Redação Pragmatismo
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Drogas 31/Oct/2013 às 12:37
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Maconha: o exemplo do Colorado

Maconha no Colorado: um exemplo a ser considerado. Empresas autorizadas pelo governo produzem até 4 toneladas de maconha por mês e legalização cria novos negócios com potencial bilionário

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A Medical Marijuana Enforcement Division, do governo de Colorado, disciplina a produção legal de quatro toneladas da erva por mês (Reprodução)

Pedro Abramovay, CartaCapital

Não é todo dia que a gente se sente no futuro. Nem é todo dia que fica tão claro que o futuro pode ser tão melhor do que o presente. Foi na periferia de Denver, no estado do Colorado, nos EUA. Uma fábrica de 300 funcionários envolvida em processo de produção absolutamente lícita que, no Brasil existe, mas não gera empregos, gera cadáveres.

O Colorado decidiu em 2012, por plebiscito, legalizar a produção e venda de maconha para fins recreativos. A maconha já tinha mais de 100.000 usuários medicinais no Estado. Mas a população do Colorado resolveu dar um passo além e aceitar o desafio do pioneirismo de questionar que a única forma possível de abordar o problema das drogas é por meio de prisões, armas, guerra.

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Alias, é curioso perceber como essa trajetória –da maconha medicinal para a regulamentação do uso recreativo – parece ser uma tendência nos EUA. Há pelo menos mais uma dezena de Estados que já aceitam o uso da maconha medicinal e que, segundo as pesquisas, devem, nos próximos 3 anos, aprovar o uso recreativo.

Para mim a explicação para esse fenômeno parece óbvia. Como a maconha pode ter diversos tipos de uso medicinais, o número de pacientes pode ser muito alto. No caso da Califórnia fala-se em mais de um milhao de pacientes . No caso do Colorado, a média de idade dos usuários de maconha medicinal era de 41 anos. Assim, o fenômeno da maconha medicinal faz com que a imagem do usuário deixe de ser associada preconceituosamente ao jovem problemático. Ao se ver o uso por senhoras de idade ou por executivos de sucesso, os preconceitos vão se dissolvendo e o debate pode se dar em torno dos riscos e benefícios reais e não daqueles inventados pela ideologia da Guerra às drogas.

A retirada dos preconceitos, portanto, parece ter gerado um debate na sociedade norte-americana que mudou completamente a visão que a opinião pública tinha sobre o tema. O Instituto Gallup aponta que, se em 1997, 73% dos Americanos eram contra a legalização da maconha, em 2013, após a maioria da população do pais viver estados onde a maconha medicinal é regulamentada, 58% dos americanos apoiam a legalização e apenas 39% são contrários.

Revólveres e sangue

Este processo tornou possível o que eu vi aqui em Denver. Era parte de um evento que reuniu funcionários do estado do Colorado e do Uruguai – que está prestes a regulamentar o uso recreativo- para a troca de experiências e ideias sobre a implementação do modelo.

As apresentações dos funcionários do governo do estado do Colorado, mostrando uma tecnologia avançada para calcular o número de plantas, controlar a produção e cobrar impostos foi impressionante. Mas, para mim, o mais curioso era entrar por aqueles corredores, escaninhos, máquina de Xerox e ver a placa do setor daquela repartição: “Medical Marijuana Enforcement Division”. Isso mesmo. A telefonista atendia o telefone assim: “Marijuana Enforcement Division, good morning”. A maconha não era um problema de polícia. Era uma questão de política pública.

Isso ficou ainda mais claro na apresentação da responsável pela área de prevenção. A funcionária nos explicou que eles tinham dados de que as campanhas feitas na base do medo não funcionam com jovens (aqui nos EUA tinha uma famosa na qual mostravam um ovo fritando e dizia: “este é o seu cérebro quando você usa drogas”). Mas aquelas que mostram dados reais, que valorizam e informam a escolha do jovem sobre o tema, têm um efeito muito maior. Ela nos disse que, com o fim da proibição – mesmo que a proibição se mantenha para menores de idade– eles vão poder fazer campanhas de prevenção mais eficientes e tem a expectativa de que caia o consumo entre adolescentes.

