Redação Pragmatismo
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Política 03/Sep/2013 às 09:55
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Revista Fórum

Fuga espetacular de senador boliviano é tiro na diplomacia brasileira

Ao querer resolver uma questão complexa ao sabor de uma vontade pessoal, Saboia ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar; colocou em xeque a própria engrenagem que permitiu que chegasse onde chegou

A fuga espetacular de um senador boliviano da embaixada brasileira em La Paz nada fica a dever aos melhores thrillers de suspense. Arquitetada por quem gozava da confiança que o cargo confere e deveria, por isso mesmo, zelar pelo cumprimento das leis internacionais e pelo direito à vida, a ação virou “case” político mundial, com pitadas de anedota.

senador bolívia brasil
O senador boliviano Roger Pinto Molina, de 53 anos, está na casa de seu advogado Fernando Tibúrcio Peña, no Lago Norte, bairro nobre da cidade. Molina, que liderou a oposição ao governo de Evo Morales, ficou quase 15 meses abrigado na Embaixada do Brasil em La Paz desde que pediu asilo político (Foto: Agência Brasil)

Salta aos olhos, em primeiro lugar, a audácia de um subordinado em quebrar a hierarquia para interpretar a seu modo as regras do direito internacional. Fosse um padeiro ou um executivo, vá lá. O senso comum dispensa maiores rigores acadêmicos e compromissos com as leis. Mas, em se tratando de um diplomata, que teve o mérito e o privilégio de frequentar um dos cursos mais cobiçados do Brasil, a manobra se revela infantil, quase absurda, e seus argumentos, patéticos.

Servir a carreira diplomática é assumir compromissos de longa duração com o Estado brasileiro, independente do governante de plantão. Nisso reside o patético. Ao querer resolver uma questão complexa e delicada ao sabor de uma vontade pessoal, o jovem servidor público ameaçou muito mais do que a vida de quem pretendia salvar; colocou em xeque a própria engrenagem que permitiu que ele chegasse onde chegou. E nesse mundo de rivalidades políticas onde o respeito ao outro é sinônimo de debilidade, Eduardo Saboia alimentou intrigas entre duas nações que nasceram para serem irmãs e não inimigas. Fez mais. Colocou lenha na fogueira da desinformação, tão ao gosto da mídia tupiniquim, cuja voracidade pelo sensacionalismo atropela a mais elementar apuração jornalística.

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Vale perguntar: onde saiu escrito, com o mesmo destaque, a lista de 20 crimes dos quais o senador boliviano é acusado em seu país, entre eles o de assassinato? Onde está escrito que ele foi julgado e condenado pela Justiça comum, e não pelo governo que acusa de conivência com o narcotráfico? Em qual parágrafo se diz com todas as letras que se trata de um senador criminoso ou de um criminoso senador? Não, nada disso. A fuga promovida por Saboia ocupa por si mesma a (des)informação, não necessitando de contrapontos, controvérsias, críticas, detalhes. Daí ser usada e abusada por uma oposição política acostumada a falar grosso com os povos pequenos e fininho com as potências.

Ao conceder asilo político ao senador, o Estado brasileiro cumpriu a tradição de defesa da vida, acima de questões políticas. Foi assim que fez com Stroessner, ex-ditador do Paraguai, e com Cesare Battisti, em linha diametralmente oposta. Nossa diplomacia nunca negou o direito de asilo a qualquer cidadão e, por isso mesmo, é respeitada internacionalmente. Se o governo da Bolívia insistia em não dar salvo conduto a um cidadão acusado de crimes, é um direito seu, se goste ou não.

Agora, aproveitar a fuga para taxar o Brasil de servil, escravo da ideologia bolivariana, é um despropósito típico de quem tem arrepio à verdade.

Para a oposição, Saboia será um herói, mesmo que tenha, em seu afã missionário, colocado em risco a vida de quem quis proteger. Para o governo, é um insubordinado, que merece ser punido pelo estrago que provocou na imagem do Brasil e nas relações diplomáticas com a Bolívia. Resumo da ópera: era tudo o que Dilma não precisava nesse momento. O DOI-CODI é aqui. Sempre foi.

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Comentários

  1. José Ferreira Postado em 03/Sep/2013 às 11:24

    O Brasil trata com muito cuidado a Bolívia. Se a Bolívia fosse um país sério pelo menos. Tirando o gás a Bolívia não tem nenhuma serventia, e em alguns caso até atrapalha o Brasil - como a situação dos imigrantes bolivianos, que não contribuem em nada para o Brasil e ainda enchem a já cheia cidade de São Paulo. A gente pode se virar com outro combustível...

    • Marcia Postado em 03/Sep/2013 às 15:24

      Gente como esse aí de cima, transbordando em preconceito e superioridade, deveria ficar calada.

      • José Ferreira Postado em 03/Sep/2013 às 16:33

        É a realidade nua e crua. A maioria pensa assim, mas não é considerado "politicamente correto" ficar falando sobre isso de forma sincera...

  2. RICARDO BARROS Postado em 03/Sep/2013 às 11:28

    CONCORDO PLENAMENTE COM SEU PONTO DE VISTA! PORÉM, ACREDITO QUE EDUARDO PAES SABÓIA NÃO AGIU SOZINHO NESSE "DESASTRE DIPLOMÁTICO", ELE FOI BEM ORIENTADO, ALÉM DO SENADOR BRASILEIRO QUE O ACOMPANHOU NESSA EMPREITADA POLÍTICA, EXISTIA UM GURU, COM A PALAVRA A "REDE GLOBO"...

  3. Rodrigo Postado em 04/Sep/2013 às 14:34

    Algumas questões: I- há quanto tempo perdurava a indefinição sobre a situação do Senador, na Embaixada? II- se não era o caso de asilo, por que não foi prontamente determinada a retirada desse senhor da Embaixada? III- a situação em si do senador, sem poder se retirar da embaixada, há mais de um ano, não é DOI-CODI, certamente, mas compatibiliza-se com o que se pode esperar da situação? IV - houve violação hierárquica, mas a qual ordem? De empurrar com a barriga? De não fazer nada? De determinar a retirada dele da Embaixada? Qual a ordem violada? V- no lugar do Embaixador, qual a posição que seria adotada por cada um? No mesmo sentido, ou não, a reflexão, de toda sorte, torna-se válida. No mais, podemos refletir ainda sobre qual situação prévia guarda paralelo para com a situação do Senador - se com a de Batistti; com a dos presos políticos cubanos em greve de fome e comparados a membros do PCC por Lula; se com os presos dos EUA em Guantánamo, em greve de fome e alimentados à força; se com a dos boxeadores cubanos, prontamente devolvidos com ajuda de avião de Chavez; se com a de Alberto Fujimori, quando fugiu para o Japão e foi "apoiado" por FHC. No mais, temos de analisar com mais calma a situação dos vizinhos sul americanos, pois todos têm importância, vide Mercosul e toda a resistência de países e blocos outros face à formação dele. A importância de uma nação não se resume à sua pujança econômica, pois a dimensão estratégica leva em conta quesitos outros, muitos dos quais afeitos à geografia, não se podendo ainda olvidar do gás boliviano. Isso, mesmo face aos desmandos de Evo, suas alianças quanto a líderes cocaleiros, sua afeição a narcoguerrilheiros, que nada têm de heróis, a expropriação de refinaria, a doação já recebida de material bélico, do Brasil, o "baculejo" dado em avião em missão diplomático, usado por Celso Amorim. O povo e a importância de uma nação não podem ser confundidos com seu líder, seja ele equivocado ou não.