Redação Pragmatismo
Compartilhar
Saúde 05/Sep/2013 às 14:21
6
Comentários
O Dia

Médicos recebem 16 mil mas não aparecem em hospital público

Procura-se: Médicos 'fogem' de expediente em hospital público onde têm salários de até R$ 16 mil

A face oculta do Hospital Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, ganha contornos e vida nas clínicas particulares. Praticamente desaparecidos da emergência e dos ambulatórios, onde deveriam trabalhar todas as semanas, um grupo de médicos e enfermeiros raramente é visto atendendo no hospital. Passa o dia no corre-corre para cumprir a extensa agenda de clientes exigentes nas Zonas Sul e Oeste.

médicos hospital cardoso pontes
Médicos deveriam estar no Cardoso Fontes, onde têm salários de até R$ 16 mil, mas quase não vão ao hospital público

No Rio, 88 médicos estrangeiros — nenhum cubano — entram nesta quarta-feira no terceiro dia de avaliação do Programa Mais Médicos, no Centro Cultural Banco do Brasil. As aulas são de saúde pública brasileira e Língua Portuguesa. Eles não escondem a ansiedade.

Já no Cardoso Fontes, o urologista André Guilherme Lagreca da Costa Cavalcanti é exemplo do quanto é importante aparecer: no dia 28 de junho atendeu 36 pessoas que esperavam no ambulatório. Foi a única vez naquele mês que os pacientes viram o médico no hospital. No estado, serão contratados 70 médicos, 10 deles estrangeiros, para trabalhar em 14 municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Itaguaí, Japeri, Mesquita, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, Rio, São Gonçalo, São João de Meriti e Seropédica.

Leia Também: Reportagem flagra descaso médico repugnante na rede pública

André Cavalcanti é referência no Rio na reprodução humana. Além do contrato de 20 horas semanais com o Ministério da Saúde, é professor da UniRio — 40 horas por semana — e passa a maior parte do tempo nos consultórios da Barra e de Copacabana.

Sem contar o extra, às sextas-feiras, no centro de fertilização da Rede D’Or, onde a consulta custa R$ 400. Na saúde pública, o médico ganha R$ 9 mil por mês.

Outra médica com a agenda lotada é Mauricea de Santanna. De segunda a sexta-feira, ela atende, das 13h às 19h, na empresa Sansim, que presta serviço à fábrica de lubrificantes da Petrobras Distribuidora, em Duque de Caxias. A hora da saída é exatamente a mesma que deveria entrar no plantão da enfermagem do Hospital Cardoso Fontes.

Mas os engarrafamentos na longa viagem de 50 quilômetros entre Campos Elísios e Jacarepaguá devem impedir Mauricea de chegar no hospital. Seus colegas mais novos não a conhecem.

Os antigos se assustam quando alguém tenta saber dela. Terças, quartas e sábados, novamente na função de médica, ela atende no consultório particular, em Madureira. No Cardoso Fontes, sua carga é de 40 horas por semana e o salário, R$ 8 mil.

Quem também atende na Zona Oeste, só que duas vezes por semana, é a ginecologista Magali Luppo Cordeiro. Médica com status de chefia no Cardoso Fontes, ela tem duas matrículas no Ministério da Saúde e total de 60 horas semanais — ou 12 horas por dia, já que não trabalha nos fins de semana.

Leia também

Com a agenda no consultório particular, fica difícil atender nos dois lugares. No Cardoso Fontes, Magali recebe, por mês, R$ 16 mil.

Especialistas ilustres que nunca estão disponíveis

A escala de médicos do Hospital Cardoso Fontes tem nomes ilustres, mas pessoas desconhecidas dos pacientes. Um deles é o do geriatra Paulo Roberto Fernandes, diretor da unidade até outubro.

A agenda de atendimento dele é mistério: fica trancada na mesa da enfermeira Vera Lúcia e ninguém consegue marcar uma consulta com o profissional — reconhecido como um dos melhores geriatras e ginecologistas do Cardoso Fontes, onde deveria trabalhar 40 horas por semana para ganhar R$ 11 mil.

A desculpa é a mesma na hora de marcar a consulta: “Não há vaga e nem previsão” de quando o médico estará disponível. Durante a semana, na sala onde atendem os ginecologistas, nem sinal de Fernandes. Se alguém quiser vê-lo, é só ir às terças, quartas e quintas-feira a seu consultório, na Barra.

Outro desaparecido do Cardoso Fontes é o ex-diretor do hospital, o oncologista José Francisco Ferrão. Seu salário, pago pelo Ministério da Saúde, está à altura do prestígio profissional: quase R$ 16 mil. Mas os pacientes da unidade — centro de referência para tratamento de câncer — não conseguem consulta.

O nome do médico não aparece nem entre os servidores do hospital. Mas é fácil achar o doutor Ferrão. Sete quilômetros é a distância até sua clínica particular, no bairro da Taquara, também em Jacarepaguá. Mas há uma condição para ser atendido: pagar R$ 150 pela consulta.

João Antonio Barros e Francisco Edson Alves, O Dia

Tags

Recomendados para você

Comentários

  1. renato Postado em 05/Sep/2013 às 15:55

    Policia Federal, no caso, deviam fazer um esquadrão só para este tipo de atendimento. Estas pessoa emporcalham a profissão divina que é a de médico. Cadeia e devolução e apropriação de bens, retornando para os hospitais, e postos de saúde. Tenho até medo de um profissional desses, ser alvo de alguma milicia ou vingança.

  2. poisé Postado em 05/Sep/2013 às 16:18

    Cadeia pra médico inescrupuloso, culpa do Conselho de medicina que blinda esses cretinos.

  3. José Maria Gurgel Postado em 05/Sep/2013 às 17:18

    Esses médicos irresponsáveis deveriam ser substituídos por médicos do Programa "Mais Médicos" pois a carência onde eles atuam, é evidente, gente sem atendimento médico da mesma forma que nos lugares carentes e distantes.

  4. José Pedro Mendonça Postado em 05/Sep/2013 às 22:15

    Não custa comentar... Para quem não se informa, o SUS tem legislação específica. Saibam que no SUS, o chefe é o prefeito, e se esse delega a tarefa à alguma instituição, transfere essa responsabilidade. Claro que está totalmente inadequado o fato que aqui ocorre, e não quero defender esses medicos que nos envergonham. Mas, antes de mais nada, quem deve responder por isso é o responsável tecnico. RESPONSABILIDADE NAO É O FORTE DO BRASILEIRO. Se um funcionário não se adequa, cabe ao prefeito ou seu substituto demiti-lo por justa causa. Por qual motivo isso não ocorre? Por que não dão essa vaga para quem realmente quer trabalhar - no Rio está sobrando profissional moral (não os capachos), ao contrario do que alega o governo.

  5. Vinicius Brand Postado em 06/Sep/2013 às 11:37

    Estes médicos tem que ser presos e ter o registro cassado.

  6. Rogério Postado em 07/Sep/2013 às 11:20

    Dizem que os médicos cubanos fogem da ditadura. Brasileiros fogem do trabalho.