Redação Pragmatismo
Compartilhar
Capitalismo 20/Nov/2013 às 11:43
21
Comentários

O mundo dos seus netos não será o do Tio Sam

Se você pensa em um dia visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos

Mauro Santayana

mundo tio sam eua
O mundo onde viverão seus netos não será o do Tio Sam. Há grande chance de que usem uma moeda Brics, e não dólar. E vivam em uma era em que não existirá mais uma única grande potência, mas seis ou sete (Reprodução)

“A civilização é um movimento, e não uma condição. Uma viagem, e não o porto de destino.” A frase, do historiador inglês Arnold J. Toynbee, define como poucas o curso da história. Raramente percebemos a história, enquanto ela ainda está acontecendo, a cada segundo, à nossa volta. O mundo se transforma, profundamente, o tempo todo. Mas as maiores mudanças são as imperceptíveis. Aquelas que quase nunca aparecem na primeira página dos jornais, normalmente tomada por manchetes que interessam a seus donos, ou por chamadas de polícia ou futebol. Esse é o caso das notícias sobre os Brics.

Quem já ouviu Pink Floyd (Another Brick in the Wall) pode confundir o termo com brick, palavra inglesa que quer dizer tijolo. Se gostar de economia, vai lembrar que essa é uma sigla inventada em 2001 por um economista do grupo Goldman Sachs.

Mas poucas pessoas têm ideia de como o Bric vai mudar o mundo e sua própria vida nos próximos anos. Antes um termo econômico, o Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, está caminhando – aceleradamente, em termos históricos – para se transformar na aliança estratégica de alcance global que vai mudar a história no século 21.

O que juntou esses países? Para Jim O’Neill, criador do vocábulo, foi seu potencial econômico e de crescimento. Mas, para esses países, o que os aproxima é seu desejo de mudar o planeta. Dominados ou combatidos pelos Estados Unidos e pela Europa, no passado, eles pretendem desafiar a hegemonia anglo-saxônica e “ocidental”, e mostrar que outro mundo é possível, na diplomacia, na ciência, na economia, na política e na questão militar.

Leia também

Três deles, Rússia, Índia e China, já são potências atômicas e espaciais. O Brasil e a África do Sul, embora não o sejam, têm indiscutível influência em suas respectivas regiões, e trabalham com a mesma filosofia. A construção de uma nova ordem mundial, mais digna e multipolar, em que haja menor desigualdade entre os países mais ricos e os que estão em desenvolvimento.

A união faz a força. O Brics sabe disso, e seus concorrentes, também. Por isso, os meios de comunicação “ocidentais” e seus servidores locais movem forte campanha contra o grupo, ressaltando pontos negativos e ocultando e desencorajando as perspectivas de unidade.

Mesmo assim, eles estão cada vez mais próximos. A cada ano, seus presidentes se reúnem. Na ONU, votam sempre juntos contra ataques ocidentais a países do Terceiro Mundo, como aconteceu no caso da Síria, há poucas semanas. Controlam 25% do território, 40% da população, 25% do PIB e mais de 50% das reservas internacionais do mundo. China e Brasil são, respectivamente, o primeiro e o terceiro maiores credores dos Estados Unidos.

Por crescerem mais que a Europa e os Estados Unidos, e terem mais reservas internacionais, os Brics querem maior poder no Banco Mundial e no FMI. Como isso lhes tem sido negado, estão criando, no próximo ano, o próprio banco, com capital inicial de US$ 100 bilhões.

No final de outubro, o Brasil – que já compra helicópteros militares russos, tem um programa conjunto de satélites de monitoramento com a China, vende aviões radares para a Índia e desenvolve mísseis com a Denel Sul-africana – foi convidado a juntar-se a russos e indianos no desenvolvimento e fabricação de um dos aviões mais avançados do mundo, o Sukhoi T-50, caça-bombardeiro invisível a radares, capaz de monitorar e atingir alvos múltiplos, no ar e em terra, a 400 quilômetros de distância.

Também em outubro, Brasília recebeu a visita do chanceler indiano Salman Khurshid, que, em conjunto com o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, estabeleceu como meta aumentar o comércio Brasil-Índia em 50%, de US$ 10 bilhões para US$ 15 ­bilhões, até 2015.

