Redação Pragmatismo
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Desigualdade Social 05/Nov/2013 às 15:19
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Infância perdida na lama e no lixo

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem e se confundem entre materiais recicláveis, comida descartada, brinquedos quebrados, roupas velhas e todo o tipo de entulho. Conheça a história dos meninos cujo cotidiano é catar latas neste cenário deplorável

crianças infância lixo recife
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Eles nadam onde nem os peixes se atrevem. De longe, suas cabeças se confundem com os entulhos. Pela falta de quase tudo na terra, mergulham no rio de lixo atrás da sobrevivência. Lá sim tem quase tudo: latinhas, garrafas, papelão, móveis velhos, restos de comida, moscas, animais mortos. Menos dignidade. Lá, no Canal do Arruda, Zona Norte do Recife, o absurdo é rotina. Anfíbios e miseráveis catam sonhos onde o pesadelo é retrato soberano. São três meninos da comunidade Saramandaia, melados até o pescoço da lama do abandono, numa área que o prefeito da capital, Geraldo Julio (PSB), elencou como prioridade de sua gestão e que, até agora, não viu resultados senão promessas.

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O sol inclemente não intimida. É preciso aproveitar a maré baixa, quando os resíduos se acumulam. A cena choca, intriga, envergonha. Em pleno 2013. Em plena capital pernambucana. Aos olhos de todos. O Canal do Arruda, foz de boa parte do lixo recifense, é a mina de ouro de Paulo Henrique Félix da Silveira, 9 anos; Tauã Manoel da Silva Alves, 10; e Geivson Félix de Oliveira, 12, unidos pelo sangue, pela necessidade e pela indiferença do poder público.

Moram em dois barracos na comunidade de Saramandaia, também na Zona Norte, e não hesitam em entrar no fosso. Antes, era só para tomar banho, diversão infantil ocasional. Há mais de ano, passou a ser ganha-pão. Paulinho via as cerca de cem famílias que trabalham com reciclagem na região e decidiu tomar o mesmo caminho. Encontrou seu nicho, o pior de todos, e arrastou os primos.

Paulinho, Galego e Geivson, embora exemplos radicais da realidade, não estão sozinhos. De acordo com o perfil dos catadores brasileiros elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado no Censo 2010, 3,6% dos 20.166 pernambucanos que trabalham com reciclagem têm entre 10 e 17 anos. São, oficialmente, só 726 crianças e adolescentes no Estado que tiram seu sustento do lixo. Nas cifras do trabalho infantil em geral, o número sobe para 1.329.229. Na faixa etária dos pequenos catadores de Saramandaia, até 13 anos de idade, há 665.500 pernambucanos trabalhando, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O trio se acotovelava entre dejetos mil para catar latas de alumínio e garantir o alimento de duas famílias com, ao todo, 18 pessoas. Nadava em meio a tudo que a cidade vomita. Paulinho, o menor e mais astuto dentro d’água, tapava a boca com veemência. Tinha noção exata do risco que corria. Ainda não sabe ler, mas conhece da vida o suficiente para não deixar entrar uma gota sequer daquela lama de cheiro insuportável e chamariz de doenças. Febre e diarreia são constantes.

O lixo lhe cobria o pescoço. A cabeça erguida com dificuldade denunciava que ele estava ali, quase sumindo entre materiais recicláveis, comida descartada, brinquedos quebrados, roupas velhas, sacolas e tudo mais que se possa imaginar. Parecia parte daquilo. Geivson, o mais velho, acompanhava o primo Paulinho na missão inglória e diária.

infância lixo recife canal arruda
Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Tauã, chamado por todos pelo apelido de Galego e irmão de Geivson, foi o único que não teve coragem de se embrenhar no meio do canal. Na beira, um pé lá e um pé cá, cumpria sua função na engrenagem do absurdo: recolhia as latas catadas pelos outros dois. Quando precisava ir mais no fundo para pegar algo que caiu, reclamava: “Não quero me sujar”. Juntava tudo em um saco de farinha que é quase de sua altura.

