Redação Pragmatismo
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Aborto 17/Oct/2013 às 16:04
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A exposição sobre o aborto que chocou a Argentina

Exposição tenta pôr tabu do aborto em debate na Argentina. Apesar de proibido, cerca de 500 mil mulheres praticam o aborto ilegalmente a cada ano no país. Três fotógrafas, uma alemã, uma francesa e uma argentina, querem, com uma mostra, estimular a discussão sobre o tema

projeto aborto argentina
“Tirem seus rosários dos ovários”: a exposição sobre o aborto que está chacoalhando a Argentina (Divulgação)

“O aborto pertence à ilegalidade na vida cotidiana argentina”, diz a fotógrafa Lisa Franz. A alemã de 34 anos vive e trabalha em Buenos Aires. Ao lado da argentina Guadalupe Goméz Verdi e da francesa Léa Meurice, ela é responsável pelo projeto 11 Semanas, 23 Horas e 59 minutos, que trata do aborto ilegal na Argentina. O projeto fotográfico conta histórias pessoais de mulheres e casais, mas também de ativistas e médicos que lutam pelo aborto legal irrestrito, aconselham e ajudam as pessoas atingidas por uma gravidez indesejada.

“Para nós, era importante não retratar as mulheres como vítimas, mas trabalhar em conjunto com elas nas fotos. Queríamos mostrar muita pele, corpo, naturalidade e a liberdade, de escolher se você quer ou não ser mãe”, diz Franz. Apesar da proibição, de acordo com números do Ministério da Saúde argentino, cerca de 500 mil mulheres fazem aborto a cada ano, em uma população de 40 milhões de habitantes.

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O tema é sensível, diz Lisa Franz. Ela lembra que, apesar de a Argentina gostar de se mostrar como país modelo na América Latina na questão de igualdade de direitos, o machismo ainda é profundamente enraizado na sociedade, como em outros países da região: “O que conta não é a vida da mulher, mas sua função como mãe”, explica.

Sua barriga é nossa

Algumas semanas depois do início da exposição, mais de 20 pessoas mascaradas, com caixas de som tocando o Hino Nacional argentino ou Ave Maria, protestaram em frente ao local da mostra em Buenos Aires. O grupo era composto, em sua maioria, por homens que gritavam: “Feministas na fogueira!”. Eles também insultaram as fotógrafas Lisa Franz e Léa Meurice: “Fora com as estrangeiras que querem matar bebês argentinos!”.

Apesar de o protesto ter sido seguido por um pequeno grupo de fanáticos críticos ao aborto, a pressão de católicos e conservadores impede um debate mais abrangente na sociedade. “A escolha do argentino Jorge Bergoglio como Papa tornou a situação ainda mais difícil”, opina Lisa Franz.

A presidente argentina, Cristina Kirchner, mostra pouco interesse em participar do polêmico debate – especialmente antes das eleições, acredita Mariela Belski, da Anistia Internacional. “O governo Kirchner tem a maioria no Congresso, mas mesmo assim, o tema não está em pauta. Essa é uma questão que pode ter custos políticos, já que o debate carrega enorme diferença de opiniões”. A Anistia Internacional argentina foca em campanhas educativas. “Não é uma opinião pessoal ou de crenças. Essa é uma das mais importantes questões de saúde pública e da vida das mulheres”. Uma vez que o Estado se priva de sua responsabilidade, creem as três fotógrafas.

“A questão também é financeira. Legalizar o aborto traria enormes custos para o sistema de saúde pública”, diz o médico Germán Cardoso, que também foi fotografado para o projeto. Ele mesmo realiza abortos, ilegalmente, por convicção, e, como ele afirma, mediante pagamento baseado na renda da paciente, mas que não passa de 3.500 pesos (cerca de 450 euros).

Avanços no continente

Outros médicos cobram até dez vezes esse valor, afirma Cardoso. “A proibição não impede que as mulheres façam o aborto. Em desespero, elas pagam somas exorbitantes, quem não pode pagar recorre a leigos ou usa as próprias mãos – muitas vezes com consequências fatais”.

Segundo a Anistia Internacional, acontecem complicações em entre 60 e 80 mil abortos ilegais realizados por amadores, sendo que cerca de cem deles terminam com a morte da mulher.

“Tirem seus rosários de nossos ovários”, pedem as defensoras do aborto em outros países da América Latina. No Chile, na Nicarágua e em El Salvador, o aborto é estritamente proibido e é punível. Em outros países da região, no entanto, a situação legal melhorou. No Uruguai, em Cuba e no México, o aborto passou a ser permitido até a décima segunda semana de gestação. No Brasil, na Colômbia e, desde setembro de 2012 também na Argentina, o aborto é permitido em caso de estupro ou se a gravidez traz risco de vida ou de saúde para a mulher.

Ironicamente, o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, considerou a reforma inconstitucional e tentou vetá-la – sem sucesso. O Supremo Tribunal Federal a aprovou. No entanto, o governo municipal tentou, repetidamente, colocar obstáculos em sua implementação até hoje, criticam defensores dos direitos civis e os partidos de esquerda.

“Não somos políticas, somo artistas e queremos com nossas fotos quebrar o silêncio sobre esse tabu, que afeta milhões de mulheres em todo o mundo”, diz Franz. A iniciativa deu resultado, já que a exposição teve uma enorme repercussão na mídia. O projeto faz parte da campanha Meu Corpo, Meu Direito, da Anistia Internacional e está passando por diversas províncias argentinas.