Na área de internet, Rússia e Índia já declararam apoio ao novo marco regulatório defendido pelo Brasil para a rede mundial. E planeja-se o Brics Cable, um cabo óptico submarino de 34 mil quilômetros que, sem passar pelos Estados Unidos ou pela Europa, ligará o Brasil à África do Sul, Índia, China e Rússia, em Vladivostok. No comércio, na cooperação para a ciê­ncia e o ensino, na transferência de tecnologia para fins pacíficos não existem limites para os Brics.

Se você pensa um dia em visitar Miami, mandar seu filho estudar nos Estados Unidos, ou acha que seus netos vão crescer em um mundo regido pelo Tio Sam, está na hora de rever seus conceitos.

Há grande chance de que a segunda língua deles seja o mandarim. De que viajem, a passeio, para Xangai, e não para a Flórida. De que usem uma moeda Brics, e não dólar. E vivam em uma era em que não existirá mais uma única grande potência, mas seis ou sete, entre elas o Brasil. Em um mundo em que a competição geopolítica se dará, principalmente, entre os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e os que comporão outro organismo internacional, liderado pelo Brics.

Recomendados para você

Comentários

  1. marcus Postado em 20/Nov/2013 às 13:45

    Na iminência de um verdadeiro risco, a última ação daquele que teme é o ataque. Maior a fraqueza, mais feroz o ataque tende a ser. Este ataque, vindo de uma nação que jogou duas bombas nucleares por Ego, é o que eu tempo.

  2. Jhonas Postado em 20/Nov/2013 às 14:10

    Deus te ouça!

  3. David Postado em 20/Nov/2013 às 15:28

    "No comércio, na cooperação para a ciê­ncia e o ensino, na transferência de tecnologia para fins pacíficos não existem limites para os Brics" muito corporativo e pouco social

    • guilherme Postado em 20/Nov/2013 às 22:32

      exato.

  4. Peter Fonda Postado em 20/Nov/2013 às 15:31

    Continuo preferindo a Holanda, Espanha, Itália ou Uruguai. Embora brasileiros e russos , indianos e chineses sejam bem parecidos nas questões sociais. Machistas, monopolistas, escravagistas e hipócritas.

    • Amanda Postado em 21/Dec/2013 às 19:43

      Engraçado, eu tava pensando nisso... desde que isso tbm mude... e não basta acreditar,em que fazer...

    • Amanda Postado em 21/Dec/2013 às 19:45

      Se nada der certo, eu só espero que os EUA se foda pra caralho..

  5. Karen Postado em 20/Nov/2013 às 15:37

    Mauro Santayana seu artigo é ótimo, mostrarei seu artigo pra uma turma que vai adorar ler e debater.

  6. Leonardo Postado em 20/Nov/2013 às 15:43

    Acredito que mesmo perdendo o posto de primeira potencia soberana do mundo, no futuro os EUA ainda serao um pais com boas condiçoes, grande infraestrutura, grandes universidades e ainda como um grande atrativo turistico. Na parte economica pode ser que perca para todos esses paises no futuro, mas penso que na infraestrutura esses paises ainda terao muito tempo ate poderem se equiparar aos EUA, se usarmos a China como exemplo hoje em dia 477 milhoes de pessoas nao tem saneamento basico, acho que no futuro os EUA nao terao mais a soberania, porem ainda serao grande atrativo turistico e ainda serao bem importantes na parte economica.

  7. Anderson Bueno Postado em 20/Nov/2013 às 15:47

    Eu já estou me preparando para estagiar na China ano que vem. Consegui por meio de uma feira de negócios esse estágio numa empresa de montagem de eletrodomésticos.

  8. Débora Postado em 20/Nov/2013 às 15:49

    Excelente matéria! É isso ai, vamos acreditar nessa mudança, onde os países de até então, terceiro mundo, chegarão a patamares jamais imaginados...