Se isso tudo já apontava que um caminho mais inteligente para lidar com esse tema parece ser possível. O grande choque veio com a visita que fizemos à Live Well. Uma enorme fábrica de produção de maconha.

Um galpão de 11.000 m2. Com 80.000 plantas adultas e uma produção de 1 tonelada por mês –um quarto da produção autorizada no estado. 300 funcionários trabalhando. Em janeiro serão 430. Por mais que eu já tenha lido e estudado muito sobre o assunto, é muito diferente quando você vê aquilo materializado na sua frente.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi a ideia de que, no Brasil, este mesmo processo produtivo utiliza as mesmas centenas de pessoas (talvez até mais) – algumas no Paraguai- mas elas não tem carteira assinada. Têm revólveres. Têm uma expectativa de vida de menos de 25 anos. Alimentam uma história de violência que mancha de sangue a história recente do Brasil.

Fiquei me imaginando um jovem vindo do Brasil escravagista. Chegando a um pais que tinha a capacidade de se desenvolver economicamente sem a escravidão e pensando: “nossa, é possível um mundo sem escravidão”. Tenho poucas dúvidas de que no future se olhará para a guerra às drogas como hoje olha para a escravidão. Com uma vergonha dos antepassados. “Como foi possível terem aceitado isso?”

A regulamentação do uso recreativo apresenta desafios enormes. Evitar os erros que nossa sociedade comete com o álcool é o maior deles (nenhum dos modelo que estão sendo colocados em pratica aceita o consumo público ou a propaganda de maconha). Mas já sabemos que o modelo criminalizador que vigora atualmente não consegue reduzir o consumo, cuidar da saúde das pessoas e produz mortes em séries e cárceres superlotados.

Sou e serei sempre grato a esses pioneiros do Colorado, de Washington e, em breve do Uruguai, por abrirem o caminho para que possamos saber se há alternativas melhores para o nosso futuro. Aqui eu vi apenas a primeira página deste livro. E ela me pareceu ser muito melhor do que a tragédia na qual temos vivido no último meio século.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 31/Oct/2013 às 13:09

    Eu acho uma babaquice a proibição da plantação de maconha. Se cada maconheiro tivesse o seu pezinho no quintal, reduziria o tráfico e consequentemente a criminalidade.

    • Marcelo Postado em 31/Oct/2013 às 13:37

      Agora os EUA são os pioneiros na descriminalização da maconha? Achei que isso já existe há anos em países como Holanda (só para citar um exemplo). O qual, aliás, até bem pouco tempo, era criticado pelos grandes centros de poder, neles inclusos os EUA. No mais, não acho que a descriminalização da maconha e outras drogas seria a solução de outros crimes; até porque com a legalização surgem impostos e, com eles, a fabricação paralela que venderá produtos mais barato ou com qualidade diferenciada (como ocorre com os cigarros paraguaios - constantemente contrabandeados para solo brasileiro). O que quero dizer e que o debate é muito mais complexo que a liberação da plantação e a criação de fábricas. Fico imaginando, a "Santa Cruz Cannabis" e a "Fulano ex-traficante" cannabis; quem se manterá no mercado legal?

      • Thiago Teixeira Postado em 31/Oct/2013 às 20:58

        Eu sei Marcelo que sempre existirá o mercado paralelo e crimes afins, mas estou falando da plantação. Tipo, erva cidreira. Tem patente para a erva cidreira? Se você tiver num vaso, você corta e faz um chá. É isso que estou falando, o direito da pessoa plantar num vaso e curtir o seu barato. Não fumo maconha, não suporto o cheiro, mas defendo o livre arbítrio.

      • Aken Postado em 01/Nov/2013 às 00:46

        Marcelos, os EUA são pioneiros no que toca a descriminalização do uso medicinal. Na Holanda, é meramente recreativo. Eu também não acho que só a legalização da maconha, e porque não as outras drogas, acabará com todo o crime organizado, mas com certeza o enfraquecerá, além de que tirará inúmeras pessoas que querem fumar seu baseado da condição de infratores da lei. É um outro olhar sobre uma política que não funcionou. A redução da criminalidade se dará também com diversas outras políticas de educação, saúde e distribuição de renda, que hoje são muito carentes, mas já seguem um caminho positivo, se analisarmos a história do Brasil.

