:25

    Um paliativo que agrada os deuses e as pobres pessoas dos rincões varonil, mas não concerta o abandono que essa gente sofre a centenas de anos. Nas grandes capitais e municípios, as coisas vão de mau a pior em todas as áreas... devemos esquecer um pouco essa lance de Cubanos, já tá feito e não mudaremos discutindo opiniões. Devemos nos concentrar nas próxima eleições ou devemos tomar coragem e voltarmos às ruas novamente e com mais energia reivindicando melhores condições pra população brasileira. Mas se querem minha opinião a respeito de médicos importados, não terão, pois não sou eu que faço uso deles e sim quem esta usufruindo no momento... uso médicos brasileiros alguns de 5° categoria que atendem na UPA do meu bairro que não sabem sequer diagnosticar ou receitar remédios para tratar uma dengue ou um simples resfriado. A situação é caótica e estou super arrependido de ter votado no "PTquepariu".

    • José Ferreira Postado em 11/Nov/2013 às 21:59

      A solução é enfiar o dedo n... na urna e votar certo. Nós, que trabalhamos e não somos comprados com Bolsa Família, e nem aceitamos a imposição de cotas, por não sermos oriundos da elites escravocrata (brancos e não negros), e nem aceitarmos o fato de sermos taxados de burros (negros), devemos tirar essa Dilmão daí. Não mendigos, uni-vos!!!

  8. Roberto Maia Postado em 11/Nov/2013 às 22:53

    Vocês estão apontando o dedo pras pessoas erradas! A culpa por não haver mais médicos no interior não é dos médicos! Mas sim de governos atrás de governos que nunca se interessaram em por médicos no inteiro por meio de concurso público com vínculo e bom salário e condições de trabalho! Esse programa é um absurdo por completo! 1. O salário é uma bolsa de 10 mil, veja uma bolsa, não há décimo terceiro nem férias e nem nenhuma garantia que qualquer trabalhador comum possui. 2 Os médicos não são avaliados de forma adequada para exercerem a função, meio medico não adianta nada, garanto que ninguém acharia bom ser atendidos por esses médicos, e se disser que aceitaria é hipocrisia. 3 Compaixão meu caro eu tenho e tenho certeza que meus colegas inclusive as médicas que vairam os cubanos que o senhor acusou também tem, mas vá você trabalhar onde não tem nada, as cidades onde faltam médicos falta tudo, mas tudo mesmo, escolas, polícia, tudo, ninguém se submeteria a trabalhar da forma como querem que os médicos trabalhem. E por fim gostaria de dizer que já estou farto de escutar pessoas criticando os médicos sem conhecerem a realidade de trabalho!

  9. luiz carlos ubaldo Postado em 12/Nov/2013 às 12:34

    Como é doce a liberdade que nos foi negada poquissímo tempo atrás, é essa leberade que da o direito de gente subseviente falar em nome de uma elite cruel e preconceituoso, falam aos montes, entendem de tudo e se escondem por detrás de uma maquina, boquirrotos, falastrões, o povo quer mais medicos e Dilma!