Redação Pragmatismo
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Mulheres violadas 06/Sep/2013 às 11:57
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O julgamento da banda New Hit, acusados de estupro coletivo

Caso New Hit: duas garotas estupradas por oito homens e o silêncio na mídia. No Brasil, apenas 2% dos agressores sexuais são condenados e presos

Jarid Arraes, Questão de Gênero

A grande mídia televisiva tem um modus operandi bastante perverso quando se trata de promover sensacionalismo; por isso, nem sempre essa é a melhor forma de ficar a par das últimas notícias. Enquanto todo o foco das atenções é direcionado para casos das regiões Sudeste e Sul, temas e situações extremamente pertinentes para o povo brasileiro são deixados de lado.

Um exemplo dessa seletividade excludente é o caso das duas adolescentes que foram estupradas pelos 8 integrantes da banda New Hit, em Ruy Barbosa, Bahia. Há mais de um ano os estupradores permanecem impunes, mesmo após todo tipo de averiguação e análises de DNA, que atestam que o sêmen encontrado nas vítimas pertence a seis deles e comprovam a participação dos outros dois. As meninas de 16 anos, que entraram no ônibus do grupo para pedir autógrafos, foram estupradas em turnos enquanto um PM estava do lado de fora do ônibus e garantia que ninguém interrompesse. Como se não bastasse esse cenário, que já é um horror para qualquer mulher, os membros da banda ainda criaram uma nova música com uma letra intimidadora e as garotas passaram a receber ameaças de morte.

estupro banda new hit julgamento
Shows da banda New Hit se multiplicaram, enquanto vítimas precisam de proteção policial (Divulgação)

Enquanto as duas garotas precisaram recorrer a proteção policial para terem um pouco de segurança, os shows da banda New Hit se multiplicaram. Vários grupos feministas em todo o país, como por exemplo o Núcleo Negra Zeferina, sempre presente nos protestos e campanhas de conscientização, pressionaram casas de eventos a cancelarem contratos com a banda. Mas apesar de todos os esforços, desde o registro da ocorrência há mais de um ano, o julgamento já foi adiado duas vezes. Na última terça-feira o julgamento teve início e a defesa dos músicos foi novamente vitoriosa em adiá-lo para os dias 17, 18 e 19 desse mês. Mesmo com todo esse infindável drama e dificuldade judicial, e apesar do nível hediondo do crime, a grande mídia continua não dando atenção para o caso.

Quando o assunto é estupro, a cobertura jornalística é bastante uniforme: há muitas insinuações a respeito do caráter das mulheres estupradas, sempre abordando o tema como se tudo não passasse de fantasia e invenção da vítima, sem qualquer compromisso em facilitar um debate sério e efetivo sobre o problema. Há muita misoginia em nossa cultura e, ao contrário do que o senso comum prega, o jornalismo não é uma entidade imparcial e imune aos valores culturais da sociedade. Portanto, jornalistas também reproduzem e naturalizam idéias e atitudes machistas. É muito difícil encontrar profissionais empáticos no meio jornalista e os crimes sexuais são sempre encarados com muita naturalidade.

Mesmo que a mídia pareça repudiar tão veementemente casos de abuso sexual contra menores de idade, não há real esforço em levar o crime da banda New Hit ao conhecimento da população. É notável que as vítimas não são da elite do sudeste, mas sim garotas simples do interior da Bahia, no Nordeste do Brasil, e não há glamour em armar um sensacionalismo ao redor do caso. Não é absurdo perceber o elitismo midiático, que se junta à misoginia para omitir crimes de forma assustadora e quase inacreditável.

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É muito preocupante pensar que um estupro coletivo de duas garotas menores de idade, cometido por oito homens e com a ajuda de um Policial Militar, não cause choque. Os estupradores continuam livres, fazendo shows em ambientes lotados de outras adolescentes, e ninguém parece se perturbar com a possibilidade de mais moças serem estupradas. Não é preciso ser grande entendedor da Lei para concluir que homens que estupram seguidamente duas adolescentes são um grupo perigoso que precisa ser detido. Mas a realidade é que quando as vítimas tomam coragem para denunciar seus agressores, além de desacreditadas, precisam lidar com a omissão da justiça.

