Redação Pragmatismo
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Religião 26/Sep/2013 às 11:48
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Freira mais radical do mundo, irmã Teresa sacode a Espanha

Irmã Teresa Forcades se tornou estrela improvável de programas de entrevistas, do Twitter e do Facebook. A freira tem sido crítica da Igreja e dos homens que a dirigem e abocanhou uma legião de seguidores

irmã teresa forcades
Irmã Teresa, a freira mais radical do mundo, sacode a Espanha (AP)

O mosteiro de St. Benet está entre os mais belos e tranquilos lugares. Para chegar lá, você precisa rumar pelas paisagens lindas da montanha sagrada de Montserrat.

A irmã Teresa Forcades, estrela improvável de programas de entrevistas, do Twitter e do Facebook, tem tido dificuldade em parar de pregar. Tão grande é a demanda por seu tempo e sua bênção que o email de seu secretário aqui no mosteiro sempre retorna uma resposta automática de que a caixa de entrada está cheia.

Irmã Teresa parece sempre estar em pelo menos dois lugares ao mesmo tempo. Ela tem os olhos brilhantes, é confiante, quase alegre. Sua inglês perfeito – aprimorado nos anos que estudou na Universidade de Harvard – parece de alguma forma fora de lugar nos claustros humildes deste local sereno.

Não há nenhum político parecido com ela. Ela nunca está sem o hábito de freira e diz que tudo que faz vem de uma profunda fé cristã e devoção. No entanto, tem sido crítica da Igreja e dos homens que a dirigem.

Os seguidores de seu movimento, Proces Constituint, com aproximadamente 50 mil catalães, são principalmente esquerdistas não-crentes. Ela não quer um cargo e diz que não vai criar um partido político, mas é inegavelmente uma figura política em uma missão – derrubar o capitalismo internacional e alterar o mapa de Espanha.

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Seu programa de 10 pontos, elaborado com o economista Arcadi Oliveres, pede:

• A estatização de todos os bancos e medidas para coibir a especulação financeira

• O fim de cortes de empregos, salários mais justos e pensões, menos horas de trabalho e pagamentos para os pais que ficam em casa

• Uma “democracia participativa” genuína e medidas para coibir a corrupção política

• Habitação decente para todos e um fim a todas as execuções de hipotecas

• A reversão de cortes de gastos públicos e renacionalização de todos os serviços públicos

• Direito de um indivíduo ser dono de seu próprio corpo, incluindo o direito da mulher de decidir sobre o aborto

• Políticas econômicas “verdes” e a nacionalização das empresas de energia

• O fim da xenofobia e a revogação das leis de imigração

• Meios de comunicação públicos sob controle democrático, incluindo a internet

• “Solidariedade” internacional, sair da Otan e a abolição das forças armadas em uma futura Catalunha livre

Com um talento natural para falar em público, e mente afiada de uma militante, ela não teria superado a vida monástica? Suas irmãs não estariam cansadas das visitas constantes, eu me pergunto?

Ela interrompe a nossa primeira entrevista para cumprimentar uma delegação de ativistas pela independência da Catalunha, que vieram prestar homenagem ao mosteiro. Enquanto espero, as irmãs que param para conversar não têm dúvida de que o seu talento e sua fama são “dons de Deus” e que ela está abrindo caminho para um futuro mais jovem e mais feminista para a Igreja Católica.

Elas são apenas três dezenas de mulheres que vivem uma vida tranqüila de oração, mas esta é a base do poder político da Irmã Teresa. Ela é a embaixatriz delas para o mundo secular, e muitas vezes turbulento, para além da montanha. Diferentemente da maioria dos partidos políticos, movidos pela rivalidade, o círculo íntimo de Irmã Teresa a ama incondicionalmente.

Quando eu viajo para vê-la buscando apoio para o novo movimento em uma praça da cidade, o lugar está lotado. Ela agarra a multidão com idéias radicais que assustam muitos políticos tradicionais na Espanha. Ela admira Gandhi e algumas das políticas do falecido Hugo Chávez, na Venezuela, e de Evo Morales, da Bolívia.

Mas é o modelo econômico secular das monjas beneditinas, criando bens úteis para vender, que ela cita mais apaixonadamente.

Depois de um intervalo de duas semanas, eu subo a estrada sinuosa para o mosteiro para uma última visita. Irmã Teresa foi a uma conferência religiosa no Peru, onde é inverno, e voltou para casa com um resfriado. Bispos fiéis ao Vaticano têm criticado suas posições radicais sobre tudo, do aborto aos bancos.