  2. Renato D. Postado em 31/Oct/2013 às 13:12

    Enquanto isso, no Brasil, eu pago imposto pra ver a polícia prender usuário e ir atrás de agricultor consciente que cultiva pra não financiar o derramamento de sangue causado pelo tráfico. E o pior é ver que a galera aqui ainda é muuuito alienada, bebem álcool que nem água e aceitam ser estuprados com propaganda massiva de cerveja, acham lindo e não tem a menor noção de que esse lixo é infinitamente mais nocivo/tóxico do que a planta. Além de não ter graça e deixar a pessoa violenta, exatamente o contrário do que a ganja faz. Mas foda-se a lógica né.

  3. Gabriel Postado em 31/Oct/2013 às 13:32

    Não sou contra legalizarem a maconha, mas é muito claro no discurso que existe uma forçação de barra gigantesca, como se a legalização fosse praticamente a resolução dos problemas do tráfico e muitos medicinais. Penso que a discussão não é por aí, mas sim em tentar incutir a consciência de cada um no tocante ao consumo ou não.

  4. Paulo Postado em 31/Oct/2013 às 14:27

    Moro no Brasil desde que nasci há 33 anos, sou usuário de cannabis desde os 15 anos. Terminei o 2ª grau entre os melhores alunos da escola, passei no vestibular em uma universidade publica no meio do 3º colegial sendo usuário diário da cannabis. Faço o uso à noite, depois de todas as minhas atribuições cumpridas, depois que meus 2 filhos já estão alimentados, banhados e dormindo, no intuito de relaxar ter uma noite de sono plena, pois é esse o efeito que a cannabis me traz. Como usuário, infelizmente me encontro em uma situação que se assemelha à de toda população de usuários de cannabis no Brasil: por ser proibido e criminalizado tanto o plantio quanto a comercialização, somo obrigados comprar a cannabis de pessoas que mesmo que não queiram estão relacionadas ao tráfico. Compramos e usamos ervas das mais variadas qualidade( ruins normalmente) que não sabemos o quanto de veneno possuem, como foram transportadas e armazenadas e tbm o quanto de "sangue derramado" pode ter envolvido nesse caminho que elas percorrem até chegarem às nossas mãos. Me sinto mal por isso, não por ser usuário de uma planta milenar, mas por ter que fazer parte desse mercado ilícito, mesmo que apenas como usuário Será que um dia teremos o DIREITO de plantarmos a nossa própria planta no fundo de casa? Meus caros, é apenas uma planta, que possúi incontáveis utilizações seja no uso medicinal, epiritual ou industrial, a cannabis tem incontáveis aplicações. e que em grande parte destas é muito mais eficiente que os produtos similares encontrados no mercado e que são lícitos. Como exemplo cito: as fibras encontrados no caule da cannabis podem substituir as fibras do algodão, sendo muito mais longas e resistentes que as fibras deste último. A celulose que se obtem em 1 hectare de cannabis pode ser até 10 vezes maior que a obtida no mesmo hectare plantado em pinus. O óleo extraido das semente é rico em propriedades minerais e nutritivas e pode ser usado tanto como biocombustíveis como na alimentação. Existem diversas publicações sobre o assunto mas que infelizmente ainda não são de conhecimento da ampla maioria das pessoas, sejam elas usuárias ou não. No dia que tivermos um país com cidadãos que tenham um melhor nível de educação e cultura, com políticos que estejam extritamente preocupados com as demandas e problemas da nacão ; e não apenas com seus problemas politico-partidários das esferas de poder; e que a justiça não seja complacente com o sentimento de imunidade vigente talvez tenhamos a possibilidade de atingirmos esse futuro que tanto o estado do Colorado quanto o do Washington e em breve o Uruguai já disfrutam, trocando corrupção, armas, tráfico e cadeias superlotadas por postos de trabalho nessa indústria que tenho certeza: È A INDÙSTRIA DO FUTURO. Desejo Paz em meio à realidade nacional, onde o crime organizado é mais eficiente que os governos, onde a contabilidade criativa faz com que as contas do governo fechem , onde uma das únicas coisas eficientes e que batem récordes mês-a-mês é a arrecadação de impóstos, onde bandidos das mais variadas estirpes saem pela porta da frente das cadeias por não terem sido presos em flagrante delito mesmo sendo réus confessos. O que nos resta é buscar a paz interior.

