Redação Pragmatismo
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Racismo não 26/Nov/2013 às 13:04
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Ensino da cultura negra nas escolas ainda sofre resistência

Lei que determina o ensino da cultura afro-brasileira, esbarra na falta de capacitação dos professores e até no racismo velado que permeia a sociedade

Embora metade da população brasileira se identifique como preta ou parda, a história das raízes africanas do Brasil ainda é tema pouco tratado nas salas de aula. Promulgada há dez anos, a lei 10.639, que determina o ensino da cultura afro-brasileira, esbarra na falta de capacitação dos professores e até no racismo velado que permeia a sociedade. Mas há avanços.

Reportagem da BBC

Hoje com 19 anos, Michael Sodré é mais um estudante tenso com as provas do vestibular. Nos primeiros anos do colégio, no entanto, o motivo de tensão era outro. Único garoto negro em sua sala de aula, em um famoso colégio de elite na zona sul do Rio de Janeiro, o menino era alvo frequente de bullying por parte dos colegas.

“Chamavam ele de Bombril por causa do cabelo”, disse a mãe adotiva, Celina Sodré. Em uma conversa dura com a coordenadora da escola, o diálogo acabou em uma recomendação insólita:

“Ela simplesmente me disse que a solução do problema era que meu filho fosse estudar na escola pública, porque ai ele saberia onde era o seu lugar”.

Cenas de bullying por parte dos colegas e racismo por parte do próprio sistema se reproduzem em escolas de todo o Brasil. Mais de um século após o fim da escravidão, o país que mais recebeu trabalhadores negros ainda trata esses cidadãos como se fossem subalternos, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

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Celina foi aconselhada a mudar Michael para escola pública, “para ele saber qual seu lugar” (Reprodução / Arquivo Pessoal)

A lei 10.639, promulgada em 2003, foi criada justamente com o intuito de valorizar as raízes africanas do país e superar o racismo.

“É preciso superar a visão do negro apenas como escravo. É assim que ele geralmente aparece nos livros escolares”, conta Rafael Ferreira da Silva, Coordenador do Núcleo de Educação Étnico-Racial da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

A prefeitura paulistana fez neste ano um levantamento inédito na rede de ensino da cidade para ver o alcance da aplicação da lei.

“O levantamento mostrou que há avanços. Mais da metade das escolas trabalham o tema. Mas na maior parte dos casos, é geralmente iniciativa isolada de um professor que gosta do tema. E também há o problema da descontinuidade. Se o professor deixa a escola, muitas vezes o assunto deixa de ser abordado”, disse.

Mitos aceitos e mitos ocultos

“Discutir África não é coisa fácil nas escolas”, diz Stela Guedes Caputo, pesquisadora do tema e professora na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

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Além dos casos concretos de preconceito registrados em sala de aula, ela diz que quando a lei é cumprida, há casos em que “pais se reúnem com os filhos e vão à escola questionar e criticar professores que querem discutir a história da África”.

Stela também questiona a ausência de elementos de origem afro nos livros escolares. A questão se torna especialmente delicada quando se tratam de personagens ligados às religiões afro-brasileiras.

Nesse caso, a ocultação desse capítulo da cultura nacional não é apenas prerrogativa das escolas. Em muitos casos, as próprias crianças escondem a religiosidade para não sofrerem preconceito por parte dos colegas.

“Os mitos que as crianças aprendem nos terreiros de candomblé não são aceitos na escola, os itans (os mitos da cultura iorubá), as histórias africanas que conhecem, são das mais belas criações literárias humanas e elas precisam escondê-las. Seu conhecimento é negado. Porque na escola é tão comum mitos gregos, romanos e outros, e mitos africanos são demonizados?”, questiona.

Avanço

Professora de formação, Macaé Maria Evaristo do Santos conta que há mais de dez anos, quando ainda dava aula em um colégio de Belo Horizonte (MG), a visiblidade da cultura afro-brasileira era bem menor.

“Uma vez cheguei em uma sala do Ensino Médio e perguntei aos alunos quantos haviam lido um livro com personagens negros. Alguns levantaram a mão. Depois de mais de dez anos de escolaridade, eles citaram a Tia Nastácia, o Saci Pererê, o Negrinho do Pastoreio… Nem Zumbi dos Palmares fazia parte do repertório”, conta.

