Redação Pragmatismo
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Cultura 18/Oct/2013 às 09:07
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Nem santo nem herói; Chico Buarque é ser humano

Chico se mostra humano ao cometer um erro atrás do outro no episódio das biografias. Seria ainda mais humano se ponderasse, à luz do que pode estar ajudando a construir, sua posição

chico buarque biografias
Paulo Cesar de Araújo desmentiu Chico e divulgou vídeo da entrevista feita em 1992 (Reprodução)

Renato Rovai, blog do Rovai

Chico Buarque é um misto de santo e super herói para muitos da minha geração, da do meu pai e da minha filha. Chico é aquele cara do qual muitos de nós adoraríamos ter como amigo de cerveja ou de pelada. Hábitos que ele ainda cultiva. Dizem que Chico também foi o sonhado genro de muitos da geração do meu avô. E sonhado príncipe de muitas e muitos da geração da minha mãe, das minhas amigas e até de amigas da minha filha. O cara é realmente fueda, sendo direto e reto.

Mas Chico não é santo e nem super herói. Alvissaras. E também não é um filho de uma @#@%* porque decidiu apoiar a cruzada artístico cultural mercadológica de Paula Lavigne, que há algum tempo se transformou na gerente do banco dos músicos de uma geração querida. Aliás, Paula Lavigne, que show deprimente o seu, hein? Tentar constranger alguém, como você fez com Bárbara Gancia, revelando em público sua homossexualidade é de envergonhar escroques da ditadura militar. Alguns deles eram mais respeitosos ao tratar da orientação sexual alheia. E isso não tem nada a ver com censura, liberdade ou pastéis de feira.

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Mas Paula Lavigne e seu deprimente show à parte, vale a pena entender Chico Buarque. Porque Chico vale a pena. O nosso principal músico da MPB cometeu duas derrapadas seguidas. Entrou num grupo que está mais preocupado em ganhar algum no final do mês e colocou sua história e reputação a serviço de interesses mesquinhos. Chico deve estar sinceramente preocupado em manter sua vida privada protegida. Muitos dos que estão neste grupo estão muito mais preocupados com uns tostões a mais para poder ficar mais tempo não compondo mais nada. Aliás, se há uma área da cultura em que produzir muito pouco não é sinônimo de ganhar pouco é a música. Isso não é para muitos. É para muito poucos. Mas é um fato.

A segunda derrapada de Chico foi a de dizer que não tinha sido entrevistado pelo biógrafo de Roberto Carlos e que acha mais é justo que as filhas de Garrincha cobrem uma baita grana para que o pai possa ser biografado, mesmo numa biografia não autorizada. A primeira parte já foi desmentida. O vídeo de Paulo César Araújo é inquestionável. Em relação ao livro de Garrincha, só cabe a reflexão.

Chico defende um contar histórico que se resume a autorizações? Se alguém não autorizar, que não se registre? É isso mesmo, Chico? Ou o que vale para livro de biografia não vale para o livro de história? Ou o que vale para a biografia não vale para matéria em jornal, site, TV, rádio? Qual é o limite entre privacidade e liberdade de expressão? É o autorizar e transformar em negócio o relato?

O Brasil deu um passo a frente por muito do que Chico e outros músicos fizeram na época da ditadura em relação à liberdade de expressão. E agora os têm na tricheira do passo atrás. Esse movimento criado por uma conciliação ainda nebulosa de interesses que levaram Roberto Carlos a ir ao Congresso lutar contra o Ecad precisa ser combatida, a despeito de Chico estar do lado de lá.

Ele está equivocado e seria muito interessante que reavaliasse sua posição. Chico se mostra humano ao cometer um erro atrás do outro neste episódio. Seria ainda mais humano se ponderasse, à luz do que pode estar ajudando a construir, sua posição.

A liberdade de expressão não pode ser refém de uma suposta luta por privacidade. E a história não pode ser apenas tratada como um negócio.