  9. LFPMS Postado em 20/Nov/2013 às 16:50

    Meus caros NÃO se iludam, a única coisa será uma POSSÍVEL alteração de império, EUA para China, mas ainda sim ambos dominaram o mundo, como potencias econômicas, e sobretudo bélicas. Brasil infelizmente poderia estar neste grupo, mas as perspectivas são extremamente remotas. Abraços.

  10. janaina Postado em 20/Nov/2013 às 17:16

    Espero que primem pelo bem estar social, liberdade de expressão e divisão justa das riquezas. Até agora não tem sido assim, inclusive no Brasil.

  11. pedro Postado em 20/Nov/2013 às 17:45

    Não vejo dessa forma. A análise das forças militares dos EUA (presentes em forma de teia, ou rede) em todo o mundo, a imprecedente superioridade militar sobre os outros países e, principalmente, o fato de que os EUA são um império militarista controlado por agências (como o Pentágono) mostra que nada além de um esforço interno de desmilitarização poderá mudar o cenário das forças no mundo. A economia pode propor uma certa mudança, mas uma mudança de hegemonia não é tão clara, em minha opinião. Como império que são, os Estados Unidos cairão internamente! Esse processo já começou, mas o desfecho pode levar séculos e nada será pacífico. Não aceitarão de forma alguma serem sobrepujados militarmente.

  12. Cicero Ferraz Postado em 20/Nov/2013 às 19:24

    Nenhum Império sobrevive eternamente. A história esta ai para nos mostrar.

  13. Thiago Postado em 20/Nov/2013 às 20:02

    Culturalmente os Brics estão ainda solidificados por uma base retrógrada de intolerância racial, religiosa, democrática. Ainda que Brasil e África do Sul tenham criado programas fortes que beneficiem as classes menos favorecidas há mais de uma década, ambos países patinam em muitos quesitos sociais e ambientais já que são constantemente influenciados por um conservadorismo arcaico em seu território. Rússia, China e Índia então nem se fala. O primeiro é autoritário mesmo que seja democrático, o segundo sequer tem democracia e o terceiro é respaldado por uma sociedade religiosa preconceituosa. A pobreza os permeia e a má distribuição de renda também, além da ganância excessiva de uma minoria (políticos, especuladores econômicos e grandes empresas). Todos combatem o império norte-americano e a União Europeia com aquilo que tem mais: Dinheiro. Economicamente podemos até exaltar aliança dos Brics para uma multipolaridade de forças, em termos sociais não há qualquer "beleza" dignificante. O problema deste combate é se tornar igual ao seu inimigo.

    • Italo Postado em 21/Nov/2013 às 13:57

      Perfeito o comentário. Me dá medo só de imaginar um mundo com hegemônia de Rússia, China e Índia.

  14. Adalberto Postado em 20/Nov/2013 às 20:21

    Todos esses benefícios apregoados talvez nunca cheguem ao povo e pouca coisa mudará, ou seja, os grandes continuarão comendo. Não acredito muito que o chinês se torne uma segunda língua mundial. O alfabeto tem milhares de símbolos que nem os próprios dominam, sem falar que é uma língua tonal. Acredito que o inglês continuar como língua internacional do comécio por muito tampo.

  15. Marcos Postado em 20/Nov/2013 às 21:50

    Meus netos e filhos vão para o Canadá, os USA esta decadente milhões de imigrantes desempregados, a cultura ocidental contaminada, esta se tornando um país latino onde ninguém respeita absolutamente nada, vangloria criminosos e seu estilo e humilha pessoas honestas isso já esta influenciando até mesmo na cultura americana, ainda temos o Canadá.

  16. Adriano Gonçalves Postado em 21/Nov/2013 às 08:28

    É pagar pra ver...

  17. Leonardo Postado em 23/Nov/2013 às 02:18

    Mas que bobagem, o Brasil é agro-exportador, a China e EUA produtores de tecnologia, o maior destino dos brasileiros é os EUA, Miami, em segundo lugar a Europa Ocidental, o que vai acontecer no futuro é uma maior integração do Ocidente com o Oriente, a África será mais miscigenada e inserida no mundo, foi-se a época de rivalidades no planeta, o problema é a evolução da alma, nesse ponto estamos apenas começando !!!!