Apesar da grande responsabilidade que a mídia tem por essa falta de atenção ao crime, não seria correto achar que o problema é culpa exclusiva dos jornalistas. A reprodução da misoginia e do ódio ao feminino, visualizando mulheres sempre como “piriguetes”, “vadias” e “estupráveis”, não é exclusividade dos meios midiáticos. Esses valores são uma parte vergonhosa, mas inegável da cultura brasileira. Os pensamentos de que algumas mulheres valem mais que outras, que certos tipos de roupa provocam estupro e que a culpa pelo estupro é da vítima são as causas desse tipo de quadro assustador.

Não adianta considerar o caso das garotas de Ruy Barbosa como algo isolado. O estupro é uma ocorrência social profundamente enraizada em nossa cultura. Não é verdade que todos estupradores são sociopatas que atacam desconhecidas em becos escuros: pelo contrário, denúncias mostram que a maioria dos estupradores são pessoas comuns, como pais, tios, irmãos, namorados, amigos… e músicos. Os integrantes da New Hit são considerados homens comuns, mas são admirados, e a intensidade do crime cometido é severamente reduzida ou até mesmo ignorada.

É preciso falar mais sobre os estupradores da banda New Hit em apoio as duas vítimas, para gerar mais pressão popular e para que o crime jamais seja esquecido. Façamos o julgamento ocorrer o quanto antes e com justiça, em solidariedade às garotas e às milhares de mulheres que são estupradas todos os dias em situações comuns. Enquanto mulheres forem encaradas como presas sexuais, sem o direito de dizer não, a impunidade permanecerá em casos de estupro. Somente ao levantarmos a voz será possível alguma transformação relevante em nossa sociedade.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 06/Sep/2013 às 12:30

    Que graça tem fazer amor com uma mulher de maneira forçada? Estupro é crime hediondo, a pena para esse ato deveria ser "estupro" coletivo em praça pública com barras de ferro.

    • Carlos Augusto Bonierski Postado em 06/Sep/2013 às 15:07

      Fazer Amor de maneira forçada? Como é que é?!

      • renato Postado em 09/Sep/2013 às 20:01

        Calma Carlos, calma. O Thiago só esta tentando lidar com as palavras.

      • Guilherme Postado em 10/Sep/2013 às 11:47

        é q ele não queria ser grosseiro por usar a palavra trepar ou outra pior.

      • Thiago Teixeira Postado em 14/Sep/2013 às 08:06

        Fudê então, tá satisfeito?

  2. José Ferreira Postado em 06/Sep/2013 às 13:25

    É isso aí "mano"... Tem que colocar essas pessoas no tronco e meter a chibata... Assim elas aprendem a não ficar abusando pessoas por aí.

  3. assis oliveira Postado em 06/Sep/2013 às 13:37

    Apenas um comentário para um assunto de tão vital importância. fato que reforça a verdade do que foi escrito

    • renato Postado em 09/Sep/2013 às 20:02

      Verdade!

  4. Matheus Postado em 06/Sep/2013 às 14:33

    Estupro não é "fazer amor", é uma demonstração de poder. Além disso, não é muito coerente punir o estupro com outro estupro, é? É claro que quem estupra deve ser condenado, mas mais do que punição, deve haver uma reabilitação.

    • José Ferreira Postado em 06/Sep/2013 às 22:54

      Reabilitação? Você diz isso porque não é a sua irmã... Felizmente não ocorreu isso com a minha, mas repito que eles devem ser colocados no tronco e levar muitas chibatadas e pauladas. Depois pode capar e dar o "pigulim" pro gato comer... Se bem que é melhor incinerar, pois isso é crueldade com os animais...

    • Anonimo Postado em 10/Sep/2013 às 20:09

      Acredito em reabilitação quando o caso se trata de um crime de desespero ou condicionado. Como um ladrão batendo carteira, um adolescente sem acesso à informação e sem uma formação decente fazendo parte do tráfico de drogas, um crime passional, ou coisa do gênero. Agora, um "artista" famoso cometendo uma das piores torturas possíveis contra uma mulher, simplesmente do nada, vem puramente da crueldade do mesmo. Assim sendo, na minha opinião pode matar, que vai tornar o mundo um lugar melhor.

  5. Patricia Postado em 06/Sep/2013 às 15:20

    q absurdo... no final das contas vao acabar dizendo q a culpa é da menina que foi pedir o autógrafo!!

  6. Larissa Ankhinh Postado em 06/Sep/2013 às 16:04

    Nojo da mídia hipócrita, da sociedade machista, preconceituosa e religiosa. Enquanto a mulher for tratada como objeto, infelizmente, casos como esses serão banalizados. Precisamos mudar a estrutura cultural que nos impõe valores e ditam regras sobre nossos corpos e comportamentos.