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Comentários

  1. Ricardo Rangel Postado em 18/Oct/2013 às 09:33

    E os "biógrafos" não querem levar algum no fim do mês também? Isso é hipocrisia pura. Vocês estão lutando contra um direito para terem outro direito? Em vez de xeretar e chafurdar na vida alheia, deviam se dedicar a criar algo de bom e duradouro como o Chico fez.

  2. Roberto Postado em 18/Oct/2013 às 09:33

    Poxa, muito bom esse texto. Estava pensando nessa postura atual do Chico (política, pessoal e até mercadológica) e, ao colocá-la na balança, contra toda a sua obra e sua importância cultural e histórica, só consigo chegar à mesma conclusão. Ele é humano e está sujeito a altos e baixos. Se hoje discordamos dele, basta ouvir uma ou duas de suas músicas para transformar qualquer ódio ou reativismo em um pouco de tristeza e um tanto de saudade. Igualzinho ao que acontece quando pensamos na maioria das pessoas que passaram por nossas vidas.

  3. Caio Postado em 18/Oct/2013 às 09:37

    Esse cara é um chato com pseudos fans mais chatos ainda, isso sim.

    • Ricardo Rangel Postado em 18/Oct/2013 às 11:01

      Você é o resultado da "nadegalização da música popular brasileira" só quer ouvir a música se for um "bate estaca" ou tiver uma gostosa rebolando. Bom, parece que conseguiram destruir muitas mentes com isso.

  4. Jaqueline Postado em 18/Oct/2013 às 17:31

    Chico é o cara! Reconheceu que esqueceu da dita entrevista e pediu desculpas. Voltando atraz como poucos que se negam a reconhecer seus equívocos. Chico pra mim continua sendo Chico, brilhante e lúcido, além de lindo. Aquilo que é público não tem como não divulgar o problema é quando o biógrafo quer inventar histórias da vida privada do cara sem se preocupar se isso vai danificar sua integridade.

  5. Fran Oliveira Postado em 21/Oct/2013 às 13:38

    Nem oito nem oitenta! O direito de um termina quando dá inicio o direito do outro. Inteiramente comercial. Essa cultura capitalista é que move a maioria dos indivíduos, e, não adianta tentar maquiar com apenas boas intenções. Liberdade é isso também, o direito de concordar e discordar. Fecha-se uma ditadura e abre-se outra ao tentar impor a um cidadão que sua história seja exposta a revelia. Faca de dois gumes, um campeonato e vença o melhor. "Saquem sua espadas! quem sangrar menos será o vencedor." Ao contrário de tudo que tem sido lançado nas mídias, continuo percebendo em Chico Buarque uma sensatez e sensibilidade pouco vista em nossa sociedade nos dias atuais. ( também não acredito que ele necessite de "advogados" fãs de sua obra como eu sou independente de saber da vida privada dele ou não). E, sendo fã das obras de Chico, não me considero uma "chicófila", tenho certeza de que não compraria essa tal biografia. Não por medo de me decepcionar, pois não tenho expectativas, mas porque não me interessa mais do que já vi nos vídeos letras e canções. Quem quer saber de Chico busque sua história em sua arte. Já ouviram "Maninha"? No inicio ela dá um depoimento como faz em muitos videos. Quem se interessa por cultura que corra atrás. E também existem as temáticas. Concordo, "Nem santo nem herói" humano que entende também de seus direitos, que no Brasil é violado a torto e a direito e tem sido negado os direitos mais básicos a cidadãos comuns, como se isso fosse nada. Tudo aqui no Brasil nos é imposto, não percebo democracia, percebo libertinagem, demagogias, um cerco, um cercado, "como uma arena, para nos distrair, e não darmos conta do que acontece fora dos portões". Chico, o que se passou e se passa na tua vida não me interessa, agradeço, pois a tua obra me fez menos "morta".