    • Thiago Teixeira Postado em 31/Oct/2013 às 21:02

      Cara, sua história é parecida com a do meu velho, ele fuma até hoje, aos 65 anos, de forma sagrada o seu "beck" no final da noite. E nunca incentivou eu ou minha irmã de usar, muito pelo contrário!

      • Paulo Postado em 01/Nov/2013 às 09:55

        Fala Thiago, infelizmente somos colocados à margem no tocante a esse assunto, eu sinceramente espero que no novo código penal não sejam vetados os artigos que tratam do assunto. Espero que sigamos o caiminho do Uruguai, e não só no que diz respeito ao uso medicinal e recreativo mas principalmente ao uso industrial da cannabis. Só pra reforçar, eu também tenhos alguns amigos que passaram da casa dos 80 anos que ainda fumam diariamente, os amigos que teem mais de 50 anos e que usam a cannabis diariamente também são muitos. Agora você se imagine nessa idade tendo que se expor às mais variadas formas de crime e violência pra adquirir a sua erva. Pois é isso que acontece por aqui, os USUÀRIOS estão à mercê do crime para que possam fumar o seu baseado, seja para relaxar antes de dormir ou para escutar uma boa musica ou para ter um papo cabeça com pessoas que vc estima e até mesmo nas aplicações medicinais inexistentes por aqui. Paz!

      • Thiago Teixeira Postado em 01/Nov/2013 às 13:40

        Pode crê! Quanto ajuntava o velho, meu tio (irmão dele de 67 anos) e a galera da PUC 1975 é só classiqueira no vinil: Rollings Stones, Elvis, Beatles, Yes ... embora os papos são longe de ser cabeças, kkkkkkkkk.

  5. Paulo Postado em 31/Oct/2013 às 14:30

    È por isso que estou me mudando pra lá

  6. luiz carlos ubaldo Postado em 31/Oct/2013 às 14:52

    Legalizada ou não a maconha é um barato só, nunca vi ninguém em comunidade terapêutica por fumar a canabis nem envolvido em brigas ou acidentes automobilisticos, todos que gostam de um back são do bem, ao contrario do alcool que causa tanta dôr e prejuizo e ninguém fala em proibir será porque?

  7. renato Postado em 31/Oct/2013 às 15:47

    Quem disse que não é liberado!!!!! Alguém deixa de fumar maconha por causa do preço, ou dificuldade de encontrar? Alguém está preocupado com os garotos que vendem maconha nos sinaleiros? Ou o diabo que valha, para conseguir um tantote nas festas de final de semana? O cara que fuma maconha, bebe, usa outras drogas se um dia lhe oferecerem, se prostitui, solta a bagaça, para não dizer outra coisa. Porque onde ele arruma a maconha não é na igreja, nem no céu. E eu quero ver, o cara, que é médico ou advogado dizer quando fixar que ele usa um baseado ou dois antes de cada trabalho. Agora imagina o cara dizer que é gay, negro, e usa maconha. E se for Negro, gay, usa maconha porque esta com cancer, e dói muito. Se você se revoltar, aclame-se fume um baseado forte.

  8. Jaqueline Postado em 01/Nov/2013 às 16:58

    Alguém aí já assistiu o documentário "Cortina de fumaça" assistam, é muito esclarecedor. Sou a favor da descriminalização e da legalização pois somos donos e donas do nosso próprio corpo. Sou contrária ao uso por adolescentes que ainda estão em formação.