  7. Andréa Postado em 06/Sep/2013 às 16:52

    ??????

    • renato Postado em 09/Sep/2013 às 20:03

      !!!!!!!!!!!,,,,,,,,,,,,**********

  8. Suzana Postado em 06/Sep/2013 às 17:04

    Aqui em Salvador, ameaçamos qualquer empresa de boicote caso venham patrocinar algum evento que conte com a presença desses elementos. Simplesmente cancelam os patrocínios, dando nota explicativa nas emissoras de TV e shows não acontecem se não os cortarem do evento. Se ainda fazem shows estes são em locais fechados e para as zumbis fanáticas. Nas cidades do interior também são personas non gratas. A imprensa local ainda noticia e acompanha o julgamento, mas não tão intensamente quanto antes. Mas a nacional...nem aí. Talvez as meninas estupradas daqui, não sejam iguais as meninas estupradas de lá.

  9. Carlos Postado em 06/Sep/2013 às 17:32

    Estou em São Paulo entindo constrangimento com acontecimentos como esse. A foto desta matéria mostra homens muito feios, que provavelmente sem a magia do palco com sua música e luzes coloridas jamais despertariam o interesse de nenhuma mulher. Se isso fosse com uma moça de minha família eu já teria feito a capação destes marginais. Meu pai era de Bom Jesus da Lapa. E meu avô foi do bando do Dioguinho. Todos já morreram. Mas o sangue deles correu em minhas entranhas dizendo que não tenho mais paciência para esperar a justiça dos coniventes colocar a culpa nas meninas. Eles precisam ser castigados para servir de exemplo aos outros feios como eles aprenderem a respeitar crianças.

  10. Gabriela Barbosa Postado em 08/Sep/2013 às 12:44

    A culpa do estupro é do estuprador e ponto! Eu estava dando uma "ouvida" nas músicas desse grupo: só letra de putaria/sacanagem,totalmente machistas! O que esperar de homens que se apresentam cantando esse tipo de música????

    • renato Postado em 09/Sep/2013 às 20:09

      Quando eles forem para a cadeia, eles vão ver o que é bom para tosse, literalmente! E remédios para, ora como é o nome daquele "probrema" que precisa de " ipogrois". Uma vez um estuprador teve que se apresentar para uma juiza , aqui no interior, mas os caras troxeram ele coberto de "bosta", só para que os caras não mais quisem pegar ele. Ele não aguentava mais. Nojento, não. Nojento foi o que fizeram com as meninas. Se eu sou pai delas.....já tinha feito o serviço, de embosta-los. Assim o é na cadeia para estuprador. É só ameaçar um deles, que entrega todos.

      • Thiago Teixeira Postado em 14/Sep/2013 às 08:05

        Renato, infelizmente a coisa mudou. Hoje, graças a democracia e aos direitos humanos, estuprador tem tratamento Vip, cela e horários diferenciados para refeição e banho de sol.

  11. Nell Barros Postado em 13/Sep/2013 às 11:52

    Infelizmente, os comentários das fãs não contemplaram a questão do "ser feminino". Em diálogos furiosos, adequadamente contextualizados dentro do que a sociedade chama "cultura do estupro", essas mulheres escancaram o machismo e a desumanidade que ainda permeiam a cultura brasileira. www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=509039862516037&id=235598166526876&comment_id=3338946&notif_t=like

  12. eu daqui Postado em 06/Feb/2014 às 14:43

    Na Bahia, a chamada "cultura do estupro" domina e predomina. Os soteropolitanos sentem-se no direito de agredir fisica e verbalmente qualquer mulher que se recusar a conversar ou mesmo a dançar com eles. Querem ver? Cheguem ali no Porto da Barra numa sexta à noite, numa ferinha de artesanato com música ao vivo, e constate a constante e pública nazimisoginia semanal de um bando de baianos que não respeitam nem as feirantes que estão trabalhando. E quanto mais a vítima demonstra não querer conversa, aí é que eles insistem na busca por um pretexto para atacar. E o pior: tudo acontece ao lado de um módulo policial devidamente habitado. Ah ! Só pra não me esquecer: entre a turma de nazimachistas retaliadores do direito de escolha feminino há um filho de um tradicional político/advogado/professor local.