O trabalho costuma durar horas, até a maré permitir. Findo o serviço, lavam-se no lado menos poluído do fosso. “Tem que se limpar, né?”, frisa Paulinho, banhado de inocência. À tarde, eles trocam o que cataram num galpão de reciclagem localizado em Saramandaia mesmo. As latas saem tão sujas de lama que nem o depósito aceita. É preciso lavá-las antes. “A gente tira uns R$ 5 por dia”, gaba-se Geivson. Em dia ruim, o esforço rende apenas R$ 1. Paulinho queria comprar biscoitos. Galego e Geivson prometeram entregar o dinheiro à mãe. Invejaram o primo.

No rio de lixo, encontram de tudo: bola, carrinhos e bonecas; galinha, cachorro e gado morto. Até jacaré já foi visto pelas cercanias, prova de que o risco vem de todos os lados.

Algumas feridas abertas na pele desvelam doenças trazidas pela água suja – Galego tenta esconder com a mão uma dermatite perto da boca; os outros têm pés e canelas cortadas por cacos de vidro. Outras feridas, invisíveis, se revelam numa conversa mais demorada. “Se a vida é assim, fazer o quê? Vai ter que ser. A gente só faz isso porque precisa. Seria bem melhor se não precisasse”, reflete Galego. Achou a resignação no meio do lixo.

PS – E-mails relativos a ajudas aos garotos podem ser enviados para o [email protected] ou [email protected]

Wagner Sarmento e Marina Barbosa, JcOnline

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Comentários

  1. dinio Postado em 05/Nov/2013 às 16:18

    Esta é a "NOVA POLÍTICA" do "DUDU e da BLABLARINA" . Eles estão "povoando" o Canal do Arruda . Certamente jogarão uma ''REDE " ali para "PESCAR" VOTOS !

  2. Alexandre Postado em 05/Nov/2013 às 17:13

    Vergonha!!! como pode um político colocar a cabeça no travesseiro pra dormir a noite sabendo que isso acontece, enquanto isso eles estão preocupados com os conchavos eleitoreiros e os benefícios do cargo, especialmente salarial.

  3. Luiz Postado em 05/Nov/2013 às 18:14

    Capitalismo

  4. Thiago Teixeira Postado em 05/Nov/2013 às 20:26

    Cadê os fdp dos direitos humanos para defender a integridade física destas crianças? Ata, estão na cadeia preocupados com a bunda e do bom tratamento dos estupradores.

  5. [email protected] Postado em 05/Nov/2013 às 21:37

    nao se pode pegar umas duas crianças dessas pra criar? se cada familia fizer isso,podemos ajudar o mundo melhorar.nao precisa ser rico para ajudar quem precisa.tem sempre alguèm mais pobre que voce.

  6. Claudio Postado em 06/Nov/2013 às 00:17

    O governo deveria propiciar melhores condições às familias da periferia de terem também o planejamento familiar que hoje a classe média e classe alta já possuem, e para isto tem que ter postos de saúde melhor equipados e programas adequados, o que não é prioridade.

  7. luiz carlos ubaldo Postado em 06/Nov/2013 às 07:44

    Quanta deturpação, cadê nós, cidadãos tão indignados, tomados de fúria acusatória, vamos juntos pelo menos tentar resolve os problemas dessas e de outras criança, Direito a vida sempre!

  8. Prof. Manoel Postado em 06/Nov/2013 às 15:26

    Estas fotos são o retrato do Brasil-Estado (dos políticos, magistrados e ministério público) cego diante da realidade do Brasil-Nação e Povo. O Brasil-Estado é o sexto mais rico do mundo, mas se apresenta nesta foto como um país miserável africano... Nós do Brasil-Povo ficamos indignados e impotentes diante desta vergonha nacional. Já o Brasil-Estado se encastela em seus privilégios e são cegos e indiferentes diante desta vergonha. Nós, Povo, podemos chamar os políticos de 'excelências' e os magistrados de 'meritíssimos'? Não seria melhor chamar de 'excrescências' e 'meretríssimos'... Eles vão considerar isto uma falta de respeito as suas autoridades, mas quem não tem o mínimo de sentimento tanto republicano como de dor diante deste quadro não merece o respeito de ninguém!!!

  9. Prof. Manoel Postado em 06/Nov/2013 às 15:40

    Não mandarei mais nenhuma comentário. Fico indignado com a censura à minha indignação diante de tudo o que ocorre no Brasil. Creio que o Pragmatismo Político é pragmático: só publica o que estiver dentro do seu ponto de vista... Não é prático publicar o que ofende seus verdadeiros interesses. Vou colocar este site no Spam!!!