Redação Pragmatismo
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Racismo não 18/Nov/2013 às 15:24
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Lázaro Ramos explica como lida com o racismo

Lázaro Ramos conta que às vezes tem de dar "dez respiradas" para não se contrariar sempre com o problema do racismo. Ator também comentou sobre a representação do negro na TV, entre outros temas

O ator Lázaro Ramos (reprodução)
O ator Lázaro Ramos (reprodução)

O ator baiano Lázaro Ramos disse que quebrar barreiras tem sido uma constante na carreira. Lázaro afirmou que às vezes tem de dar “respiradas” para não se contrariar sempre com o problema do racismo.

“Às vezes tenho que dar dez respiradas, mas é uma tentativa. Cansa, mas você vê que é necessário continuar essa luta, pois o resultado será importante. Podemos aproveitar a diversidade do país e escrever uma nova história cultural. O Brasil é muito diverso para nos apegarmos à velha fórmula por tantos anos. E sou otimista ao ver tantos talentos que apareceram nas últimas décadas, como a Sheron Menezes, o JP Rufino. É essa identificação do público que faz com que as coisas mudem e evoluam. Eu vou dizer uma coisa… sou grato aos investimentos que a TV fez em mim. “Ó pai, ó” (séria exibida em 2008) trouxe um grupo de teatro inteiro para um seriado. E “Lado a lado” é tudo o que eu sonhei fazer na TV”, relatou.

Questionado sobre o papel da teledramaturgia no debate, o ator que foi revelado pelo Bando de Teatro Olodum, foi reticente. “O racismo na televisão não tem um caminho só. Falar do assunto, às vezes, é não tocar no assunto. É um problema que se apresenta de forma complexa e tem que ser tratado como tal”, comentou.

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Confira abaixo trechos da entrevista extraída do Jornal O Globo:

Você acha que, de fato, houve uma mudança na forma como o negro é representado?

Alguma mudança houve, sim: o aparecimento de novos atores, o protagonismo mais constante. Obras com dramaturgia diferenciada e inédita têm aparecido. “Lado a lado” é um marco histórico, mas vou citar “Aquele beijo”, do Miguel Falabella, que tinha vários negros no elenco. Mas, algumas questões ainda temos que refletir: Fala-se muito numa ascensão da classe C, de que a dramaturgia está indo em busca disso, mas eu sinto falta de ver uma família negra completa. Há um potencial riquíssimo a ser explorado. Por outro lado, acho que a gente sempre fica avaliando essa questão pelo lado dos atores, mas ainda não temos uma quantidade de produtores e diretores negros pensando numa dramaturgia. Acho que o microfone é importante, mas a caneta também. A gente traz a vivência naquilo que a gente faz. O olhar diverso é natural e bom. Dá conta da diversidade naturalmente, e do potencial do nosso país.

Qual a primeira vez que você, como espectador, ficou satisfeito ao ver o negro na TV?

A novela “A próxima vítima” (1995) inovou, é marcante. Em “Pecado capital” (1998) Antônio Pompêo inovou como um psicanalista, era bonito ver a maneira como fazia, assim como fez a Cacau Protásio em “Avenida Brasil” (2012). Como espectador, acho que “Lado a lado” foi importantíssima. Eu me identifico cada vez que é mostrada uma coisa nova, um novo caminho.

Para você, os autores precisam ser mais ousados?

Temos sempre que ressaltar os atores que vieram antes da gente e que fizeram uma militância importantíssima, nos alertaram e abriram os olhos dos autores para essa questão. O público foi mostrando e dizendo que se identifica, através da audiência. A presença de negros em papéis de destaque em novelas como “Cobras & lagartos” e “Da cor do pecado” (protagonizada por sua mulher, Taís Araújo, em 2004) é o espectador dizendo: eu gosto, eu quero isso. O verdadeiro sucesso é dar a ele algo que ele nem sabia que queria. E alguns autores entenderam que essa ousadia era totalmente possível.

Novelas históricas que mostram que mostram escravos no tronco depreciam a imagem do negro na TV?

Há jeitos e jeitos para isso ser mostrado. “Lado a lado” abordou a Revolta da Chibata, o cara tomou chibatadas e se tornou herói. Você vê um cara numa situação de sofrimento e quer ver ele sair dali. É um passo importante. As coisas têm que continuar sendo feitas, a audiência pode ficar contrariada, mas é importante se chegar a um ponto entre o artístico e a observação social para que a gente possa ter uma dramaturgia justa e rica.

Quebrar barreiras como “o primeiro protagonista negro” é cansativo?

Quebrar barreiras é cansativo, sim. Às vezes tenho que dar dez respiradas, mas é uma tentativa. Cansa, mas você vê que é necessário continuar essa luta, pois o resultado será importante. Podemos aproveitar a diversidade do país e escrever uma nova história cultural. O Brasil é muito diverso para nos apegarmos à velha fórmula por tantos anos. E sou otimista ao ver tantos talentos que apareceram nas últimas décadas, como a Sheron Menezes, o JP Rufino. É essa identificação do público que faz com que as coisas mudem e evoluam. Eu vou dizer uma coisa… sou grato aos investimentos que a TV fez em mim. “Ó pai, ó” (séria exibida em 2008) trouxe um grupo de teatro inteiro para um seriado. E “Lado a lado” é tudo o que eu sonhei fazer na TV.

É papel da teledramaturgia discutir o racismo?

O racismo na televisão não tem um caminho só. Falar do assunto, às vezes, é não tocar no assunto. É um problema que se apresenta de forma complexa e tem que ser tratado como tal.

Acha que João Vicente, seu filho de 2 anos, vai ver uma TV diferente da sua?

Eu espero que sim. Eu, como pai e consumidor, procuro dramaturgia que vá fortalecer a autoestima dele. Meu filho vai ver o “Karatê Kid” estrelado pelo filho do Will Smith. Já está guardado.

com O Globo

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 18/Nov/2013 às 15:35

    Ótima entrevista do Lázaro Ramos, pois ele abordou o tema de forma inteligente, sem esses clichês de "50% dos brasileiros negros" (de acordo com o IBGE são 8% de negros). Ele falou tudo do que eu penso sobre essa temática nessa entrevista. E o filme "Karatê Kid" é muito bom, e também tenho guardado.

    • Felipe Silva Postado em 18/Nov/2013 às 18:10

      8% só se as pessoas na hora da pesquisa mudaram de cor srsrsr

      • Thiago Teixeira Postado em 20/Nov/2013 às 12:14

        As pessoas se declaram negras na hora de se beneficiarem com as cotas. Por isso eu acho que a política de cotas deve acatar o que a pessoa se declarou no SSP (RG), e excluir o filha da puta mulatinho que renegou a raça.

  2. Franklin Weise Postado em 18/Nov/2013 às 16:07

    Acho que um dos grandes agentes da mídia nesta valorização do negro é justamente a Globo, talvez até para se redimir dos papéis aos quais aos quais os negros eram restritos até os anos 80 (OK, às vezes até hoje). Apesar de haver vários episódios vergonhosos na história desta emissora, eles também acumularam feitos memoráveis.

  3. eu daqui Postado em 27/Feb/2014 às 14:01

    Quem tem talento tem !!!!!!!!!!!! Esse é o discurso do vencedor, do bem sucedido por mérito. Antirracismo sem antibranquismo. Antiracismo sem nazinegrismo. Qume tem talento pode !!!!!!!!!!