Tornou-se uma batalha por onde passa. Pelo menos por enquanto, seu bispo em casa não a proibiu de continuar.

Na capela, ela cumprimenta minha esposa e os dois filhos pequenos calorosamente. Ela me disse que, quando era adolescente, abraçou o celibato.

É outra contradição que percebo: ela está perdendo uma vida em que pode amar livremente e tudo o mais que isso implica?

Ela me diz que se apaixonou três vezes desde que se tornou freira, mas sua devoção a Deus e ao mosteiro continua forte como sempre.

“Enquanto a minha vida religiosa for cheia de amor, eu vou estar aqui”, ela diz. “Mas no momento em que esta vida se transformar num sacrifícios… Então é será meu dever abandoná-la.”

Por ora, ao que parece, o caso de amor da Catalunha com talvez a figura política mais improvável do mundo vai muito bem.

Conteúdo BBC

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Comentários

  1. Roberto Matsumoto Cobra Postado em 26/Sep/2013 às 15:12

    Como assim "quase alegre"?

    • Fernanda Postado em 26/Sep/2013 às 16:37

      Também n entendí essa...

      • Roni Postado em 26/Sep/2013 às 23:36

        Quando li esta parte do texto, voltei na foto pra ver se ela parecia mesmo "quase alegre" kkkkkkkkk

    • Guilherme Augusto Postado em 05/Oct/2013 às 12:30

      Amigo, imagina o estereótipo, a imagem comum de uma freira num mosteiro afastado do mundo, no meio das montanhas, num lugar inóspito. Não sei, consigo imaginar por já ter visto em filmes, e também lembro de algumas freiras do colégio católico onde estudei: elas têm sempre o perfil cisudo, carrancudo, bravo e passam uma imagem melancólica, triste... por isso acho que o autor sentiu necessidade de observar que esta freira é tão diferente que ela parece "quase alegre".

  2. renato Postado em 26/Sep/2013 às 19:35

    Oba! Ia escrever mais, mas me senti acuado, posso ser preso.

  3. Eduardo Postado em 26/Sep/2013 às 21:47

    é a liberdade de expressão....

  4. Rodrigo Postado em 30/Sep/2013 às 11:17

    Acho (e tenho direito a uma opinião) tão contraditório o "ser dona do próprio corpo" como argumento para o aborto. Cuida-se de corpos distintos (um formado, o da gestante, ao que outro formando-se, o do nascituro), então como o direito a um corpo determina o direito a outro corpo? Já passamos pela época em que o homem se julgava dono do corpo da mulher, se achando inclusive no direito a ter relações sexuais forçadas, o que, ao final, concordamos, é uma forma de violência... Assim, em uma argumentação igualmente "tosca", mostrando o lado oposto de tal raciocínio, poderíamos falar que, quem viaja em um carro, pertence ao motorista? Pode ele dispor livremente de seu corpo e dos corpos dos passageiros? Estar contido em um conjunto não leva o elemento a confundir-se com o todo. Precisamos pensar, sim, na responsabilidade individual. No direito à escolha, sim, de uma conduta sexual minimamente adequada - preservativos (por óbvio não estou falando em casos de aborto) são distribuídos em postos de saúde, com qualidade, a fim de proteger a mulher e o homem do contágio de doenças, bem para prevenir uma gravidez indesejada. Em postos de saúde há material para conscientização de métodos contraceptivos outros, também distribuídos gratuitamente. Assim, pais e filhos, Igrejas (claro), escolas e demais setores da sociedade, devem primar pela conscientização, pela atenção à responsabilidade individual, zelo quanto ao próprio corpo (uso de camisinha para prevenir o contágio de doenças) e mesmo pelo zelo quanto à geração de uma nova vida, se tal não é o desejo dos envolvidos na relação sexual. Fala-se tanto em direito ao aborto e esquece-se do dever de responsabilidade que cada um tem, para consigo e para com os outros da sociedade. Buscamos o caminho mais fácil, a escolha mais fácil, prontamente vitimizando os envolvidos numa escolha inconsequente. Por que não (excetuadas as hipóteses de estupro e anencefalia que, em que pese eu discordar, devo respeitar quem busca um direito legalmente assegurado) conscientizarmos as pessoas das consequências de suas escolhas, da necessidade de amadurecimento, de seriedade?