Redação Pragmatismo
Compartilhar
Ditadura Militar 02/Sep/2013 às 12:52
6
Comentários

Globo diz que errou e pede desculpas por apoio à ditadura

Em editorial histórico, Globo reconhece que errou ao apoiar o golpe militar de 1964, mas diz que outros veículos de comunicação, como Folha e Estado, fizeram o mesmo; mea culpa acontece um dia depois de jovens atirarem esterco na emissora

Quase 50 anos após o golpe de 1º de abril de 1964, quando os militares derrubaram o governo democraticamente eleito de João Goulart e deram início a 21 anos de ditadura, o jornal O Globo reconheceu que dar apoio ao golpe foi um erro. Na apresentação do texto redigido para o site “Memória”, que conta a história da publicação carioca, O Globo admite ser verdade o teor do coro usado como bordão nas manifestações de junho: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”.

O jornal afirma que a decisão de fazer uma “avaliação interna”, contudo, veio antes das manifestações populares. Mas “as ruas”, afirma O Globo, “nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necessário”. O matutino carioca diz ainda que “Governos e instituições têm, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas” e diz que a publicação do texto com o reconhecimento do erro reafirma “nosso incondicional e perene apego aos valores democráticos”.

No texto do “Memória”, o jornal começa fazendo um contexto histórico da época e mostra que não foi o único jornal a dar apoio editorial ao golpe de 64, coisa que fez “ao lado de outros grandes jornais”. O carioca da família Marinho cita os jornais “O Estado de S.Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”. O texto afirma, ainda, que não foram apenas os jornais a conceder apoio aos militares, mas “parcela importante da população, um apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo e outras capitais”.

editorial globo ditadura militar
Editorial de O Globo em 1964 (Arquivo)

Ao mesmo tempo, contudo, em que afirma que o apoio foi um erro, o jornal também adota o mesmo argumento dos militares na época para sustentar e legitimar o golpe: que a intervenção se “justificava” pelo temor de um suposto golpe a ser feito pelo então presidente João Goulart, “com amplo apoio de sindicatos” e até de “alguns segmentos das Forças Armadas”. Um dia antes do golpe, o jornal diz que teve sua redação invadida por fuzileiros navais aliados a Jango e que, por isso, o jornal não circulou no dia 1º de abril. Só voltaria às ruas no dia seguinte, desta vez estampando em seu editorial o famoso texto intitulado “Ressurge a Democracia”.

O Globo dá a entender que se sentira enganado pelas promessas dos militares de intervenção “passageira, cirúrgica” e que, “ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda”, o poder voltaria aos civis por meio de eleições diretas. Em seu mea culpa, o jornal também reconhece que a expressão “revolução” foi usada ao longo de anos pelo jornal, justamente porque diz acreditava que a situação seria temporária. Ainda assim, o jornal ameniza o discurso ao falar de Roberto Marinho, o patrono do jornal, o qual afirma que sempre esteve “ao lado da legalidade”.

O jornal defende que Marinho “sempre se posicionou com firmeza contra a perseguição a jornalistas de esquerda”, e que “fez questão de abrigar muitos deles na redação do GLOBO”. O texto diz que Roberto Marinho acompanhava pessoalmente os depoimentos dos funcionários “para evitar que desaparecessem” e que, “de maneira desafiadora”, sempre se negou a repassar aos militares a lista de funcionários “comunistas”.

Por fim, apenas 49 anos depois do golpe e uma década após a morte de Roberto Marinho, O Globo admite o erro: “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

Veja o texto de O Globo na íntegra.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. Luiz Postado em 02/Sep/2013 às 15:27

    Dois meses de pressão popular deram certo pelo menos...

  2. Claiton Postado em 03/Sep/2013 às 08:40

    AGORA SÓ FALTA AS ORGANIZAÇÕES GLOBO DEVOLVER TUDO QUE FOI OBTIDO DE MANEIRA ILÍCITA, ESTE PATRIMÔNIO NÃO É ATOA...

  3. Rodrigo Postado em 03/Sep/2013 às 22:08

    Meu partido é o IMPAD - "Intervenção Militar Pelo Amor de Deus"!

  4. Rich Postado em 15/Sep/2013 às 11:50

    - Conheci mais as desgraças da "Rede bobo" quando assisti os dvd's da Série "Illuminati"

  5. Danilo Postado em 16/Sep/2013 às 11:41

    A globo não é de direita nem de esquerda, ela é favor daquele que a favorecer, do mesmo jeito que ela apoiou a Ditadura ela ajudou a derrubar..., o Collor foi a mesma coisa. Talvez uma entrevista com o empresário Elke Batista exemplifica bem isso, nela ele diz (depois de contestado por um jornalista ) que financiou tanto a campanha de Dilma como a de Serra . Ou seja, foda-se quem vai ganhar terei ambos em minhas mãos....

  6. Jean Wyllys e jornalista da Globo discutem e agitam as redes sociais - Pragmatismo Político Postado em 01/Apr/2016 às 15:06

    […] Jean Wyllys não deixou a jornalista sem reposta: “Sim, estamos. Mas talvez pertençamos a ou queiramos Brasis diferentes. Deve ser isso, amada”, escreveu. O deputado ainda anexou na mensagem o pedido de desculpas da Globo por ter apoiado o golpe de 1964. […]