Macaé hoje é Secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (MEC). Uma década após a promulgação da lei, ela ainda vê desafios, mas comemora os resultados.

“Essa é uma temática que vai ganhando relevância. Antes só se falava nisso no Dia da Consciência Negra. Aos poucos vai se integrando no projeto pedagógico das escolas”, diz.

A secretária conta que em 2012, o curso mais solicitado pelos diretores de escolas do país na Rede Nacional de Formação Continuada do MEC foi justamente o que capacita professores para o ensino de cultura afro-brasileira.

Na última década, os editais para o desenvolvimento de livros didáticos financiados pelo MEC também exigem esse conteúdo.

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Comentários

  1. Isaac Postado em 26/Nov/2013 às 15:09

    Isso deveria fazer parte do curriculo, assim como a cultura indígena. Nós brasileiros só estudamos, Europa, EUA, civilizações que originaram o Ocidente, isso só contribui com esse complexo de vira lata que o brasileiro tem, sempre valorizando o que é de fora, a cultura alheia, e sempre negando o que é nosso, a nossa cultura, as nossas origens.

  2. vander Postado em 26/Nov/2013 às 22:10

    Porque não incluir o ensino da cultura nipônica e o ensino da cultura europeia, afinal a sociedade brasileira também é composta por eles.

    • marlos soares Postado em 26/Nov/2013 às 23:04

      vander, talvez porque japoneses e europeus não foram escravizados em território brasileiro por quase 400 anos e, consequentemente, não sofrem das mazelas da falta de políticas públicas de recolocação social desde a chamada libertação...talvez...

    • anderson Postado em 26/Nov/2013 às 23:18

      Talvez nipônicos e europeus são sofrem de racismo cotidiano? Quem sabe porque não são nipônicos que mais morrem na mão da polícia? Alguma ideia do porque tantos descendentes de Europeus na Universidade Pública, ao oposto da população negra? É nossa sociedade de fato é composta.... (aff!)

    • Marlene Postado em 27/Nov/2013 às 00:00

      Caro Vander, Em que escolas você estudou? Tem certeza que foi no Brasil? Não consegui perceber que todo o currículo da educação básica brasileira é voltado para a cultura e história européia. Não desconfiou ainda que nosso currículo é todo eurocentrado? Estamos tratando aqui de questões mais profundas no que se refere à visibilidade de povos constituidores da sociedade brasileira, histórica e culturalmente excluídos da sociedade e dos bancos escolares.

      • Marcos Postado em 27/Nov/2013 às 17:51

        Cultura Africana? Deveria ser ensinada mesmo com isso aprenderia sobre os escravocratas negros as guerras e tudo mais que compõem a historia da África ai talvez o vitimismo negro acabe e descubram que talvez não sejam tão vitimas assim.

    • flor Postado em 27/Nov/2013 às 11:26

      pelo jeito vc nao frequentou escola nenhuma, se frequentasse saberia que isso já ocorre.

  3. Thiago Henrique Postado em 27/Nov/2013 às 00:20

    E a carga horária como se distribui ? Não há tempo suficiente para ensinar a história do Brasil e Geral (europeia), como inserir uma história que é repleta de fatos e adendos, que é a africana ? Visto que,se for para ensinar, não contribui em nada uma matéria superficial sobre esse assunto.É necessário algo mais denso e completo para deixar bem elucidativo, e tudo isso requer tempo.