A alemã espera poder levar o projeto à Europa, onde o debate sobre o aborto voltou a gerar controvérsia: o conservador governo espanhol quer reforçar suas leis contra a interrupção da gravidez. Já na Itália, o número de médicos que se recusam a praticar o aborto cresceu.

Deustche Welle

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Comentários

  1. Alexandre Lopes Postado em 18/Oct/2013 às 09:28

    Ao dar uma conotação científica a uma questão eminentemente moral , pessoas , como líderes religiosos , provam , mais uma vez , a sua pródiga desonestidade intelectual, aproveitando-se da ignorância do rebanho de gado grosso . Tratar uma vida em potência, a qual é inteiramente subordinada à mulher e com um enorme ônus de cunho fisiológico e psicológico para a mesma, como uma vida autônoma é destruir a racionalidade , o rigor analítico e dar prevalência a uma posição autoritária . O ônus da proibição cabe a quem proibi . Qual é , portanto , a razão do Estado para criminalizar essa conduta se essa vida em potência é radicalmente distinta de vidas autônomas ? Vejam , então , que debaixo desse contorno jurídico, resta tão somente um argumento moral de viés escandalosamente religioso . Aí eu pergunto : " MAS O ESTADO NÃO É LAICO ? " ... infelizmente, ainda estamos com um pé na idade média .

    • sofia Postado em 18/Oct/2013 às 09:54

      Concorde em genero,numéro e grau.

    • Carlos Postado em 20/Oct/2013 às 15:37

      Não se deve olhar por um carácter cientifico? É realmente apenas moral? Mas não é com isto que a religião se preocupa, dentre outras coisas? Num estado laico religiões e religiosos não tem voz? É este o nível de autoritarismo da "democracia ocidental"? E qual o problema de se assemelhar com o que imaginamos da idade média? É apenas uma preconceituosa falacia ad novitatem?

      • Alexandre Lopes Postado em 20/Oct/2013 às 18:03

        Carlos, eminentemente quer dizer superiormente e não exclusivamente ou apenas . De fato, é predominantemente moral a questão . O viés científico deve ser apenas um mecanismo de dar prevalência à liberdade moral da mulher. Acho que ,numa Democracia, todos devem ter voz. Acontece que , em muitos casos, os homens do cristianismo quer que a deles seja mais alta do que as demais; portanto , é esse sim o nível de autoritarismo da Democracia ocidental contaminada pelo fundamentalismo, e o Brasil não é uma exceção . Em relação à semelhança com a idade média, acho que há muitos problemas sim nessa similitude, já que devemos andar para frente e não para trás, sob pena de perpetuarmos modelos comportamentais arqueológicos, o que , evidentemente , está na contramão com a principal posição ontológica do homem. Acho que é legítima a preocupação da religião com essa questão, desde que ela não influa, nitidamente , na lei positiva com suas posições, o que vai de encontro ao princípio laicidade do Estado .

  2. Victoria Postado em 18/Oct/2013 às 23:31

    O grande problema da descriminalização do aborto é este virar um "método contraceptivo". A descriminalização até a 12 semana deve vir acompanhada do cumprimento da lei de planejamento familiar. Conscientizando a população a usar preservativos e demais métodos, o aborto pode ser desnecessário. Claro que ninguém é "a favor do aborto", mas sim "a favor da descriminalização do aborto". Infelizmente, quem sofre é sempre a mulher pobre, é ela que é denunciada pelo médico ou hospital, quando procura atendimento por causa de um aborto mal sucedido. A mulher das classes média e alta abortam com segurança em clínicas bem equipadas e com profissionais qualificados. Eu, pessoalmente, em geral não faria [não por questões religiosas-sou atéia], mas isso não quer dizer que eu seja contra que outra mulher, que sentir necessidade, o faça.

  3. gustavo Postado em 20/Oct/2013 às 13:00

    A verdade é que essa ideia de que todo mundo ia começar a abortar não se mostrou verdadeira em nenhum país que legalizou o aborto, o que acontece é que o número de mulheres que morrem fazendo abortos fica próximo de zero :-)

  4. Marcos Postado em 22/Oct/2013 às 23:18

    Salvar cachorros todo mundo quer, matar crianças todo mundo quer também, muito interessante como vcs "revolucionários" de facebook pensam ou melhor não pensam.

    • CCCL Postado em 23/Oct/2013 às 15:59

      Caro Marcos, o que significa pensar pra você? É fazer tudo que seu mestre (homem, é claro) mandar? É todas as mulheres fazerem o que VOCÊ acha certo? Sinto muito, isso não é pensar, isso é ser BURRO mesmo. Já que você é contra o aborto, por que não faz campanha para que homens usem camisinha, façam vasectomia, sejam menos promíscuos (primeira reclamação que fazem para a mulher), se deem mais ao respeito, assumam a paternidade?

    • Ana Paula Postado em 24/Oct/2013 às 23:12

      Não se trata de matar crianças a torto e a direito - incrível como tanta gente pensa assim! - só é estranho (e até mesmo inconstitucional) o Estado ter o poder de regular o que a mulher pode ou não fazer com o próprio corpo. A decisão é dela. A medida não visa à diminuição da taxa de natalidade, ou, como você citou, "matar crianças". É pura e simplesmente evitar que milhões de mulheres morram por tentativas fracassadas de abortar - por inúmeras razões as quais não cabe a nós julgar - garantindo a autonomia sobre o próprio corpo e sobre a própria vida.