  4. André Luiz Postado em 27/Nov/2013 às 01:35

    No dia em que cair a ficha do brasileiro de que a mesma reação que boa parte das pessoas tem em tratar culturas ditas "inferiores", são as mesmas que europeus e americanos têm em tratar a nossa, talvez acabe por gerar um senso crítico. Porém, como nesse país, senso crítico passa longe em diversas circunstâncias, vai ser uma mudança - se ocorrer - por demais lenta. É igual ocorre com o elitismo universitário. As publicações e objetos de estudo são mais para "europeu e americano verem" do que para auxiliar no desenvolvimento intelectual do próprio país. Nisso passamos pela desvalorização da própria cultura latina, onde português e espanhol não dão "status" e português não serve pra nada, como muito se escuta. Universidades que primam por publicações internas em inglês, em conhecimento construído com ênfase no que vem de fora, como se o que produzíssemos aqui fosse de mal gosto. O ápice do absurdo é que se pararmos para analisar isso abarca todas as áreas, das humanas às exatas. Lembram do que o professor do Gurgel disse a ele? Que no Brasil carro não se faz, mas se compra? Então, seremos os eternos vira-latas que a mídia tanto nos força a aceitar? Que tanto passa na formação do brasileiro, seja em desenhos animados, em músicas de filmes juvenis ou e principalmente em novelas? São muitos tópicos, muitas análises, muito desgosto...

  5. Juniperos Postado em 27/Nov/2013 às 08:57

    1. Sem duvida a segregação racial é uma das muitas manchas que possuímos nesta sociedade, e mesmo para o maior defensor anti-racista, surgem problemas complexos: A historia do negro no Brasil, desde a escravidão, aos dias atuais, fato porcamente explorado por novelas que nem deveriam tentar fazer algo sobre o assunto, pois não importa o que se faça, jamais poderão expor o que realmente se passou, por tão terrível e violento que foi. Penso que se não se pode mostrar a verdade, devido a censura, então não se deve mostrar uma mentira para ganhar ibope, pois muitas pessoas, arredias a informação e cultura, acham que isso é a verdade. Também passamos pela triste experiência da demonização de cultos afro, criada por um ódio quase irracional ministrado por lideres religiosos em todo o pais. O negro cristão, (lembrando que foram trazidos da Africa, logo possuem um legado cultural africano, de grande volume e intensidade digo de orgulho e estudo) é totalmente alheio a cultura raiz do continente Africano, e dele nada se fala nas escolas, mas sim em muitos templos, como algo vergonhoso e demoníaco. Há negros se sentem incomodados com a ligação das palavras negro-Africa, crendo em decorrência da nossa atual pobre educação que o negro brasileiro teria surgido por aqui, magicamente. Talvez seja esse o nosso problema: o que a cultura brasileira atual? Por que se escondem negros em tantas revistas, a ponto de haver necessidade de criação de uma exclusiva? E as crianças? Temos uma grande quantidade de orientais nos nosso queridos personagens da “Turma da Mônica”, mas em anos sequer surgiu uma menina negra no bairro do limoeiro, o que contraria a estatística de 40 a 60% de negros do pais. Fora dos quadrinhos se vê casais mesclados, branca-negro, branco-negra, e os que são certamente já ouviram comentários desagradáveis ao menos uma vez na vida. Para piorar: lideres religiosos proíbem que crianças de seu meio façam trabalhos escolares sobre a cultura afro, justo a qual demonizam em seus cultos agregando assim mais ódio a uma cultura que na verdade desconhecem.

  6. vilson Postado em 27/Nov/2013 às 21:06

    o povo de etinia africana infelismente até agora não conseguiram com o seu próprio esforço competir de maneira igual com o resto das etinias, os cargos profissionais entre eles a função de professor, que seria um bom começo da introdução da cultura africana nas escolas brasileira o povo de origem africana no brasil pelo que eu posso ver tem pouca informação dos ancestrais africanos a elite branca que domina este pais desdá invasão europeia em 1500 e escravizaram o povo africano por 350 anos, eles não querem que povo de origem africana saiba da verdade sobre o passado e muito menos que eles estudem a diferença escolar de um negro para um branco no brasil é de fazer vergonha, numa situação como essa os brancos querendo se passar por desenformado fala: os negros não estudam porque não querem são sem interesso....1 fingem não saber que os negros foram escravos por 350 anos e ainda vivem em situação semelhante até hoje, sem nem uma preocupação de quem poderia mudar. ou seja falando claro: os brancos que dominam o pais que foi erguido por trabalho dos negros usam a covardia em troco dos seus 350 anos de escravidão formal.

    • Enzo Postado em 13/Jan/2014 às 21:22

      Na europa e oriente teve escravos brancos!! Na africa, porque nao teve desenvolvimento? ja que la todos sao negros...Africa so sul nao vale...porque teve melhorias, mas foi os brancos para la.